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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como se explica a detenção do ex-príncipe André no Reino Unido?

You're watching BBC News, I'm Lauren Taylor. We start with breaking news about Andrew Mountbatten-Windsor. The BBC understands that he has been arrested on suspicion of misconduct in public office.

Pelas 10h desta quinta-feira, a BBC divulgou esta notícia de última hora: Andrew Mountbatten-Windsor foi detido sob suspeita de má conduta em cargo público.

We now understand, though, that Andrew Mountbatten-Windsor, the former Prince Andrew, has been arrested on suspicion of misconduct in public office.

Minutos depois, várias informações sobre esta investigação. Buscas na casa do ex-príncipe com várias viaturas da polícia em Sandringham. A detenção já tinha acontecido ao início da manhã e perante a notícia divulgada pela BBC, saiu o comunicado da polícia britânica. Nesse comunicado pode ler-se: "No âmbito da investigação, foi detido um homem de 60 e poucos anos de Norfolk, por suspeita de má conduta em cargo público, e estamos a realizar buscas em moradas em Berkshire e Norfolk. O homem permanece sob custódia policial neste momento. Não divulgaremos o nome do homem detido, de acordo com as diretrizes nacionais." A polícia não identificou no momento, mas já não era segredo. O homem tem 66 anos e é Andrew Mountbatten-Windsor, irmão mais novo do rei de Inglaterra. Este ex-príncipe foi afastado da família real britânica, é um dos principais visados nos Epstein Files e desde há vários anos que acumula casos e polémicas. O que explica agora esta detenção? E o que pode acontecer a Andrew Mountbatten-Windsor? Vou conversar com José Carlos Duarte. É jornalista da editoria de internacional do Observador. Eu sou Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de sexta-feira, 20 de fevereiro. Bem-vindo, José Carlos.

Olá, Miguel.

Andrew Mountbatten-Windsor. Para quem nada liga à família real britânica, quem é este homem?

Este homem é o terceiro filho de Isabel II, a antiga rainha de Inglaterra, que morreu em 2022. É o irmão mais novo do rei Carlos III, ainda há a princesa Ana pelo meio, e ainda há mais um filho, o mais novo, e portanto era um dos príncipes da família real britânica. Ele também foi duque de Iorque, o título que a rainha lhe atribuiu. Tem 66 anos, fez no dia que foi detido essa idade, e foi casado vários anos com Sarah Ferguson, com a qual tem duas filhas, as princesas Beatrice e Eugenie. E na dinâmica familiar da Casa Real Britânica, ele sempre foi considerado talvez o mais rebelde, aquele que estava um bocadinho mais fora da linha. Mas ao mesmo tempo também era considerado o filho favorito da rainha Isabel II, era aquele que tinha uma maior cumplicidade com a mãe, comparativamente com os outros irmãos. Portanto, havia aqui uma relação especial, mesmo sendo aquele que mais testava limites. Ele teve uma carreira militar bastante longa, esteve na Força Aérea, esteve em vários ramos das Forças Armadas e durante 10 anos foi nomeado enviado especial para o comércio internacional e para o investimento. E foi nessas funções que teve assim um cargo mais institucional, é um cargo que também tinha ligações ao governo e à diplomacia britânica. Mas nos últimos anos tem estado, por conta dos escândalos, de que foi alvo, um pouquinho mais afastado dos holofotes públicos.

Sim, muito bem. Portanto, era o terceiro filho da rainha Isabel II, era irmão mais novo de Carlos III, o atual rei de Inglaterra, e completava 66 anos nesta quinta-feira. O ex-príncipe André, nesta quinta-feira, foi detido. Foi detido por volta das 08h, começou a essa hora uma operação policial. Soube-se apenas um pouco depois, foi noticiado um pouco depois. Estamos a falar do primeiro membro da família real britânica a ser detido nos tempos modernos. É preciso recuar até 1643 para encontrar uma outra detenção, na altura do rei Carlos I. A polícia realizou várias buscas. Neste caso, José Carlos, que buscas é que se realizaram e de que é suspeito o ex-príncipe?

