Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: Mikhail, a história de um bebê que nasceu em guerra. Este é Mikhail. Nasceu a 13 de abril, na Ucrânia, em Bashtanka, no sul do país. O parto deste bebê decorreu debaixo de uma grande tensão num país em guerra. Mikhail ficou com uma lesão no braço direito ao ser puxado por um dos elementos da equipe médica. Tinha apenas seis dias quando ouviu o silvo de uma bomba pela primeira vez, que atingiu o edifício ao lado da maternidade onde nasceu. Segundo a ONG Save the Children, nasceram mais de 63 mil bebês na Ucrânia só nos primeiros dois meses de guerra. As crianças são uma parte importante das vítimas destes conflitos. Além da morte, dos ferimentos, há lesões psicológicas que ficam pra vida. Hoje vamos conhecer a história de Mikhail, um bebê com pouco mais de um mês de vida. Vou conversar com Pedro Jorge Castro, um dos enviados especiais do Observador à Ucrânia. Bem-vindo, Pedro.

Olá, Ricardo.

Quem é o Mikhail?

O Mikhail é um bebê. Nós andamos à procura da história de um bebê, queríamos contar a história de um bebê que tivesse nascido num hospital bombardeado. Há vários hospitais e maternidades que foram bombardeadas. E encontramos este bebê que nasceu no hospital de Bashtanka, e o hospital foi bombardeado poucos dias depois de ele nascer, ainda com ele no hospital. O nome deste bebê foi escolhido pelo pai, por o santo Mikhail corresponder mais ou menos ao dia em que ele nasceu, por acaso é dois dias antes, mas ele disse, dos vários santos que havia pra esta altura, que este era o nome que mais gostava e, portanto, escolheu o nome Mikhail.

E como se chamam os pais?

Os pais chamam-se Viktor e Viktoria.

E vivem aí perto da maternidade?

Vivem em Bashtanka, sim. Vivem numa zona rural a cerca de 10 minutos, por uma estrada quase intransitável. Portanto, numa zona de campo, a 10 minutos do hospital, em Bashtanka. A mãe não era daqui, juntou-se aqui quando eles começaram a viver juntos e casaram. O pai trabalhava numa empresa relacionada com a indústria petrolífera em Mykolaiv, a mãe trabalhava numa fábrica de queijos e também tinha um hobby relacionado com o tratamento de manicure e de unhas. Eles conheceram-se através de amigos comuns há cerca de um ano e pouco. Depois, passado dois, três meses de se conhecerem, Viktoria engravidou. Aliás, esperou dois dias que o pai voltasse à casa, porque ele estava a trabalhar fora, pra lhe dar a notícia. E depois de saberem que tinham engravidado, cinco meses antes do nascimento do Mikhail, o pai um dia pegou na mãe e disse: "Vá, agora vens comigo". Foram a Mykolaiv, a um cartório, e ele foi perguntar o que era preciso pra se casarem. E a funcionária do cartório ficou tão espantada com aquele repente que lhe disse: "Pronto, até vos vamos casar aqui a hora de almoço". E tudo surpresa pra mãe, que não sabia que isto ia acontecer. Só acabaram por fazer a festa depois de passado um mês, uma festa aí já com duas dezenas de convidados e todos vestidos a rigor. Isto ainda antes de começar esta fase mais agressiva da guerra, que começou a 24 de fevereiro.

Exatamente, ambiente bem diferente daquele que encontraram depois de 24 de fevereiro, quando tiveram de ir pro hospital.

A 24 de fevereiro, no dia em que começou a guerra, eles dizem que sentiram a terra tremer. Foi quando começaram as primeiras explosões no aeroporto Mykolaiv. E ainda viram depois, passado uns dias, as colunas de militares russos a passar numa rua bem perto da sua casa. Eles dizem que não chegaram a ocupar as aldeias, pernoitavam uma ou outra noite ali em caves de vizinhos, mas não chegaram a ocupar, não chegaram a fazer aquelas torturas que ouvimos falar em Bucha e em Irpin, por exemplo. Mas só esta imagem de ver as colunas de russos passar ali tão perto, obviamente, deixou-os aterrorizados, claro.

E Pedro, como decorreu o parto em clima de guerra? Foi nessa altura que houve o bombardeamento ao hospital em Bashtanka?

Sim. Os partos, aliás, um pouco por toda a Ucrânia, mudaram bastante. Nós falamos com vários médicos, até de outros hospitais, que nos contaram que passaram a ter que fazer os partos às escuras. Não há luzes acesas na maior parte do território ucraniano durante a noite, precisamente pra não dar sinais ao inimigo, e pra evitar um risco de ataque. Os partos passaram a ser feitos às escuras, obviamente ao som de sirenes, de bombas nas imediações dos hospitais e maternidades, algumas vezes nos próprios hospitais e maternidades, aconteceu em vários casos que nós tivemos a oportunidade de testemunhar. E também ao som de sirenes, sempre sob o risco de, a meio de um parto ou de uma intervenção, terem todos que suspender, sempre que possível, do ponto de vista da saúde, pra irem pro abrigo, pra irem pro bunker e continuarem a intervenção debaixo de terra de forma mais segura. Neste caso, o pai tinha sempre, já por cautela, o cuidado de ter combustível no carro de reserva pra poder deslocar-se ao hospital a qualquer momento, assim que rebentassem as águas. E no dia em que isto aconteceu, a 13 de abril, lá foram eles, rebentaram as águas logo de manhã e dirigiram-se então pro hospital, por esta estrada de terra batida, praticamente intransitável, diz o pai que foi quase a 80 km/h, o que é de fato bastante naquelas condições, pra chegar ao hospital o mais rapidamente possível.

Mas houve um problema no parto

Sim, no parto especificamente houve um problema que foi o bebê era muito grande, o Mikhail tinha 4,4 kg, e dizem os pais que para conseguirem puxar o bebê, foi um parto natural, para conseguirem retirar o bebê da barriga da mãe, acabaram por magoar o braço direito dele. Neste momento, já passado este tempo todo, estão a tentar resolver ainda essa situação, mas ele não consegue mexer o braço. Consegue mexer a mão, não consegue mexer o braço. O médico que assumiu o parto diz que é uma situação que se irá resolver, depois de alguma fisioterapia, mas os pais não estão muito descansados, obviamente. Estão à procura de outro conselho clínico em hospitais em redor para ver se conseguem reanimar, digamos assim, e voltar a ver movimento neste braço direito do Mikhail.

E quando é que acontece o bombardeamento?

O bombardeamento acontece a 19 de abril, seis dias depois do Mikhail ter nascido. O Mikhail ficou no hospital precisamente com a mãe, por causa deste problema no braço. Estavam a ver se conseguiam, de alguma forma, resolver esta dificuldade que surgiu, esta incapacidade de mexer o braço. E o que conta a mãe é que veio sem aviso. Nem sequer houve alerta aéreo.

Não houve sirene.

Não houve sirene. Foi completamente inesperado. A mãe diz que por ter tido um pressentimento, estas coisas fazem sempre a diferença. Por ter tido um pressentimento qualquer, um pouco antes do bombardeamento ter atingido o hospital, ela teve o instinto de afastar um pouquinho o bebê da janela, porque em condições normais ele estaria mais colado à janela e obviamente teriam caído os vidros todos em cima dele e a situação podia ter sido mais complicada. Mas afastou-o ligeiramente e foi suficiente para ele conseguir escapar ileso. A mãe diz que sentiu um assobio e depois sentiu o impacto da explosão noutra ala do hospital. Não foi exatamente onde eles estavam, foi numa ala a cerca de 30, 40 metros, mas obviamente provocou uma grande destruição a toda a volta, foi sentido em todo o hospital. A mãe pegou rapidamente no bebê, levou-o para o corredor. Juntamente, foi o mesmo que fizeram as outras duas mães que também tinham acabado de ter bebês e que também estavam na maternidade num quarto ao lado. Todas pegaram nos bebês e refugiaram-se no corredor, precisamente com o pessoal clínico que lá estava. Cerca de oito pessoas que ficaram ali no corredor. A mãe diz que no meio daquela agitação, as pessoas começaram a gritar, a chorar. Houve uma enfermeira que ainda começou a gravar, a filmar a situação. Ela, a Victoria, teve o instinto de ligar ao marido para avisar do que tinha acontecido. A enfermeira disse-lhe para não o fazer, para não avisar ninguém externo ao hospital, ainda com receio do que pudesse acontecer mais e que outras pessoas pudessem ter a informação. Há sempre um grande cuidado aqui depois de um ataque, em relação à divulgação da informação, para não dar pistas aos russos sobre se os alvos foram ou não foram atingidos, precisamente para tentar evitar que haja uma segunda tentativa ou um segundo bombardeamento.

E alguém ficou ferido?

Ficaram feridas pessoas no local do hospital que foi mais atingido, ficaram duas pessoas feridas. Aqui nesta ala da maternidade, ninguém ficou ferido. A Victoria, de facto, ligou ao marido, ligou ao Victor, e ele imediatamente correu para o hospital para ir buscar a mulher. No hospital organizaram uma evacuação, retiraram estas mães para outro hospital, que ficava a uma hora de distância. Foram todas de ambulância. A Victoria não, foi com o Victor, foi com o marido e com o seu bebê, até chegarem a esse hospital. Nesse hospital, de facto, era uma zona mais tranquila, que não foi bombardeada ainda. Aconteceu até esta coisa inusitada, dos médicos se virarem para o pai do Mikhail e lhe pedirem para ele pôr a máscara anti-Covid. O que o deixou bastante indignado, a dizer: "Mas máscara anti-Covid? Nós vimos de um sítio que está a ser bombardeado e estão-me aqui a pedir para pôr a máscara anti-Covid." Diz ele que as pessoas só depois de levarem com o bombardeamento e com o risco de bombardeamentos é que percebem exatamente aquilo que passam essas pessoas.

E há medicamentos e leite, por exemplo, para essas crianças?

Medicamentos é um grande problema. Aliás, há esta história interessante que é: nos primeiros dias depois do Mikhail ter nascido, o pai praticamente não esteve com ele. Não o deixaram assistir ao parto, precisamente por causa destas questões de segurança, do risco permanente de terem que ir para o bunker. Não o deixaram assistir ao parto, mas mesmo depois do bebê nascer, ele mal teve tempo para estar ao colo com ele, porque pediram-lhe uma série de medicamentos para a mãe e para o Mikhail. Dizem eles que havia para a mãe, mas compete a cada pai arranjar para a mãe seguinte que virá. E ele diz que foi extremamente difícil. Não é tanto pelo preço, foi porque teve dificuldade em encontrar várias coisas. Material que era utilizado para cirurgias, até para curativos de soldados, obviamente estava esgotado em muitos sítios. Ele teve que fazer 50 km para um lado, 50 km para o outro, passar por zonas muito perigosas e muito perto dos bombardeamentos e dos confrontos militares, para conseguir encontrar estes medicamentos e tudo aquilo que lhe estavam a pedir e poder levar. Ele ao invés de estar nas primeiras horas com o seu filho, com o bebê, e nos primeiros dias, acabou por não fazer. Aliás, diz ele que quem assumiu isto acabou por ser o avô materno do Mikhail, que também tem outra história curiosa, que esteve 27 anos desencontrado da mãe, abandonou-a, e reencontraram-se há um ano através do Facebook. E ela diz que o perdoou Não tinha nada contra ele e, portanto, reaproximaram-se depois de estarem 27 anos sem qualquer contacto.

Como é que estes pais, apanhados por uma guerra, olham para tudo isto?

Com grande preocupação, claro. Porque eles têm o risco permanente de um bombardeamento, como aconteceu. Mas o facto de terem escapado deste não significa que escapem de outros bombardeamentos que possam atingir o local onde estão. Além disso, obviamente continua a haver esta ameaça dos russos e de uma ocupação russa. Os russos estão mesmo ali ao lado de Bashtanka. Esta é uma das frentes mais intensas da guerra, porque Bashtanka fica a uma hora a norte de Mykolayiv, mas do outro lado fica Kherson, que está completamente ocupada pelos russos. É provavelmente uma das frentes de batalha mais estáveis e mais intensas entre os russos e os ucranianos. Há esse risco também da ocupação russa, de repente os russos conseguirem um avanço militar e ocuparem o local onde eles estão a viver. E há ainda outra coisa, que é o pai do Mykhailo conseguiu não ir combater precisamente por ter um bebé prestes a nascer ou por ter acabado de nascer. Mas insistiram bastante com ele. Houve três ou quatro vezes em que vieram ter com ele a dizer que ele tinha que se juntar ao exército e tinha que se juntar a este esforço militar. Ele resistiu sempre, conseguiu não o fazer e agora, finalmente, depois de muito insistirem, conseguiu que lhe dessem uma licença durante um ano. Durante o próximo ano, à partida, não vão voltar a insistir para ele se juntar ao exército. Mas daqui a um ano, se o conflito continuar, lá terá o pai do Mykhailo, o Viktor, de se juntar a este esforço de guerra. Mas ele diz que acabou ele próprio por ser salvo pelo nascimento do filho. Ele tem colegas que foram para a guerra e alguns passaram por situações em que foram atingidos ou foram feitos prisioneiros pelos russos. A ele não lhe aconteceu nada disso precisamente porque lhe nasceu um filho.

E como é que o Viktor e a Viktoria olham, por exemplo, para Vladimir Putin e para o presidente russo?

É muito interessante. Ao contrário da esmagadora maioria das pessoas com quem fomos falando aqui, que apoiam visceralmente o presidente Zelensky e contêm-se para não dizer palavrões sobre o Vladimir Putin, eles também se contêm para não dizer palavrões de Putin, dizem que é um assunto picante e portanto não se alongam nisto, mas repartem um bocadinho as responsabilidades. Dizem que isto é culpa dos dois políticos, aquilo que está a acontecer, que eles como responsáveis pelos dois Estados tinham a obrigação de se entender e levar até ao limite do possível tudo o que pudessem fazer para evitar que houvesse este confronto militar.

E como é que este casal, como é que estes pais que seguram estes filhos, estes bebés com um mês, seguram-nos ao colo, olham para eles e que futuro é que veem, Pedro?

Também lhes perguntei isso, porque aqui o ponto é como é que será possível estas crianças crescerem, estes bebés crescerem, sem odiarem os vizinhos do lado, sem odiarem os russos. Eles dizem que não estão a contar que isso aconteça, ou seja, que vão tentar fazer tudo para evitar transmitir ao Mykhailo esse ódio ao inimigo, esse ódio aos russos, mas reconhecem que é difícil. Eles acreditam que até podem conseguir que ele não odeie as pessoas, mas dificilmente não vai odiar tudo aquilo que aconteceu nestes primeiros tempos da sua curta vida.

Obrigado, Pedro.

Obrigado, Ricardo.

Pedro Jorge Castro e João Porfírio são os enviados especiais do Observador à Ucrânia. São eles que têm assinado as reportagens e as entrevistas que podemos ler e ouvir no Observador e na Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia do Diogo Casinha, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.