Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: como explicar o caso da médica que foi detida por passar medicamentos para diabetes para pessoas que queriam perder peso?

Estamos a falar de centenas e centenas de prescrições deste medicamento, que deve ser utilizado para diabéticos, mas num esquema que permite que seja prescrito para pessoas que querem, no fundo, emagrecer.

Uma médica endocrinologista terá atestado que os pacientes eram diabéticos para poderem ter acesso a medicamentos que também permitem emagrecer, entre eles o conhecido Ozempic, mas a um preço muito mais baixo, porque dessa forma conseguiram usufruir de comparticipação do Estado. No total, foram passadas receitas no valor de mais de € 9 milhões, o que por si só levantou desde logo suspeitas das autoridades. O mesmo fármaco é usado para tratar a diabetes tipo 2 e a obesidade, mas em doses diferentes, sendo que o tratamento da obesidade requer uma dosagem maior e, consoante a dosagem, o fármaco tem também nomes diferentes de medicamentos à venda no mercado. Mas há uma grande diferença: enquanto os medicamentos para o tratamento da diabetes podem ser comparticipados até 95%, os medicamentos para a obesidade não são comparticipados e ficam, por isso, muito mais caros. Como olhar então para este caso, mas também para a abordagem que fazemos em Portugal destas duas doenças crônicas, a diabetes e a obesidade? Vou falar com Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo e médica no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quinta-feira, 20 de novembro. Bem-vinda, doutora Paula Freitas.

Muito obrigada e muito obrigada pelo convite.

Quando falamos do Ozempic, estamos a falar do medicamento da moda, esta questão já não é de hoje, do qual se tem falado muito nos últimos tempos e nos últimos meses. Mas antes de entrarmos nessa questão do emagrecimento, penso que é preciso perceber primeiro que medicamento é este, para o que foi aprovado e por que é usado habitualmente no tratamento da diabetes tipo 2. Qual é o mecanismo?

Muito bem. O Ozempic é o nome comercial de um fármaco que se chama semaglutido. O mesmo fármaco, em diferentes posologias, tem indicações diferentes e está aprovado em várias indicações. Numa dose até 1 mg, este fármaco está aprovado para o tratamento da diabetes. Este fármaco, com uma dose superior a 2.4, tem um nome comercial diferente, chama-se Wegovy e está aprovado para o tratamento da obesidade. Recentemente, também saíram trabalhos científicos a demonstrar a sua eficácia no combate à obesidade com doses até superiores a 7.2. Estes fármacos e esta classe de fármacos também foi aprovada recentemente, não em Portugal, mas para o tratamento da doença hepática, uma doença chamada doença metabólica, chamada MASH, ou seja, onde as pessoas têm obesidade, aquilo evolui para esteatose, para esteatoepatite, cirrose, e estes fármacos, portanto, estão aprovados também nestas circunstâncias. O que nós estamos a falar é, em termos de diabetes, o que estes fármacos fazem é: eles fazem com que o pâncreas produza mais insulina e o pâncreas a produzir mais insulina trata a diabetes. Portanto, são fármacos que são muito eficazes para tratar a diabetes e também, adicionalmente, estes fármacos promovem a perda de peso, porque eles também têm mecanismos a nível cerebral em que reduzem o apetite e aumentam a saciedade. Quando nós falamos de tratamento da diabetes, estamos a falar num fármaco numa determinada dose, no caso do semaglutido. Quando estamos a falar na obesidade, estamos a falar que é preciso uma dose superior para tratar a obesidade. Mais, este fármaco, na dose 2.4, demonstrou em doentes com obesidade e sem diabetes reduzir a morte cardiovascular em 20%. Estes fármacos também reduzem a insuficiência cardíaca. Portanto, estamos aqui a falar em fármacos que têm um benefício inegável para a saúde das pessoas, para a redução das comorbilidades. E, portanto, este fármaco ficou na moda porque as pessoas não olharam para a obesidade como uma doença. Muitas vezes as pessoas utilizam olhar para a obesidade só como um fator estético, e não é isso que se pretende. A obesidade é uma doença grave, as pessoas que têm obesidade devem ser tratadas. Uma coisa é o fato de em Portugal nós termos os fármacos para o tratamento da diabetes serem comparticipados a 90%, o doente paga apenas 10%, e infelizmente, os fármacos para o tratamento da obesidade, que nós também temos em Portugal, não são comparticipados. Portanto, os doentes têm que pagar 100% dos fármacos. Não sei se me fiz entender.

Sim, exatamente. E, portanto, as pessoas estarem também a recorrer a este medicamento para fins de emagrecimento, para combater a obesidade, por uma questão de comparticipação.

