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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que se passa no Benfica e quais as saídas para a crise? Acabamos de chegar a acordo com Bruno Lage, que deixa de ser treinador do Benfica no dia de hoje. Rui Costa, o presidente do Benfica, na madrugada desta quarta-feira, anunciava a saída de Bruno Lage do comando técnico dos encarnados. Um momento que confirma a crise que o clube atravessa. O Benfica vai ter eleições daqui a pouco mais de um mês e os adeptos exigem resultados. Como chegou o Benfica a esta situação e que saídas terá? É sobre isto que vou conversar com Bruno Roseiro, o editor de desporto do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de quinta-feira, 18 de setembro. Bem-vindo, Bruno.

Olá, Ricardo.

Bruno, vamos talvez começar pelo lado desportivo. Afinal, o que conta sempre é quantas vezes a bola da nossa equipa entra na baliza dos outros. E o Benfica está assim tão mal do ponto de vista desportivo?

Não está. Teve um problema: é que a bola entrou demasiadas vezes na sua baliza no jogo contra o Qarabag.

Exato. Na Liga dos Campeões.

Na Liga dos Campeões. Quando nós olhamos para toda a época do Benfica, o Benfica até à paragem das seleções tinha dois objetivos: conquistar a Supertaça, conseguiu frente ao Sporting, entrar na Liga dos Campeões, conseguiu depois de eliminar o Fenerbahçe. O problema aqui foram dois resultados em quatro dias, o empate com o Santa Clara e a derrota com o Qarabag na estreia da Liga dos Campeões, que mudaram por completo o paradigma. E o problema aqui, mais do que as bolas que entram ou não entram, é a qualidade dos jogadores que o Benfica trouxe esta temporada não se reflete na qualidade de jogo da equipa. E a reação que os adeptos tiveram depois do jogo com o Qarabag é, sobretudo, perceberem que a equipa tem potencial para fazer muito mais do que aquilo que está a fazer.

E perante isso que estás a dizer, a saída de Bruno Lage, do treinador, seria inevitável.

Era inevitável, sobretudo até pelo atual contexto. Perceber uma coisa que se calhar não foi muito dita e se calhar também ninguém vai assumir. Rui Costa pensou duas vezes antes de começar a época com Bruno Lage. O que é que manteve Bruno Lage? Esta é uma época atípica, porque o Benfica vai ao Mundial de Clubes aos Estados Unidos, chega aos oitavos, tem apenas duas semanas de férias antes de começar a época e logo com a Supertaça, e qualquer troca técnica obrigaria o novo treinador a ter um contacto demasiado rápido e um conhecimento demasiado profundo com os jogadores, que seria complicado.

Foi tudo muito rápido neste período de verão, não é? Praticamente não pararam.

Sim, um verão completamente atípico, ou seja, pararam uma semana antes do Mundial de Clubes e depois duas semanas. É um bocadinho como se em vez de tirares o mês de agosto de férias, tiraste uma semana em julho e depois duas em agosto. Não é a mesma coisa. No futebol também é assim.

Claro.

E no atual contexto, percebe-se a despedida de Bruno Lage. Há aqui também um outro ponto. Rui Costa provavelmente não ficou indiferente à assobiadela que se ouviu no final do jogo com o Qarabag, que eu pessoalmente, sou sincero, há muito tempo que não ouvia. Agora, pra mim, a imagem que fica é, no final, quando todos os jogadores e o treinador estão no centro do relvado, o líder é o capitão Otamendi e não o treinador. E quando assim é, é quando tu percebes que por mais que tentes ter discursos no balneário, a mensagem do treinador não vai chegar, as coisas não vão melhorar. E quando assim é, o melhor é mesmo trocar.

E já vamos às eventuais soluções. Mas Bruno, se há coisa que eu já aprendi quando estamos em discussões sobre futebol, é que não podemos deixar de falar da estrutura, que é aquela coisa que às vezes não sabemos bem do que é, mas é tudo que está à volta da bola. Há problemas na estrutura do Benfica?

