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A habitação continua no centro da atualidade política e esta semana houve novidades. Luís Montenegro, que esteve dias em silêncio, falou durante o debate do Orçamento do Estado. António José Seguro ouviu os partidos sobre a coesão social. A lei das rendas ainda não é um assunto fechado e as manifestações estão para continuar. Tudo isto para debater na segunda parte deste Fora do Baralho. Eu sou a Inês André Figueiredo e esta semana conto com os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar Conraria, Nuno Garoupa e Susana Prado. E vamos começar pelo Brasil, com as eleições presidenciais, que já têm resultado. Jorge Fernandes, mais do que um naipe, trazes um super naipe, um super joker para Lula da Silva, que conseguiu um resultado histórico, ficou conhecido como revirada, frente a Flávio Bolsonaro. Lula da Silva fez o impossível?

Tanto fez uma coisa muito improvável. Citando uma das frases dele: nunca antes na história daquele país tinha acontecido uma coisa destas. Alguém que tinha perdido a primeira volta conseguir ficar em primeiro lugar na segunda volta, ganhar e tornar-se presidente. E eu acho que, no fundo, aquilo para o qual Lula e muita gente vinha alertando ao longo das últimas semanas, que Flávio Bolsonaro não tinha a estatura moral, política e ética para ser presidente do país, ficou absolutamente confirmado no que se passou imediatamente a seguir. Claro que o PT tem imensos esqueletos no armário, tem imensas teias de corrupção, mas o PT sempre aceitou as derrotas eleitorais, ao contrário dos dois Bolsonaros, pai e filho, que nunca aceitaram, pessoalmente, as duas derrotas eleitorais. Lula teve a oportunidade, certamente, de fugir do Brasil quando foi condenado, até porque ele próprio foi se entregar à cadeia e, portanto, teve certamente oportunidades que não lhe faltaram para fugir, mas decidiu não fugir. E o que aconteceu agora, Flávio Bolsonaro ao fugir do Brasil e ao chegar aos Estados Unidos, fez uma carta dirigida ao povo brasileiro como se fosse um exilado político, dizendo inclusive, num delírio total, que a eleição foi roubada. Quando pessoas como Malafaie ou Cássio Nunes Marques, que é o ministro do TSF e que é um bolsonarista até ao tutano, disseram que a eleição foi absolutamente limpa, importa ainda dizer que a eleição que Bolsonaro diz que foi roubada foi o mesmo ciclo eleitoral onde o partido de Bolsonaro ganhou a maioria nas duas câmaras do Congresso, elegeu os governadores de quatro ou cinco dos maiores estados do ponto de vista populacional, do ponto de vista da riqueza do Brasil. Portanto, fica difícil perceber como é que o partido de uma pessoa ganha de uma maneira absolutamente contundente em múltiplas eleições, à exceção da presidencial, mas ele diz que a eleição presidencial foi roubada porque simplesmente ele não conseguiu ganhar. E, portanto, eu acho que tudo o que se passou esta semana mostrou bem, de forma inequívoca, para quem tinha alguma dúvida, e eu, sinceramente, acho que no último programa deixei isto de forma bastante clara, tinha dúvidas que Lula conseguisse ganhar, mas não tinha dúvidas que Bolsonaro não era a pessoa que o Brasil precisava, e acho que a vitória de Lula foi muito boa para o Brasil, com todos os problemas que agora vão acontecer. O Brasil não se vai tornar do dia pra noite um país maravilhoso, sem corrupção, e certamente o PT continuará a fazer muitas coisas que não deve. Mas isto é um bocadinho do mal ou menos, e portanto, entre Lula e Flávio Bolsonaro, parece-me que não havia nenhuma dúvida.

Luís Aguiar Conraria, é à boleia desta postura de Flávio Bolsonaro e desta fuga após as eleições que trazes paus para André Ventura. Por quê?

