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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Montenegro tem margem para outro erro de casting?

Eu sou a responsável pela Administração Interna com toda a honra e sou, por isso, responsável pela Proteção Civil com muita honra.

Já não é. Maria Lúcia Amaral já não é a ministra da Administração Interna.

A senhora ministra entendeu que não tinha já condições, como diz o comunicado, pessoais e políticas para continuar em funções.

Foram 251 dias no cargo, pouco mais de oito meses, o suficiente para acumular pressão e episódios difíceis de apagar da memória política.

Eu quero explicar aos senhores jornalistas o seguinte: há muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade.

Durante grande parte do tempo foi invisível. Quando apareceu, muitas vezes foi para dizer o que não devia.

Perdão. Reconhece que houve falhas na gestão desta crise?

Longas esperas no aeroporto, incêndios sem rasto da ministra e agora a calamidade provocada pelo mau tempo. Maria Lúcia Amaral conseguiu o que parecia improvável: passar à frente da ministra da Saúde na lista das remodelações mais prováveis do governo de Luís Montenegro. E depois, na noite desta terça-feira, foi mesmo embora. A saída deixa várias perguntas no ar. Por que o primeiro-ministro apostou nela? Por que a manteve tanto tempo no cargo? E sobretudo, que lições tira Montenegro deste episódio? E depois há aqui mais uma: por que a Administração Interna parece ser, mandato após mandato, a pasta mais difícil de qualquer governo? É isso que vou tentar perceber com o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou o Pedro Benovites e esta é a história do dia de quinta-feira, 12 de fevereiro. Olá, Miguel.

Olá, Pedro.

Vamos lá a isto. Temos aqui muita coisa para conversar. Maria Lúcia Amaral é a primeira baixa deste governo de Luís Montenegro. Antes de irmos às razões, às causas e aos sucessores, deixa-me só aqui perguntar-te, porque provavelmente há muita gente que talvez não saiba isto, de onde é que veio Maria Lúcia Amaral?

É preciso encontrar a escolha de Maria Lúcia Amaral como sendo já uma segunda tentativa de Luís Montenegro de encontrar uma solução para a Administração Interna. A primeira ministra tinha sido Margarida Vasco, com uma ligação forte às polícias, e a escolha não correu bem, manifestamente. Margarida Vasco acabou por sair na passagem do primeiro para o segundo governo de Luís Montenegro e, portanto, Maria Lúcia Amaral foi escolhida essencialmente por se achar que tinha características que Margarida Vasco não tinha. Em teoria, teria mais experiência política, foi ex-provedora da Justiça e, sobretudo, foi antiga vice-presidente do Tribunal Constitucional. Portanto, partiu-se do princípio que teria um maior à vontade a lidar com os aspetos da comunicação e os aspetos políticos inerentes aos aspetos da comunicação. Só que, e antecipando a pergunta que me farás a seguir, a coisa não correu manifestamente bem. Desde muito cedo se percebeu que Maria Lúcia Amaral tinha dificuldades em representar trabalho, em pôr equipas a funcionar, a estar no terreno, a lidar com os vários agentes que estão direta ou indiretamente sob a sua tutela, e tinha, isso ficou à vista de todos, muitas dificuldades de comunicação.

Que, aliás, revelaram, eu diria, logo nos primeiros momentos de crise, que foram os dos incêndios do ano passado, não é?

Exatamente, aquele célebre episódio em que muito perto do final da conferência de imprensa, a ministra é escutada pelos microfones a dizer: "Vamos embora". Foi o primeiro sinal exterior de que as coisas não estavam a correr bem a Maria Lúcia Amaral.

Estou falando de uma conferência de imprensa em que ela não quis responder a perguntas.

E que já vinha na sequência de muitas ausências quando a sua presença era esperada, exigida, e esta crise associada às tempestades que se abateram sobre o país puseram a nu as evidentes fragilidades comunicacionais da ministra.

Por mais de uma vez, até.

Por mais de uma vez. Insisto só neste ponto, não eram apenas fragilidades comunicacionais, mesmo em termos de orientação de equipas e de tomada de decisão. Maria Lúcia Amaral, sendo muito reconhecida, e é e continua a sê-lo, pelos méritos académicos, pela forma como expunha as suas posições nos Conselhos de Ministro, por muito que lhe seja reconhecido esse mérito, era e é, de facto, uma pessoa muito reconhecida pelas suas capacidades técnicas. Na parte política, que conta muito quando se é ministro ou ministra, Maria Lúcia Amaral foi, para todos os efeitos, mais um erro de casting de Luís Montenegro.

E essa ideia existia dentro do governo. Já se sabia que esta ministra não tinha as características ideais para o cargo.

Sim, aqui entramos já numa fase de alguma informação e contrainformação. O que nós podemos dizer com alguma segurança é que a agora ex-ministra Maria Lúcia Amaral, já tinha pedido para sair do governo. Depois há aqui algumas dificuldades em situar esse pedido, esse momento. Terá sido já em dezembro, terá sido nas últimas semanas. Mas o que é certo e sabido é que A própria Maria Lúcia Amaral já tinha pedido a Luís Montenegro para deixar o cargo.

Então se ficou, foi porque o primeiro-ministro insistiu que ela ficasse.

Sim. O argumento que foi utilizado era de que este não era o momento mais oportuno para dispensar uma ministra da Administração Interna, apesar de tudo, o país ainda se encontra numa situação muito delicada. Luís Montenegro tentou segurá-la várias vezes, mesmo admitindo, e era partilhado por ambos, que Maria Lúcia Amaral tinha os dias contados no governo. Luís Montenegro esteve sempre à procura do melhor momento. Chegou a um ponto, e o ponto foi conhecido na terça-feira, em que Maria Lúcia Amaral alegou razões absolutamente incontornáveis para sair. O que nos dizem é que a agora ex-ministra, estava numa situação já limite de resistência física e anímica para ocupar o cargo e perante esses argumentos, Luís Montenegro percebeu que não tinha alternativa e que tinha mesmo de substituir a ministra.

Sendo que até do ponto de vista da opinião pública, era uma ministra já largamente fragilizada.

E qualquer decisão que tomasse estava sob grande escrutínio e portanto a ministra Maria Lúcia Amaral percebeu que era melhor para o governo e para ela própria deixar o cargo.

Já ficámos aqui a perceber que houve alguma resistência do primeiro-ministro, que tentou segurar esta ministra até ao limite do que foi possível. Eu daqui a pouco quero falar contigo sobre quem é que eventualmente está na cabeça de Luís Montenegro para substituir Maria Lúcia Amaral. E já agora, para falarmos também um bocadinho disto que é um lugar que basicamente não aguenta muita gente durante muito tempo. O que se passa com o lugar de Ministério da Administração Interna? Já regressamos à conversa, Miguel. Estamos de volta com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso. Miguel, neste momento nós não temos ministro da Administração Interna, é o primeiro-ministro que está a assegurar o lugar, mas eu presumo que esta situação não se vá prolongar durante muito tempo.

Não, a informação que temos neste momento é de que Luís Montenegro, perfeitamente alinhado com Marcelo Rebelo de Sousa, aliás, vai esperar que o país retome alguma normalidade para nomear um sucessor ou sucessora de Maria Lúcia Amaral. Não estão reunidas as condições para nomear um novo ministro ou ministra da Administração Interna, porque o país, como sabemos, está numa situação muito delicada. E portanto, quando for possível retomar alguma normalidade, então aí sim, Luís Montenegro apresentará um novo ministro.

E portanto, espera-se o quê? Uma coisa para este fim de semana, início da próxima semana, quando o tempo melhorar, por exemplo?

Sim, o tempo melhorar é o menor dos males neste momento, mas sim, de facto, enquanto o país continuar muito pressionado pela chuva torrencial e com todos os riscos que lhe estão associados, não é crível que Luís Montenegro apresente uma solução para o cargo. Portanto, estamos a falar de este fim de semana, próxima semana. Também há a consciência de que um primeiro-ministro não pode acumular a pasta da Administração Interna indefinidamente. É nesse equilíbrio que Luís Montenegro e Marcelo Rebelo de Sousa estão a tomar decisões.

E quem é que são os senhores ou as senhoras que se seguem? Há já nomes na cabeça do primeiro-ministro, há muitos rumores, isso seguramente.

Haverá nomes na cabeça do primeiro-ministro, mas isso é mesmo na cabeça do primeiro-ministro. Aliás, este primeiro-ministro e este governo em particular são quase neocavaquistas nesse capítulo. Informação muito fechada, pouca partilha de informação, mesmo internamente, quanto mais externamente. E portanto, as soluções que existem estarão na cabeça de Luís Montenegro. Apesar de tudo, há muitos rumores, sim. Há perfis que vão sendo traçados, há soluções que seriam mais lógicas do que outras. Não vamos maçar os nossos ouvintes com apostas, que são isso mesmo, são apostas, mas há uma certeza e uma convicção. O próximo titular da pasta da Administração Interna tem uma única oportunidade para deixar uma boa impressão. Já será o terceiro ministro ou ministra da Administração Interna de Luís Montenegro, não há margem para falhar e o primeiro-ministro está bem consciente disso mesmo, o que nos leva a admitir que a próxima solução seja uma solução conservadora neste sentido. Muitas vezes os chefes de governo vão buscar independentes, vão buscar acadêmicos.

Vão fazer experiência, às vezes.

Não há margem para fazer experiências.

Isso quer dizer o quê? É um perfil mais político agora?

