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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como caiu a BBC numa das maiores crises de sempre e os erros da estação britânica vêm dar força e razão a Donald Trump?

"I stepped down over the weekend because the buck stops with me. But I'd like to make one thing very clear: BBC News is not institutionally biased. That's why it's the world's most trusted news provider".

É uma das piores crises da história da BBC. O diretor-geral da estação pública britânica e a diretora do canal de notícias BBC News demitiram-se por causa de uma polêmica relacionada com um discurso de Donald Trump. Um relatório interno chegou à conclusão de que um documentário emitido pelo prestigiado programa Panorama, uma semana antes das eleições de 2024, editou o discurso de Trump de uma forma que poderia dar a entender que o presidente tinha incentivado os apoiantes a atacar o Capitólio em janeiro de 2021, nomeadamente juntando frases de Trump que foram ditas com intervalo de quase uma hora. É a mais recente e a mais grave polêmica, mas não é a única. Em especial nos últimos meses, a BBC tem sido alvo de várias acusações de parcialidade e viés institucional. O que está a acontecer com a televisão pública britânica e de que forma estes casos podem afetar ainda mais a confiança nos meios de comunicação tradicionais? E do outro lado do Atlântico, como está Donald Trump a capitalizar estas polêmicas? São questões para a conversa com Bruno Cardoso Reis, historiador, investigador, viveu e estudou no Reino Unido e também nos Estados Unidos, e é ainda o autor do podcast Cinco Continentes, da Rádio Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quinta-feira, 13 de novembro. Olá, Bruno, bem-vindo.

Obrigado.

Bruno, vamos começar só por dar aqui algum contexto. É praticamente impossível uma pessoa não ter ouvido falar da BBC, já toda gente ouviu falar da BBC, mas quando falamos da BBC, estamos a falar de muito mais do que uma televisão pública. Ou seja, no Reino Unido, estamos a falar de uma verdadeira instituição nacional, certo?

Sim, no Reino Unido, realmente, só pra dar uma ideia, eu estive a rever os números, mas tem o dobro das audiências da outra televisão seguinte, portanto, as televisões privadas não têm a maioria das audiências, têm à volta de 40 milhões de média. A Sky tem à volta de 20. Tem muitos canais, também específicos pras diferentes regiões, pras diferentes nações. Há uma BBC Escócia, uma BBC Gales, uma BBC Irlanda do Norte e de fato é realmente uma instituição, é paga pelos britânicos, portanto, não tem publicidade na Grã-Bretanha, a televisão e a rádio pública. Toda gente paga à volta de 170 libras por ano, é no fundo a licença da televisão. Isso também significa que as pessoas são muito críticas, acompanham, escrutinam muito mais, são muito mais exigentes, inclusive em termos da ideia de ser um órgão isento, rigoroso, de referência, mas realmente tem um papel muito mais importante, eu diria, na vida britânica do que a generalidade das televisões ou das rádios públicas têm noutros países.

Falando de programas, esta polêmica agora relacionada com Trump, e já vamos falar mais em específico disso, aconteceu no programa Panorama, que é um programa também relevante no âmbito do jornalismo britânico.

Sim, exatamente. É um destes programas de referência, noticiosos. O News Night é o programa noticioso, um noticiário mais aprofundado, vamos dizer assim. O Panorama é o programa que faz os documentários noticiosos. Faz trabalhos mais aprofundados, com mais tempo, sobre temas de alguma atualidade, lá está, não é um noticiário. Em termos do editing, parece-me que realmente há razões pra criticar isso. Aqui também a questão é tentar perceber exatamente quem é que foi responsável, se foi alguém com alguma autonomia pra fazer o corte do discurso que decidiu ter um corte que facilita a ideia de que realmente Trump tem uma responsabilidade maior do que é possível atribuir, porque Donald Trump tem muito este truque, que também é central pra entender Donald Trump, que é dizer uma coisa e depois dizer um pouco o seu contrário, portanto, é sempre muito difícil dizer exatamente o que ele disse ou conseguir apanhá-lo nesta ideia de dizer que ele claramente apelou a um ataque violento contra o Capitólio.

Exato. Explicando a polêmica, esse memorando interno revela que o programa editou um discurso de Trump de forma a, aparentemente, alterar o sentido do que o presidente quereria dizer. Esse discurso foi desse dia do ataque ao Capitólio. E a questão é que essa edição juntou frases de Trump que estavam separadas por quase uma hora.

Sim, exatamente. Realmente dá a ideia que são ditas a seguir coisas que não são ditas a seguir, há ali muita coisa de por meio e há realmente aqui, parece-me isso evidente, uma opção editorial de corte de colagem que de fato não é aceitável. Aquilo que também suscitou críticas foi que aparentemente não houve uma reação imediata de correção disso, que é uma tradição que realmente genericamente a BBC tem, mas também como todas as instituições, muitas vezes também há esta reação um pouco defensiva, porque aqui o ponto não é que se possa exigir à imprensa que seja a única instituição que nunca erra.