Vou fazer um exercício abusivo. Vou fazer um exercício abusivo e de generalização bastante abusiva. Mas realmente queria começar por isso que o Jorge fez, pela comparação que o Jorge fez do comportamento do Lula. Lula, que pode ser considerado um radical de esquerda, quando teve de enfrentar a prisão, com agora o Bolsonaro pai, que era o Bolsonaro pai, que era agora o Bolsonaro filho. O Bolsonaro pai quis fugir, mas não conseguiu. Aqui o Bolsonaro filho fugiu. O Lula, o radical de esquerda, de facto, enfrentou a prisão. E agora aqui, generalizando isso de forma perfeitamente abusiva e consciente, não precisam de me acusar de fazer isso, realmente faz-me a impressão, dá-me um bocadinho a ideia que a malta de direita radical, com discurso muito musculado, depois são os mariquinhas. E aqui faço a ligação ao que se está neste momento a passar em Portugal, em que o CHEGA filmou às escondidas o deputado do Bloco de Esquerda, o Fabien, e depois publicou esse vídeo a fazer troça, a gozar com ele, porque parece que ali numas partes ele aparece a cocear e que noutras partes do vídeo aparece que não está a cocear e diz: "Cá está ele a fazer fita, a fingir que saiu magoado da manifestação", porque ele foi atirado ao chão pela polícia e por aí fora. E realmente é interessante Porque uma pessoa vê o deputado radical de esquerda, o Fabien, e ele de fato teve coragem física. Ele foi pra manifestação, enfrentou os polícias que iam com os escudos, foi atirado ao chão. Obviamente magoou-se, quem viu as imagens entende que é impossível cair daquela forma sem se ter magoado. Eu nunca o vi a queixar-se disso. E de fato, depois são aqueles radicais de direita que o acusam de ser um mariquinhas. O André Ventura foi aquele que teve fluxo gástrico, ou lá que porcaria que foi, e foi parar ao hospital, passou o dia no hospital, depois voltou a ter outro ataque desses e chegou a falar em envenenamento. Ele é que faz um espetáculo absurdo por um problema gástrico que muita gente tem. Eu vou tendo de vez em quando. Eles se comportam dessa forma, vão pra Assembleia da República dizer: "Encostem-nos à parede e deem-lhes mais umas pauladas." Todos macholas. Quando lhes acontece alguma coisa, ficam cagadinhos de medo, pensam que são envenenados e essas coisas. Ouvem um tubo de escape e pensam que são tiros. A malta de esquerda enfrenta os bastões e é acusada por essa gente de serem os mariquinhas. Pronto, é isso. Desculpem a generalização.

Fica assim. Muito bem, vamos então continuar aqui nos naipes e na nossa senda de paus, porque hoje há mais dois. Nuno Garoupa, os teus vão para as várias notícias sobre o governo ir às compras, por assim dizer, desde o reforço na Galp pra ter um administrador até à REN. Estas opções do governo estão erradas?

