Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Subimos o rio Amazonas.
Dois terços de todo o território brasileiro permanecem com vegetação nativa, que se encontra exatamente como estava quando o Brasil foi descoberto em 1500.
Há menos de um mês, Jair Bolsonaro fazia este ponto de situação na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Só no mês de setembro deste ano, arderam mais de 1450 km² de floresta amazônica, isto segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil. Estes mais de 1450 km² são quase a área da cidade de São Paulo e mais de 14 vezes a área da cidade de Lisboa em apenas um mês. Apesar de anos e anos de promessas, a floresta amazônica, o pulmão do planeta, tem sido devastada e as populações indígenas são empurradas para perto das grandes cidades. A floresta e as populações indígenas estão a perder terreno para o cimento e para os garimpeiros. Neste episódio, subimos o rio Amazonas, onde estiveram os enviados especiais do Observador ao Brasil, João Porfírio e Carlos Diogo Santos. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Carlos.
Olá, Ricardo.
Carlos, este som que estamos a ouvir é de onde? De onde é que vem?
Este som é o som da entrada da aldeia do povo Sateré, junto ao rio Ariaú. Esta não é uma aldeia originária deste povo. Ela foi criada há uns anos, quando um grande hotel decidiu implantar-se nas proximidades deste rio, que fica muito próximo do município de Manaus, a capital do estado do Amazonas. Nessa altura, o projeto grandioso deste hotel, que queria ser o maior hotel de selva, chamou indígenas para fazerem espetáculos para os turistas. Mas o hotel já não existe. Aliás, foi até já absorvido pela natureza, ele era grande parte feito de madeira, e os indígenas que por lá trabalharam acabaram por ficar e se fixar ali nas margens do rio.
Ou seja, estás na região do grande rio Amazonas e conseguiste, aí no Brasil, testemunhar como é a vida dos índios brasileiros?
Sim, exatamente. Nós fizemos aqui uma viagem pela Amazônia. Passamos pelas margens de vários rios, um deles o Amazonas, como referias, mas também o Rio Negro e o Solimões, para conhecer melhor alguns dos povos que para aqui vieram, deixando as suas terras indígenas originais, em momentos muito diferentes, com objetivos muito diferentes. Só coincide na parte de virem à procura de melhores condições de vida do que aquelas que tinham nos locais originários. Existe de tudo, existe entre os que vivem de uma forma mais natural, portanto, com as malocas típicas, as casas de palha, e aqueles que, entretanto, e por já estarem mais próximo de uma grande cidade, como Manaus, acabam por ter já casas de tijolos, ainda que muito precárias. Portanto, há uma diversidade destas aldeias indígenas que ficam já dentro da Amazônia, mas relativamente próximas de um grande centro urbano, neste caso, Manaus.
Carlos, e aqui não temos bem a noção do que é essa realidade. Nós estamos a falar de quantas tribos indígenas no Brasil? Quantas pessoas, quantos dialetos ou sequer quantas línguas?
É uma realidade muito complexa. Basta dizer que em todos os estados há indígenas e o Brasil tem, segundo os dados mais atuais, que já estão muito desatualizados, são de 2010. É aliás interessante que os censos estão a ser feitos agora 2022 e no final do ano poderemos ter dados mais atualizados. Mas aquilo que se sabe, aquilo que é tido ainda como oficial, é que os povos indígenas compõem 305 etnias, falam um total de 274 línguas e no total são aproximadamente 897 mil pessoas. E como eu dizia no início, estão presentes em todos os estados. Se pensarmos que todos eles possuem uma cultura própria, de fato é uma grande multiculturalidade dentro das populações indígenas aqui no Brasil inteiro e na Amazônia, particularmente.
Mas são números ainda de 2010, não é? Como estavas a explicar.
Exatamente, porque os censos 2022 estão a ser feitos agora e os resultados serão conhecidos nos próximos meses.
E na zona do Grande Amazonas, estiveste com que tribos?
Sobretudo com os Apurinã, que são indígenas que vêm do Rio Purus, também com os Yukuru e com os Sateré. Como eu disse, nenhum deles está na sua localização originária, estão em localizações que outrora foram de outros povos, mas os povos com quem nós estivemos agora são estes, que têm agora aldeias nesta região. Agora, quanto tempo, por exemplo, você não vai a Manaus?
Vai fazer um ano, acho que já.
E é bem aí. Nós vamos caçar aqui na outra margem do rio. Vende também negócio de rancho, açúcar, café, tudo vende aí.
E como estavas a explicar, vivem nessas aldeias, vão muitas vezes à cidade grande da região, que é Manaus.
