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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Como é que uma ideia portuguesa acaba na Netflix?

Dramático caso de tráfico de droga descontrolado nos Açores. Morreram já duas pessoas com overdoses na ilha de São Miguel.

Em 2001, um naufrágio espalhou meia tonelada de cocaína ao largo da pequena vila de Rabo de Peixe, em São Miguel, nos Açores. A história foi tema de várias reportagens nacionais e internacionais. As autoridades só recuperaram 400 quilos e não se sabe o que aconteceu ao resto da droga. Durante a pandemia, um realizador de publicidade, natural de São Miguel, decidiu colocar a ficção a tentar responder ao que poderia ter acontecido. A ideia convenceu a Netflix. Esta é a história do rapazinho com grandes esperanças num lugar onde a esperança nunca existiu. O que nós fizemos para merecer esta sina?

É uma prisão no meio do mar.

Aqui nunca acontece nada de jeito. A série Rabo de Peixe estreou-se dia 26 de maio na plataforma de streaming e chegou ao top das 10 mais vistas em todo o mundo. Como foi isto possível? Vou conversar com o criador e showrunner da série, Augusto Fraga. Eu sou a Catarina Santos e esta é a história do dia. Bem-vindo, Augusto.

Obrigado.

O que é um showrunner?

Olha, o showrunner é um pouquinho o produtor executivo que garante a continuidade criativa do projeto. Ou seja, quando se fala de produção, parece que tem a ver com questões técnicas, de orçamento e de espaços para filmar. E alguém faz a ponte entre a criatividade, entre a escrita, entre os atores e a produção, ou seja, a decisão de onde se põe o dinheiro na prática, que tem um impacto direto na criatividade, portanto, tem impacto direto no produto final, é tomada pelo showrunner. Eu, basicamente, como showrunner da série Rabo de Peixe, fazia a ponte entre os escritores, e eu era um deles, entre a sala de escritores e a produção, tentando que as decisões tomadas pela produção tivessem o impacto menor possível na criatividade ou nas ideias que vinham da sala de escritores. Porque sempre que se produz um conteúdo audiovisual, temos que tomar decisões e temos que sacrificar coisas. E que coisas sacrificamos, é importante que haja um diálogo grande entre a produção propriamente dita e a criatividade, as ideias.

Portanto, é uma espécie de maestro para garantir que tudo corre bem no fim.

Sim, é um defensor do que está escrito.

E regressando agora a essa fase inicial do que está escrito, Rabo de Peixe nasceu, sobretudo, do tédio do confinamento ou a ideia já estava na sua cabeça há mais tempo?

Sim, das duas coisas. A ideia estava na cabeça há muito tempo, mas foi preciso obrigar-me a sentar-me. E daí vem o tédio do confinamento. Ou seja, obrigar a sentar e escrever, porque escrever é difícil, implica um esforço e um sacrifício grande. E o confinamento foi perfeito porque não havia nada melhor para fazer, de facto.

Esta história de base, que dá origem à série, é uma história de 2001, que correu o mundo depois, com várias reportagens internacionais sobre o assunto. Passou-lhe pela cabeça como é que nunca ninguém pegou nisto para fazer uma ficção?

É estranho e, de facto, surpreendeu-me isso, porque era tão óbvio. Sim, de facto, surpreendeu-me muito como é que não tinha sido feito antes. Mas há muitas histórias boas que nunca foram feitas e muitas histórias boas que não foram bem feitas. E nós tentamos pegar nesta história que tinha um potencial incrível, a sua base real, e tentar fazê-la bem.

Depois de escrita a história, veio o concurso. Que concurso foi este? Como é que tudo isto funcionou?

Sim, a Netflix, junto com o ICA, o Instituto de Cinema e Audiovisual Português, lançou um concurso de guiões de séries de televisão, abertas a qualquer pessoa, desde que fosse em português. E eu achei que era a oportunidade perfeita para ter um deadline. Obrigar-te a escrever para uma data. E foi assim, eu mandei o guião para o concurso sem uma grande expectativa, sendo muito honesto, mas com a garantia que me tinha divertido muito a escrever. Ou seja, foi super divertido para mim escrever esta série a pensar: "Olha, se um dia acontecesse essa série, feita por mim ou por outra pessoa, eu ia gostar de a ver."

E lembra-se como é que foi o momento em que abriu o e-mail ou atendeu o telefone e tinha a notícia de que a série tinha passado à fase seguinte?