É paus, mas vou aproveitar para responder à tua pergunta e ao mesmo tempo, porque acho que é bonito também responder a alguns dos nossos ouvintes que ouviram-nos quando isto foi discutido aqui há uns meses por causa da REN e, de alguma forma, contra-argumentaram. Deixe-me começar. Vou falar dos três argumentos que nós usamos e por que eu continuo a achar que se aplicam na Galp como na REN, e por que alguns dos ouvintes que nos criticaram não têm razão. Primeiro, o argumento de que isto é um governo superminoritário, isto não estava no programa eleitoral do PSD e do CDS, e isto, na verdade, estas compras todas, é absolutamente incompatível com o programa do PSD e do CDS dos últimos 40 anos. Isto é uma alteração total daquilo que o PSD e o CDS defenderam nos últimos 40 anos. O contra-argumento é que os governos minoritários não podem estar presos a um programa eleitoral, eles têm que se ajustar às condicionantes econômicas do momento e, portanto, ainda que isso seja contrário a tudo aquilo que defenderam antes, agora, nestas condições, isto é a melhor política. Acontece que nós não percebemos quais são essas condições, porque o ministro das Finanças acaba de dizer que Portugal está a passar o melhor momento dos últimos 25 anos. Então se Portugal está a passar o melhor momento econômico dos últimos 25 anos, não se percebe por que o PSD e o CDS têm uma política de aquisição de posições estratégicas contrária ao seu programa eleitoral e a tudo aquilo que defenderam nos últimos 40 anos, quando Portugal não estava a passar o seu melhor momento. O segundo argumento que se utiliza é que isto é uma forma de investimento estratégico que não só vai ajudar a pôr a economia a crescer, como vai criar dividendos para o governo, que depois o governo pode investir em resolver problemas como a habitação e o SNS. O problema desse argumento é que não se percebe então por que não foi feito nos últimos 50 anos todo esse crescimento econômico quando o Estado tinha empresas públicas, e não se percebe como é que os dividendos da Parpública e da Caixa Geral Depósitos, já agora pra dizer, não serviram pra fazer os tais investimentos brutais na habitação e no SNS, que agora os dividendos da REN, da Galp e supostamente do Milênio, vão trazer ao Estado português pra fazer esses investimentos. E se o Estado português quer dividendos pra fazer investimentos, então que se torne um investidor bolsista e seja, de fato, uma espécie de empresa privada pra ganhar dinheiro, pra reinvestir em habitação e SNS. E deixem-me só o último argumento, que é o argumento da transparência. É que além de tudo isso, neste momento, as notícias circulam que não se percebeu as compras na REN, que o governo não clarificou uma série de cláusulas. Segundo, isso está em completa contradição com aquilo que o governo defende pra TAP, em que defende a privatização 100%. Então não se percebe por que uns são ativos estratégicos que temos que adquirir e por que outros ativos estratégicos temos que alienar até 100%, acrescentando que o governo não explicou a política de dividendos da TAP, porque aquilo que a comunicação social veio dizer não era bem a notícia que Miguel Pinto Luz deu na capa do Expresso. Aliás, diga-se de passagem, Miguel Pinto Luz foi capa do Expresso sobre a TAP uma semana antes da crise da habitação e não há uma palavra sobre a crise da habitação, só falou da TAP, da habitação não teve tempo de falar. Portanto, continuo a achar que esta política do governo viola o programa eleitoral, viola o programa do PSD e do CDS nos últimos 40 anos, não é compreensível do ponto de vista econômico e tem uma enorme falta de transparência.

Susana, também trazes paus, desta vez para o ministro da Administração Interna, que disse a seguinte frase na audição parlamentar sobre o orçamento do Estado, e vou citar: "Todos os dias é absolutamente notória a força que a Administração Interna tem e que eu tenho." O que te apraz dizer sobre esta postura?

