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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Israel e o Hamas estão realmente interessados no cessar-fogo?

"The Israeli military has confirmed that six bodies found in a tunnel in the city of Rafah were those of hostages held by Hamas after the October the 7th attack."

O caso chocou a sociedade israelita. Seis reféns há 11 meses nas mãos do grupo radical palestiniano Hamas, foram encontrados mortos num túnel por baixo da cidade de Rafah. Israel afirma que foram executados por Hamas pouco antes de as forças israelitas terem conseguido chegar até eles. Estava previsto que três dos reféns pudessem ser libertados em breve, no âmbito de um eventual acordo de cessar-fogo, caso as duas partes chegassem finalmente a um entendimento. Milhares de pessoas saíram às ruas em protesto contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que acusam de não ter o resgate dos reféns como prioridade. Netanyahu pediu desculpa aos israelitas por não ter conseguido trazer os reféns com vida. A pergunta que se põe depois de semanas de negociações é: Israel e o Hamas querem mesmo um cessar-fogo? Netanyahu tem margem de manobra política para continuar no governo? E por que as pressões dos Estados Unidos não têm resultado? São questões para a conversa com Ana Santos Pinto, investigadora na área das relações internacionais e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de terça-feira, dia 3 de setembro. Bem-vinda, Ana Santos Pinto.

Obrigada pelo convite.

Vamos começar pelo contexto. No fim de semana, as forças israelitas descobriram seis reféns mortos em Gaza. Quem eram e o que é que sabemos ao certo sobre o que aconteceu?

Nós estamos a falar de seis jovens, entre os 23 e os 40 anos, cinco homens e uma mulher. Um deles é um israelita, mas também norte-americano. Aliás, uma figura que tem sido, ao longo destes últimos meses, muito apresentada como uma das caras da campanha para a recuperação dos reféns. Os pais, o pai e a mãe, estiveram na convenção democrata e fizeram uma declaração bastante emotiva. E todos os outros são jovens. Cinco deles estavam no festival de música no dia 7 de outubro, onde o Hamas assassinou e raptou centenas de pessoas. Um dos rapazes estava numa comunidade agrícola perto da zona do festival e, portanto, foi na intervenção dos militantes do Hamas, fora daquele contexto. Sobre o que aconteceu, nós temos as informações que são apresentadas pelas autoridades israelitas. Eles terão sido assassinados à queima-roupa, entre 72 a 48 horas antes de serem encontrados, e mais ou menos num local perto, apesar da localização nunca ser identificada de forma concreta. O local será perto do mesmo sítio onde se recuperou com vida um refém, um árabe israelita, há alguns dias, e que também foi bastante mediatizada essa recuperação. E, portanto, aquilo que sabemos é que foi no contexto de uma possível operação de resgate. Não houve confrontos neste contexto particular da operação de resgate entre as forças israelitas e os militantes do Hamas. E, portanto, quando fizeram a entrada no túnel, encontraram já os cadáveres destas seis pessoas.

E qual é a explicação do Hamas para o que aconteceu com estes reféns encontrados mortos?

Na verdade, o Hamas não explica. Têm existido nas redes sociais várias argumentações e várias narrativas. Naturalmente, o Hamas culpa sempre as Forças Armadas israelitas pela incursão e pelo fato de, ao procurarem o confronto para resgatar reféns, estarem também com isso a prejudicar aquilo que possa vir a ser um cessar-fogo e um processo negocial. Mas, na verdade, essa não é uma explicação e nada justifica, como é óbvio, assassinar seis jovens que se encontram em cativeiro há tantos meses.

Para termos também uma ideia do quadro geral, passaram 11 meses, praticamente, dos ataques de 7 de outubro. Qual é a situação neste momento? Quantos reféns é que se estima que estejam ainda nas mãos do Hamas?

Estima-se que cerca de 100 pessoas continuem ainda reféns do Hamas em Gaza, não se sabe quantas delas com vida. Já foram assassinadas 72 pessoas daqueles que estavam neste número de quase 250 pessoas que ficaram raptadas em Gaza após os ataques terroristas de 07/10. E, na verdade, é muito difícil, não só pelo contexto de guerra e de violência extrema que se vive em Gaza, mas também pela própria forma como os reféns possam ser cativos ou possam ser transportados, essencialmente, através de uma rede de túneis subterrâneos. É muito difícil, nesta altura, avaliar quantos desta cerca de centena de pessoas possam ainda estar com vida.

"Tens of thousands of people have been out on the streets across Israel as unions there call for a general strike tomorrow in protest at the government's failure to secure the release of more than 100 hostages still being held by Hamas."

Este caso, obviamente, agora veio chocar a sociedade israelita. Milhares de israelitas saíram às ruas em protesto, acusam o primeiro-ministro de não ter a libertação dos reféns como prioridade. Como forma de pressionar o governo, esta segunda-feira foi convocada uma greve geral por um dos principais sindicatos do país. A greve acabou por terminar mais cedo, por ordem do Tribunal do Trabalho, que a considerou uma manifestação ilegal e politicamente motivada. Que apoios é que Netanyahu tem ainda neste momento? Ou, por outra, estamos aqui a falar de uma sociedade altamente dividida e polarizada?

Nós estamos a falar, até bastante antes do dia 07/02/2023, de uma sociedade profundamente dividida e polarizada. Isso ficou patente nos vários atos eleitorais, o último dos quais gerou o atual governo de coligação. E este governo de coligação, vários dos seus ministros, dois em particular, o ministro da Segurança Interna e o ministro das Finanças, têm tido declarações muito radicais, incluindo a visita à Esplanada das Mesquitas, que são naturalmente um desafio a qualquer iniciativa que possa trazer alguma estabilidade e algum contexto favorável a um processo negocial. Aquilo que a sociedade israelita vive hoje é um momento de profunda revolta e frustração com a orientação do governo, mas sobretudo do primeiro-ministro, em relação, por um lado, como referiu, à recuperação dos reféns, porque essa não tem sido a prioridade. A prioridade, incluindo do ponto de vista do discurso, ou seja, o que vem sempre em primeiro lugar no discurso de Netanyahu é a vitória sobre o Hamas e acabar com o Hamas e não a recuperação de reféns, vem sempre numa segunda linha. Aliás, as próprias operações militares o têm demonstrado. E é por isso, para os israelitas, e muito em particular para aqueles que têm uma sensibilidade maior em relação a esta causa dos reféns, é inaceitável que esta situação continue ao longo de 11 meses e que não consigam recuperar os seus familiares, os seus amigos e aqueles que estão numa situação terrível em Gaza. Aliás, a mesma situação terrível que se encontram todos os palestinianos em Gaza.

Já regressamos à conversa com Ana Santos Pinto, investigadora na área das Relações Internacionais e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na segunda parte, vamos tentar também perceber de que forma estes acontecimentos podem afetar as negociações de cessar-fogo. Estamos de regresso à conversa com Ana Santos Pinto. Estes novos desenvolvimentos surgem depois de semanas de negociações, tanto no Egito como no Qatar, com vista a um eventual cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Que consequências é que isto pode ter agora para este processo?

Eu creio que as negociações já não estavam num contexto favorável. Aliás, os avanços e recuos, as alterações que têm sido apresentadas, pelo menos publicamente, e em particular no caso do primeiro-ministro israelita, em relação àquilo que é inegociável ou àquilo que está disposto a ceder no contexto destas negociações, é de facto muito limitativo do que possa vir a ser um processo com sucesso neste caso. Nós estamos a falar de uma negociação que tem um papel muitíssimo ativo dos Estados Unidos Tem aquilo que podemos designar uma mediação do Catar e do Egito, embora tanto o Catar, mas particularmente o Egito, têm interesses próprios nesta questão. O Egito faz fronteira com Gaza e aquilo que temos ouvido falar do corredor de Filadélfia, que é uma zona na fronteira sul de Gaza e, portanto, perto do Egito, é fundamental.

E é uma das exigências de Netanyahu, certo? Da qual não abdica.

É uma das exigências de Netanyahu controlar e manter a presença militar com o controle nessa área, o que também o Egito sente alguma resistência, porque está no limite daquilo que é o acordo internacional, que foi há várias décadas definido, em que Israel tomaria as garantias de segurança, mas depois das retiradas em 2005, Israel deixou de ter tropas presentes nessa área e estaríamos novamente a voltar atrás naquilo que é um processo do ponto de vista internacional. Para além disso, as duas principais partes em negociação, ou potencialmente em negociação, o governo de Israel e o Hamas, não me parecem ter qualquer vontade de concluir com sucesso um acordo. O Hamas, porque o fazer acordos não está naquilo que são os seus objetivos estratégicos, nunca esteve, e em particular com a atual liderança de Sinwar, que não é um negociador, não é um político, é um militante e usa os instrumentos da violência política. E depois, no lado do governo, com Benjamin Netanyahu e os elementos da coligação, em que a existência de um acordo, não apenas para a recuperação de reféns, mas sobretudo no caso de um cessar-fogo, pode colocar em risco a continuidade deste governo, pelos elementos radicais que o compõem e nenhuma das partes tem um empenho significativo na conclusão deste processo com sucesso.