Claro que as pessoas que vivem nestas aldeias, os indígenas que aqui vivem e que estão a uma hora, a 40 minutos de barco de Manaus, vão com alguma regularidade à cidade, mas essa regularidade é ainda assim muito espaçada. E como nos disse aqui este jovem de 20 anos, o Nazareno, de fato, as pessoas passam muitas vezes um ano sem ir a uma cidade grande, até porque alguns dos produtos da cidade acabam por ser levados por pessoas que fazem negócio para junto das aldeias. Portanto, há de fato períodos muito longos em que as pessoas das aldeias não vão à cidade. Obviamente que uma vez por ano, uma vez de dois em dois anos, alguns casos, uma vez por mês, porque em algumas aldeias os indígenas recebem apoios do Estado e, portanto, quando recebem esse apoio, têm de se deslocar à cidade, mas é quase sempre por necessidade.
Carlos, e não deixa de ser paradoxal, interessante, que este rapaz que estávamos a ouvir, que é indígena, se chame Nazareno.
É verdade, esse é um nome português e católico, mas é também importante realçar aqui uma coisa, que além deste nome de registro civil, digamos assim, todos os indígenas têm também um nome indígena, ou seja, Nazareno há de ter também, e tem naturalmente, o seu nome indígena, o nome pelo qual é conhecido na sua aldeia. Além disso, Nazareno tem como último nome Yukuru, que é o nome do seu povo. Portanto, ele apresenta-se como Nazareno Yukuru, é o nome em português, fazendo ressalva ao nome da tribo, do povo dele, mas ele além disso tem também um primeiro nome na língua indígena e pelo qual é conhecido na aldeia.
E essas crianças indígenas vão à escola regular, sabemos dizer assim?
Sim, também aqui temos vários modelos. Há alguns povos, como por exemplo os Sateré, onde dentro da própria aldeia existe um espaço que é uma espécie de escola improvisada, em que um dos elementos da aldeia, neste caso dos Sateré, é a própria cacique que dá aulas aos mais novos. Mas estamos a falar de aulas de aprender as letras e de juntar algumas palavras, não mais que isto. E depois temos casos de aldeias, como acontece com os Apurinã e com os Yukuru, em que as crianças vão a uma escola do Ministério da Educação brasileiro, em que seguem os conteúdos programáticos de qualquer aluno e em que os professores não indígenas seguem também eles, portanto, todo o processo de seleção. Alguns deles vivem em regiões muito próximas e como são regiões ribeirinhas, é muito interessante também o transporte, porque tanto as crianças como os professores chegam de barco.
Já voltamos à conversa com o jornalista Carlos Diogo Santos. Vamos falar sobre a forma como os índios no Brasil estão a ser empurrados para fora dos seus terrenos ancestrais.
Sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica, mas é mais do que isso. Leva-nos mais longe do que imaginamos. Encontra no silêncio o ritmo perfeito. Faz-nos olhar duas vezes, se formos suficientemente rápidos. Por isso, sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica e entre outras coisas fantásticas, apoia esta história do dia. Audi, o futuro é uma atitude.
Estamos de regresso à conversa com o Carlos Diogo Santos. É um dos enviados especiais d'O Observador ao Brasil, no âmbito da cobertura das eleições presidenciais brasileiras. Já percebemos, Carlos, que os índios brasileiros estão quase que confinados a aldeias. E temos a ideia de que há uma diminuição das áreas, por exemplo, de caça e de pesca, mas sobretudo de caça. Isto tem a ver com a desflorestação da Amazônia?
Eu acho que mudou em termos de que antes não era assim, não era muito desmatado como está hoje. Era mais fechado.
Tem tudo a ver com isso. Obviamente que aquilo que nós percebemos é que para onde quer que um indígena fuja, ele vai sempre encontrar problemas. Mas se focarmos nas terras originárias, de onde eles são naturais, de fato, por mais que haja demarcação de territórios indígenas em vários pontos do Brasil, não só na Amazônia, mas na Amazônia isso é muito claro, o certo é que há constantes invasões desses terrenos, muitos deles já demarcados, portanto, oficialmente reconhecidos como terras indígenas e onde não se pode fazer exploração de minério ou de qualquer outro recurso. E o certo é que constantemente há exploração de ouro, o garimpo ilegal, como se fala aqui, madeireiros, mesmo desmatamento para agronegócio. E isso são realidades que, de fato, como dizias, acabam por reduzir o espaço Dos indígenas, mas também ter reflexos na forma como eles poderiam viver, porque ficam com menos caça, os rios ficam poluídos, nomeadamente com a extração do ouro. Portanto, tudo está ligado com a desflorestação.
Porque isso, Carlos, é o outro problema. Quer dizer, não estamos a falar apenas da madeira, há também uma espécie de corrida ao ouro.
Exatamente, há uma grande corrida ao ouro. Esse é, aliás, um problema aqui no Brasil, tem até marcado a campanha presidencial, porque o atual presidente até se tem mostrado a favor de uma regularização do garimpo, da exploração do ouro dentro das terras demarcadas. Portanto, é um assunto muito importante e que está na ordem do dia aqui.
Aí vem a que chama fofoca. Quando você acha, todo mundo encosta do lado aqui, vai te expulsando e dá até bala.
Estamos a ouvir aqui um garimpeiro. Quem é este homem?
