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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o maior gigante do comércio online sente a crise?
"I'm Jeff Bezos. And what is your claim to fame? I'm the founder of amazon.com."
Como tantas outras histórias de sucesso saídas dos anos 80 e 90, o primeiro armazém da empresa foi na garagem do próprio fundador, Jeff Bezos, nos subúrbios de Seattle, nos Estados Unidos. Em 1994, quando a Amazon se apresentou ao mundo, vendia apenas livros online. Era numa altura em que, para ir à internet, precisávamos de usar o telefone e ocupar a linha de casa dos nossos pais. Hoje em dia, a Amazon é o maior gigante do retalho online e Jeff Bezos é, neste momento, o segundo homem mais rico do mundo. O segredo está nos preços, mas também na eficácia e rapidez das entregas. Como Bezos afirma desde o início aos seus funcionários, a filosofia passa por não ter medo da concorrência, mas dos próprios clientes.
"They should be afraid of our customers, because it's the customers, those are the folks we have a relationship with, those are the folks who send us money."
Agora, pela primeira vez em 15 anos, a Amazon apresentou prejuízos no primeiro trimestre deste ano. Foram 3,6 mil milhões de euros. Será que os ventos de crescimento que a pandemia trouxe, com o mundo preso em casa a comprar através do computador, deixaram de soprar à medida que a vida regressa à normalidade, o que pode explicar este resultado? Bezos confunde-se tanto com a identidade da própria Amazon que muitos podem nem se ter apercebido que o fundador já deixou o cargo de CEO da empresa. Passou, há exatamente um ano, para Andy Jassy, um homem da confiança de Bezos, que está na Amazon há 25 anos. Como foi este primeiro ano sem Bezos? E qual o futuro da Amazon, que até agora parecia não ter limites ao seu crescimento? Hoje vamos falar com Cátia Rocha, jornalista da seção de Economia do Observador. Bem-vinda, Cátia.
Obrigada, João.
Vamos começar esta história pelo início. Eu sei que não é fácil resumir quase 30 anos, mas como é que a Amazon passa de uma empresa que vende livros online nos anos 90, tendo como primeiro armazém a garagem do próprio fundador, Jeff Bezos, para o maior gigante retalhista do mundo?
Sim, à semelhança de outras tecnológicas, como por exemplo a Microsoft, também a Amazon começou justamente numa garagem, como mencionaste. A questão não é bem simples de explicar, mas Jeff Bezos, o homem que fundou esta companhia, hoje é conhecida como a loja que tem tudo, soube aproveitar muito a oportunidade e o contexto que se via na altura. A Amazon surge justamente quando se começava a falar sobre o que era isto de compras online e que era um mercado multimilionário a explorar. Basicamente, o Jeff Bezos soube aproveitar como seria esta oportunidade e acompanhar a tendência de crescimento do comércio online. E os anos iniciais da Amazon passam muito por uma lógica de crescimento rápido, daí a vontade de alargar tanto o leque de produtos. Passaram dos livros e hoje em dia a Amazon tem praticamente tudo, inclusive também recebendo muitos produtos de outros fornecedores, que é também outra das fontes de receita da companhia. E depois foi aqui aliar a esta oportunidade uma estratégia muito forte de logística. A Amazon tem armazéns em vários pontos dos Estados Unidos e durante a pandemia expandiu muito esta lógica de armazéns, a lógica de proximidade, e é isso que faz com que a Amazon, pelo menos nos Estados Unidos, consiga ter uma lógica muito forte destas entregas de proximidade. Quem estiver nos Estados Unidos é possível, por exemplo, receber um produto da Amazon, faz a encomenda num dia e no próprio dia, passado umas horas, consegue recebê-lo. Isso é uma logística muito intensa e também porque ao longo dos anos a Amazon conseguiu expandir a frota própria e hoje em dia tem tudo, inclusive aviões, que é uma coisa que não vemos, aliás, noutras companhias do género.
"I would claim that Amazon has much broader selection. In many cases, I don't want to be overly bold in my claim, but the online model gives us significant cost structure advantages that lets us have even lower prices than physical stores."
Como referiste, Bezos foi um visionário. Se virmos vídeos de YouTube dele dos anos 90, é um pensamento já muito à frente. De resto, quando pensamos na Amazon, pensamos sempre em Jeff Bezos, é inevitável. Mas o certo é que faz agora um ano que Bezos já não é o CEO da empresa. Quem é então Andy Jassy e por que Bezos o escolheu como seu sucessor?