Bem, a primeira coisa que me apraz dizer é que eu não quero um ministro da Administração Interna que faça demonstrações de força. Aliás, eu não quero que nenhum representante do poder legislativo, ou neste caso do poder executivo, na nossa democracia, faça representações de força ou demonstre força. Isto não é próprio do poder democrático, isto é uma afirmação própria daquelas coisas que agora se chamam democracias musculadas. Jorge, corrija-me aqui, por favor. Agora há uma nomenclatura da ciência política que eu tenho alguma dificuldade em acompanhar, mas que no fundo arranja nomes eufemísticos para regimes que não são democráticos. Portanto, eu acho estas afirmações do ministro da Administração Interna no Parlamento de uma gravidade extrema. Depois, junta-se obviamente o contexto em que ele as profere. E qual é esse contexto? É um contexto em que tem havido cargas policiais de enorme gravidade sobre manifestantes pacíficos, que ele andou a dizer, e voltou a dizer nestas declarações do Parlamento, que eram da autonomia da PSP. Mas de facto, quando vemos que ele andou a mostrar peito aos manifestantes, a ameaçá-los, a dizer que não tragam mais tendas, no fundo, fica um bocadinho difícil de aceitar que não tenha havido uma interferência direta da tutela nestas cargas policiais. Ele também joga um bocadinho com as palavras nas suas declarações no Parlamento, porque ele diz que é o responsável político, mas, por outro lado, a PSP tem autonomia para tomar este tipo de decisões. E depois, junta-se ainda um outro contexto, que é o facto de o ministro da Administração Interna estar a responder ao Chega. Portanto, isto são críticas do Chega, que tem a sua posição securitária, tem a sua posição sobre as liberdades cívicas e sobre a ocupação do espaço público por pessoas que estão a manifestar-se por diferentes causas, e que tem, sobretudo, um historial nos últimos meses de guerra aberta ao ministro da Administração Interna, porque de facto parece que o ministro da Administração Interna é muito zeloso da aplicação da lei para com manifestantes que estão a exercer o seu direito cívico a manifestar-se, e é muito menos zeloso da aplicação da lei quando se trata dele próprio. E portanto, é por isso também que eu trago aqui o naipe de paus, porque no fundo estes paus são simbólicos dos bastões com que o ministro da Administração Interna, porque um bastão é um pau, tem nos feito estas demonstrações de força, e como é que ele está a sacrificar pessoas, cidadãos livres que se vão manifestar para a rua, para entrar nesta guerra de egos. E estou aqui a escolher as palavras para não dizer nada desagradável para estes dois machos, para o ministro da Administração Interna e para o André Ventura, com o líder da direita radical, que certamente Luís Neves acha que consegue combater com este palavreado e que Montenegro também consegue combater fazendo grandes encómios à polícia no debate parlamentar, etc. No debate, neste caso, do orçamento. Mas de facto, isto é Luís Neves a utilizar a força do Estado perante e contra manifestantes pacíficos, que saem de lá feridos com a cabeça aberta e que estão com histórias de violência completamente inaceitável, para fazer peito ao André Ventura. Isto não é próprio de uma democracia e já chega. Luís Neves que se vá embora. É mais uma razão, ele que se demita ou que o primeiro-ministro o demita.

E essa questão das acampadas e das manifestações vai voltar a ser tema, agora na segunda parte do Fora do Baralho. Fazemos agora uma curta pausa e voltamos já a seguir. Nesta segunda parte do Fora do Baralho, os ases olham para os últimos dias, que continuam a ser marcados pela habitação. Vamos tentar ser concisos para haver duas rondas para cada um. Não sei se será possível, mas vamos começar pelo presidente da República, que disse, e cito: "Não gostei do que vi". Já agora, uma frase que acabou por gerar uma discussão sobre aquilo que Seguro tinha ou não gostado. Susana, invertemos agora a ordem. Para ti é claro que António José Seguro não gostou da carga policial. Já agora, falámos aqui sobre o silêncio do presidente da República, como é que olhaste para a reação de Seguro depois de tanto tempo de silêncio?

Eu faço parte de um grupo de pessoas, de apoiantes da Comissão de Honra de António José Seguro, inclusivamente dois mandatários distritais da sua candidatura, que logo no domingo, quando realmente acordámos com aquelas imagens de cães, de grande violência, com número de feridos, mais de 30 pessoas feridas, 20 e tal que tiveram de receber tratamento hospitalar. De facto, nós nos mobilizámos, escrevemos uma carta que enviámos à Presidência da República, e que depois divulgámos na imprensa, mas em primeiro lugar chegou à Presidência da República, em que pedíamos ao presidente Seguro que ele se pronunciasse perante estes abusos da autoridade do Estado e perante a violência policial dos últimos dias. Depois houve outras iniciativas, houve uma carta de juristas, houve uma carta também de investigadores e cientistas.

