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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O fundador da Mango foi assassinado pelo próprio filho?
"Soy Isaac Andic. Yo he nacido en una gran ciudad."
Estamos a ouvir Isaac Andic, o fundador da Mango. Ele fala num curto documentário sobre a sua própria vida, publicado nas redes sociais da empresa que fundou, no dia em que morreu.
"Con qué ADN naces. Si naces con salud o no. Luego, según tu ADN, pues tú quieres ser cabeza de ratón o cola de león."
É curioso que Isaac Andic fale de ADN, porque aquilo que aconteceu no dia 14 de dezembro de 2024, pode não ter sido um acidente, afinal. Pode ter sido precisamente uma questão de ADN.
"En un principio se habló de accidente, pero los investigadores empezaron a sospechar, meses después, que el hijo pudo tener algo que ver. Hoy, los Mossos..."
Eu vou falar hoje com o Martim Andrade, jornalista da editoria de sociedade do Observador, para percebermos as chaves deste mistério, que é um thriller familiar, uma guerra de sucessão num império bilionário e que tem como principal protagonista um herdeiro que passa de sucessor natural a principal suspeito. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 20 de maio. Olá, Martim, bem-vindo.
Olá, Pedro, tudo bem?
Para quem gosta de crimes, de tensão familiar e drama, esta história tem tudo. Tem uma dinastia bilionária, tem um acidente que afinal é um crime, tem uma questão de sucessão, herdeiros que não se entendem. Já lá vamos a todos esses pormenores, para já vamos começar pelo princípio, que é o dia 14 de dezembro de 2024. O que acontece nesse dia?
Nesse dia, pai e filho, Isaac Andic e Jonathan Andic, conduzem até um parque de estacionamento de um trilho famoso ali na zona de Barcelona, com o objetivo de fazer algo que eles já estão habituados a fazer, que é uma caminhada. Tinham o equipamento preparado, era só um fim de semana normal para eles. Eles fizeram o trilho, subiram até a um mirador que é famosíssimo em Barcelona, mas foi no regresso que, do nada, segundo o relato do filho, ouviu o som de pedras a mexer, olhou para trás e viu o pai a cair 150 metros de altitude.
Em direção à morte.
Em direção à morte, exatamente.
O que aconteceu foi que no dia 14 de dezembro de 2024, o dono fundador da Mango e o seu filho foram fazer uma caminhada que estavam habituados a fazer, uma coisa normalíssima, e nesse dia acontece aquilo que se imaginava que fosse um acidente, e o pai cai e morre.
Exatamente.
É isso que a polícia começa a investigar originalmente, é essa a hipótese do acidente?
Sim, logo no início, a polícia foi rápida a interrogar o filho, porque foi a única pessoa que viu aquilo a acontecer e, portanto, recolheu logo o testemunho do Jonathan. Nessa altura, o testemunho não foi bem consistente com a realidade, com algumas das informações que a polícia já tinha acesso naquele momento, mas deveram essas inconsistências ao facto de ele estar possivelmente traumatizado com aquilo que acabara de acontecer. Mas fora isso, olharam para os factos e não tiveram qualquer tipo de suspeita de crime. Fizeram uma autópsia e não registaram ferimentos associados a empurrões ou qualquer tipo de incidente que tivesse acontecido antes da queda.
E, portanto, tirando aí alguma discrepância que se podia dever a algum trauma de ter visto o pai a cair em direção à morte, basicamente, a polícia acreditava que tudo indicava que isso podia ser um acidente.
Exatamente.
Mas essa tese acabou por mudar.
