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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Pedro Nuno Santos vai salvar o PS?

Sou candidato porque, tal como vós, sou herdeiro dos seus fundadores, dos seus valores e das suas ambições. Sou candidato porque acredito no meu país e tenho a esperança de convosco sermos capazes de vencer os desafios do futuro de Portugal. Força, camaradas, temos umas eleições para vencer. Viva o PS, viva Portugal!

Na sede do Partido Socialista, com a sala apenhada, Pedro Nuno Santos anunciava esta segunda-feira aquilo que já se adivinhava. Neste episódio, olhamos para o passado recente do ex-ministro socialista e para aquilo que promete agora. Para já, o discurso de cerca de 20 minutos arrebatou a sala, mas irá arrebatar o partido e o país? Vou conversar com a grande repórter do Observador, Rita Tavares, jornalista da seção de política, que há muito acompanha o PS. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 14 de novembro. Bem-vinda, Rita.

Olá, Ricardo.

Já estamos a gravar, a noite vai composta nesta segunda-feira, neste episódio de terça-feira, e à velocidade que os factos se têm sucedido nestes dias, convém deixar isto marcado, não vai haver aqui alguma alteração. Já lá vamos ao discurso de Pedro Nuno Santos, de lançamento da candidatura à liderança do PS. Primeiro, importa talvez recordar, Rita, por que caiu, afinal, Pedro Nuno Santos no governo?

Foi há muito pouco tempo, porque ainda foi no início deste ano, mas parece que já foi há uma eternidade. Tendo em conta os acontecimentos da última semana e até alguns antes destes ainda, Pedro Nuno Santos caiu logo no início do ano, depois de uma polêmica indenização que foi autorizada por ele a uma ex-gestora da TAP, Alexandra Reis. Quando foi conhecida, houve logo ali, primeiro, uma tentativa de descolar da decisão, mas depois ela, aos poucos, foi chegando cada vez mais perto de Pedro Nuno Santos, primeiro ao seu secretário de Estado, Hugo Mendes, e depois mesmo a Pedro Nuno, que afinal tinha uma mensagem onde dava o ok àquela indenização que fez correr tanta tinta pelo volume e por ter vindo depois de uma reestruturação da empresa e por tudo o que isto significou.

E para o partido, o que lá vai, lá vai, no que toca Pedro Nuno Santos?

Eu acho que o partido, nesta altura, quer que o que lá vai, lá vai. E Pedro Nuno Santos também. Aliás, ele quando fez esta apresentação de candidatura, vinha com uma linha preparada ao falar e ao assumir logo à cabeça da intervenção os erros e as cicatrizes que traz do seu percurso político.

Sim, os erros que cometemos e as cicatrizes que carregamos fazem parte das nossas vidas.

E mostra-as um bocadinho aqui como uma mais-valia, uma marca de guerra, marcas de guerra que ele tem e que mostram que ele quis decidir. É pelo menos essa a linha de raciocínio que apresentou.

Os portugueses, tal como os militantes do PS, conhecem-me. Conhecem as minhas qualidades e os meus defeitos. Conhecem o meu inconformismo e a minha combatividade.

Fez esta assunção destes problemas, dessas coisas que lhe estão coladas à pele e que ainda são muito recentes, de facto. São coisas que Pedro Nuno estava agora a começar a fazer um trilho com o comentário televisivo e já depois de ter feito uma travessia do deserto, que estava agora a começar a tentar limpar e de repente encurtam-lhe esse período em que ele queria fazer e apresentar as suas ideias e apresentar-se como um político que tem um pendor executivo também e que é outras coisas para além da indenização da Alexandra Reis e para além da localização do novo aeroporto que foi revogada. E isso aí foi completamente encurtado e de repente ele está aqui a ter que justificar e a assumir estes erros e estas cicatrizes que ainda não estão bem cicatrizes, digamos que se calhar a ferida ainda tem ali algum curativo para fazer, mas Pedro Nuno Santos quer assumi-las já assim à cabeça, dizer que não tem vergonha delas, e até diz uma frase que é: "quem aprende com os erros está preparado para evitar e melhor decidir no futuro". Portanto, lá está, faz disto uma vantagem.

E Rita Tavares, Pedro Nuno Santos é o representante da esquerda mais à esquerda do PS?

É, quer queira, quer não.

Na pluralidade que sempre existiu neste partido, o que está em causa não é uma disputa entre a moderação e o radicalismo.