Lá está, eu tenho uma má sorte de viajar muito e foi um dos episódios da minha vida que eu perdi. Eu estava num avião a fazer uma viagem transatlântica, vinha da China, talvez, ou Japão, para Lisboa, e quando liguei o telefone, já toda a gente sabia, menos eu. Portanto, eu tinha muitas mensagens a felicitar-me e foi tipo um tsunami, que aconteceu tudo ao mesmo tempo. Foi no momento em que o telefone ganha rede e recebe essa boa notícia.

O Augusto Fraga é um realizador muito cotado no mundo da publicidade. Teve de suspender essa atividade para se dedicar à série?

Sim. Eu há muitos anos que trabalho em publicidade, também faço videoclipes e outras coisas. E no momento em que a Netflix me desafiou para completar aquele guião de um episódio só, do piloto, que eu tinha escrito sozinho, e transformá-lo numa série E eu juntei-me aos escritores, ao Gonçalo, ao João Tordo, ao Francisco Lopes e ao Fernando Mehmet. Desde esse momento, eu decidi não fazer mais nada. Essa era claramente a minha prioridade e basicamente passei os últimos dois anos com eles, dedicado a isso.

E quanto tempo ao todo é que esteve a trabalhar na série "Rabo de Peixe"?

Desde a primeira linha até ao dia de estreia, três anos. É uma história única, caótica e muito trágica.

"Rabo de Peixe"? Pincha da mãe. É uma pescadinha de rabo na boca. E como é que tem acompanhado a forma como a série está a ser recebida?

Eu estou com um misto de não percebo nada, porque nós escrevemos, realizamos e produzimos a série com uma expectativa de que estávamos a fazer uma coisa diferente e que ia chegar a muita gente. Eram as reações que íamos recebendo. Desde o início, quando as pessoas leram o guião, até aos primeiros cortes de montagem, mas nunca esperei que chegasse tão longe e a tantos países e a tantas pessoas. E, sobretudo, que a reação em Portugal fosse tão boa e que nos protegesse tanto, tantas felicitações. Eu recebi milhares de mensagens de imensas pessoas, de pessoas que nunca imaginaria que receberia. E eu, e os atores, e os escritores, e a produção, obviamente, muito feliz, sinceramente, por todas as pessoas que participaram neste projeto e que agora têm uma coisa da qual se orgulham.

Claro que com um projeto desta dimensão e quando se faz algo que é tão exposto, é impossível não haver também críticas. O Augusto costuma lê-las também, tem acompanhado, por exemplo, algumas referências à ausência do sotaque açoriano nas personagens. Como é que vai lidando interiormente com este lado também, que é inevitável, quando se atinge este grau de sucesso?

Sim, eu sinceramente não leio as críticas, também não leio os elogios. Ou seja, não tenho lido a imprensa, porque eu reconheço os defeitos que a série tem e sei onde podíamos ter feito melhor. E acho improvável que me venha alguma crítica realmente construir para fazer um projeto seguinte melhor. A questão da pronúncia foi uma decisão superconsciente de não haver pronúncia. Obviamente, eu sou miquelense, portanto reconheço a importância que a pronúncia tem na nossa cultura, mas também sei a dificuldade que haveria com atores que não são todos dos Açores, chegar a uma pronúncia que fosse realmente credível. E entre uma opção e outra, escolhi ter grandes atores, fossem dos Açores, do Alentejo ou do Norte ou da Madeira, grandes atores, os melhores que eu pudesse ter em Portugal, e depois não tentar fazer uma imitação, que não seria boa, não seria completa, da nossa pronúncia, porque a nossa pronúncia tem que ser protegida também.

E é muito específica e haveria riscos, obviamente, inerentes também a tentar fazer esse exercício.

Sim, nós os miquelenses. É interessante haver muita gente que não é de São Miguel a falar de pronúncia, quando eu sim sou de São Miguel e que chicam pronúncia. Nós miquelenses, se há coisa que nos irrita é quando os continentais tentam imitar a nossa pronúncia. Aliás, há uma frase na série que o Salvador diz isso à Maria João quando ela faz uma piada sobre isso, ele diz: "Aliás, se há uma coisa pior que um continental imitar a pronúncia de São Miguel..." E depois ele pensa: "Realmente, não. Realmente, de fato, não há nada pior que isso." E para mim era importante proteger a nossa pronúncia, e a forma que encontrei de a proteger melhor foi não tentar cair em imitações que seriam caricaturas daquilo que é ser açoriano. E ser açoriano é muito mais do que uma pronúncia, ou ser miquelense, neste caso. Para mim, é o desejo de conhecer o mundo, é o sonho, é o orgulho, são muitas outras coisas que são layers muito mais importantes, desde o meu ponto de vista, no ser açoriano, do que o layer da pronúncia.

