1248,2kWh poupados 1248,2 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Guitarricadelafuente: ídolo pop, "full time papi"

Com o segundo álbum, "Spanish Leather", e o protagonismo no filme "A Bola Negra", transformou-se no artista do momento, desejado por todos, da música à moda. Irá a península bastar-lhe?

Guitarricadelafuente. É mesmo assim, tudo junto, sem espaços, até parece uma palavra de brincar. É musical, como uma onomatopeia, soa a antiga como a letra de uma canção popular, daquelas canções que falam de uma rapariga que leva o jarro à fonte e se enamora pelo trovador de “guitarrica” ao colo, mas também é misteriosa e, como tudo o que é misterioso, desejável. É o som que Álvaro Lafuente Calvo decidiu vestir para se apresentar ao mundo e aquele que, de há uns tempos para cá, meio mundo anda a pronunciar, com maior ou menor destreza na língua, cada sílaba uma desculpa para errar e fantasiar.

Falamos do músico de 29 anos, natural de Benicàssim (Valência), que chegou a estudar arquitetura num momento em que a música lhe parecia uma opção distante, e que, de um momento para o outro, se converteu em estrela pop, ícone de moda, ídolo queer, o mais recente produto made in Spain a estourar fronteiras e pantalones. Spanish Leather, álbum lançado em 2025, foi o seu grito do Ipiranga e A Bola Negra, filme de “Los Javis”, que chega a Portugal no dia 5 de novembro, a obra que confirmou Guitarricadelafuente como artista total e universal. Não só assume o papel de um dos três protagonistas do filme, logo na sua estreia como ator, como assina o tema La Nieve, que concorre à nomeação para o Óscar de Melhor Canção Original.

[“La Nieve” ao vivo em Madrid:]

Da música à moda, passando pelo entretenimento e pela publicidade, ninguém lhe resiste: Shakira chamou-o para atuar na sua ousada digressão-residência em Madrid, Jimmy Kimmel para o seu talk-show, a NPR para o Tiny Desk, a Apple para dar voz a um anúncio realizado por Spike Jonze, a Dior para ser embaixador da sua linha masculina e a Zara para uma coleção cápsula inspirada em Spanish Leather. Guitarricadelafuente é a cena do momento e em Espanha já vaticinam: “É um artista de massas com uma proposta genuína e com ar de quem vai permanecer no topo durante muito tempo” (El País).

O folclore que se vai ouvir no futuro

Tudo começou num pequeno pueblo chamado Cuevas de Cañart, da província de Teruel, em Aragão. Era para lá que Álvaro Lafuente ia todos os verões e se reencontrava com as suas raízes familiares, por entre as cascatas e o verde da Serra de Garrocha e o conjunto histórico amuralhado daquela vila medieval. “A minha aldeia é o ponto a partir do qual quero chegar a um lugar maior”, dizia em 2022 em entrevista ao El País.

Foi nesse ano que lançou o seu álbum de estreia, La Cantera, moldando uma estética com ecos do flamenco, da copla e da canção madrigalista ibérica, mas também do folclore da américa latina, em especial da música andina e ranchera. Abraçado à guitarra, a mesma que o seu pai lhe ofereceu e com a qual aprendeu a tocar sozinho aos 15 anos, Guitarricadelafuente estabeleceu um diálogo tão íntimo como o de Silvana Estrada com o seu cuatro venezuelano, mostrando-se, tal como a artista mexicana, vulnerável, mas seguro, antigo, mas de agora.

[o álbum “Spanish Leather” na íntegra:]

A produção de Raül Refree, nome central no desenho da nova linguagem da música espanhola, bem resolvida com o seu passado e sem medo de se reescrever, ofereceu ao disco uma dimensão espiritual e sombria, entre distorções e outros experimentalismos. La Cantera ressoava à crueza de Los Ángeles (2017), o primeiro trabalho de Rosalía, no qual o produtor também teve mão, e deixava muitas possibilidades em aberto.

O despontar artístico de Guitarricadelafuente e a forma como o público tão bem o acolheu vem na senda do trabalho das novas gerações de artistas espanhóis, que têm vindo a ressuscitar muitas tradições e cantares antigos quase esquecidos (fenómeno que se espelha em Portugal e um pouco por toda a Europa). Rosalía e C. Tangana, logrando de um sucesso internacional ímpar, tornaram-se as faces mais visíveis e mainstream deste movimento, mas a eles podemos juntar nomes como o do asturiano Rodrigo Cuevas, das galegas Las Tanxugueiras, Sheila Patrícia e Baiuca, da catalã Maria Arnal, das andaluzes Judeline, La Tania e Yerai Cortéz ou de Niño de Elche, só para mencionar alguns.

As noites que começam sem saber como, onde e com quem se vai acabar, os culos em Barceloneta que parecem folclore, os chicos del club com homens eletrificados e corações que se despistam e os amores de verão levados pelas primeiras folhas de outono são abordados sem pudor ao longo das 12 faixas do disco, sem nunca tocar a banalidade.