Mesmo que agora tente fazer e tente passar uma ideia de moderação, e a mais evidente foi aquela chegada à sala da candidatura com Francisco Assis, que é o representante da ala mais moderada. Aliás, curiosamente, foi uma das únicas vozes que ficou quase isolado e até apupado no congresso do Partido Socialista em plena geringonça, porque ele não concordava com aquela solução governativa. Nunca concordou, do início ao fim. E Pedro Nuno Santos assumiu, e foi por isso, lá está apupado no congresso do Partido Socialista. Pedro Nuno Santos, por seu lado, é o rosto dessa mesma geringonça. E agora aparecem lado a lado, e essa foi a primeira vitória de Pedro Nuno Santos neste caminho que tem para percorrer, porque ele está muito vinculado à ala mais à esquerda e tem um discurso mais radical. Muito frequentemente é lembrado aquele seu discurso a desafiar ao não pagamento da dívida e de pôr as pernas dos banqueiros a tremer, que era uma coisa que ele disse bastante mais jovem no período do resgate, portanto há 10 anos, e agora está a tentar deixar isso lá atrás E passar a ideia de alguém que consegue conciliar-se e fazer concertação com todas as áreas do seu partido e até com Francisco Assis, que era o maior crítico daquela que é a menina dos seus olhos, a Geringonça.

Já voltamos à conversa com a Rita Tavares, jornalista da seção de política, grande repórter do Observador, que há muito acompanha a vida do PS. Afinal, que projeto tem Pedro Nuno Santos para o Partido Socialista e para o país? E se gosta da História do Dia, por favor, siga-nos na aplicação que habitualmente usa para ouvir podcasts. Assim garante que não perde um único episódio e está a dar uma grande ajuda à História do Dia. Obrigado. Estamos de regresso à conversa com a Rita Tavares, jornalista da seção de política do Observador. Rita, e afinal, que grande mensagem deixou Pedro Nuno Santos a uma sala completamente apinhada?

Era uma sala apinhada, preparada para o receber com os presidentes das principais federações. Não são as principais, são quase a totalidade das federações do PS, dois ministros, autarcas, uma sala cheia, a dar prova da sua força ao nível do aparelho do partido, que é uma das grandes vantagens que ele tem de há muitos anos ter feito esse trabalho nas estruturas do Partido Socialista. Isso já estava preparado. Ninguém estava à espera, foi inesperada. E de repente, Pedro Nuno já tem o esquema todo montado e a cavalaria formada para este ataque à liderança do partido. Mas relativamente àquilo que ele quis aqui fazer, é muito interessante, porque ele agarra nas suas raízes, a raiz do neto de sapateiro e do filho de empresário, empresário esse que trabalha sobretudo com maquinaria ligada à indústria do calçado.

A capacidade de criar e de fazer, de cair e de reerguer, faz parte da identidade de ser sanjoanense, também faz parte da minha.

E aproximando-se da base da força de trabalho, das gaspiadeiras, que é aquela expressão e aquela atividade que Pedro Nuno já não é a primeira vez que utiliza num discurso para se colocar ao nível de todos dentro do meio laboral, quer do sapateiro ao empresário, que ele diz que também conhece, que é a realidade do seu pai e cujos problemas ele também conhece por dentro e que consegue fazer por isso, por esse conhecimento indireto do mercado de trabalho e da indústria, que tem capital para trazer à política nacional e qualquer cargo executivo que venha a desempenhar.

E o que disse mais Pedro Nuno Santos?

Pedro Nuno Santos ainda teve, obrigatoriamente, de falar do elefante na sala. E o elefante na sala é a última semana de acontecimentos políticos que derivam de um processo judicial que fez com que o primeiro-ministro tivesse apresentado a demissão. Há um processo-crime que envolve o primeiro-ministro, contra o primeiro-ministro. Existe outro processo que envolve nomes que são do circuito de Pedro Nuno Santos. São ministros que estiveram com ele nos governos e são amigos seus, pessoas que são do seu círculo mais próximo, como por exemplo, Duarte Cordeiro, que não foi constituído arguido, mas também foi alvo de buscas por estes dias. Teve João Galamba, que ultimamente a relação já não era tão próxima, mas durante todos estes anos foi. Eram do mesmo grupo dentro do partido e eram próximos. Portanto, tudo isto lhe toca de forma também muito próxima. E mesmo que não tocasse, quer dizer, toca em cheio no partido que ele quer liderar, portanto, não havia aqui volta a dar. E a delicadeza da situação faz com que Pedro Nuno Santos tenha tentado, à partida, dizer: "Isto não vai dominar os próximos quatro meses".

E a justiça é central para o funcionamento de uma democracia de qualidade. Mas o PS não vai passar os próximos quatro meses a discutir um processo judicial.

O que ele está aqui a dizer é que não quer que estes quatro meses sejam só sobre o processo judicial, tentando pôr também as suas ideias para o país daqui pelo meio, adivinhando que claramente vai ser muito usado este tema pela oposição, nomeadamente à direita.

E deixou ideias para o país também?

Deixou três prioridades à cabeça.

Em primeiro lugar, os salários.

A outra é a da habitação, que é um problema que ele conhece de perto na medida em que tutelou a área. A atual ministra é uma figura muito próxima de Pedro Nuno Santos. Marina Gonçalves foi sua adjunta, chefe de gabinete, secretária de Estado e depois ministra quando ele saiu do governo e tem nas mãos uma área, que é uma área muito sensível nesta altura e que Pedro Nuno Santos quis mostrar aqui que não descura, até porque é uma parte também do patrimônio do Partido Socialista e ele quer fazer disso uma bandeira, além da última, que é a valorização do território.