A estrutura do Benfica está em mudança e esse é um dos problemas. Ou seja, Rui Costa conseguiu, em parte, esvaziar as críticas que vinham a ser feitas por alguns dos candidatos quando apresenta uma nova estrutura. Saiu Lourenço Pereira Coelho, Rui Pedro Braz, diretor desportivo, fez o mercado de transferências e está também de saída. Entrou Mário Branco, que trabalhou com José Mourinho no Fenerbahçe, para diretor-geral do Benfica. A estrutura em si está em mudança. O problema aqui é: nunca ninguém seria capaz de imaginar que, ainda antes das eleições, essa estrutura teria de ser obrigada a procurar um novo treinador, quando estamos apenas a cinco semanas das eleições.

E estás a falar desses cargos todos, pra quem não está muito familiarizado com isto, são cargos importantes dentro da estrutura do futebol, lá está, porque são as pessoas que Que vão escolher as pedras-chave da equipa, porque isto de só dar pontapés na bola não chega.

Sim, não chega. E, por exemplo, Lourenço Pereira Coelho é um nome que se calhar passava um pouquinho ao lado das pessoas que seguem o futebol, mas era uma pessoa fundamental em tudo que era gestão de equipa, ou seja, os estágios, as condições, os dias, as datas, as reuniões da liga, etc. Muitas vezes há uma série de pessoas invisíveis numa estrutura que depois fazem muita diferença. E não é por aparecerem mais ou menos, não é por darem mais ou menos a cara no aeroporto que elas ganham protagonismo. Elas ganham protagonismo por aquilo que fazem em termos internos. Lourenço Pereira Coelho é um exemplo paradigmático disso mesmo. E muitas vezes, há tendência para apontar o dedo à estrutura sem se perceber ao certo o que é a estrutura.

Exato.

Nesta altura, aponta-se o dedo, porque ao falar-se da estrutura, está a colocar-se o bolo todo do futebol em equação e, mais uma vez, temos de colocar tudo isto sempre numa perspectiva de contexto eleitoral. É isso que tem marcado as últimas semanas do Benfica.

E já vamos falar das eleições também. Antes, queria só perceber uma coisa, já que estamos a falar desta estrutura de dirigentes. A situação financeira do Benfica já viu melhores dias? Está bem? Nós sabemos sempre que os clubes estão mergulhados em dívidas gigantescas.

Sim, tem aqui dois pontos que te deixam um pouquinho na dúvida. Porque o exercício 23/24 acaba com mais de 30 milhões de prejuízo e o último exercício, 24/25, acaba com mais de 30 milhões de lucro. Tu aí consegues ver que existe aqui uma disparidade grande. Os candidatos à presidência do Benfica, aquilo que têm apontado mais é para a tesouraria, ou seja, para o dinheiro que está em caixa para pagar ordenados, para pagar contas, ou seja, o dinheiro que nós, em termos de economia familiar, temos para a nossa vida, supermercado, etc. Têm apontado, sobretudo, para aí. Agora, aquilo que se percebe do empréstimo obrigacionista que o Benfica lança em abril é que nos riscos que são apresentados, mais uma vez se fala muito da dependência da venda de ativos. E isso aí depois é a diferença entre teres um ciclo virtuoso ou um ciclo vicioso, que é tu vendes os teus melhores ativos, tens mais dificuldades em ganhar, tens mais dificuldades em ganhar, não vais valorizar os teus ativos e não sais deste ciclo vicioso, que no caso do Benfica, já chegou a ser virtuoso, porque tudo isto funcionava à luz de títulos e nesta altura é isso que falta também ao Benfica.

Já voltamos à conversa com o editor de desporto d'O Observador, Bruno Roseiro. Como vai, afinal, o Benfica tentar sair disto? Estamos de regresso à conversa com Bruno Roseiro, editor de desporto d'O Observador. Bruno, não sei se esta pergunta me vai valer alguns e-mails irados, mas cá vai ela. Podemos dizer que o Benfica quase parece o Sporting quando vivia anos e anos de crise em crise?