Já voltamos à conversa com Augusto Fraga, o showrunner, criador da série "Rabo de Peixe". Vamos tentar perceber como funcionam as coisas do outro lado, do lado da Netflix. Voltamos à conversa com Augusto Fraga, o criador da série "Rabo de Peixe". Augusto Fraga, e os senhores da Netflix? São muito chatos, têm muitas exigências?

Os senhores da Netflix têm uma grande vantagem, que é terem informação que eu não tenho e que nós não temos. Ou seja, eles produzem 350 séries por ano no mundo todo, pelo menos foi assim no ano passado, e conhecem bem as tendências de audiência. E ao escolher esta história e ao desafiar-nos para escrever esta história, já acreditavam nela como uma potencial história que pudesse impactar em Portugal, que era o grande objetivo deles primeiro, mas que também tivesse um potencial de ser vista noutras partes do mundo. Esse lado de conhecimento é relevante para eles e nós ouvíamos muitas opiniões, mas tivemos absoluta liberdade criativa na escrita, na montagem e nas decisões deste projeto. Não houve nenhuma ingerência criativa de nenhum gênero da parte da Netflix.

E há aqui outro pormenor importante. O Augusto Fraga teve de apresentar um orçamento ou foi ao contrário? Foi preciso encaixar a produção no orçamento que lhe foi dado?

É uma mistura das duas coisas. Ou seja, o audiovisual tem Tem muita latitude. Ou seja, o mesmo guião pode custar 20 milhões de euros e pode custar dois milhões de euros. O mesmo guião. Depende de como for feito. As noites podem iluminar-se de uma forma exímia, é caro, ou podem não iluminar-se, usar a luz disponível. Isto é um exemplo. Todos os decors podem ser construídos em estúdio ou podem ser casas reais e tudo vai ter um impacto no orçamento final. Ou seja, havendo um guião, não existe o mesmo orçamento. O mesmo guião orçamentado em Portugal e em Espanha, e depende por quem vai realizar, neste caso eu e a Patrícia, e quem vai produzir, neste caso a Kubar, outra produtora e outros realizadores, provavelmente chegariam a outro orçamento. Porque é muito discutível onde é que pomos o dinheiro. O orçamento é sempre limitado e o nosso orçamento era muito limitado pro que nós queríamos fazer, mas depende muito da forma como se aborda cada cena. Para dar um exemplo da nossa série, quando vemos a cena do barco, a tempestade em que os italianos estão no meio do mar, essa cena foi abordada de uma forma que não era a mais barata, porque queríamos realmente que fosse uma cena impactante. Que tivesse um impacto visual ao nível do que se faz melhor no mundo, e isso faz com que seja mais cara. Outra produção, outro realizador, ou grupo de realizadores podia ter abordado isso de uma forma mais naturalista. Com um barco realmente no meio do mar, talvez não tão tempestuoso, mas com algumas ondas, as que permitissem filmar realmente isso.

E quanto é que tudo isto custou, então?

É uma boa pergunta à qual eu não sei responder, porque além de que tenho um acordo de confidencialidade com a Netflix, é difícil saber o orçamento final, porque há muitos elementos que são contabilizados no primeiro orçamento. O orçamento de produção é uma coisa, e outra coisa é depois quando entram os atores, a pós-produção, tudo isso. Custou mais do que custa uma série portuguesa em média, custou muito menos do que custa uma série espanhola, italiana, francesa, alemã e todo o resto do mundo, em média.

Falou no elenco e, de facto, a série tem um elenco de luxo. Está lá uma mão cheia de atores muito bem cotados em Portugal. Estes atores já estavam de alguma maneira nos seus planos desde o início?

Não, de todo. Eu peco por algum desconhecimento do cinema português, porque ao viajar muito e o tipo de cinema que eu vejo não é o que se faz mais em Portugal. E então decidi fazer um casting desde o zero. Sabia que precisava de um protagonista que tinha entre 20, 22, 25 anos. Portanto, vi todos os atores com alguma experiência em Portugal. Fiz várias etapas de casting e de facto, todos os atores que estão nesta série, estão nesta série por mérito e porque realmente eram, desde o meu ponto de vista e da Patrícia, os atores perfeitos para aquele papel. Fossem nascidos onde fossem, tivessem a experiência de passado que tivessem. Para nós, o único critério que houve foi quanta qualidade é que eles têm. E se repararem, temos atores que depois eu descobri, eram muito famosos, como a Kelly, por exemplo. Obviamente os mais famosos, mais velhos, mas falo dos novos agora. E outros que eram desconhecidos ou quase desconhecidos, como André Leitão, e as prestações deles são incríveis, porque eles estão lá por mérito.

A Netflix funciona por subscrição e agora também com publicidade. Mas fora deste universo, em países como Portugal, a produção está muito dependente de apoios públicos ou de parcerias com televisões. O cenário ainda é mais ou menos este, certo?