Sim, realizaram-se buscas à sua casa, em Sandringham, e as autoridades divulgaram que ele é suspeito de má conduta no exercício de um cargo público. Nós sabemos isto e só isto. As autoridades não avançaram o porquê de o terem detido, que suspeitas são estas, que má conduta foi esta. Mas aquilo que me parece mais óbvio, ainda que não esteja totalmente confirmado, é que estas suspeitas vêm da altura em que ele foi enviado especial para o comércio. Terá sido no desempenho dessas funções que ele terá feito alguma coisa de errado. Eu acho que é o que está na base desta detenção e das buscas.

Má conduta no exercício de um cargo público. De crime é que estamos a falar e, se acabar por ficar provado, o que é que prevê o Código Penal inglês?

É um crime que tem aqui um caráter bastante grave. É um crime que contempla abuso ou negligência grave intencional do poder ou das responsabilidades do cargo público exercido. Ou seja, é quando alguém abusa do seu poder ou partilha algum tipo de informação que não deveria fazer. E na pena mais gravosa pode configurar-se prisão perpétua. Ou seja, há aqui uma prática de um crime com dolo, ou seja, foi algo intencional, que extravasou as funções que a pessoa desempenhava na altura. No caso do príncipe André, lá está, deverá ser quando ele foi enviado especial para o comércio.

Isto estalou tudo esta quinta-feira, esta questão da detenção por má conduta no exercício de um cargo público. Mas, na verdade, esta é só mais uma polêmica envolvendo o ex-príncipe André, que nos últimos anos foi protagonista de vários escândalos. E podemos em parte dizer que tudo começou com o caso de Virginia Giuffre.

Sim, tudo começou com ela, tudo começou com esta mulher que sempre alegou e que fez uma denúncia de que o príncipe André tinha abusado sexualmente quando ela tinha 17 anos. Esta foi a denúncia que realmente manchou a reputação do príncipe André, ou do antigo príncipe, melhor dizendo, que o levou a fazer uma ginástica para manter a sua reputação mais ou menos intocável, o que também mexeu com a Casa Real Britânica. E foi esta mulher que faz esta denúncia numa altura em que também já se vai conhecendo alguns detalhes de tudo aquilo que Jeffrey Epstein, o milionário norte-americano com o qual André tinha uma relação de proximidade. Todos estes casos que envolviam este homem, este norte-americano, vão sendo divulgados e ela faz também a denúncia alegando que ela tinha sido alvo de tráfico sexual por parte de Jeffrey Epstein e da sua cúmplice, Ghislaine Maxwell. E ela diz que foi neste contexto que o príncipe André a abusou sexualmente. E todo este caso manchou a reputação do antigo príncipe André. E depois a Virginia Giuffre também deu aqui o pontapé de saída, não diretamente a ver com o príncipe André, mas para outras mulheres falarem em público, porque ela teve a coragem de enfrentar um sistema, enfrentar a Casa Real Britânica, uma das instituições mais poderosas do mundo, e que colocou o príncipe André numa situação muito difícil. Houve um processo-crime, Virginia Giuffre o avançou para tribunal, mas o caso ficou resolvido porque os dois chegaram a acordo.

Sim, pagou milhões e milhões de dólares.

O antigo príncipe André pagou uma dívida, um determinado valor, que não se sabe qual é, não é público, à mulher, e o caso ficou encerrado.

Ele não admitiu culpa nesse processo.

Não, ele nunca admitiu a culpa. Isso é interessante, ele pagou, mas esse pagamento não significa que ele tenha admitido a culpa. Aliás, ele negou sempre qualquer acusação desta mulher, mas o que é facto é que chegaram a acordo e ela acabou por morrer no ano passado. Ela tirou a própria vida, ela suicidou-se. Por todo este processo, ela sofreu um acidente grave de viação e depois tirou a própria vida.

E em 2020, André já tinha perdido vários deveres reais, já tinha perdido vários poderes. Em 2025, depois acabou por perder outros tantos, incluindo o título de príncipe, muito também no seguimento desse caso, mas também dos Epstein Files. Vamos falar dos Epstein Files já a seguir. Fazemos apenas uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com José Carlos Duarte. Falávamos do caso de Virginia, um caso que voltou à praça pública no Reino Unido com a divulgação dos Epstein Files no fim de janeiro. O ex-príncipe André é um dos nomes mais mediáticos nesses ficheiros. O que se pode encontrar nos Epstein Files sobre o ex-príncipe?