Sim. A tese acabou por mudar, sim e não, porque o caso acabou por ficar fechado periodicamente em janeiro. Aquilo aconteceu dia 14 de dezembro. Final de janeiro, o caso fechou, mas voltou a abrir em março, apesar de nunca ter estado bem fechado, porque eles queriam continuar a investigar oficialmente, porque queriam ter a certeza que de facto se tratava de um acidente e apesar de não terem provas que indicassem o contrário, também não tinham provas que tivessem 100% de certeza que se tivesse tratado de um acidente. E portanto, ao longo do ano continuaram a recolher testemunhos, principalmente do Jonathan, do filho, e pelo facto de os testemunhos continuarem a ser um bocado contraditórios, por exemplo, há uma notícia em que eles relatam que o Jonathan se esquece onde é que tinha estacionado o carro, que é um detalhe que é talvez importante e definia um pouco a rota que ele inicialmente tinha descrito à polícia, que fizeram no dia do trilho. Alguns desses detalhes nos interrogatórios começaram a parecer suspeitos para a polícia e, portanto, continuaram a aprofundar a investigação, até que em outubro deste ano, de 2025, decidiram mesmo recolher ou apreender o telefone de Jonathan, para analisá-lo, para ver se conseguiam descobrir mais pistas, e aí classificaram-no oficialmente como suspeito de um potencial caso de homicídio.
Ou seja, depois de terem confiscado o telefone do filho do fundador da Mango, foi aí que começaram a ter uma certeza mais sólida de que ele seria o suspeito e que aquilo que se tinha passado não era um acidente e podia ser um homicídio. Portanto, a partir de outubro de 2025Jonathan passa a ser suspeito.
Foi uma mistura de duas coisas. Foi o facto de eles eventualmente terem tido indícios suficientes para começar a procurar no telefone dele, ou seja, começaram a ter pistas.
Narrativas que podiam não bater certo no depoimento dele.
Exatamente. E também depoimentos de familiares, porque a certa altura largaram Jonathan durante um segundo e começaram a ouvir a família, ou seja, a mulher do Isaac Andic, o fundador da Mango, e as irmãs, e também outros associados da empresa, para saber como é que era a relação dos dois, porque a única outra pessoa que podia estar por detrás daquele incidente era o filho. Portanto, era importante perceber qual era a relação dos dois, para saber se possivelmente se trataria ou não de um homicídio. E neste testemunho falaram com a mulher de há seis anos do fundador da Mango.
Que não era a mãe.
Que não era a mãe deles, exatamente. Que relatou uma história que talvez mostrasse que a relação deles era um pouco conturbada. Falou do fato de a certa altura, em 2014, Isaac Andic ter passado a empresa para o filho, mas depois, passado quatro anos de muitas críticas à má gestão da empresa, de prejuízos históricos da Mango, que até chegaram a pensar em vender a empresa porque aquilo estava a correr muito mal financeiramente, que a relação de fato ficou deteriorada a partir daí.
E agora, o que o pai fez nessa altura, quando ele passou a empresa para o filho, que era o seu sucessor, o filho mais velho. Acontece muitas vezes em empresas familiares, e a Mango era uma empresa familiar. E ele passa para o filho. O filho continua o responsável pelos negócios?
Não, o filho esteve entre 2014 e 2018. Em 2018, o pai voltou ao ativo, portanto, o pai tinha saído para dar o controlo total ao filho.
E depois achou que tinha de voltar.
Exatamente, como ele estava a correr mal, voltou, tirou o filho da gestão da empresa, colocou um outro associado, e o filho depois tirou um papel secundário da empresa.
E, portanto, segundo alguns testemunhos que foram recolhidos pela polícia, esse foi o momento em que a relação entre pai e filho mais velho começou a azedar.
Sim, terá sido a história mais marcante que possam ter pensado para descrever a relação deles naquele momento.
E portanto, ele em outubro começa a ser investigado como suspeito do homicídio. Por que só é detido nesta terça-feira?
Porque entre outubro e agora maio, a polícia teve a continuar a fazer diligências, a ir ao local do crime frequentemente, o local do crime, do acidente, a analisar o telefone, comparar os dados com o telefone que encontraram do Isaac, do fundador da Mango, no local também onde caiu. Descobriram também algumas discrepâncias entre os relatos do filho para a geolocalização dos telefones, ou seja, mostraram que havia ali uma diferença no percurso que o filho tinha dito que tinham feito e o que os telefones mostravam. E, portanto, foi reunir provas, no fundo, para ter assim uma smoking gun para agora começar a abordá-lo nesta parte da investigação.
