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Esta é a história do dia da Rádio Observador: que ameaça representa e como se reconstruiu o autoproclamado Estado Islâmico?
Hours before the attack, he posted videos on social media indicating that he was inspired by ISIS, expressing a desire to kill. The ISIS flag was found in his vehicle, which he rented to conduct this attack.
O ataque surpreendeu o mundo às primeiras horas de 2025 e voltou a trazer para as notícias um grupo que muitos já tinham esquecido: ISIS, ou o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e da Síria. Quinze pessoas morreram e 35 ficaram feridas quando um homem conduziu uma carrinha contra uma multidão que celebrava a entrada no novo ano na cidade de Nova Orleães. Era um cidadão norte-americano, veterano de guerra, que acabou abatido pelas autoridades. O atacante levava na carrinha uma bandeira preta do autoproclamado Estado Islâmico e admitiu, em vídeos nas redes sociais, agir inspirado pelo grupo terrorista. Que influência e capacidade operacional tem hoje em dia um grupo que muitos pensavam já ter sido derrotado? Vou falar com Madalena Moreira, jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de sexta-feira, 03 de janeiro. Olá, Madalena, bem-vinda.
Obrigada, João.
Madalena, vamos começar por contextualizar este ataque recente em Nova Orleães, nos Estados Unidos. O que nós sabemos sobre este caso e sobre o atacante?
Os relatos sobre o caso começaram por ser um bocadinho contraditórios, mas entretanto o FBI já confirmou várias informações que nós podemos dar. O atacante chama-se Shamsud-Din Bahar Jabbar e é um homem de 42 anos do Texas, que foi veterano tanto do exército como da marinha dos Estados Unidos.
Cidadão americano.
Cidadão americano, exato. E na madrugada do dia 1 de janeiro, portanto, passagem de ano, este homem avançou com o carro sobre uma multidão que estava na movimentada Bourbon Street, de Nova Orleães, que é uma das ruas mais famosas, onde as pessoas estavam a celebrar a passagem do ano e onde matou 15 pessoas e feriu outras 35. E antes ainda saiu do carro a disparar, mas acabou por ser morto pela polícia norte-americana. O FBI já confirmou que ele agiu sozinho e que tinha uma bandeira do Estado Islâmico no carro. Este carro foi alugado no Texas, onde ele vive, e durante a viagem até Nova Orleães, ele publicou uma série de vídeos nas redes sociais em que elogiava o Estado Islâmico, dizia que se tinha juntado ao grupo antes do verão passado e expressava desejos de matar a própria família.
Ora, o ISIS, é a sigla internacional para o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e da Síria, não reivindicou, no entanto, pelo menos para já, este ataque. Mas no passado, houve outros ataques nos Estados Unidos reivindicados por este grupo. Quando é que tinha sido o último?
O último ataque do Estado Islâmico nos Estados Unidos, em que houve vítimas mortais, é preciso fazer a ressalva, foi em outubro de 2017 e tinha sido em Nova York, quando um caminhão avançou por dentro de uma ciclovia e matou oito pessoas. Mas é preciso notar que o Estado Islâmico nem sempre é imediato a reivindicar os ataques. Pode ser por vários motivos, ou as pessoas foram detidas e eles não querem avançar com uma reivindicação, ou, neste caso, quando o atirador foi morto. Mas, por exemplo, olhando para outros casos, porque não é um caso isolado, houve um ataque em 2016 numa discoteca na Flórida, quando um homem matou 49 pessoas a tiro, e depois os media destacam ainda um outro ataque numa exposição de cartoons em 2015, em que apesar de não ter morrido ninguém, foram encontrados contactos diretos entre estes dois atacantes e operacionais do Estado Islâmico.
Recordemos então, este grupo tem dado, de certa forma, um pouco desaparecido da atenção mediática e agora, por estes motivos óbvios, volta a ser obviamente muito falado. Que grupo é este? Recorda-nos como é que foi formado, como é que começou a ser conhecido internacionalmente.