Muita coisa. Eles falavam bastante, eles trocavam e-mails, mensagens privadas, eles tinham realmente uma relação de muita proximidade e os e-mails mostram precisamente isso. Eu acho que, por um lado, toda a história de Virginia Giuffre ficou finalmente provada, porque os e-mails mostram fotografias, mostram trocas de mensagens em que realmente houve aqui um plano entre Jeffrey Epstein e o antigo príncipe André para que a rapariga fosse abusada sexualmente. Depois, há vários detalhes que mostram, eu acho que uma relação de promiscuidade entre André e Jeffrey Epstein, principalmente no ramo dos negócios. Como já disse, o filho de Isabel II foi enviado especial para o comércio e para os investimentos e no exercício desses cargos, há e-mails que provam que o antigo príncipe enviou informações confidenciais a Jeffrey Epstein, informações de investimentos em vários países. Há uma troca de e-mails em que o antigo príncipe André envia informações confidenciais para negócios no Afeganistão, país em que o Reino Unido esteve envolvido em operações militares, e no qual estava comprometido a reconstruir. Ou seja, o antigo príncipe André envia uma espécie de guia de aconselhamento de investimentos a Jeffrey Epstein e esses documentos são confidenciais. Esses documentos pertencem ao Estado britânico, não podem ser partilhados. Ele tinha de cumprir um dever de confidencialidade e ele incumpre de forma bastante irresponsável este dever, porque poderiam haver segredos de Estado, segredos que poderiam pôr em causa o Estado britânico. E sabe-se todos esses ficheiros, todas essas trocas de documentos, e também para além de Virginia Giuffre, também há relatos de outras mulheres, de encontros com várias mulheres em Londres, nos Estados Unidos, em que o príncipe André terá também tido relações com elas, relações sexuais. Há suspeitas também Que este lá abusado sexualmente. Portanto, há aqui um manancial de informação que eu diria não abona nada a favor do antigo príncipe. E acho que aquilo que vimos agora, esta quinta-feira, é apenas o primeiro capítulo. Acho que ainda há muita coisa que se vai saber e que está precisamente nestes ficheiros.

Ou seja, para além da má conduta no exercício de um cargo público, o ex-príncipe pode vir a ser alvo de muitas outras acusações. É isso?

Exatamente. Acho que a questão de divulgar informações confidenciais sobre viagens que ele fazia enquanto enviado especial, acho que está a pesar mais nas autoridades, porque isso é mais fácil de provar, acho que são acusações mais fáceis de realmente provar que aconteceram. Sobre os abusos sexuais, é um tema mais sensível, é um tema que as autoridades também têm que ter mais cuidado, porque muitas vítimas também não querem falar sobre o assunto e portanto é um assunto que eu acho que vai demorar mais tempo a surgir mais acusações. De qualquer forma, também nota pra dizer que no final de janeiro uma segunda mulher já veio à imprensa britânica dizer que foi abusada pelo antigo príncipe André em 2010, no Reino Unido. O advogado dela diz que ela foi enviada por Jeffrey Epstein para ter relações sexuais com o antigo príncipe.

E há sempre esta questão, André é um ex-príncipe, foi membro da família real, já não é, mas isto a nível de justiça tem algum estatuto diferente?

Neste momento, não. Neste momento, o André é um cidadão britânico como os outros. Ele não tem qualquer tipo de imunidade ou qualquer tipo de proteção. Neste momento aquilo que lhe vai acontecer é um processo judicial, se for aberto, totalmente normal. Ele não tem qualquer tipo de influência e eu diria que muito dificilmente também o rei virá em seu auxílio, portanto, ele é um cidadão normal.

Ia pegar nesse aspecto, como é que está a família real britânica a lidar com este caso?

Eu avaliaria de forma muito assertiva. Ou seja, durante muitos anos a Casa Real Britânica foi acusada de esconder, de não reconhecer que o antigo príncipe poderia ter uma faceta que ele não gostasse sem que fosse pública. Mas eu acho que neste momento a Casa Real tem uma abordagem bastante assertiva e está a agir. O rei Carlos III emitiu um comunicado em que é categórico e diz que a lei deve seguir o seu curso. Ou seja, eu acho que já há percepção na família real britânica que mais vale enfrentar a situação de frente, mais vale assumir e dizer que a justiça tem de intervir do que propriamente esconder ou refugiar em chavões, em palavras pouco claras. Não, aqui eles assumem que há um problema e remetem para as autoridades.