Primeira resposta, vai valer imensos e-mails irados. Segunda resposta, a melhor forma de perceber aquilo que se passa no Benfica é perceber que está quase, entre aspas, a haver uma sportingização do Benfica. E o que isso significa? É recuar aos tempos que o Sporting atravessou, por exemplo, para não irmos muito longe, na última década, ou seja, antes do ataque à academia e das eleições de 2018, onde havia tendencialmente esse tal ciclo vicioso que nós já falamos de crise de resultados, falta de títulos, contestação ao treinador, cai o treinador, vem o novo treinador, contestação ao novo treinador, contestação ao presidente, pedido de eleições. Ou seja, tudo isto começa a acontecer no Benfica. Com essa nuance. O Benfica não está habituado propriamente a ter eleições com muitas figuras. O Benfica sempre foi um clube que, em termos eleitorais, tem um candidato mais estável, mais favorito e que tendencialmente ganha com 70%, 80% ou mais de votação. Tem depois um outro candidato que tenta desafiar essa liderança sabendo que será quase impossível ganhar as eleições e quanto muito teria um terceiro candidato, que é quase uma espécie de aventureiro, que tem uma porcentagem residual em termos eleitorais. Hoje, aquilo que estamos a assistir é a um Benfica com seis candidatos às eleições como nunca aconteceu e com alguns pormenores, nomeadamente ter o antigo presidente, que foi líder durante quase duas décadas, Luís Filipe Vieira. O seu delfim, que é o atual presidente, chamado Rui Costa, que agora afinal já não é delfim, e Vieira já pediu desculpa por isso. E depois quatro candidatos, digamos assim, de rutura, de oposição, sendo que um deles também já tem uma experiência eleitoral e que teve mais de 30% em termos de eleições contra Vieira. Portanto, isto é algo que nós nunca assistimos no Benfica e daí haver essa tal sportingização nesse sentido. Ou seja, entra-se num ciclo vicioso da falta de resultados, contestação ao treinador, falta de títulos, chega à presidência, chega a eleições e existem muitas listas como nunca existiram.

E no meio desses seis candidatos, há favoritos, há quem tenha mais hipóteses do que outros? Como é que estamos na corrida?

Ao contrário da política, eu diria que não é fácil.

Já pareces das presidenciais.

Não é fácil. Aqui há uma série de nuances e acho que é muito complicado analisar sondagens de clubes desportivos por várias razões. Primeiro, o Futebol Clube do Porto é um exemplo, cada sócio tem um voto. No Benfica e no Sporting não é isso que acontece. Portanto, a questão da antiguidade tem também o seu peso em termos de votos.

Os sócios mais antigos têm mais votos.

Têm mais votos. O Benfica agora fez uma reforma dos seus estatutos, houve uma pequena alteração em termos de distribuição de votos, mas ainda assim, um sócio que tenha um ou dois anos de filiação não é o mesmo que tenha 20, 30 ou 40. Essa é a primeira nuance. Segunda nuance: onde é que tu fazes uma sondagem? É num estádio, em dia de jogo. Se eu for a determinada bancada, eu sei que me vou cruzar com um público mais novo. É um público que se calhar quer mais a mudança, não gosta deste Benfica. Se eu for a outra bancada, se calhar é um público mais velho, que tem o seu lugar cativo e que percebe que as coisas podem não estar a correr bem, mas que o Benfica começou um caminho a partir, sobretudo, de 2003, 2005, que colocou o Benfica em termos de infraestruturas, até em termos desportivos, num patamar como há muito não tinha. E por isso é muito complicado analisar a questão das sondagens. Aquilo que me parece claro é: por um lado, existe a continuidade, e continuidade pode ser assumida ou por Rui Costa ou por Luís Filipe Vieira. Por outro, existe a rutura. João Nourenha Lopes, também pelo mediatismo que ganhou quando conseguiu desafiar Luís Filipe Vieira nas eleições, pode ter, em termos de perceção, alguma vantagem. João Diogo Mantegas é outro candidato que também tem sido muito falado, embora se calhar depois em termos de campanha, daquilo que é mais visível, possa não ter tanta atenção como as suas ideias e os seus apoiantes defendem. Temos também Martim Mayer e Cristóvão Carvalho, que vão apresentando alguns projetos. E quando nós olhamos para aqui, e tendo em conta que existe uma figura da segunda volta, parece-me inevitável que o próximo presidente do Benfica seja eleito numa segunda volta.