Mais político, seguramente.

Experiente politicamente?

Parece-me evidente que sim, que Luís Montenegro, em teoria, vai afunilar a escolha. Pode optar por um antigo autarca, que tem, por ignorância dos cargos que ocupou, muito conhecimento do terreno, sabe lidar com a proteção civil, sabe pegar no telefone e ligar a outros autarcas vizinhos. Esse pode ser um tipo de perfil ou pode ser alguém politicamente muito experimentado, com muitos anos de rodagem e que saiba, por exemplo, falar com jornalistas.

Que foi uma das matérias onde a ministra claramente não esteve no seu melhor.

Desculpa, Pedro. Sobretudo alguém que, e isso é Muito importante neste momento que seja capaz de transmitir serenidade e confiança, que é uma coisa fundamental numa pasta como a Administração Interna.

Sem dúvida. Sendo que são características que parecem mais ou menos evidentes, o próprio perfil de quem é que poderia ser ministro da Administração Interna, pelo menos em teoria, é relativamente fácil de descrever. No entanto, aquilo que nós temos visto ao longo dos anos é uma série de ministros, uns mais acadêmicos, uns mais dentro da área, outros com experiência política alargada, e quase todos eles têm falhado. Por que isso acontece?

Primeiro, porque é uma pasta muito exigente, com uma grande amplitude de movimentos e de dossiês a tratar. À cabeça, a questão dos incêndios, que infelizmente todos os anos é uma chaga que se coloca no período de verão. Agora, e é uma relativa novidade, pelo menos para os tempos mais recentes, a questão das inundações, das tempestades. Mas há também, ou houve no passado, a questão da imigração que agora está sob a alçada do ministro da Presidência, mas que no passado esteve mais na dependência do Ministério da Administração Interna. Portanto, são muitos dossiês e todos eles muito sensíveis. E depois as escolhas quando são feitas, obedecem uma lógica. Estou a pensar, por exemplo, em Constança Urbano de Sousa. Quando foi escolhida por António Costa, era numa lógica de ser alguém muito habituada a tratar da questão das migrações. Lembramo-nos que em 2017 Portugal enfrentou a pior vaga de incêndios, pelo menos a mais mortal de que há memória. Portanto, Constança Urbano de Sousa foi apanhada num ambiente e perante uma realidade que não era a dela e para a qual não estava preparada. Eduardo Cabrita foi uma escolha de António Costa que obedecia àquele critério que nós dizíamos-

Da experiência política

...da experiência política, alguém amigo pessoal próximo de António Costa, portanto, da inteira confiança do primeiro-ministro. Isso somou vários casos muito delicados e acabou por sair até numa circunstância em que não foi da exclusiva responsabilidade própria, nem sequer foi da responsabilidade do próprio. E depois chegou José Luís Carneiro, mais uma vez experiência política, é ex-autarca, capaz de pegar no telefone, fazer o trabalho de formiga e falar com vários agentes do sector. E as coisas correram relativamente bem, mas também não houve muito tempo para testar. Ainda que, se quisermos, e para não fazer pré-história política, a instituição do SEF tenha sido um processo que acompanhou quer Eduardo Cabrita, quer José Luís Carneiro.

Deixou ali marcas que não foram as melhores, pelo menos problemas que ainda não estão inteiramente resolvidos.

E uma nota só sobre Margarida Blasco. Tinha uma longa carreira no IGAI, foi escolhida a pensar em lidar com as polícias. As polícias que, se todos nos recordarmos, protagonizaram um momento particularmente tenso no debate entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro. Havia a ideia de que era preciso pôr alguma ordem na casa. Margarida Blasco obedecia mais ou menos esse perfil e depois também não correu bem, sobretudo no aspeto comunicacional e foi mais uma vítima deste Ministério da Administração Interna muito difícil de gerir.

Vamos ver quem é que vai ser a próxima escolha e como é que vai ser o legado da pessoa que assumir o cargo no Ministério da Administração Interna. Miguel, obrigado.

Obrigado, Pedro.

O Miguel Santos Carrapatoso é editor adjunto de política d'O Observador. Esta quinta-feira vai acontecer o primeiro Conselho de Ministros, já sem a presença de Maria Lúcia Amaral. No próximo, talvez já haja novo ou nova ministra. Os líderes da União Europeia vão entrar hoje em retiro, a convite de António Costa. É um retiro informal em Bilzen, na Bélgica, para debaterem o reforço do mercado único, a redução das dependências económicas e impulsionar a competitividade da União Europeia no atual contexto geoeconómico. E hoje é também o dia em que começa o Festival Internacional de Cinema de Berlim. É a edição 76 e dizem os entendidos que tem um cartaz menos polémico do que noutros anos e que isso pode querer dizer qualquer coisa. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro, eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.