"The law must take its course" é semelhante à justiça o que é da justiça.

Exato. E não há aqui uma tentativa de o proteger ou de certa forma acomodar. Não. Isto é uma realidade, a justiça deve fazer o seu trabalho. E também nota porque William e Kate, que são possivelmente os herdeiros de Carlos, também disseram a mesma coisa, que a justiça deve seguir o seu curso e apoiam as investigações em curso. Portanto, a família real acho que leva a sério agora estas acusações e não está a esconder nada por baixo do tapete.

O governo britânico, o mundo político no Reino Unido, o que é que tem sido dito em torno deste caso?

Tem sido uma coordenação, acho, entre a família real e o governo britânico. Tem sido a justiça tem de fazer a sua investigação, ninguém está acima da lei. Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, disse exatamente isso. E deve haver investigação. Soube-se que o Ministério da Administração Interna foi avisado de antemão das buscas e da detenção do antigo príncipe, mas de qualquer das formas, a posição do governo é efetivamente deixar a justiça correr e não criar nenhum obstáculo legal a esta investigação, portanto, muito em linha com a família real.

A nível internacional, que reações é que têm saído perante todo este caso, principalmente dos Estados Unidos da América, que são o centro dos Epstein Files?

Sim, são o centro e lá está, o antigo príncipe André também convém dizer que teve problemas jurídicos nos Estados Unidos, porque o processo de Virginia Giuffre foi nos Estados Unidos, foi no tribunal de Nova Iorque. Ou seja, eu também diria que há o risco nos Estados Unidos, e ligando aqui um cadinho às reações, de que ele possa vir a ser julgado também nos Estados Unidos, não só no Reino Unido, como também nos Estados Unidos, porque os abusos sexuais, todos esses assuntos, nós não sabemos bem, a geografia é um cadinho difícil de precisar. E nesse sentido, há já congressistas e políticos a pedir que o antigo príncipe André vá testemunhar aos Estados Unidos e dê detalhes sobre a sua relação com Jeffrey Epstein, porque havia aqui uma relação de proximidade. Eu acho que isso não há dúvidas nenhuma, que os dois homens eram muito cúmplices. E portanto, dessa cumplicidade, deverá haver várias informações que apenas André poderá dar e mais ninguém. E portanto, há esse pedido e também os democratas também estão a tentar pressionar o presidente Donald Trump a ser mais transparente. Ou seja, se nem o antigo príncipe ficou imune, por que é que há muitos nomes que continuam rasurados? Por que é que os ficheiros não são totalmente transparentes? Se até um membro da família real britânica está nesta situação, por que é que há tanta proteção para certas pessoas que se calhar não deviam ser protegidas? Esse é o ponto dos democratas. E também nota para a família das vítimas, principalmente Virginia Giuffre, que diz que foi colega que foi usada por André, que saúda estas investigações e considera que é uma forma de colocar a justiça em prática, em marcha. Há aqui várias reações, mas acho que a principal é que nos Estados Unidos ninguém está acima da lei, e isso no Reino Unido, e isso também se devia aplicar nos Estados Unidos.

Obrigado, José Carlos.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista do Observador na editoria de internacional. Nesta história do dia, deixo ainda algumas sugestões para esta sexta-feira e para o fim de semana. Marcelo Rebelo de Sousa termina hoje a última visita oficial como presidente da República. É uma visita de dois dias a Espanha. Nesta sexta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa é recebido com honras militares por Felipe VI. Há depois um encontro entre os dois chefes de Estado, com um almoço oferecido pelos reis de Espanha em honra do presidente português. Almoço no Palácio Real de Madrid. No desporto, joga-se este fim de semana a 23ª jornada do campeonato. A luta pela liderança está cada vez mais viva. Este sábado, Benfica e Sporting jogam à mesma hora, 18h, as Águias recebem no Estádio da Luz o AVS, o Sporting joga fora frente ao Moreirense. No domingo, o Futebol Clube do Porto recebe o Rio Ave. São três jogos para escutar com relato em direto na Rádio Observador. Para fechar, a boa notícia. Depois das tempestades, depois da chuva, da neve e do vento, prevê-se agora um fim de semana de sol em todo o país. De acordo com a previsão do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a temperatura máxima pode chegar aos 23 graus e espera-se céu limpo. A sonoplastia desta história do dia é de Artur Costa. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bom fim de semana.