O autoproclamado Estado Islâmico autoproclamou-se em 2013 e resulta de uma reconstrução de forças da Al-Qaeda na região. Eles afirmaram-se durante este período por causa da guerra civil na Síria e aproveitando-se da instabilidade política na região, eles proclamaram um califado no leste da Síria e no noroeste do Iraque, que fazem fronteira. E o que é um califado? É um território governado pela lei islâmica, do qual o Estado Islâmico tinha uma interpretação muito conservadora. Durante esta altura, estamos a falar 2014, 2015, recrutaram milhares de pessoas pelo mundo inteiro e perpetraram ataques quer na região, no Médio Oriente, mas também no Ocidente, na Europa. Só para citar alguns exemplos, para localizar as pessoas, foi o Estado Islâmico que reivindicou os ataques em Paris em 2015, no Bataclan, e depois em Bruxelas, em março de 2016, o atropelamento em Nice no Dia da Bastilha e até o bombista suicida que se fez explodir durante um concerto em Manchester em 2017.
E este ataque agora em Nova Orleães, por parte de um atacante que diz ter sido inspirado por este grupo, parece assemelhar-se àquela tipologia do ataque levado a cabo por um lobo solitário, não é? Que características tem este tipo de ataques?
O lobo solitário existe em alguns dos ataques até que eu mencionei, e são atacantes que podem ser identificados com duas características-chave. Em primeiro lugar, porque não têm um apoio direto do Estado Islâmico, ou seja, não há estes contactos encriptados com operacionais do Estado Islâmico e também não há financiamento e, portanto, é menos provável que utilizem táticas sofisticadas, como explosivos ou armas automáticas. Em vez disso, é mais provável que utilizem carros como arietes, que é o caso de Nova Orleães, ou armas brancas. Por outro lado, destacam-se também porque se radicalizaram sozinhos, ou seja, eles tiveram acesso à propaganda do Estado Islâmico, muitas vezes através da internet, e declararam o seu apoio ao Estado Islâmico. Mas o Estado Islâmico nunca os reconheceu e nunca os treinou como operacionais do grupo. O oposto seria um recrutamento, como aconteceu em 2014, 2015, de pessoas que se deslocaram para a Síria e para o Iraque e foram treinados pelo Estado Islâmico.
Tu já explicaste aqui como é que este grupo surgiu, começou a ganhar influência. E quando é que começou depois a perder influência? Chegou até a anunciar-se com uma certa pompa que tinha sido derrotado, não é?
Como já se viu, o Estado Islâmico não saiu derrotado, mas costumamos dizer isso aqui no Ocidente, marcando como ponto de viragem 2019, porque foi quando o líder do Estado Islâmico, cercado de tropas norte-americanas, detonou um colete de explosivos e matou-se. Até aí, os Estados Unidos tinham estado a liderar uma ofensiva contra o Estado Islâmico e contra a sua área de influência e tinham reduzido a área do seu califado de forma significativa. Então, a partir daí, quando o Estado Islâmico deixou de ter um governo centralizado e um perigo forte para a região, a ameaça no Ocidente diminuiu e é aí que nós consideramos que eles saíram derrotados.
Já regressamos à conversa com a Madalena Moreira, jornalista da seção de internacional do Observador. Na segunda parte, vamos falar do renascimento do autoproclamado Estado Islâmico, tentar perceber como é que funciona hoje em dia e que perigo representa. Estamos de regresso à conversa com Madalena Moreira. Madalena, quando é que começam a surgir relatos de um certo renascimento deste grupo?
Os relatos começaram a surgir mais ou menos em 2022, não é muito claro, quando eles adotaram um novo modus operandi, uma nova tática, e começaram novos ataques, principalmente no Médio Oriente, sob a bandeira jihadista. Mas só há mais ou menos um ano, na passagem de ano de 2024, é que o Estado Islâmico lançou uma nova campanha concreta em que visava o Ocidente e depois houve uma série de coisas que precipitou. Houve os ataques numa sala de espetáculos em Moscovo, em março, que foram reivindicados pelo Estado Islâmico no Afeganistão, o ISIS-K. Depois, no verão, os serviços secretos norte-americanos alertaram mais uma vez para o renascimento do Estado Islâmico e aqui disseram concretamente há a possibilidade de eles atacarem o Ocidente. O que é que na região mudou para isto acontecer? A ofensiva israelita em Gaza e muito mais recentemente, agora há pouco menos de um mês, a queda de Assad na Síria, que faz aqui um paralelo com o que aconteceu em 2014 quando eles ganharam poder, que é instabilidade política na região.
Exato. E de resto, o ano passado foram mesmo evitados ataques planeados por este grupo na Europa, entre eles um bastante mediático.
