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Edição "Dúvidas" de Português Suave com Marco Neves. Marco, bem-vindo mais uma vez.
Olá.
Vamos esclarecer mais umas dúvidas dos nossos ouvintes que foram espertos e mandaram e-mails e mensagens. 28 de outubro, edição de quarta-feira.
Estou a brincar, porque quem ouviu o último episódio sabe que nós fizemos uma brincadeira com a data. E se não sabe que brincadeira foi essa, vá ouvir o episódio.
Exatamente. Tem de ir ouvir e perceber esta inside joke, podemos dizer.
Exatamente.
É o nosso último episódio de outubro, o nosso episódio de dúvidas. O que é que nos trazes para este último especial?
Antes de já começar o último episódio, eu não sei se já reparaste, porque na altura que falámos disto não estavas aqui no Português Suave. Os últimos meses do ano têm uma característica curiosa que é: nós dizemos setembro, que é o mês sete; outubro, que é o mês oito; novembro, que é o mês nove; e dezembro, que é o mês 10, não nove. Não sei se já reparaste. No entanto, os meses não são esses números. O mês sete não é setembro, o mês oito, outubro. O que acontece é que estes nomes têm origem num calendário muito antigo, um calendário romano, que tinha 10 meses e que começava em março, em que o mês sete era setembro, o mês oito era outubro, o mês nove era novembro e o mês 10 era dezembro. E esses nomes ficaram cristalizados na língua desde então, já há muitos séculos.
Curioso.
E até hoje mantêm esta espécie de fóssil de um calendário muito antigo.
É especial dúvidas e mesmo assim temos direito a mais uns esclarecimentos. Isto é um bônus.
É o último de outubro.
Exatamente. Vamos lá à nossa primeira dúvida.
A dúvida vem das redes sociais, porque eu fiz um pedido no Instagram para que as pessoas me enviassem dúvidas. Este episódio é diferente nesse aspecto, mas continuem a enviar para o telefone e para o e-mail. Mas a primeira dúvida vem do Santiago Silva, que penso que é galego pela morada do seu Instagram. "Existe alguma palavra similar ao 'xin" dos galegos?" Porque os galegos usam "xin" para dizer depressa. E há em português, aliás, nós se lermos Gil Vicente, vamos encontrar a palavra "azinha", que é uma palavra antiga, portuguesa, tradicional, mas que se foi perdendo. Hoje, penso que poucas vezes dizemos "azinha" para significar depressa. Imagina, alguém está num sítio à espera de alguém e telefona: "Vem azinha." Penso que nenhum português faz isso. Digo eu. Pode haver alguma região em que isso acontece.
Vai na volta, estamos aqui a dizer que não e há alguém que faz.
E há alguém. Portanto, fica aqui a pergunta se alguém conhece, se alguém usa. Mas a resposta ao Santiago é mesmo: existe uma palavra similar ao "xin" que é "azinha", em português, e é uma palavra antiga. Depois temos outra dúvida.
Já agora, Marco, antes de continuarmos, aqui estamos a ir até à Galiza e nós já no episódio passado também fomos até lá.
É verdade. Mais uma vez, quem não ouviu o episódio 1, pode ir ouvir.
Era isso mesmo que eu ia dizer. Temos mais um sinal para irem ouvir o episódio passado.
Fomos à Galiza e Angola. Podemos quase dizer que a Galiza representa o passado da língua, embora seja o presente também, porque as pessoas continuam a falar, claro, e Angola representa o futuro, porque cada vez há mais falantes de português.
Sem dúvida. Vamos lá à outra dúvida.
Vamos ao Daniel Martins, que me pergunta algo muito curioso, que é: "D. Afonso Henriques conseguiria perceber o nosso português e vice-versa?" É difícil responder isto. Eu acho que tenho uma resposta clara, é que se ele aterrasse agora, vindo do passado, aqui no meio de Lisboa, além do enorme susto que iria apanhar.
Com carros e tudo.
Sim, os carros a apitar, para ele seria muito estranho, mas depois de passar o susto, iria ouvir alguém a falar e não iria perceber nada. Nos primeiros momentos, nada. A pronúncia é muito diferente. Nós temos algumas indicações de como é que era a pronúncia na altura. Ele não estaria habituado, nós também não estaríamos habituados a ele, mas seria uma experiência parecida com ouvir uma língua latina relativamente próxima. Por exemplo, uma pessoa que nunca ouviu italiano, hoje ouviria italiano e não iria perceber quase nada no início, mas depois, com alguma habituação, iria perceber com mais facilidade. E eu até diria que depois a facilidade até seria maior que a do italiano, porque o português de Afonso Henriques está mais próximo do nosso português do que o italiano.