Lafuente enquadra-se, assim, nesta rica paella de raízes locais e vocação global, que, segundo o próprio, está a construir o folk do futuro: “Os meus avós e bisavós tiveram que abandonar a vida rural e deixar tudo para trás, incluindo a música com a qual cresceram. Modernizar-se, para eles, implicava fugir das suas origens. Eu pertenço a uma geração que não vê a música tradicional como arcaico ou com penúrias. Pelo contrário, recebe-a com muito amor. Para mim, o folclore são as histórias do povo. O folclore não está no passado, está no presente.”

Serei o teu “full time papi”

Há outro aspeto essencial para compreender o folclore de Guitarricadelafuente, ele que, antes de ser conhecido, chegou a participar nos castings dos concursos de talento La Voz e Operação Triunfo, mas sem sucesso. Em vez de baixar os braços, virou-se para o Instagram e para o YouTube, onde apresentou as suas primeiras canções — Guantanamera, Agua y Mescal e uma versão de Catalina — e para os bares de Madrid que lhe abriram a porta para tocar e para tantas outras descobertas. Enquanto pessoa queer, as suas letras são fluídas e estão repletas de referências ao amor e ao prazer gay, algo praticamente inexistente no cancioneiro tradicional. O pŕoprio chegou a confessar ao El País que gostaria de se tornar na referência [queer] que nunca teve.

GettyImages-1246840042

▲ Talvez a península já se tenha tornado demasiado pequena para as suas botas douradas de cabedal espanhol.

SOPA Images/LightRocket via Gett

Em La Cantera, as abordagens são mais implícitas e subtis. Por exemplo, no final do tema Antes de Que Quieras Olvidar surgem os versos de Jarama Valley (1944), canção do cantor e compositor folk americano Woody Guthrie que fala dos homens que ofereceram a sua masculinidade a combater as forças fascistas na Guerra Civil Espanhola. Uma canção de resistência e homenagem que, ao contracenar com a história de amor narrada pelo tema de Lafuente, abre espaço à ambiguidade poética, essa flor do exercício artístico. E o que dizer de Redondico (como Los albaricoques), pequeno interlúdio de um minuto tão inocente quanto uma quadra popular e, ao mesmo tempo, tão sexualizada?

Porém, é em Spanish Leather que Guitarricadelafuente aborda abertamente a sua sexualidade, abraçando o prazer do corpo, a beleza e a sensualidade em toda a sua plenitude, desde logo através da capa do disco e de todo o material visual assinado pelo conceituado fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans. O álbum marca uma disrupção na imagem inocente e bucólica de La Cantera e narra as experiências de um rapaz recém chegado à grande cidade que se deixa inebriar pela boémia.

O single de avanço, Full Time Papi, canção que poderíamos encarar como uma prima afastada de Comerte Entera de C. Tangana, é o melhor exemplo disso: embora nunca de forma explícita, o videoclipe dirigido por Albert Moya mostra o encontro sexual de vários corpos, numa tensão e estética que está ao nível de um episódio realizado por Erika Lust para o seu canal de pornografia ética XConfessions (sim, a pornografia saudável e de verdade existe neste mundo, caras mentes caturras).

[o vídeo de “Full Time Papi”:]

As noites que começam sem saber como, onde e com quem se vai acabar, os culos em Barceloneta que parecem folclore, os chicos del club com homens eletrificados e corações que se despistam e os amores de verão levados pelas primeiras folhas de outono são abordados sem pudor ao longo das 12 faixas do disco, sem nunca tocar a banalidade. Pelo contrário, quanto mais erótico, mais vulnerável se torna Guitarricadelafuente. No fundo, ele continua a ser o miúdo das férias em Cuevas de Cañart, mas sem nada a esconder, e isso só o enriquece.

Em termos musicais, continuamos a ouvir a zanfona (não confundir com a sanfona brasileira), um cordofone medieval que vemos o músico manejar no Tiny Desk, bem como o dedilhar da bandurria e as melodias tocadas num piano de estudo caseiro, elementos já presentes em La Cantera e que em Spanish Leather misturam-se com batidas disco, texturas de sintetizadores e arranjos de cordas.

[trailer do filme “A Bola Negra”, que se estreia em Portugal a 5 de novembro:]

Por vezes, Guitarricadelafuente soa tão juvenil quanto Amaia — outra artista da nova geração que está a dar muito que falar — outras, tão orquestral quanto os Beirut, camaleónico como David Bowie (as primeiras linhas de Poses parafraseiam levemente a melodia de Life on Mars?), funky como Dua Lipa, principalmente em Port Pelegri, e complexo como a pop de Jorge Drexler. Aliás, pablopablo, filho de Drexler, é um dos produtores do álbum, bem como Carter Lang (SZA, Dodja Cat), Rodaidh McDonald (The xx, King Krule, Adele) e Raül Refree, um elenco de luxo que explica o detalhe de cada faixa de Spanish Leather.

O disco termina com a balada Tramuntana, adaptada de Il Cielo in una stanza (1960), da italiana — e ícone gay — Mina Mazzini, precedida do instrumental Sonata nº 9 de los heavies de Gran Via. Um final que, por si só, sintetiza a persona de Lafuente: um flâneur com pose clássica de antigamente, a passear-se com kinkiness pela vida, honrando as suas raízes e os seus caracois desgrenhados. “Voy a ser grandioso en la peninsula”, diz ele em Mataleón. Talvez a península já se tenha tornado demasiado pequena para as suas botas douradas de cabedal espanhol.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.