Mas também como se reage a isso, não é?

Exatamente, é como é que se reage, se reconhece os erros. Muitas vezes é apontada a dita imprensa de referência: "Estão a ver? Eles até reconhecem que estão errados, portanto, isso mostra que não são de fiar." A minha conclusão é exatamente a oposta. É exatamente porque a imprensa de referência, de vez em quando, reconhece que errou, é que eu lhe dou um pouquinho mais de crédito do que às pessoas que estão nas redes a dizer o que lhes apetece e que obviamente nunca aceitam que estão erradas, ou mesmo estes novos sites noticiosos, muitas vezes muito alinhados ideologicamente, que também estão muitas vezes ali no limite entre a notícia e a propaganda. Agora, realmente na BBC surgiram vários casos, outro caso também citado é a questão de Gaza e de Israel, sobretudo na BBC em árabe, mas, por exemplo, eu próprio fui crítico desta questão de que a BBC não aceitou designar o Hamas como movimento terrorista. Em termos do que é a definição habitual de uma organização, da definição legal, da própria posição do Estado britânico, essa devia ser uma definição relativamente simples. Até se pode dizer que não é apenas um movimento terrorista, também tem uma dimensão política, até social, etc. E é por isso que realmente os critérios editoriais são tão importantes e que é fundamental que estes casos não se multipliquem e, quando existem, sejam realmente rapidamente corrigidos e reconhecidos.

Como referiste, não foi só a questão de Trump. Há essa questão da cobertura em relação a Gaza e o memorando interno, agora tornado público, revela também outros casos, nomeadamente, por exemplo, uma alegada cobertura unilateral sobre pessoas transgénero. Na tua opinião, tudo isto demonstra ou não que há aqui algo que está a falhar nos mecanismos de controle editorial e de isenção, nos quais, de resto, a BBC construiu todo o seu legado?

Sim, eu acho que mostra que há aqui algo a falhar. Acho que isso também reflete muito esta polarização crescente. Eu acho que mesmo na BBC se nota um pouco, mas muito menos do que notamos, por exemplo, na imprensa mais comercial, que é muitas vezes a falta também de especialistas que realmente conhecem a fundo os temas e que fazem questão de fazer uma análise muito mais aprofundada. Portanto, eu não sei exatamente, por exemplo, quem é que fez aqui este editing, se era realmente alguém muito conhecedor da política americana ou se era um jovem estagiário, enfim, que achou que podia fazer aqui uma coisa do gênero que se faz no TikTok pra tornar a coisa mais interessante e legível, vamos dizer assim. Mas realmente há que ter esses cuidados, até porque o escrutínio é muito maior, até porque a polarização também é maior e, portanto, ainda reforça mais esse escrutínio. É revelador também, já agora, deste impacto nos Estados Unidos, esta questão, por exemplo, depois de Donald Trump também vir exigir pagamento de indenizações e tudo isso, também mostra como a BBC, apesar de todas as críticas, continua realmente a ter alguma importância, mesmo pra alguém como Donald Trump.

Já regressamos à conversa com Bruno Cardoso Reis. Na segunda parte, vamos continuar a falar do impacto que este caso pode ter no futuro, não só da BBC, mas também na confiança nos meios de comunicação tradicionais e ainda da forma como nos Estados Unidos, Donald Trump está a capitalizar estes casos. Bruno, falavas há pouco, de facto, da confiança que a BBC sempre tem merecido em termos do público, não só os britânicos como em geral. Este caso e estes casos em que é que podem beliscar tanto isto como o futuro financiamento da estação. Segundo percebo, o Royal Charter, que é o documento que define os objetivos, a missão, o modelo de financiamento da BBC, que dura 10 anos, está a expirar no final de 2027, deve ser renegociado. Enfim, que impacto é que isto pode ter também na percepção pública do financiamento da estação? Como referias há pouco, os britânicos pagam muito e bem pela BBC.

Sim, acho que realmente pode ter um impacto, embora também tenha havido aqui alguma reação de defesa da BBC, várias figuras públicas importantes, inclusive alguns que saíram da BBC, até fazendo algumas críticas, por exemplo, vieram defender que realmente é uma instituição, uma mais-valia nacional, também com muito prestígio internacional. Mas em todo caso, realmente esta renovação pode sempre permitir, eventualmente, inclusive cancelar esta ideia do financiamento através de uma licença, e isso sempre que esta discussão, esta renovação é feita, volta a colocar-se. Mas sobretudo, será sempre influenciado o governo, mesmo que possa tender a favorecer a manutenção deste modelo, será sempre muito influenciado por aquilo que é a percepção pública, até porque realmente não há aqui uma superabundância de recursos neste momento.