Exatamente. Alguns destes ataques até foram evitados em etapas muito precoces da sua preparação e nós podemos até nem ter ouvido falar deles, mas tal como disseste, houve um ataque que foi muito mediático e que estava numa fase muito avançada e os atacantes só foram apanhados na véspera. Estamos a falar aqui do ataque ao concerto da Taylor Swift em Viena, que apesar de ter sido um ataque na Europa, o alerta foi deixado pela CIA norte-americana e eram três atacantes radicalizados pelo Estado Islâmico, que segundo disseram às autoridades, a tática seria a mesma, avançar com o carro contra a multidão.
Tendo tudo isto em conta, penso que é importante perceber, de facto, o que é que é hoje em dia este grupo. Como é que funciona? Tu falas no teu texto de uma espécie de uma marca internacional e de uma operação descentralizada.
Sim, aqui eles são descentralizados na medida em que já não têm aquele território, o califado, e já não têm um governo centralizado. E em vez disso, eles vivem de células espalhadas pelo mundo inteiro que se inspiram umas às outras. Temos o ISIS-K, que eu já mencionei e que é um dos mais ativos, mas depois há células mais pequenas que atuam só na sua área de influência. E uma vez que eles estão espalhados pelo mundo, é muito mais difícil ter uma ideia concreta da sua dimensão real, mas a ONU estima que sejam cerca de 10 mil operacionais do Estado Islâmico hoje em dia. Agora, a sua nova aposta é na propaganda internacional para inspirar a criação destas novas células. É por isso aqui que se fala numa marca à qual eles querem fazer publicidade. Como é que eles fazem esta publicidade? Redes sociais, Telegram, TikTok, mas também através de apoios oficiais de algumas organizações que são montadas por eles e que permitem a publicação de artigos, quer nas línguas nativas destas regiões e que visam a diáspora, quer traduzidas para o inglês para ter uma abrangência maior desta mensagem.
Lá está, células ou mesmo estes lobos solitários de que já falámos e que são inspirados pelo grupo, mesmo não tendo intervenção do grupo em si centralmente.
Exatamente.
E já falámos aqui um pouco desta situação na Síria, que é ainda bastante indefinida. A queda de Bashar al-Assad, a instauração de um novo regime, do qual sabemos ainda muito pouco, é tudo muito imprevisível. Tudo isto pode voltar a ajudar um grupo como o Estado Islâmico.
É isso mesmo. Como tu disseste, é tudo ainda muito indefinido. Nós não temos a certeza do que é que pode acontecer na Síria, mas o que o Antony Blinken, o secretário de Estado norte-americano, disse logo no dia a seguir da queda do regime de Assad, é que é preciso os Estados Unidos estarem atentos, porque o que pode acontecer é exatamente o que aconteceu em 2014, é criar uma instabilidade política e enquanto toda a gente está a olhar, está de olhos postos em quem é que vai substituir Assad no governo, eles, digamos, nas costas de toda a gente, estão a crescer, está-lhes a ser dado espaço para crescer. E entretanto, com os Estados Unidos, e é impossível não falarmos dos Estados Unidos, mantêm-se ocupados com uma coisa, o Estado Islâmico tem a oportunidade para se aproveitar da instabilidade.
Estes ataques agora obviamente são avisos que devem preocupar a comunidade internacional, os Estados Unidos, mas o que é que estão a fazer, o que é que sabemos ao procurar fazer face ao ressurgimento desta ameaça?
Os Estados Unidos ainda antes deste ataque, já tinham deixado promessas de que iam fazer frente às ameaças, tanto que ao longo do último ano é isso que eles têm feito, mas às vezes basta um único evento isolado, neste caso este ataque em Nova Orleães, para mudar qualquer coisa na sua estratégia. O presidente Biden já falou sobre o que aconteceu, já se pronunciou. Donald Trump, que entra na Casa Branca daqui a menos de um mês, também já se pronunciou, mas não há nenhuma declaração oficial sobre se alguma coisa vai mudar, se alguma intervenção norte-americana vai acontecer. O que acontece é que mesmo estas promessas, talvez eles não tenham capacidade para as cumprir, porque hoje em dia os Estados Unidos não estão na mesma capacidade militar no Médio Oriente que estavam em 2019. Tendo em conta que os Estados Unidos estão a ajudar Israel, estão a tentar combater todos os grupos alinhados do Irão no Médio Oriente, só se podem desmultiplicar até certo ponto, não têm tropas para fazer frente a tudo o que querem enfrentar.
Obrigado, Madalena.
Obrigada eu, João.
Madalena Moreira é jornalista da seção de internacional do Observador. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos ainda um som da PBS News. A sonoplastia é de Pedro Oliveira. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Bom fim de semana.