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Esta é a versão atualizada da história do dia de hoje da Rádio Observador. O que liga a morte do físico do MIT, Nuno Loureiro, com o tiroteio na Universidade Brown?
An individual was identified as Cláudio Neves Valente, date of birth, and he was a 48-year-old man. He was a Brown student, he was a Portuguese national, and his last known address was in Miami, Florida. And I will tell you that he took his own life tonight.
O chefe da polícia de Providence, Óscar Pérez, revelou que o português Cláudio Neves Valente é o suspeito do ataque à Universidade Brown e também da morte do físico do MIT, Nuno Loureiro. Foi estudante na Universidade de Brown entre 2000 e 2001 e ainda antes, na década de 90, formou-se no Instituto Superior Técnico em Portugal, tal como o físico português Nuno Loureiro. Os dois terão frequentado o mesmo curso de Física. Cláudio Neves Valente foi encontrado morto esta noite num armazém nos Estados Unidos, depois de se ter suicidado ao perceber que a polícia andava atrás dele. Tinha 48 anos e de acordo com as autoridades norte-americanas, era natural de Torres Novas, sendo que vivia há vários anos nos Estados Unidos. Apesar de haver ligação entre os dois casos, a polícia ainda desconhece os motivos que levaram a estes ataques. Um caso que levou também os Estados Unidos a suspender o programa de vistos que permitiu a entrada deste cidadão português no país. Vou conversar de novo com Daniela Melo, é professora de Ciência Política na Universidade de Boston, sobre como está a comunidade portuguesa a viver este momento e também sobre aquilo que se sabe sobre o que se passou. Eu sou o Luís Soares e esta é a história do dia atualizada de sexta-feira, 19 de dezembro. Bem-vinda de novo, Daniela.
Olá.
Daniela, ao que parece, existe uma relação entre o tiroteio na Universidade Brown e a morte do físico português Nuno Loureiro, com um português no epicentro também dessa ligação. É uma informação que, de certa forma, é surpreendente. Estava à espera que houvesse também aqui um português a ligar estes dois acontecimentos?
Não, não posso dizer que estivesse à espera disto e realmente é algo que tem chocado a comunidade acadêmica e a comunidade acadêmica portuguesa, mais em particular. Não, não estávamos à espera, não sabíamos minimamente sequer se estes dois casos estavam ligados e como foi explicado na conferência de imprensa das autoridades ontem à noite, ficamos a perceber que as próprias autoridades só perceberam ontem que havia realmente uma ligação entre os dois casos, a partir do momento que encontraram uma pessoa de interesse, não por estar envolvida, mas por ser vista em alguns dos vídeos, a interagir com a pessoa que agora sabemos ser Cláudio Neves. Portanto, essa pessoa achou Cláudio Neves e o seu comportamento na zona da Brown, em Providence, muito suspeito. Chegou a confrontá-lo, chegou a apontar a matrícula do carro que Cláudio Valente tinha alugado. Portanto, essa pessoa foi, sem dúvida, a peça-chave que levou as autoridades, não só a encontrar o assassino, mas também a poder fazer a ligação direta com o que tinha acontecido em Boston, apesar de há dois dias atrás, as próprias autoridades terem revelado que não tinham ainda indícios de que houvesse essa ligação, mas no entanto, essa ligação comprovou-se.
De resto, o facto de existir aqui um português a ligar estes dois acontecimentos acaba por ser também surpreendente, no sentido em que há aqui duas surpresas, o facto de os dois casos estarem ligados e o facto depois de também haver aqui um português que liga e que relaciona isto tudo.
Sim. Não sabemos os verdadeiros motivos.
Exatamente, ou seja, não são conhecidas as motivações e o que é que pode estar na base e que ligue realmente tudo isto, não é?
Exatamente. Eu diria que há uma grande hipótese de isto ser uma questão pessoal, em ambos os casos, uma vingança pessoal, mas, na verdade, não sabemos. E só quando as autoridades realmente conseguirem avaliar todas as provas que recolheram e que ainda estarão a recolher, é que possivelmente teremos uma resposta clara, mas também é possível que nunca cheguemos lá, que nunca consigamos perceber realmente o que é que motivou este indivíduo. Sabemos que este indivíduo estudou Física, era um aluno muito prometedor, conseguiu chegar à Brown University e ao departamento de Física também, ou seja, com provas dadas da sua capacidade acadêmica, mas isso parece não ter levado a sua carreira profissional a bom porto. Não sabemos muito mais informação para além disso. Sabemos que ele esteve em Lisboa, no Técnico, ao mesmo tempo que Nuno Loureiro, portanto, talvez já se conhecessem dessa altura. E para além disso, neste momento temos apenas e só hipóteses. O facto de ser um português, obviamente, é um choque para todos os portugueses aqui deste lado. Não somos exatamente Uma comunidade que se vê envolvida muitas vezes neste tipo de-
Exato, não é habitual ver cidadãos portugueses propriamente envolvidos em casos destes de tiroteios ou afins, não é?
Exatamente. É sempre um abalo quando há um tiroteio, quando é este tipo de tiroteio em massa e targeted assassinations, como nós chamamos, mas o fato de ser português obviamente tem um significado mais importante para nós deste lado, e até para provavelmente tentar perceber também as suas motivações, eventualmente. O que já vimos foi que o presidente Trump, como tem sido comum como estratégia desta administração, já utilizou este caso para basicamente dizer que as lotarias para vistos de residência, que era um visto de residência que Cláudio Valente tinha, o chamado green card, terminariam aqui, ou seja, foram bloqueados por tempo indefinido. Isso não quer dizer que não haja avaliação e que não haja novos green cards, mas por lotaria, porque foi assim que Cláudio Valente conseguiu regularizar a sua situação nos Estados Unidos. A resposta do governo americano foi imediatamente congelar a lotaria.
E consegue nos explicar, Daniela, exatamente esse sistema, para percebermos também, uma vez que é um programa que o governo norte-americano, no seguimento deste caso, decidiu suspender. Consegue me explicar exatamente como é que isto funciona, o que estava aqui em causa exatamente?
Enfim, não com muitos detalhes, mas posso explicar também por experiência própria. Eu também cheguei aos Estados Unidos com um visto de residência, o chamado green card. No meu caso, foi pelo método mais tradicional. Eu tinha familiares nos Estados Unidos que funcionaram como sponsors, ou seja, pessoas que basicamente se responsabilizam pela pessoa que está a pedir para vir para os Estados Unidos, uma responsabilidade financeira, sobretudo. Ou seja, esta ligação familiar direta geralmente é o processo mais utilizado para se conseguir obter o chamado green card, mas todos os anos os Estados Unidos sorteiam em lotaria centenas de milhares de green cards, geralmente são mais de 100 mil.
E aí está falado um sorteio como podemos pensar no sorteio de outra coisa qualquer.
Exatamente. É mesmo uma lotaria, ou seja, qualquer pessoa no mundo pode preencher os formulários e pedir para ser incluído nesse sorteio. E Cláudio Valente claramente tinha decidido incluir o seu nome nesse sorteio e saiu vencedor. E, portanto, creio que foi em 2017, conseguiu a autorização de residência, que basicamente lhe permite viver nos Estados Unidos e trabalhar nos Estados Unidos como qualquer outro americano e com quase todos os mesmos direitos. Portanto, é um passo para a cidadania, eventualmente, a obtenção do green card.
E teme, Daniela, que a administração Trump possa usar este caso para apertar ainda mais a malha das entradas de estrangeiros no país?
Já o fez. Já foi a resposta automática do governo americano.
Mas ainda pode fazer mais?
Na verdade, o que eu temo, e imagino que qualquer pessoa na comunidade luso-americana tema o mesmo, é que o presidente use isto como pretexto para atacar a comunidade luso-americana da mesma maneira que atacou outras comunidades étnicas nos Estados Unidos, nomeadamente a comunidade somali, por exemplo, há cerca de duas semanas, foi um de seus principais alvos. O presidente tem falado imenso na sua vontade de desnaturalizar cidadãos que não merecem estar nos Estados Unidos. Tem ligado isso a certos grupos raciais e étnicos, e esperemos que, pelo bem da comunidade luso-americana e pela sua estabilidade neste país, que não seja alvo do mesmo tipo de ataques vindos da Casa Branca.
Daniela, para quem não ouviu a primeira versão da história do dia de hoje, a Daniela não conhecia diretamente o Nuno Loureiro, mas ele era recordado, e gostaria que voltasse a fazer essa descrição. Ele era recordado não só pelo cientista brilhante, mas também pela pessoa que ele era, tanto quanto a Daniela sabe aí daquilo que se falava sobre Nuno Loureiro.
Muito para além daquilo que tem saído nos jornais, e tem saído imenso, como sabemos, dos dois lados do Atlântico, Nuno Loureiro é recordado por muitos de seus colegas e amigos como uma pessoa absolutamente afável, inteligente, um bom amigo, um bom colega e um cientista brilhante. Portanto, é uma perda para muitos na comunidade acadêmica luso-americana também, que é bastante forte em Boston e que se centra sobretudo nas instituições da Harvard e do MIT. São muitos cientistas portugueses que fazem um trabalho incrível nessas instituições. E essa comunidade, obviamente, está extremamente abalada, extremamente afetada e isto foi um banho de água fria sob todos os ângulos.
E o Nuno tinha uma importante posição no MIT. Para quem não sabe também, Daniela, recorde-nos exatamente o que é o MIT, qual a importância desta instituição e daquilo que sabe era o trabalho que o Nuno Loureiro fazia no MIT.
Exatamente. O Nuno Loureiro era um físico nuclear, era diretor de um centro importantíssimo na sua área de estudo, o centro chama-se Plasma Science and Fusion, ou seja, se deve traduzir para o Centro de Plasma ou de Ciência de Plasma e da Fusão, no Massachusetts Institute of Technology. Para quem não conhece o MIT, é uma das universidades mais famosas no mundo. É o Instituto de Tecnologia do Estado de Massachusetts, na tradução portuguesa do nome da universidade, e é um lugar que consegue reunir algumas das mentes mais brilhantes nas ciências, nas tecnológicas e em muitas outras áreas. Portanto, o Nuno Loureiro estava realmente no topo da carreira e na liderança de um dos mais importantes centros dedicados ao estudo da física nuclear no mundo. Isto só para percebermos realmente o que ele tinha alcançado à idade de 47 anos, o que é realmente incrível e nos diz muito sobre o tipo de currículo e o tipo de investigação que Nuno Loureiro levava a cabo.
Era uma figura de destaque já no MIT.
Exatamente, a nível mundial.
Daniela Melo, obrigado mais uma vez.
Eu é que agradeço. Obrigada.
Daniela Melo é professora de Ciência Política da Universidade de Boston. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares, bom fim de semana.