Em primeiro lugar, Andy Jassy é um verdadeiro veterano da Amazon. Está há mais de 20 anos na companhia e, curiosamente, durante vários anos foi mesmo descrito pela imprensa internacional como a sombra de Jeff Bezos. Juntou-se à Amazon em 1997, ainda antes da bolha das dotcom. A Amazon estava muito na infância. A empresa foi criada em 94, portanto, tinha muito poucos anos de vida e estava longe de ser a Amazon que hoje conhecemos. E até há um ano, até assumir oficialmente as funções de CEO e suceder a Jeff Bezos, liderou a Amazon Web Services, que é já uma área de negócio muito rentável para a tecnológica e que está dedicada à computação em cloud. E, neste caso, estamos a ir um bocadinho para a especulação, mas os rumores dizem que a Amazon Web Services foi criada justamente por uma ideia de Andy Jassy, também dada a proximidade que tinha com o Jeff Bezos, e mais uma vez foi explorar a oportunidade. Na altura, não havia as opções de computação em cloud que há hoje e a empresa começou a ser estruturada e tornou-se uma unidade de negócio muito rentável.
Mas Andy Jassy, podemos dizer que é um Jeff Bezos dois ou é alguém com um estilo de gestão muito diferente?
São estilos diferentes, tanto ao nível de gestão como mesmo de personalidade. Jassy é um executivo que é muito discreto, que tem uma postura de estar mais afastado dos holofotes e isso, em parte, contrasta muito com a personalidade de Jeff Bezos, que estamos habituados a ver em eventos e que tem também uma presença social online que se torna mais visível, além de todos os projetos de Jeff Bezos ligados à indústria de exploração espacial, que também faz mexer aqui um bocadinho esta ideia. E a nível de estilos, são também muito diferentes. Bezos dava mais autonomia aos executivos de confiança, pelo que diz a imprensa internacional, e Jassy, ao longo deste ano, aqui e ali, foi-se percebendo que será mais de acompanhar as operações diárias, uma lógica de gestão muito mais de mão na massa. Isso pode não agradar a todos os executivos, que durante tantos anos na Amazon foram habituados ao estilo de liderança de Jeff Bezos. E para já, há uma saída de uma figura muito relevante da estrutura da Amazon, que era um veterano com mais de 20 anos de experiência na empresa, que era Dave Clark, que sai justamente para uma startup de logística. A imprensa internacional começa a tentar perceber se isto está ligado à gestão de Jassy ou não, mas na verdade, é uma saída de relevo de um executivo muito importante. E por quê? Porque o Clark era justamente o arquiteto desta estratégia de entregas da Amazon, como já falamos há bocado, é uma das características mais marcantes da empresa. E a justificação dele foi que queria sair para explorar novas oportunidades e ir para uma startup. Mas não deixa de ser curioso uma pessoa que tem tantos anos de experiência nesta indústria e que está numa empresa que tem uma pegada tão marcante nessa área, sair para uma startup.
Precisamente neste momento, não é?
Exato.
Amazon has had a banner year with the rise in online sales, of course, due to COVID, expanding warehouse operations and adding to its network of distribution centers across the country.
E a Amazon, como sabemos, foi das empresas que mais beneficiou com a pandemia e com o fato de estarmos todos, naquela altura, fechados em casa. Jassy, quando pega na empresa, ainda tomou partido desse efeito?
Sim, mas foi uma lua de mel curta, vamos assim dizer. A Amazon beneficiou efetivamente muito deste contexto da pandemia, de as lojas físicas estarem fechadas e, ao mesmo tempo, também teve de se adaptar e de crescer muito rapidamente para conseguir enfrentar o pico de procura por compras online. Mas à medida que as lojas começaram a reabrir e também as pessoas deixaram de estar tanto em casa, o ritmo das compras online inevitavelmente começou a abrandar e o ritmo de crescimento da Amazon, que estava a ser muito acelerado, principalmente em 2020, também consequentemente abrandou.
With the war in Ukraine and then all the inflationary pieces that happened thereafter, at a certain point, you can't keep absorbing all those costs and run a business that's economic.
E pela primeira vez em 15 anos, a Amazon, este ano, apresentou prejuízos no primeiro trimestre. Por quê? Por que motivos? Um deles já estavas a referir, não é?