Claro.
E também diria que ele não iria chamar português à língua, não era o nome que se usava na época. O nome na época seria algo como linguagem. Se alguém lhe perguntasse: "O que é que estás a falar?" Ele diria: "Estou a falar linguagem", com outro sotaque muito diferente. Portanto, a resposta aqui é mesmo, nós não iríamos perceber durante algumas horas, mas depois com algum tempo, com habituação, lá iríamos conseguir entender. Provavelmente, nós iríamos ter um pouco menos de dificuldade a ouvi-lo e a percebê-lo do que o contrário, porque nós também estivemos na escola, aprendemos alguma coisa sobre cantigas de amigo e de maldizer. Temos algumas luzes sobre o português da época, algumas, não muitas.
Estamos em vantagem.
Estamos em vantagem em relação ao Afonso Henriques. Nós também sabemos escrever e ler, coisa que ele não sabia. D. Afonso Henriques era analfabeto, tanto quanto se sabe. Portanto, isso também não iria ajudar muito, porque a escrita ajuda-nos a fazer a ligação entre diferentes pronúncias da mesma língua. É a minha resposta. Não sei se o Daniel ficou contente, mas esta é a resposta.
Exatamente. Mas pronto, acho que foi um bom esclarecimento, Marco. Vamos a mais uma dúvida. Tens aqui mais uma na gaveta? Temos.
Mais uma dúvida aqui do Alexandre, penso que é um homem, não consigo perceber bem aqui pelo nome, porque nas redes sociais temos esse problema.
Pois, exato.
Imagino que esteja a aprender português, porque ele diz-me o seguinte: "Nas aplicações de verbos para aprender, aparece a forma 'imos' como sinónimo de vamos, nós imos." Não sei se alguma vez ouviste isto.
Agora, assim de repente, acho que nunca ouvi.
Pois, ele pergunta se ainda é utilizado. Eu devo dizer que não. Em Portugal, mais para o sul. Eu sei que no galego, mais uma vez voltando à Galiza, ainda é usado, eles usam "imos". E agora eu gostava de deixar aqui esta pergunta aos nossos ouvintes. Eu desconfio que isto ainda se usa em certas regiões do país, talvez Trás-os-Montes, mas não sei. Gostava mesmo de perguntar. O "Português Suave" também serve para eu tirar dúvidas. Portanto, gostava muito de perguntar aos nossos ouvintes se alguém aqui usa a forma verbal, que é antiga, está registada na escrita, existe no português escrito histórico, mas gostava de saber se na oralidade dos dias de hoje, ainda se usa "nós imos" nalguma região do país. Esta é a minha pergunta para hoje.
Nunca ouvi, mas era o que estávamos a falar há pouco. De certeza que há de haver alguém que talvez use. E é o que o Marco diz, podem sempre também esclarecer as nossas dúvidas, esclarecer aqui as dúvidas do Marco e ajudem-nos também a perceber se há ainda alguém que usa este "imos", porque realmente nunca ouvi.
E pronto, por hoje-
Marco, foi uma edição bem recheada
Já, bem recheada. O próximo episódio já será em novembro, penso que vai ser no domingo. Eu já nem sei em que dia será.
Já estamos todos perdidos. Então vai ser no domingo, é o primeiro dia do mês.
Em novembro, o dia Todos os Santos. Muita coisa para falar sobre Todos os Santos, porque esse dia depois também tem o terramoto, é o aniversário do terramoto e temos sempre muito para falar sobre isso. Se ficarem assustam, oiçam o próximo episódio.
Exatamente, vai ser um bom episódio, certamente. Marco, nós hoje ficamos por aqui. Muito obrigada. E antes de irmos embora, também recordar sempre mais uma vez, nunca é demais, que os nossos ouvintes podem mandar um e-mail para portuguessuave@observador.pt ou então para o número 910 024 185. É sempre assim este lembrete, nunca é demais. E exato, é aquele número chato que nós nunca conseguimos decorar.
Exatamente.
Ficamos por aqui.
Pronto, e obrigado.
Obrigada, Marco.
Lá estaremos no domingo.
Lá estaremos.