Sim, Alan é um homem que durante muitos anos foi garimpeiro. Ele explorava o ouro em regiões da Amazônia, em algumas áreas demarcadas. Eu e o João consideramos que era relevante ouvir também este lado, contar esta parte da história. E é muito interessante perceber como este garimpeiro, falando conosco, dando a cara, assume que aquele mundo que viveu é um mundo do crime, onde mesmo entre garimpeiros, colegas na exploração do ouro, se alguém descobre uma região mais rica em ouro, donde pode ser feita uma exploração mais intensiva, e se um colega sabe, pode mesmo haver tiros, pode haver violência muito grave entre estes homens. E, portanto, se estamos a falar entre garimpeiros, entre homens brancos, quanto mais se for a população indígena a revoltar-se contra a presença destas pessoas no seu espaço. Portanto, é muito interessante ver como o Alan descreve a realidade destas pessoas armadas e que acabam por viver na ilegalidade. E destaco aqui uma coisa, que é: ele no final da conversa dizia-nos que esperava em breve poder voltar a vida de garimpeiro. Portanto, temos aqui esta questão entre pessoas que precisam também de dinheiro pra sobreviver, se habituaram à exploração ilegal e que vivem num mundo sem leis.
E isto é tema de campanha eleitoral. Há diversas acusações de permissividade por parte do presidente Bolsonaro em relação à desflorestação na Amazônia, por exemplo.
Sim, eu aliás, antecipei ali um pouco quando fiz uma referência a isso. Totalmente. O atual presidente tem se mostrado muito favorável, como eu fazia referência, à ideia de permitir que dentro da terra indígena, da terra demarcada como sendo área para os indígenas, se pudesse explorar o ouro. E o que é interessante é que dentro das aldeias onde nós passamos, a bipolarização política do país é assumida. As populações indígenas têm uma posição, na maioria das vezes. Porque há uma realidade junto a algumas aldeias de igrejas evangélicas que se foram fixando. E mesmo quando isso acontece, mesmo quando há alguma indicação de algum pastor pra votarem em A ou em B, é muito interessante como os indígenas não estão desligados do mundo real e têm a sua posição e muitos deles dizem: "Não, eu não vou seguir. Podem dizer que eu vou pro inferno se eu não voto neste ou naquele. Eu vou fazer isto porque isto é o melhor pra nós, é o melhor para o respeito da demarcação das nossas terras". Portanto, é muito interessante perceber como mesmo dentro das aldeias, este assunto, que é um assunto político, está na ordem do dia, é muito acompanhado.
E as populações indígenas também são permeáveis a outros fenômenos, como, por exemplo, a toxicodependência e o alcoolismo, não é?
Sim, sobretudo aquelas aldeias que eu falava ainda há pouco, que estão às portas da cidade. Portanto, estes fenômenos e o que o homem branco pode levar pra dentro é sempre um receio dentro destas aldeias.
Eu fui pra cidade com uma branca, ela me levou pra eu estudar e eu fui ser doméstica pra ela também.
E há também relatos, como ouvimos aqui, de aproveitamento dessas fragilidades. Carlos, quem é esta mulher que estávamos a ouvir?
Sim, esta mulher é Telma Taurepang. Ela faz parte do povo Taurepang, hoje em dia é uma ativista, ela faz parte de vários movimentos, tem como bandeira a defesa dos direitos da mulher indígena. Já foi candidata a deputada, é uma pessoa com alguma influência, mas que conta ao observador aqui como é que ela própria, em criança, foi vítima desse aproveitamento e como é que a tradição acaba por expulsar, por não querer seguir um casamento arranjado, e acabou entregue a uma família de brancos pra trabalhar e não recebia nada por isso.
Carlos, se pudéssemos resumir esta vossa viagem, tua, Carlos Diego Santos e do João Porfírio, à Amazônia, dirias que Encontraste populações indígenas fragilizadas por uma pressão da vida moderna, daquilo que é a vida ocidental, como a vivemos, e pouca preocupação em preservar essa riqueza cultural e natural. É isso?
Sem dúvida. É uma pressão que muitos indígenas acabam eles próprios por colocar sobre si, sobretudo quando se predispõem a aproximar-se da cidade em busca de melhores condições de vida. O problema é que essa aproximação acaba por ser uma viagem sem retorno, porque cria a dependência, expõe-nos a situações que apagam a sua cultura. Eu falava ainda há pouco das igrejas evangélicas que estão a proliferar junto a algumas aldeias. E portanto, se por um lado, há uma aparência de melhores condições de vida mais próximos da cidade, em terras mais próximas da cidade, por outro, essa é, como eu dizia, uma viagem sem retorno e que acaba por subverter crenças e a cultura dos indígenas.
Obrigado, Carlos.
Obrigado.
Carlos Diogo Santos e João Porfírio são os enviados especiais do Observador ao Brasil, em plena campanha eleitoral. A segunda volta das eleições está marcada para 30 de outubro. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã. Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron