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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O TikTok é a rede social mais perigosa?

Is that it's genuinely troubling to see what the Chinese government could do to manipulate TikTok.

And what would you recommend people tell their children or their young friends about whether to use TikTok?

No, I'd be really careful.

William Burns é o diretor da CIA, os serviços de informações norte-americanos. Nesta entrevista na PBS, aconselha os pais e os cidadãos norte-americanos a ter muita cautela com o TikTok. O diretor da CIA e o do FBI estão alinhados com a administração Biden. Temem que a China recolha dados sensíveis e os use para manipular a opinião pública norte-americana através do TikTok.

What I would underscore, though, is that it's genuinely troubling to see what the Chinese government could do to manipulate TikTok.

Esta é a rede social favorita dos mais novos, sobretudo adolescentes e jovens adultos. O TikTok espalhou-se por todo o mundo e tem milhões de utilizadores, mas em Washington há um receio crescente em relação à forma como a empresa chinesa armazena os dados que recolhe e à forma como os usa. Quais são os perigos? O TikTok será mais perigoso que o Instagram ou o Facebook? Vou conversar com a jornalista do Observador, Inês Capucho, especialista em tecnologia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Inês.

Obrigada, Ricardo.

Eu já instalei e desinstalei o TikTok algumas vezes do telemóvel, sobretudo para espreitar, para tentar perceber mais ou menos qual será o fascínio desta rede social. E voltei a instalar agora e vou partilhar aqui contigo o meu regresso ao TikTok. Vamos ver. Mais um senhor a lavar janelas.

E foi assim que a picanha morreu.

Um senhor a cortar carne.

Muitas vezes dizem-me a mim: "Maria, tu és uma grande mulher."

Uma senhora.

Por que ninguém diz que isto é possível fazer mais?

Um senhor a explicar truques no telemóvel. Inês, vou parar isto. Isto parece-me uma sucessão de vídeos inúteis, mas que é viciante. Nós pomos a olhar para estes vídeos e a passar para cima, isto não para. É isto o TikTok?

É isto o TikTok, uma sucessão de vídeos aleatórios, porque o TikTok é uma aplicação que está desenhada para viciar quem a está a utilizar. É por isso que é uma das aplicações mais populares do mundo neste momento, também devido à facilidade que os vídeos têm de ficar virais. Rapidamente podemos publicar um vídeo e ter milhões de visualizações. E, portanto, cinco minutos na aplicação rapidamente se transformam em uma hora. Quando olhamos para o relógio, já passou tempo a mais.

Cuidado, o tubarão vai te pegar. Tubarão, te amo umalcão. É pra frente, pra frente. Não frio, cabeça de nível. Toma, toma.

Inês, já percebemos aqui pela amostra que podemos encontrar muitos conteúdos, mas que tipo de conteúdos é que podemos encontrar no TikTok?

Desde logo, toda a gente conhece estas músicas, que ultimamente estão por toda a parte.

Sim, podes parar de dançar, Inês.

E para além disso, é um pouco de tudo. Por exemplo, o chef Gordon Ramsay avalia receitas dos utilizadores. Num dos TikToks, analisa o cozinhar de um hambúrguer.

That looks stunning. What's the thick pace? How thick is your burger? That's it. Oh, no, now you've just ruined it. Oh, come on. Seriously? No!

E mostra-se contente até que o utilizador põe molho por cima da carne.

Toda a gente sabe que não se pode fazer isso.

Não.

E há outros exemplos?

Sim, Carlos Moedas a arrumar uma trotinete.

Eu passo o dia a arrumar trotinetes.

É o próprio que diz, em jeito de brincadeira, que passa o dia a arrumar trotinetes, mas é a música que acompanha as declarações que fez com que o vídeo seja agora o mais popular do TikTok do presidente da Câmara de Lisboa. Já conta com mais de 300 mil visualizações. Contamos também com danças, pessoas a cantar, conteúdos humorísticos e voiceovers como o da Matilde Bryner, a atriz portuguesa, que utiliza áudios de momentos saídos de reality shows, principalmente Big Brother e Casa dos Segredos, para imitar aqueles áudios.

Que os crocodilos engolem para facilitar a digestão.

Ai, senhora. Então tem que ser alguma coisa que haja lá no lago perdida.

Ou seja, Inês Capucho, de receitas de bacalhau com broa a ciência política, tudo isto e em vídeos curtos.

Tudo isso, mas não tudo em vídeos curtos. Atualmente, os vídeos podem ser mais curtos ou ter mais tempo, um mínimo de 15 segundos e um máximo de 10 minutos, embora a maioria continue a optar por vídeos com pouco mais de um minuto, desde essas receitas de bacalhau com broa ou as danças, tudo em limites mais pequenos.

E o que é que se está a passar nos Estados Unidos?

Há vários anos que nos Estados Unidos existem receios de que o TikTok, que é propriedade de uma empresa chinesa chamada ByteDance, possa ser utilizado como uma ferramenta de espionagem. O próprio diretor do FBI, Christopher Wray, mostrou-se extremamente preocupado.

We, the FBI, do have national security concerns

E alerta os norte-americanos que as empresas chinesas são obrigadas a fazer o que o governo quer que elas façam em termos de partilhas de informação. E por isso vêm daí os receios de espionagem e de acesso a dados de utilizadores norte-americanos.

Mas isso é de agora? Não vinha já do tempo de Trump, por exemplo?

As preocupações começaram em 2020 com Donald Trump, que tentou banir completamente o TikTok, mas não conseguiu, e culminam agora com uma assinatura de Biden do orçamento dos Estados Unidos para este ano, que inclui uma proibição do TikTok nos dispositivos dos funcionários do governo federal.

Ou seja, alguém que trabalha na Casa Branca não pode usar o TikTok na Casa Branca ou sempre? E esta ordem é só para funcionários públicos ou é também para o comum cidadão?

A proibição não abrange os cidadãos comuns e alguém que trabalhe na Casa Branca não pode utilizar o TikTok no telefone da Casa Branca, no telefone de trabalho. Nos seus telefones e computadores pessoais, continua a ter acesso ao TikTok e aos vídeos de que gosta nessa aplicação.

E qual é a resposta do TikTok para isso? Há alguma solução, por exemplo, só para os Estados Unidos?

O TikTok mostrou-se desapontado, disse mesmo estar desapontado com a medida.

É normal, não é? É um mercado muito apetecível, os Estados Unidos.

Claro que sim, mais de 100 milhões de utilizadores só nos Estados Unidos. E o que se sabe neste momento é que o TikTok tenta negociar desde 2019 algumas medidas específicas para os Estados Unidos, para acalmar estes receios e preocupações relativas à espionagem. É um projecto chamado Projecto Texas, que pretende, por exemplo, separar as decisões que são tomadas nos Estados Unidos das decisões tomadas pela ByteDance, a proprietária chinesa. Ou, por exemplo, passariam a ser os norte-americanos a ter o controlo da contratação dos membros da equipa do TikTok nos Estados Unidos. Contudo, ainda não foi alcançado nenhum acordo e pouco se sabe sobre estas negociações, que são confidenciais.

Já voltamos à conversa com a jornalista do Observador, Inês Capucho. Vamos tentar perceber que perigos pode esconder o TikTok e será esta rede mais perigosa do que as outras?

A reforma do Estado para nós não é uma folha de PowerPoint.

Será necessário reformar Portugal? Será que é possível reformar Portugal? E por que continuamos a reformar tão pouco? António Carrapatoso vai responder a estas e outras perguntas no novo curso da Academia Observador. E até traz uma folha de PowerPoint. Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Estamos de regresso à história do dia e à conversa com a jornalista Inês Capucho. Inês, o TikTok vive de publicidade, vídeos publicitários ou de campanhas pagas? Como é que isso funciona?

Em princípio, podemos assumir que sim, que o TikTok vive dos anúncios publicitários, dos influencers, das marcas, das campanhas pagas, das compras que são feitas na aplicação, mas ainda assim, como as contas da empresa não são públicas, é difícil ter certezas de que realmente a publicidade é a maior fonte de receita do TikTok. Não se sabe.

E agora temos de falar do algoritmo. Como é que funciona este algoritmo? E o algoritmo, no fundo, é o cérebro de todo este sistema. Ou seja, se eu me demorar mais a ver vídeos de gatos fofos e divertidos, eu nunca tinha usado a expressão "gatos fofos" na história do dia, mas queria muito usá-la. Aí está, gosto muito de ver vídeos de gatos fofos. Vou ver cada vez mais vídeos de gatos fofos?

À partida, sim, o algoritmo é alimentado pelas informações que lhes damos. Portanto, se passarmos mais tempo a ver um determinado conteúdo, como vídeos de gatos fofos.

Por que não? Vídeos de gatos fofos.

Claro.

Já se disse para aí 10 vezes "gatos fofos".

Podemos continuar a dizer.

Não, vamos em frente.

Esse conteúdo vai nos ser recomendado mais vezes para nós ficarmos colados ao ecrã. Mas não é só esse conteúdo. Os gostos, os comentários, o som que é utilizado nos vídeos, as descrições também determinam aquilo que gostamos e ajudam o algoritmo a decidir o que é que nos pode recomendar. Portanto, o que eu vejo é diferente do que tu, Ricardo, vês, e isso faz com que a personalização seja extrema para agradar a todo o tipo de utilizadores.

Portanto, a máquina sabe muito bem o que tu gostas, o que tu preferes, fica com essa informação.

Exatamente.

E há também notícias, ou melhor, há pessoas que interpretam as notícias?

Sim, por norma, esses criadores de conteúdo colocam uma captura de ecrã da notícia por trás e ao longo do vídeo explica do que se trata. No caso da invasão do Congresso brasileiro, por exemplo, há um TikToker chamado Igor Paulo, que explica a notícia desse momento de uma forma mais entusiástica.

Os manifestantes que se diziam pacíficos invadiram o Congresso Nacional, inclusive uma viatura da Polícia Militar caiu dentro do espelho d'água. Aí depois que são presos, vão dizer que estão perdendo o direito de se manifestar, que as manifestações são pacíficas e estão previstas na Constituição.

Ou seja, é sempre de forma mais entusiástica do que se as tivéssemos a ler num site. E é por isso que os vídeos contam sempre com muitas visualizações, mas também são narradas de forma a captar a atenção dos mais jovens para as notícias, para que os mais jovens não vão tanto aos sites de notícias e estão no TikTok e têm acesso à informação à mesma.

Mas isso será a interpretação, por exemplo, deste TikToker, Igor Paulo, daquilo que aconteceu em Brasília. Não é um jornalista a dar informações.

Claro que sim, há sempre esses perigos de ser passada uma narrativa que não é totalmente verdadeira, embora o TikTok diga que faça moderação de conteúdos, que passa pela inteligência artificial e depois por humanos, para tentar verificar se a informação que está a ser passada é verdadeira ou não, mas a informação pode ser verdadeira e estar a passar enviesada.

Com milhões de vídeos, não há, de certeza, equipa que dê para ver toda a gente. Isso pode-nos levar aqui também ao ponto seguinte, que é regressar um pouco àqueles receios norte-americanos de que falávamos há pouco, e até que ponto estes receios têm alguma razão de ser. Ou seja, o regime chinês, porque esta empresa é chinesa e já sabemos que terá de responder a Pequim, pode ou não influenciar aquilo que eu ou tu, Inês, ou os nossos filhos adolescentes ou jovens adultos, pensam do mundo através dos vídeos que nos deixam ver?

A realidade é que não é possível saber. Os Estados Unidos temem que o regime chinês utilize o TikTok para passar uma narrativa pró-China e não conteúdos que sejam críticos do regime chinês. Mas não há evidências ou provas de que realmente isso aconteça, de que o TikTok influencie a forma como nós vemos os outros países além do nosso ou os criadores de conteúdo do TikTok influenciem a nossa narrativa do mundo.

E sabemos quantos utilizadores há em Portugal, por exemplo?

Não. Essa informação, segundo o TikTok, é confidencial, tal como todas as outras relacionadas com o país. Por exemplo, quantos moderadores de conteúdo existem em Portugal? Quantos vídeos foram removidos? Também não é possível saber, mas sabemos, sim, quem são as estrelas.

As grandes estrelas do TikTok em Portugal?

Exatamente. Capinha, ator e cantor, é o rei do TikTok em Portugal e conta com mais de um milhão de visualizações. Por norma, os seus vídeos contam com a família, a mulher e o filho, em brincadeiras e danças.

Escrevam aí nos comentários que emoji é que é parecido com esta pedra.

Me diz uma coisa, tu gostas mais de uma mulher bonita ou uma mulher inteligente?

Nenhuma das duas. Sabes que eu só tenho olhos para ti.

Para além do Capinha, contamos também com Constanza Ariza, que tem perto de um milhão de seguidores.

Um milhão?

Um milhão. É uma TikToker que se dedica mais às danças.

E a Europa ou a União Europeia está em linha com os Estados Unidos, ou seja, há por cá alguma tentativa de limitar ou alertar para potenciais perigos desta rede social?

Neste momento, não. Ao longo da semana passada surgiram algumas notícias, por exemplo, na Bloomberg, que dizia que a abordagem europeia era muito menos hostil do que a dos Estados Unidos. E o CEO do TikTok esteve reunido com legisladores europeus e foi questionado sobre como é que vai seguir as leis da União Europeia sobre privacidade, proteção de dados, principalmente a lei dos serviços digitais, que quer combater a desinformação e manter os utilizadores seguros online. O lema desta lei é que tudo o que é crime offline, também deve ser crime online. Portanto, conseguimos perceber que a União Europeia também tem aqui algumas preocupações relativamente ao TikTok, mas um bloqueio total não está aparentemente a ser equacionado.

Por tudo o que já explicaste, até pela forma como esta rede social funciona, parece não ser muito diferente das outras, do Instagram ou do Facebook. É mais perigosa ou poderá ser mais perigosa só porque é chinesa?

Eu não sei se podemos dizer que o TikTok é mais perigoso ou menos seguro do que as outras redes sociais, porque todas têm perigos, desde o Instagram, o Facebook, o Twitter. O que a coloca sob pressão, uma pressão que as outras redes sociais, principalmente norte-americanas, não têm, é realmente o facto de ser chinesa, da sua proprietária, a ByteDance, estar sujeita à jurisdição chinesa. E existe mesmo uma lei chinesa, desde 2017, que estabelece que as empresas têm que cooperar com os esforços dos serviços de informação nacionais, o que pode incluir dar acesso a determinados dados de utilizadores.

Ou seja, Inês, em teoria, pode existir um analista dos serviços de informações chinês que vai saber que eu adoro ver vídeos de gatos fofos. É isso?

Em teoria, pode haver um analista dos serviços nacionais chineses que peça essa informação, dos gatos fofos ou qualquer outra, seja a tua localização.

O meu número de telemóvel.

O teu número de telemóvel.

A minha idade, onde é que eu ando.

Porque é isto que está estabelecido nesta lei que foi criada em 2017.

Obrigado, Inês.

Obrigada.

Inês Capucho é jornalista do Observador e acompanha habitualmente temas ligados à tecnologia. Esta foi a história do dia. Os sons que fomos ouvindo foram retirados do TikTok. Este episódio contou ainda com a colaboração da jornalista Marta Amaral. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.