Na verdade, é uma mistura de fatores. Está justamente ligada ao abrandamento do ritmo de compras. Também há a questão da pressão dos constrangimentos da área da logística, que é um fenômeno global, e também aos aumentos de custos, principalmente do combustível. E depois há a questão da inflação, que está a pressionar de duas formas. As pessoas podem passar a comprar menos, fazem compras mais pequenas na Amazon ou com menos frequência, e depois há também a consequência nas ações. Se se tenta controlar a inflação com subidas das taxas de juro, que é uma perspectiva muito forte neste momento, as empresas do setor tecnológico, como é o caso da Amazon, estão geralmente mais expostas a este tipo de fatores.
E agora, dado também este resultado e esta conjuntura, que medidas é que a Amazon tomou ou poderá ainda vir a tomar no futuro para fazer face a este contexto?
Andy Jassy tem pautado a comunicação que tem feito ao longo do último ano, mas especialmente ao longo dos últimos meses, dado o fato ter havido a primeira vez em que escreveu uma carta aos acionistas na qualidade de CEO e também nestas apresentações de resultados, em que os executivos inevitavelmente já começam a ser questionados sobre os impactos da guerra e tudo isso. Mas Jassy diz, e tem vincado muito este ponto, que a empresa tentou absorver ao máximo a subida de custos, e a subida de custos já é visível nos relatórios de apresentação de contas da Amazon, mas que isso deixou de ser possível há uns meses. A empresa anunciou, por isso, uma taxa adicional de 5%, que deve ser paga pelos vendedores que usam a plataforma e serviços de logística da Amazon, para tentar compensar o aumento dos custos e também o aumento do combustível.
Quando falamos nas ações da Amazon, qual tem sido o impacto desta situação nas ações da empresa, que de resto são um dos grandes fatores de riqueza do Jeff Bezos. Ele é o segundo homem mais rico do mundo também por causa das ações da Amazon. Mas qual tem sido o impacto no mercado bolsista?
As ações da Amazon estão a desvalorizar. Até este ponto do ano, estão a desvalorizar cerca de 40%. A Amazon, que tinha sido uma das vencedoras da pandemia, não só ao nível de lucros e de receitas, mas também a nível de valorização das ações. As principais empresas do setor, como a Google, a Apple ou a Meta, que é a dona do Facebook, têm estado a desvalorizar em bolsa, justamente pela perspectiva da subida das taxas de juro, como mencionamos há bocado, estão mais expostas. Mas a Amazon tem uma queda que já é muito significativa este ano, até por ter justamente apresentado um prejuízo no primeiro trimestre.
E depois há aqui outra questão também com que a empresa teve de lidar ou teve de se confrontar, que foi o fim dos subsídios e outras medidas de estímulo de que beneficiava nos Estados Unidos, certo?
Sim. De acordo com os analistas que ouvi para este trabalho, estes subsídios estavam a servir para dar algum fôlego ao consumo, principalmente nos Estados Unidos, que é um mercado muito forte para a Amazon, não fosse o mercado de origem da empresa. Sem isso na equação e com a inflação a aumentar, é expectável que as famílias comecem, inevitavelmente, a pôr algum travão às compras que fazem.
Há aqui uma questão interessante, porque apesar de, obviamente, a Amazon ser uma empresa online, nos últimos anos aumentou também o número de lojas físicas. Mas agora Andy Jassy vê-se a braços com a necessidade de inverter essa tendência. Por quê?
É outra das coisas que tem marcado este primeiro ano de Andy Jassy como CEO. Jeff Bezos tentou muito expandir a área das lojas físicas, desde livrarias, voltando aqui um bocadinho ao ponto de criação da própria Amazon, mas também com os supermercados. A empresa comprou há uns anos a Whole Foods, que é uma cadeia muito grande nos Estados Unidos, mas Andy Jassy, devido a este contexto todo que se está a atravessar, teve de pôr um pé no travão e anunciar o encerramento de lojas físicas. Na Europa não é muito visível a presença da Amazon enquanto uma empresa que tem lojas físicas, mas nos Estados Unidos tem uma pegada muito forte com livrarias e com a Whole Foods. E neste momento já está anunciado um encerramento de pelo menos 68 lojas da Amazon este ano, das várias áreas de negócio que têm presença e lojas físicas.
Há pouco falávamos da pandemia. Com a pandemia, aumentou o volume de vendas, mas também, em consequência, o número de trabalhadores da Amazon, que aumentou exponencialmente. É um número impressionante, de mais de 1,6 milhões de pessoas. Eu fui ver e há 80 países ou microestados no mundo que têm uma população inferior a esse número. Qual é a perspectiva? É a de continuar este crescimento?
Já não é assim tão provável. Esse aumento tão expressivo do número de trabalhadores. Aqui é importante sublinhar que este número que é mencionado pela Amazon não tem em conta os trabalhadores temporários, nem os trabalhadores subcontratados, que têm variações sazonais. Normalmente, a Amazon faz um período de contratações deste tipo de trabalhadores mais intenso na altura de uma Black Friday, de uma Cyber Monday e na altura das compras de Natal, inevitavelmente. E foi muito feito este aumento de contratações para acompanhar o aumento da procura devido à pandemia. Mas agora, se já estamos a ter uma normalização dos hábitos e as pessoas estão a comprar menos online, já não é provável que a empresa volte a fazer contratações tão intensas. E nos últimos trimestres já é visível, na comparação homóloga, que o ritmo de contratações está a abrandar. Em 2020, por exemplo, no quarto trimestre de 2020, a empresa tinha um crescimento das contratações na ordem de 60%. Agora, nos trimestres mais recentes, já começamos a ver comparações de crescimentos de 30%. É uma diferença que já é significativa.
"It's been the ultimate nightmare. Allen says she processed an average of 600 items an hour on the job here at a broken workstation that injured her back. It felt like somebody stabbed me in the back and drag a knife all the way down".
E quando falamos aqui dos trabalhadores, são também recorrentes as queixas de más condições de trabalho nos armazéns da Amazon. A empresa não tem poupado esforços nem dinheiro nos últimos anos para evitar a sindicalização dos trabalhadores. Conseguiu evitar isso durante muito tempo, mas até agora, até este ano.
É uma batalha que já é longa e que não começou de todo neste reinado, vamos assim dizer, de Andy Jassy. Tradicionalmente, nos Estados Unidos, há muita resistência por parte das empresas de deixarem ou de verem os trabalhadores associados a sindicatos. E a Amazon não foge a esta tendência. A questão da relação com os trabalhadores já era mesmo um dos desafios que era aqui antecipado para Andy Jassy quando tomou posse do cargo de CEO há um ano, mas continua a ser um tema quente, sem dúvida, e o fato de já haver um armazém da Amazon nos Estados Unidos que já está sindicalizado Adiciona uma camada de complexidade a este tema.
Tu já falaste um pouco da AWS. O que é interessante é que neste momento é, de facto, um dos maiores motores de receitas da Amazon e está muito longe de ser algo ligado ao comércio de retalho, é algo que não é até palpável. Explica-nos um pouco o que é a AWS, quão importante é este braço da Amazon para aquilo que será o futuro da empresa também.
É uma das áreas que provavelmente Andy Jassy melhor conhece dentro da empresa, porque esteve a liderá-la desde a criação. Não é uma área tão visível para o consumidor, que associa sempre a Amazon às compras online, mas já rende umas receitas muito significativas à empresa. No primeiro trimestre, por exemplo, enquanto a empresa apresentou um prejuízo, a unidade de computação cloud, que é isso que a Amazon Web Services faz.
É a nuvem da Amazon.
Exatamente, estamos sempre a falar da nuvem. Embora apresentasse também o aumento de custos, conseguia compensar e teve inclusivamente lucros no primeiro trimestre deste ano. E com este mercado a crescer, é importante ressalvar, a AWS já tem uma quota de mercado que é muito relevante e também tem clientes de peso. A AWS tem clientes como a Netflix, a Zoom ou o Slack. Há analistas que apontam mesmo que poderá chegar a valer mais do que a própria Amazon, se se mantiver este cenário de abrandamento de crescimento do comércio eletrónico. Mas isso é uma questão que fica no ar e só o tempo poderá dizer se eventualmente isto acontecerá mesmo ou não. É esperar para ver.
Obrigado, Cátia.
Obrigada, João.
Cátia Rocha é jornalista da secção de economia do Observador e assina um artigo no site em que faz o balanço do primeiro ano de Andy Jassy à frente da Amazon. Esta foi a história do dia. Este episódio contou ainda com sons das cadeias norte-americanas ABC e CNBC. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Tenha um bom dia.