E houve alguma palavra mais especial para António Costa?

Houve, e foi curioso, porque o que Pedro Nuno Santos fez foi elogiar António Costa de forma muito direta.

Tive a oportunidade de trabalhar com um dos melhores políticos portugueses que conheci. António Costa foi o líder que derrubou os muros erguidos entre o PS e os outros partidos da esquerda parlamentar.

Ou seja, quando olha para António Costa, vê logo esse momento em que se formou a Geringonça, que era uma espécie de sonho para Pedro Nuno Santos, e que foi António Costa que permitiu Que avançasse e que até colocou, na altura, Pedro Nuno Santos no centro dessa gestão como grande pivô, como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, na altura, a negociar com todas as frentes no Parlamento, até porque elas não se reuniam na mesma sala, portanto, era preciso reunir à vez. E esse é um período a que Pedro Nuno Santos se tem referido sempre de forma algo saudosa. É claramente uma experiência que ele gostaria de repetir.

Já lá vamos a essa possibilidade. Queria antes perceber uma coisa, Rita. Pedro Nuno Santos está, pelo que descreves, bem encaminhado para vencer o partido e o país.

Acho que já ninguém arrisca nada depois da última semana. Na política já é muito difícil arriscar o que quer que seja. Resta lembrar aqui que há duas semanas estávamos a debater se António Costa ia para o Conselho Europeu ou não.

Exato. E se ia sair das europeias.

E se haveria eleições em junho, afinal, há eleições um bocadinho mais cedo. Portanto, se Pedro Nuno Santos pode vencer o país, essa é uma coisa que ninguém pode prever nesta altura. Certo é que vai ser uma campanha dura do ponto de vista de argumentos políticos lado a lado e desse combate vai ser seguramente uma campanha que não tendo um resultado certo, o que já vai sendo muito raro nos últimos anos, umas legislativas sem um resultado certo, sem um vencedor, que à partida sabemos que vai ser aquele, vai ser, com toda a certeza, uma campanha em que o discurso e o combate político pode extremar-se muito.

É muito importante lembrar todas estas promessas que a direita fez e não cumpriu, porque ainda agora nos promete que não fará acordos com a direita populista, racista e xenófoba, quando é precisamente isso que se prepara para fazer.

Rita, vamos então regressar a essas saudades que Pedro Nuno Santos sente da geringonça. Ele vai conseguir unir as esquerdas e salvar o PS de uma derrota em março?

Ele, para já, tem de ganhar o partido e já se percebeu que no partido tem alguém, José Luís Carneiro, que está disposto a colocar essa sua proximidade com a esquerda como uma fragilidade, porque ele, José Luís Carneiro, está pronto para, se for preciso, apoiar um governo da direita. Agora, Pedro Nuno Santos é, no PS, quem está em melhores condições para conseguir unir ou voltar a falar, pelo menos a dialogar de forma aberta com as esquerdas e acho que o equilíbrio aqui maior que ele terá de fazer é não fazer da campanha um discurso onde isso pareça uma realidade, que é tão fácil de conseguir, que as pessoas, em vez de votarem no Partido Socialista, podem votar no Bloco de Esquerda, por exemplo, e o voto a Pedro Nuno Santos fugir por essa via, e esse há de ser o maior problema que ele vai ter desse ponto de vista, não se chegar demasiado à esquerda para as pessoas não acharem que é tudo a mesma coisa e tanto faz votar num como no outro.

Tudo isto tem sido de tal forma rápido que ainda praticamente que não houve a possibilidade de perguntar a Pedro Nuno Santos e se perder?

Se perder as eleições, pois, não houve a possibilidade de perguntar, até porque não houve possibilidade de colocar perguntas. As únicas que foram colocadas foram nas várias entrevistas que Pedro Nuno deu depois da apresentação da sua candidatura à SIC, deu duas, uma à SIC e outra à SIC Notícias, mas em nenhuma delas também falou nessa eventualidade. E se perder, o que é que faz? É uma pergunta que terá de ser feita algures a Pedro Nuno Santos. Eu arriscaria dizer que, tendo em conta a divisão até que pode existir nas próximas legislativas, que em caso de derrota, Pedro Nuno Santos ficaria por aí, no mesmo lugar, a fazer oposição e à espera de encurtar o tempo de vida do próximo governo.

Obrigado, Rita.

Obrigada, Ricardo.

Rita Tavares é jornalista da secção de política, grande repórter do Observador e há muito que acompanha a vida do PS. Esta foi a história do dia. E se gosta deste podcast, por favor partilhe este ou outro episódio com um amigo ou um familiar, porque para nós essa partilha é mesmo muito importante. Desde já, obrigado. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.