Porque imagino que também, de ter, ainda por cima as imagens que passaram na televisão do filho algemado. Estamos a falar de uma das famílias, senão a família mais rica da Catalunha, e portanto, operações deste gênero, imagino que requeiram todos os cuidados e mais alguns. Agora, a dúvida é perceber por que o filho poderia eventualmente ter motivos para querer matar o pai. Claro, temos aqui um contexto de uma empresa multimilionária, temos aqui uma família, temos aqui questões de sucessão. Era isso que estava aqui em jogo, é isso que a polícia acredita que possa ter sido o motivo.
Sim. Aliás, hoje, poucas horas depois do depoimento do filho do fundador da Mango, a juíza veio dizer em público que os motivos que possam estar a levar, que eles pensam que isso possa ter sido tudo um ato premeditado, tem tudo a ver com dinheiro. Que menciona uma alegada obsessão com dinheiro que o filho tem, o fato de ele estar a pensar que o pai poderia fazer uma alteração à herança para tirar dinheiro que ele poderia vir a receber para dar a uma instituição de solidariedade social, por exemplo.
Há muitos casos assim, ou seja, de multimilionários, bilionários, que basicamente dão grande parte da sua fortuna a fundações, a associações, até a obras que eles próprios criam, e os filhos acabam por ficar com uma percentagem reduzida, relativamente reduzida, dessa fortuna. E portanto, supostamente, o filho estaria com medo que o pai quisesse ou estivesse a planear fazer uma coisa parecida.
Exato, sim. Pelo que a juíza disse, podem ser alguns motivos que possam ter levado, hipoteticamente, a que o filho empurrasse ou causasse a morte do pai naquele dia.
E em termos familiares, o que é que se sabe hoje das relações entre os vários elementos da família, nomeadamente porque temos aqui também uma pessoa que não é familiar direta, que é mulher do pai e que não é a mãe dos filhos. Como é que eles se relacionavam exclusivamente?
A relação entre filhos não é muito discutida publicamente, não há muita informação sobre isso, mas aqui recentemente, desde a morte do fundador da Mango, surgiram assim os relatos de uma disputa familiar entre a mulher do Isaac Andic e os filhos, relativamente à herança, porque na herança mencionava que a mulher tinha direito a cinco milhões do patrimônio do marido, enquanto os filhos teriam à volta de uma grande quantidade de dinheiro.
Muitos milhões.
Muitos milhões.
É custa a dizer, não é?
É, muitos milhões. E, portanto, houve ali uma disputa legal, ou melhor, eles tentaram com que aquilo não chegasse a tribunalAs equipas legais de cada um dos lados tentaram resolver o problema de forma amigável.
Mas houve ali um conflito.
Mas houve ali um conflito. Eventualmente chegaram a um acordo depois do filho mais velho ter sido considerado oficialmente suspeito de homicídio e conseguiram igualar as partes para a viúva, neste caso, ter recebido €30 milhões do patrimônio. Passou de cinco para 30.
E, portanto, a coisa resolveu-se discretamente, houve um conflito relativamente discreto, foi resolvido discretamente e a verdade é que, até ver, a família, mesmo com este escândalo a acontecer perante as câmaras de televisão, publicamente tem-se mantido unida.
Sim, até hoje de manhã, quando saiu a notícia da detenção do filho mais velho, foi instantânea a reação da família a dizer que estavam do lado do filho, que não havia provas que indicassem qualquer tipo de crime e que a justiça eventualmente ia provar a inocência de Jonathan, Anic.
Vamos ver se é isso que acontece, se este caso tem ainda muito caminho para fazer. Martim, obrigado.
Obrigado.
Eu falei com o jornalista do Observador, Martim Andrade, que nos dava conta dos últimos desenvolvimentos deste caso, que ainda vai fazer correr muita tinta. Ontem, Jonathan Anic foi ouvido em tribunal e ficou em liberdade depois de pagar uma caução de €1 milhão, mas está sob supervisão judicial, sem passaporte e obrigado a apresentar-se todas as semanas ao tribunal. A família quebrou o silêncio no dia da detenção para dizer que não há provas contra Jonathan e que está unida na convicção de que ele é absolutamente inocente, mesmo que a polícia acredite que não houve nada de acidental naquilo que se passou. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.