Mas, de resto, a posição do primeiro-ministro Netanyahu não é consensual dentro do próprio governo israelita, certo? O ministro da Defesa, não é?

Não é consensual, porque são dificuldades de consenso diferentes. Ou seja, há uma parte do governo, a parte mais extrema, mais radical, que, como eu dizia há pouco, tem como figura principal o Ben-Gvir, o ministro da Segurança Interna, mas também o ministro das Finanças, e essa parte mais extrema e radical nem sequer considera aceitável a negociação de um cessar-fogo. E, por outro lado, o ministro da Defesa, que defende essas negociações e assume que a recuperação dos reféns é absolutamente prioritária neste contexto. Portanto, dentro do governo também existem posições bastante diferentes e Netanyahu sabe que ao manter este governo, implica um processo de equilíbrio praticamente impossível. E também a sua própria posição como primeiro-ministro está permanentemente em risco e agora com estas manifestações, que aliás, não são novas, elas têm ocorrido ao longo dos últimos meses. De facto, é a primeira vez que neste contexto temos uma greve geral, mas nós temos tido milhares de israelitas nas ruas ao longo dos últimos meses, permanentemente em contestação ao governo.

Os Estados Unidos, que são o maior aliado de Israel, também já expressaram descontentamento com a resistência de Netanyahu em chegar a um acordo. Ainda esta terça-feira, o presidente Joe Biden afirmou que o primeiro-ministro israelita não está a fazer o suficiente para garantir um acordo que possa levar à libertação dos reféns.

De facto, Benjamin Netanyahu não tem ajudado aquele que é o principal objetivo da atual administração norte-americana, liderada por Joe Biden, para o Médio Oriente neste momento e que é, obviamente, um acordo, e um acordo que permita uma vitória, digamos assim, ou um elemento de sucesso para esta administração apresentar também nas eleições de novembro. Antony Blinken, o secretário de Estado norte-americano, tem feito inúmeras visitas ao Médio Oriente, não só a Israel, mas aos vários estados do Golfo, ao Egito, e tem colocado todas as suas energias neste processo. Os vários elementos da administração têm sempre reiterado que o acordo está iminente, mas a verdade é que Netanyahu não tem colocado os seus critérios de forma a serem cumpridos e muitas vezes até em algum conflito com a equipe negocial israelita, de acordo com aquilo que vem na imprensa israelita. E eu acho que é evidente que o governo e o primeiro-ministro israelita não estão a ajudar nesta tarefa, que os Estados Unidos querem, e em boa verdade, precisam cumprir o mais rapidamente possível. Mas é sempre importante salientar que o resultado deste processo negocial depende também do Hamas. O Hamas não está presente na mesa das negociações, está a fazer uma mediação à distância, mas acima de tudo, este processo de negociação para o cessar-fogo e para o resgate de reféns é absolutamente fundamental para a sobrevivência da população em Gaza. Eu sei que nós vemos diariamente as imagens, mas eu creio que é Para nós que estamos à distância, é incompreensível o contexto em que estas pessoas vivem. É certo que tivemos agora estas paragens para a vacinação da poliomielite, mas estamos a falar de episódios muitíssimo pontuais e o nível de sofrimento e de necessidade nesta dimensão humanitária é gritante e nem o Hamas, nem o governo israelita parecem sensíveis a essa questão.

Agora há também esta notícia de que o Reino Unido suspendeu parcialmente a venda de armas para Israel. É uma forma também de aumentar a pressão sobre o governo de Netanyahu?

Sim, é uma forma de pressionar, e até naquele que é o elemento mais sensível nesta altura para o governo israelita, que é a disponibilidade de capacidades militares. O governo do Reino Unido tomou esta decisão por considerar que algum do armamento que é transferido para Israel poderá ser utilizado em contrário ao direito internacional e, portanto, para utilizar perante civis e isso não é aceitável no contexto de guerra, mas é sobretudo um sinal de que a comunidade internacional e aliados próximos de Israel, como o Reino Unido tem sido ao longo de décadas, chegam a um limite daquilo que possa ser aceitável por parte do governo de Benjamin Netanyahu e desta forma colocam uma posição mais assertiva para pressionar o primeiro-ministro e o governo no sentido de acelerar o processo de negociação tendente ao cessar-fogo e à recuperação dos reféns.

Obrigado, Ana Santos Pinto.

Obrigada eu.

Ana Santos Pinto é investigadora na área das Relações Internacionais e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Esta foi a História do Dia. Neste episódio ouvimos ainda sons da BBC News e da CNN. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.