Portanto, o que eu diria? Temos que deixar de falar de emagrecimento na obesidade. A obesidade é uma doença, o que nós queremos é tratar a doença, porque o mais importante na obesidade não é só emagrecer as pessoas, nem é uma questão de peso. O mais importante na obesidade é reverter as comorbilidades As pessoas têm obesidade, têm mais de 200 doenças associadas, têm mais de três tipos de câncer. O tratamento da obesidade, a questão essencial da obesidade é tratar a doença, não é só o peso. O peso é um fator satélite, mas o objetivo é reduzir as comorbidades, quando elas já existem, ou fazer com que elas não se instalem.

Em Portugal, as vendas têm atingido recordes, inclusivamente já existiram ruturas de estoque, salvo erro, se não estou enganado, a última em abril. Há algum tipo de orientação dada aos médicos em relação ao Ozempic, não?

Não, o que saiu recentemente para limitar foi a acessibilidade dos médicos que o podiam prescrever. Ou seja, neste momento, só podem prescrever fármacos para o tratamento da diabetes quatro especialidades: a medicina geral e familiar, os endocrinologistas, os médicos de medicina interna e os pediatras que trabalhem com diabetes ou que façam o tratamento da diabetes. Isto veio também, e penso que é capaz de melhorar, havendo um número de especialidades, não em todas as especialidades, que acontecia no passado. Podíamos ter um dentista a prescrever este conjunto de fármacos. Portanto, estes fármacos devem ser prescritos pelos médicos que sabem tratar a diabetes. São os endocrinologistas, os internistas, a medicina geral e familiar. No fundo, são as pessoas que tratam a diabetes. Os fármacos para tratar a obesidade devem ser prescritos pelas pessoas que sabem tratar a obesidade e que têm competência para tratar a obesidade.

Falou em algumas especialidades, ainda é um conjunto muito alargado de médicos, não é? Quando falamos dos médicos de medicina geral e familiar, também.

Mas também repare, nós temos em Portugal 60% da população com obesidade e pré-obesidade. E saiu agora, na semana passada, os dados. Temos uma prevalência da diabetes de 14%. Ou seja, estamos a falar de um universo enorme de doentes com as duas patologias. Obviamente, nem todas as pessoas terão indicação para fazer estes fármacos. Mas, o que eu queria também sublinhar, são duas coisas diferentes: tratar a diabetes e tratar a obesidade. São duas patologias. Claro que são duas patologias gêmeas, porque sobretudo as pessoas que têm diabetes tipo dois, e mais de 90% têm obesidade. Portanto, são duas doenças sindrômicas, elas andam par a par. E muitas vezes, acontece o seguinte: eu trato a obesidade, eu trato a diabetes. E eu trato a obesidade, aquela pessoa deixa de ter diabetes ou melhora muito o seu controle da diabetes. E, por outro lado, quando eu trato a diabetes com estes novos fármacos, eu também estou a tratar a obesidade. Agora, o que nós estamos aqui a falar são de fármacos, pode ser o mesmo fármaco, que tem doses diferentes e em doses diferentes, tem indicações diferentes. Ou seja, eu falo do Ozempic, que é o semaglutido, 1 mg para tratar a diabetes. Eu falo em Wegovy, que é a mesma molécula, semaglutido, na dose 2.4, para eu tratar a obesidade. E depois temos o problema que é: em Portugal, fármacos para o tratamento da diabetes comparticipados a 90%, fármacos para o tratamento da obesidade não são comparticipados.

E aí estará a grande questão de todo este tema. Têm existido também, nos últimos tempos, muitas denúncias de alegados abusos nas prescrições de Ozempic. Há agora a notícia, o caso desta médica do Porto detida pela Polícia Judiciária por emitir receitas a utentes que queriam emagrecer, mas que, na verdade, não eram diabéticos. A sociedade tem também conhecimento de denúncias de situações de prescrições abusivas?

Não, nós só temos conhecimento daquilo que sai na comunicação social. A sociedade não tem esse conhecimento.

Sei que obviamente este caso é muito recente, mas tem algum comentário em relação a esta notícia? Surpreende?

Um comentário é que é triste. O que eu posso dizer? Eu posso dizer que não sei o que é que está na gênese. Nós, como médicos, temos uma missão, que é fazer o melhor possível pelos nossos doentes. E é isso que nós todos devemos lutar. E o que eu também digo sempre aos doentes e às associações de doentes, que o que vale a pena é nós lutarmos por aquilo que devemos fazer. Ou seja, o que nós e sobretudo as associações de doentes devem lutar, assim como as sociedades científicas, como a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e outras sociedades, o que nós temos lutado é para que os fármacos para o tratamento da obesidade sejam comparticipados. Isso tem que ser a nossa luta e também a luta das associações dos doentes. Agora estes casos, obviamente ficamos todos muito tristes.

Exato. Aqui o que está em causa também, para além da prescrição excessiva, é poder haver aproveitamento por parte do sistema, dos médicos, das farmácias, desta situação.

Eu não diria isso. Não sei, confesso que na minha perspectiva, vejo mais as pessoas a quererem ajudar as pessoas.

Mas há também pressão, de certa forma, por parte dos pacientes para lhes passarem este tipo de medicamentos, não?