Há segunda volta aqui também nestas eleições. E que saídas, que propostas têm estes candidatos para esta crise? Ou neste caso, para o Benfica.

Sim, nesta altura, aquilo que se percebe é que são projetos a médio e longo prazo, sobretudo aqueles que são apresentados em termos eleitorais. Há alguns pontos em comum, ou seja, todos os candidatos consideram a possibilidade de haver um aumento do Estádio da Luz, porque existe essa necessidade. Há muitos sócios do Benfica que querem ter lugar anual e nesta altura não existe espaço para haver mais venda de lugares anuais. Havendo esses pontos em comum, tudo vai entroncar sempre no futebol, quer se queira, quer não.

Na bola na baliza.

É o motor, é a mola real de qualquer clube, quer se queira, quer não. As finanças podem estar bem, as modalidades podem ganhar a tudo e todos. Se a bola não entra no futebol, isso vai ser sempre um problema. E agora existe um extra: é que qualquer que seja a opção do Rui Costa, um futuro presidente, que não seja o atual presidente Rui Costa, vai sempre ter de lidar com um treinador que não é o seu treinador, não é a sua escolha. Já iria acontecer com Bruno Lage, mas agora com um treinador acabado de chegar, que tem apenas um mês de funções, eu diria que vai ser mais um problema, sendo que é uma opção completamente legítima de Rui Costa escolher qualquer treinador nesta altura.

E nós estamos a gravar esta conversa ao final de tarde de quarta-feira e o que está na calha é José Mourinho. É quase certo, diria mais de 90% ou 95% de certeza. José Mourinho é o homem certo nessa altura para pegar na equipa?

Eu diria que é a escolha possível dentro das escolhas que o atual contexto possibilita. Porque José Mourinho sabe qual é o Benfica que vai encontrar. A parte boa, ou seja, um plantel que está muito reforçado em relação à última época e que tem muita qualidade, muito mais do que aquilo que se tem visto. Por outro, é uma equipa que joga sobre brasas, porque existe também um contexto eleitoral. Uns jogadores estrangeiros, por exemplo, o Richard Rios ou o Sudakov, foram as duas contratações mais caras de sempre do Benfica. Eles não fazem a mínima ideia de quem são os candidatos às eleições do Benfica. E mais, nem querem saber. Eles provavelmente nem querem saber. Agora, o ambiente que se vive à volta da equipa, nos jogos, tudo mexe por esta questão do contexto eleitoral. E foi por isso que Rui Costa foi começando a ganhar algum espaço em termos eleitorais, porque a época começou muito bem com Bruno Lage, e agora provavelmente pode ter perdido algum espaço com estes dois resultados negativos e com o despedimento de Bruno Lage. E se assim não fosse, eu e aqui a rádio não teríamos sido obrigados a acompanhar uma conferência de imprensa à 01:30 da manhã.

Exato.

E isto é um espelho daquilo que é a atual realidade do Benfica, uma realidade que vive paralelamente com o contexto eleitoral e que deixa uma garantia: a partir de 25 de outubro, ou provavelmente numa segunda volta, haverá o Benfica antes dessa data e depois dessa data, porque nunca o Benfica chegou a este ponto que nós estamos agora a assistir e que provavelmente não estamos habituados.

Obrigado, Bruno.

Obrigado, Ricardo.

Bruno Roseiro é o editor de desporto do Observador. Ficam ainda algumas notas importantes para esta quinta-feira. O primeiro-ministro tem reunião agendada com o secretário-geral do PS. Vão ser apresentadas as linhas orientadoras da proposta de orçamento do Estado para 2026. E André Ventura prometeu para esta quinta-feira a apresentação do governo-sombra do Chega, quem serão os nomes escolhidos e que aceitaram integrar este grupo. E no futebol, o Sporting recebe em Alvalade, às 20:00, o Kairat do Cazaquistão, no jogo a contar para a Liga dos Campeões. Esta equipa viajou quase 7000 km entre Almaty e Lisboa. Só para termos aqui um termo de comparação, entre Lisboa e Nova Iorque são menos de 5500. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.