Os advogados de Trump já ameaçaram processar a BBC. De resto, Trump já processou estações americanas. Por exemplo, a CBS, por causa de uma edição na altura da entrevista à ex-vice-presidente norte-americana Kamala Harris, no programa "60 Minutos", que Trump alegava que tinha sido editada para favorecer a Harris. O caso acabou por ser resolvido através de um acordo judicial. A Paramount, a dona da CBS, pagou 16 milhões de dólares a Trump e num outro processo, a ABC também aceitou pagar 15 milhões. Isto apesar dos especialistas legais dizerem que ambos os processos não deveriam até ter grande sucesso se fossem a tribunal. O que é que acontece aqui? Estas empresas, de certa forma, não querem comprar uma guerra com o presidente.

Sim, acho que é exatamente essa a grande questão. Isto faz parte realmente de uma espécie de guerra judicial permanente, que é muito comum com Donald Trump, já desde o tempo em que ele era empresário em Nova York, ele passava a vida em tribunais a processar e a ser processado. É muito usar também, no fundo, seu músculo financeiro. E depois também há a ameaça do Estado americano, ou seja, no caso das televisões americanas, como dizias, a maior parte dos especialistas achavam que isto estava claramente protegido pela Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão. Mas a questão é que a imprensa também são empresas, as empresas queriam fazer fusões, queriam fazer compras.

Precisam fazer negócios.

E tudo isso precisa de ser autorizado pela reguladora da comunicação social, que é controlada por um aliado de Donald Trump, que não faz segredo que, no fundo, está ao serviço do presidente e que está disposto a usar essa capacidade, digamos, de dar licenças ou não dar licenças para punir eventuais órgãos que são vistos como inimigos ou adversários do presidente norte-americano. Aqui eu acho que a dimensão, no fundo, tem a ver com a própria política externa, ou seja A ideia de que não interessa ao Estado britânico comprar uma guerra com Donald Trump. Mas o problema realmente é que na Grã-Bretanha, por exemplo, o líder dos Liberais Democratas, o Ed Davey, vem dizer: "É inaceitável o governo não estar a defender publicamente a BBC e é impensável que os contribuintes britânicos, porque é quem paga o orçamento da BBC, vão pagar a Donald Trump. O governo tem que pôr um travão isto, tem deixar claro que está do lado da BBC." O governo britânico está aqui numa posição um pouco difícil, porque claramente não quer comprar guerras com Donald Trump, quer manter o mais possível uma boa relação, até porque a Grã-Bretanha depois do Brexit está mais isolada internacionalmente, está mais dependente da aliança do mercado norte-americano. Ao mesmo tempo, em termos internos, não me parece que seja muito popular esta ideia de pagar uma quantidade enorme de dinheiro a Donald Trump. Vamos ver se resolve com algum tipo de desculpas e se Donald Trump aceitará isso ou se teremos aqui uma crise mais séria, eventualmente até com implicações nas relações entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Mas todos estes casos da BBC e não só, não vêm também ajudar a narrativa de Trump e dos apoiantes de Trump, de que os chamados legacy media, os mídia tradicionais, não são confiáveis e não são imparciais?

Eu acho que sim, e acho que os legacy media, os órgãos de referência, realmente têm que ter isso em conta. As regras de rigor, de como é que se faz uma boa edição, isso tudo tem que continuar a ser respeitado independentemente se gostar ou não da personalidade política que está em jogo, é bastante evidente. Eu diria que isso também se aplica, aliás, na academia, nas universidades. Se as universidades, se os órgãos de imprensa de referência não conseguem ter algum diferencial de rigor, depois qual é a sua mais-valia? A crise final, diria eu, deste tipo de instituições seria se realmente cada vez mais caíssem nesta armadilha de um mundo cada vez mais polarizado e começassem cada vez mais a dar razões aos seus críticos.

Obrigado, Bruno.

Obrigado eu.

Bruno Cardoso Reis, historiador, investigador universitário, é também o autor do podcast "Cinco Continentes", da Rádio Observador. A terminar, três coisas a ter em conta esta quinta-feira. Termina hoje em Lisboa a edição 2025 da Web Summit. É considerada a maior conferência de tecnologia do mundo e este ano teve um foco particular na inteligência artificial. A Maia recebe a partir de hoje a exposição internacional World Press Photo. É já a edição número 70 da prestigiada mostra, que destaca o que de melhor se faz todos os anos na área da fotografia. Vai decorrer no Fórum da Maia. E os saudosistas do final dos anos 90 podem alegrar-se. Os Silence Four estão de regresso para celebrar os 30 anos da formação da banda. Hoje e nos próximos três dias, o grupo de Leiria atua no Porto. A 12 e 13 de dezembro é a vez de Lisboa. Esta foi a história do dia. No início deste episódio usámos um som da BBC. A sonoplastia é de Artur Costa. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.