Na comunicação social a gente vê isso. Agora, que os doentes, de um modo geral, muitos doentes conhecem estes fármacos, agora nós temos que explicar aos doentes aquilo que eu acabei de explicar. Uma coisa é as pessoas que têm diabetes, que têm indicação para fazer o fármaco, obviamente, e segundo as guidelines internacionais, um doente com diabetes, com múltiplos fatores de risco cardiovascular. Porque há outra coisa muito importante, que é o seguinte: as pessoas com diabetes, se tiverem tido um evento cardiovascular, por exemplo, infarto agudo do miocárdio, um AVC, ou que tenham tido uma doença arterial periférica, ou doentes que tenham múltiplos fatores de risco, portanto, diabetes, obesidade, hipertensão, dislipidemia, estas pessoas Para reduzir a morte cardiovascular, devem estar a fazer estes fármacos. Isto na diabetes. Nas pessoas com diabetes devem fazer estes fármacos para reduzir a sua morte e evitar mais eventos cardiovasculares. Isto independentemente até do controle da diabetes. Isto são as guidelines internacionais da ABSC. Outra coisa são as pessoas que têm obesidade. O que nós temos que explicar às pessoas com obesidade é que se não tiverem diabetes, não são elegíveis, até porque a dose é completamente diferente. E as pessoas devem, obviamente, como eu disse muitas vezes, associarem-se a associações de doentes e assim como as sociedades científicas também têm feito para lutar para que os fármacos sejam comparticipados para as pessoas com obesidade e que são outros fármacos e que são outras doses.

Mas o uso abusivo por parte de pessoas que não têm diabetes pode pôr em risco as pessoas que realmente precisam do medicamento, não é?

Não sei. Isso são questões do mercado, eu só falo ciência.

Na sua opinião, o que é que seria necessário? Já falou também de literacia médica, não é? Seria maior regulação, maior fiscalização, maior sensibilização?

Não, o que eu diria que é necessário é o seguinte: nós temos um problema muito grande de uma prevalência muito elevada da obesidade e pré-obesidade. Temos uma prevalência muito elevada também de diabetes. Nós temos este problema, temos que o resolver, mas para que este problema não cresça de ano para ano, nós obviamente que é muito importante a literacia em saúde, é muito importante a prevenção, mas as medidas de prevenção que eu defendo só vamos ter o impacto das medidas de prevenção daqui a muitos anos. Então nós temos que começar a ter medidas de prevenção, eu diria até antes da mulher engravidar, medidas de prevenção já em tenra idade, na obesidade infantil, para prevenir a obesidade infantil. Temos que começar com medidas de prevenção para prevenir a obesidade, porque depois a diabetes é uma consequência, na maior parte das vezes, da própria obesidade. Mas temos que resolver este problema que temos em mão agora de grande percentagem de pessoas com ambas as doenças, com obesidade e diabetes. E depois temos que definir, eu também compreendo que estes fármacos são muito caros. Provavelmente, no futuro, existem em pipeline, estão em investigação muitos outros fármacos. Nós estamos a falar que neste momento temos estes fármacos, mas estão muitos em investigação. O futuro provavelmente passará como nós já assistimos com outras classes. Quando houver mais fármacos, quando as patentes caírem, quando tivermos um conjunto enorme de fármacos, o que vai acontecer é que o seu preço também vai diminuir e vamos ter acessibilidade para todos os doentes. Isto é uma questão, neste momento, também de custos destes fármacos. Quanto mais fármacos tivermos, e estão para aí 12 a 16 fármacos em investigação para tratamento da obesidade e que também tratam a diabetes em simultâneo, provavelmente daqui a uns anos nós vamos ter fármacos muito mais baratos para toda a gente. Oxalá isso seja possível e seja uma realidade.

Obrigado, doutora Paula Freitas.

Obrigada.

Paula Freitas é presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo e médica no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto. A terminar, três coisas a ter em conta esta quinta-feira. Passam precisamente 80 anos do início dos julgamentos de Nuremberga. Foram criados para julgar os crimes cometidos pelo regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial e foram uma referência importante no desenvolvimento de tribunais internacionais de investigação e combate contra crimes de guerra, genocídio e contra a humanidade. Esta quinta-feira é lançado o sistema de copos reutilizáveis de Lisboa. O Bairro Alto vai acolher a primeira rede de máquinas de devolução de copos que vão estar instaladas em cinco bares, que vão ser pioneiros desta iniciativa. E assinala-se hoje o Dia Nacional do Pijama. É uma iniciativa anual da Associação Mundos de Vida, que acontece todos os dias 20 de novembro, coincidindo assim com o aniversário da Convenção Internacional dos Direitos da Criança. As crianças até aos 10 anos vêm vestidas de pijama nas escolas que aderem a esta iniciativa e participam em atividades que pretendem alertar ou sensibilizar para os direitos das crianças, em especial o direito de crescer numa família. Esta foi a história do dia. No início deste episódio usámos um som da CNN Portugal. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.