Sim, há uma visão, e eu não estudei História de Cinema em Portugal, estudei História de Cinema, mas não a portuguesa. Uma visão do cinema apenas como arte em Portugal. E o cinema, além da arte, é também indústria. E esse paradigma do cinema como arte, que depende de mecenas do Estado, tem sido o que tem definido a produção em Portugal. E obviamente, a Netflix tem outro paradigma. E essas plataformas todas têm outro paradigma, assim como grande parte como Espanha, que tem outro ponto de vista e vê o audiovisual como uma forma de expressão artística, mas também como uma grande indústria, talvez a maior indústria do mundo.

Se eu quiser fazer uma série com o Augusto e formos os dois ao banco, ninguém nos vai emprestar o dinheiro, não é? Ou isto já não é bem assim?

Se nós dois formos ao banco, eu diria que não nos vão emprestar o dinheiro. Diria que não. Se nós quisermos fazer uma série, há, para já, os grandes exibidores portugueses, que são as televisões. Esses têm produzido, e nomeadamente a RTP, mas também a SIC, têm produzido séries muito boas, desde o meu ponto de vista. Claro que uma abrangência menor do que aquela que tem a Netflix, porque comunica para muitos mais países. Eu começava sempre pelos grandes exibidores que há em Portugal, e a partir daí, percebendo se este conteúdo que nós quiséssemos fazer teria também sentido em outros países. E se tivesse sentido, por exemplo, em Portugal e Espanha, pois há programas de apoio, o programa MEDIA, por exemplo, que é o apoio de produção audiovisual da União Europeia, que apoia essa ideia de coproduções entre vários países. E depois, obviamente, temos o ICA, que também dá apoio a algumas produções portuguesas.

Para quem tem nesta altura uma ou mil ideias na cabeça para séries ou para filmes, o que é que deve fazer?

Olha, eu acho que o mais interessante, talvez, ou o mais importante da experiência que nós tivemos com o "Rabo de Peixe", é a aprendizagem de que é possível. Isso já é uma energia grande. É possível uma ideia que não teria acontecido, se não tivesse estado a Netflix em Portugal, ser feita e ser feita com qualidade, com pessoas portuguesas 100%. Toda a pós-produção, a produção, os atores, somos todos portugueses. Isso eu acho que é uma energia boa. Depende muito do conteúdo que cada um tenha. Se eu tenho um guião determinado género, depois talvez haja canais de distribuição que apoiem mais esse género. E se temos um guião que tem essa visão mais internacional, obviamente as plataformas de streaming que comunicam para o mundo todo talvez estejam mais interessadas nele. Mas eu, honestamente, não conheço a estratégia de futuro de nenhuma plataforma, nomeadamente a Netflix. Não sei qual é o objetivo futuro deles, isso só com eles é que podemos saber.

Ou seja, como nos filmes, hoje já é possível a um miúdo açoriano chegar à Netflix, contar uma história extraordinária de um local improvável chamado Rabo de Peixe, e isso poder correr bem.

Exato. Eu acho que essa é a grande força desta série, e por isso talvez tivemos tanto apoio em Portugal quando as pessoas começaram a ver a série. Podemos produzir conteúdo que é entretenimento, que não é por isso pouco profundo, que tem uma matéria intelectual por trás, mas sem que seja elitista, distante ou paternalista para com o espetador. E que ao mesmo tempo seja só isso, seja simplesmente um momento em que as famílias estão juntas. Eu ontem recebi uma mensagem que achei incrível, de um rapaz novo que diz: "Eu vejo imensas séries no mundo todo, mas é a primeira vez que eu, o meu pai e a minha avó estamos a ver uma série juntos e estamos todos a rir, a emocionar-nos e a comentar no fim". E foi das coisas que eu mais gostei de ver. Não é porque eu tenha um objetivo de unir famílias em Portugal, obviamente, mas achei ótimo, incrível estar a ver uma coisa que é feita por nós e realmente ter um impacto na cultura popular e nas pessoas em casa, porque o cinema é para as pessoas, não é para quem o faz.

Muito obrigada, Augusto.

Obrigado eu. Foi um prazer falar convosco.

Augusto Fraga é o criador da série "Rabo de Peixe", que está disponível na Netflix. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico é do João Ribeiro. Este episódio teve produção de Ricardo Conceição, com o apoio de Maria Nunes. O som do noticiário que ouvimos no início foi retirado da grande reportagem "A Ilha Traída pelo Mar", feita pela SIC em 2019. Se gosta deste podcast, não se esqueça de clicar em seguir na aplicação onde nos está a ouvir. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã.