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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o que quase ninguém viu em António Lobo Antunes. Durante mais de 40 anos, António Lobo Antunes escreveu livros que mudaram a literatura portuguesa. Tinham fama de ser intensos, difíceis para muitos leitores. Livros que eram atravessados pela guerra, pela memória, pela doença, pela culpa. Houve quem dissesse que ler Lobo Antunes era como entrar dentro da cabeça do próprio autor, um mergulho no lado mais escuro da condição humana.
Há momentos tão solitários pra toda a gente. Mesmo que esteja muita gente perto, mesmo que Raijamos as vozes, há uma parte nossa que está sempre sozinha.
E, no entanto, quando olhamos para algumas das frases que deixou em entrevistas, encontramos um tom quase inesperado. Numa conversa com o Diário de Notícias, por exemplo, em 2007, Lobo Antunes disse que se zangava com Deus por causa do sofrimento, porque, no fundo, dizia ele, o sofrimento é incompreensível. Nós nascemos pra alegria.
A quantidade de coisas que a gente lê na cara das pessoas em silêncio. E não são necessariamente coisas destas, desespero, tristeza, a vida é feita disto, mas não é feita só disto. Tem momentos alegres.
E aqui começam as perguntas: quem foi, afinal, António Lobo Antunes? O que os livros contam sobre ele e o que talvez tenha passado despercebido na obra de um escritor que passou décadas a explorar os labirintos da mente humana? É sobre isso que eu vou falar hoje com o Rodrigo Guedes de Carvalho. Ele é jornalista e escritor, é um leitor atento de Lobo Antunes e é alguém que ontem dizia, numa crônica no Expresso, que quando lhe falta a musa, chama o António, e ele vem sempre, como se estivesse a socorrer um filho com um pesadelo. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 6 de março. Olá, Rodrigo.
Olá, Pedro.
Não vou transformar esta conversa, obviamente, numa coisa pessoal, mas eu penso que também não é propriamente um segredo que tu tinhas, para além de uma relação de escritor para escritor, tinhas uma relação pessoal com António Lobo Antunes.
Eu tinha uma relação não próxima, eu e o António nunca fomos amigos de casa. Tinha uma relação de ternura e que terá a ver, penso eu, com dois fatores. Primeiro, o António tem exatamente a mesma idade e, em grande parte, um percurso do meu pai. Temos uma diferença de 20 anos, que era o que se usava na geração deles, terem filhos bastante cedo. E depois, ele de alguma forma apadrinhou o meu início na literatura, escrevi um livro bastante novo, mas que só foi publicado em 1992. Ainda assim, eu era bastante jovem. E o António Lobo Antunes, que basicamente não gostava de quase nada do que era editado, teve palavras muito simpáticas para com o meu livro. Fomo-nos escrevendo, na altura, era o que se usava. E eu ainda hoje, curiosamente, tinha comentado que encontrei muito recentemente uma carta dele, em particular, de fevereiro de 1999, em que eu estava entre livros, tinha feito o primeiro e ainda não tinha arriscado o segundo, e que é uma carta maravilhosa que eu guardo pra mim, que é a carta de um consagrado para um aprendiz e que eu sei que foi absolutamente fundamental no prosseguimento da minha paixão pela escrita.
Era uma carta que dava-te conselhos, que te apontava caminhos?
Sim, mas ao estilo dele. Eu por acaso escrevi um texto, em boa hora, tinha uma crônica pro Expresso que entrego à quarta-feira, em boa hora eles deram uma oportunidade de poder escrever sobre o António, que estava me a custar imenso à manhã sair uma crônica que não era sobre o António. Então tive a oportunidade de o dizer. E lá eu começo por dizer uma coisa, que era: o António não ensinava nada, nós é que aprendíamos com ele. E, portanto, ele não era de recomendações nem de conselhos. O António é duma época em que não havia os gurus que têm fórmulas pra tudo e detêm um grande segredo, que depois partilharão com os seus seguidores, muitas vezes mediante um pagamento antecipado. Mas em tudo o que ele dizia, em nós querendo, e sobretudo aqueles que eram apaixonados pela sua escrita, queriam, nós retirávamos sempre alguma coisa. E, portanto, essa carta pra mim, que poderia estar num dos qualquer dos livros dele, o mesmo tipo de ternura, foi importante pra mim. E, sobretudo, ele disse uma coisa que na altura parece que é muito fácil seguir, que eu acho que acabei por seguir em grande parte, que é arriscado, que é: acredita só no teu caminho Aquilo que hoje se chama as tendências, toda a gente anda à espera de ver qual é a tendência para poder segui-la e assim singrar no mercado. A tendência do António Lobo Antunes era ele próprio, era fechado sobre ele próprio, com tudo o que isso tem de bom e mau. Mas ele acreditava, e eu acreditei, e ainda hoje acredito cada vez mais, que só se pode escrever assim, só se pode ter uma voz própria. É a forma de não nos diluirmos numa multidão de iguais.
E tu falaste dessa experiência, do momento em que recebeste essa carta e que isso também apontou o teu caminho, e tu usaste uma palavra interessante que foi dizer "na ternura dele". A maior parte das pessoas, sobretudo quando lemos aquilo que hoje e nos próximos dias se vai escrever sobre António Lobo Antunes, talvez a ternura não seja a palavra mais usada. Qual é que achas que é a ideia mais errada que as pessoas têm dele?
A ideia mais errada que as pessoas têm dele é que era um homem duro, que era um homem maldoso e que era um homem de uma enorme petulância. Vamos por partes. O António poderia soar petulante, mas depois aqui entramos naqueles jogos que eu gosto muito da língua portuguesa. A língua portuguesa é tão rica que as coisas têm significados diferentes. Nós temos imensas palavras à nossa disposição. E poderíamos ter aqui uma discussão sobre se o António era vaidoso ou se era orgulhoso. E eu acho que ele era profundamente orgulhoso do trabalho que estava a conseguir erigir, e eu sei que ele disse coisas que muita gente considerou escandalosas, como por exemplo, dizer que "daqui a 50 anos serei dos poucos escritores portugueses que são lidos". E eu acredito profundamente nisso. Ele era muito ciente do valor e do peso do seu trabalho. Eu não o conhecia em círculo pessoal e íntimo. São coisas diferentes. E sei que há pessoas dos mais variados quadrantes, idades e gêneros que tinham, eventualmente, as suas razões de queixa sobre ele. Mas o António era capaz de uma imensa ternura, que está plasmada na sua literatura, só para quem não quiser ou não souber ler. E sobretudo comigo sempre foi essa pessoa. Há quem diga que ele era cínico. Não, hoje qualquer comentador de televisão é mais cínico do que o António Lobo Antunes. Não me parece nada disso, mas se calhar é do sítio de onde eu olho para ele.
Rodrigo, nós já vamos voltar a falar, até porque eu quero saber, a partir desse sítio por onde olhas para ele, quero saber o que tu leste da obra de António Lobo Antunes. Até já. Estamos de regresso à conversa com Rodrigo Guedes de Carvalho, jornalista e escritor. Estamos a falar sobre António Lobo Antunes. Rodrigo, há vários testemunhos teus em que tu falas de, muitas vezes, a biografia de um escritor ver-se naquilo que ele escreveu, nas coisas que lá estavam escritas. O que tu leste na obra de António Lobo Antunes? Há quem fale da culpa, da guerra, da viagem interior.
Isso é só uma pequena parte. Olha, hoje, assim que recebi a notícia, de manhã muito cedo, depois de acabar a crônica, naturalmente fiz a minha própria navegação curiosa pelas redes sociais. E aconteceram duas coisas que eu já estava à espera. Primeiro, de repente, o António Lobo Antunes, coitado, a quem não compravam os livros nos últimos quatro ou cinco anos, de repente é o escritor favorito de toda a gente. E depois, numa segunda leva, aquilo que eu receava, a maior parte das pessoas quando fala de António Lobo Antunes, sobretudo nos últimos 20 anos, fala das crônicas. Sem desmerecimento qualquer das crônicas que ele assinou, já não me lembro, na Visão e depois no Público, se não estou em erro, já lhe perdi a conta. Sem qualquer desmerecimento desses textos, a grandeza do António Lobo Antunes está na literatura, no tempo literário, na respiração dos romances, onde ele foi, de facto, uma figura ímpar em Portugal. Ele sucedeu a um certo modernismo já trazido pelo Cardoso Pires e pelo Vergílio Ferreira, e deu uns passos mais à frente, tanto ele como o Saramago, bem entendido. E ele foi, de facto, um escritor maior para aqueles que se interessam pela vera literatura. A literatura com letra gorda, letra capital, que é uma literatura de amor pela escrita e, em última instância, pela palavra, e que vai cativar leitores que têm esse gosto pela estética. A literatura é um movimento estético, não interessa o que é que está lá, sobre que tema fala. E ele, nesse sentido, foi absolutamente maior. O que eu retiro do que ele era na literatura, e que está dividido, como todos nós fazemos, nas inúmeras personagens. Ele tinha uma enorme ternura Eventualmente, em alguns casos, que pode parecer um pouco paternalista, mas tinha uma enorme ternura pelo povo português, pelo que nós somos, com as nossas falhas, a nossa pequenez, a nossa mesquinhez, a nossa maldade, a nossa chico-espertice, mas também a nossa grandeza de espírito, a nossa facilidade de chorar, a nossa emotividade. Isso está lá tudo no Lobo Antunes. Todos os livros dele são uma declaração de amor a um povo, a um povo em particular. Nesta altura que falamos de nacionalismos e o que é isso de ser português, está na obra do António Lobo Antunes, sem nunca falar de raças, credos ou religiões, mas há uma forma de sentir que falou muito fundo a muita gente, onde todos nos revimos de alguma forma. E eu acho que, apesar das idiossincrasias que ele tinha, dos seus excessos, das suas petulâncias, a palavra que me ocorre mais é, de facto, uma ternura que ele guardava, porque o Lobo Antunes era conhecido por estar bem numa taverna. Aliás, não estava bem nas vernissages, que ele evitava, mas estava bem na tasca com qualquer pessoa a falar a linguagem dela e muito interessado no que as pessoas tinham para lhe dizer. Talvez porque sendo escritor, nós estamos sempre à espera que nos forneçam material. Mas da obra de António Lobo Antunes, eu ressalvo ou realço, neste caso, "O Fado Alexandrino", que eu acho que é a obra capital dele, antes de entrar numa espécie de um livro contínuo que muitas pessoas não conseguiram acompanhar. A partir daí, as pessoas foram-se desligando porque não percebiam muito bem o que estava a acontecer nos livros. O que estava a acontecer é que ele estava a fabricar um livro em contínuo, que era já uma viagem interior. Mas "O Fado Alexandrino" é extraordinário porque ele consegue, do ponto de vista do romance, para mim, uma coisa que me ficou para sempre como: "Como é que um tipo supera isto?" Ele consegue criar um romance que constrói em três partes, que é antes da Revolução de Abril, na Revolução de Abril e depois da Revolução de Abril, através do olhar de cinco graus de hierarquia militar, que no fundo significam cinco graus sociais em Portugal. E, portanto, ele dá-nos um retrato extraordinário do que era a vida desses cinco graus antes da Revolução, durante a Revolução e depois da Revolução, isto segundo a escrita dele e a história que ele imaginou. E, portanto, essa arquitetura de romance, que eu achei absolutamente extraordinária e que acho que ele não conseguiu, de facto, regressar a ela, deu uma dimensão, em termos literários, de uma pessoa que estava num grau que nós dificilmente, mesmo os seus seguidores apaixonados, podem tirar o cavalinho da chuva, porque não chegam ali.
Rodrigo, obrigado.
Obrigado, eu.
Para além de jornalista, o Rodrigo Guedes de Carvalho também é escritor e é provável, digo eu, que tenha ouvido aqui coisas sobre a vida e sobre a obra de António Lobo Antunes que lhe deram vontade de pegar num livro dele e começar ou recomeçar esta viagem. O velório de António Lobo Antunes está marcado para esta sexta-feira, às 16h, no Mosteiro dos Jerónimos. O funeral é no sábado, dia de luto nacional decretado pelo Governo. Um dos últimos atos do ainda presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vai ser depositar junto do escritor o Grande Colar da Ordem de Camões, condecoração máxima da literatura portuguesa. Esta foi a História do Dia, sonoplastia da Mariana de Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benvides. Bom fim de semana.