Mas já agora, sentiste que foi essa pressão que fez António José Seguro falar tão depressa?

Tão depressa?

Tão depressa depois dessa pressão.

Eu não estou na cabeça do Presidente da República, mas eu suponho, espero e até lhe agradeço que ele tenha respondido a esses apelos da sociedade civil.

Não tenha ignorado.

Creio que também faz parte um pouco do seu papel enquanto Presidente da República, garante das instituições, garante dos nossos direitos de cidadania, garante da Constituição e também eleito diretamente pelo povo. Portanto, eu acho que é natural que ele consiga responder à sociedade civil. Acho isso saudável. Foi bom, ainda bem que ele respondeu, sinceramente. Seria muito pior ele fingir que nós não estávamos a fazer barulho, eu e outras pessoas. Claro que não houve um clamor, houve também um clamor de pessoas da política, etc. Eu acho que isso é importante, ainda bem que ele conseguiu reagir. Acho também muito importante que ele tenha reagido antes do Conselho de Estado, ou seja, ainda bem que o Presidente da República conseguiu formular uma opinião sobre o que aconteceu sem ter de ouvir os conselheiros de Estado, porque esta era uma que me parecia bastante óbvia. Agora, eu acho que ele podia ter sido mais claro, porque eu acho que ele de fato não gostou do que viu. Eu acredito na sinceridade de António José Seguro, mas parece-me que as palavras podiam ser mais claras, porque não gostar do que viu, no fundo, serve para os dois lados da questão. Serve para as manifestações e serve para a carga policial. E depois também me parece que ele podia ter sido mais contundente na forma como se referia à violência policial. Enfim, mas é como eu te digo, ainda bem que ele reagiu. É importante ele estar atento aos sinais da sociedade civil, sobretudo pessoas que o apoiaram desde o primeiro momento. E eu acho também que é importante o seguinte, há aqui um aspecto que me parece fundamental, que é: uma coisa é nós não termos um presidente como o presidente Marcelo, que falava por tudo e por nada, ia ao Multibanco e comprava um gelado e contava a vida toda dele. Não é isso que nós queremos, ainda bem que o presidente Seguro é mais contido e ainda bem que ele preserva a sua palavra. E eu percebo que ele muitas vezes queira fazer as coisas chamando os partidos, a Belém, conversando e falando com o José Luís Carneiro, com o Luís Montenegro. Tudo bem, ainda bem que assim é, outra vez. Agora, este é o momento em que há um abuso da autoridade do Estado, do qual nós todos cidadãos, ou das pessoas que lá estavam, somos vítimas. E esse é o momento em que António José Seguro, eleito diretamente pelos cidadãos, tem de falar aos cidadãos. O que ele fala à porta fechada é também importante, mas neste momento é uma questão entre nós e António José Seguro. O que o senhor presidente está disposto a fazer para proteger os nossos direitos perante o abuso do Estado? E portanto, ainda bem que falou.

Jorge, por falar nessas reuniões com partidos, António José Seguro pediu consensos para resolver os problemas. Estas reuniões foram sobre coesão social, mas no fundo parece estar preocupado por não ver nada palpável nesse sentido. O Presidente da República pode fazer mais? Também não tem esse poder na mão, não é?

Eu acho difícil. Acho que há aqui duas dimensões. Há a dimensão sobre a qual Seguro, no fundo, se pronunciou, que foi a questão dos direitos, liberdades e garantias, nomeadamente a questão do direito à manifestação e ao direito à indignação. E aí eu acho que ele foi dentro do estilo que nós sabemos, e portanto, António José Seguro está a ser um político que está a fazer exatamente aquilo para o qual foi eleito. Isto é, quando nós, quem votou em António José Seguro ou apoiou, sabíamos bem que este é o estilo dele e portanto, que esta é a maneira de fazer política dele, muito baseado no que ele diz que são os consensos, etc. E se eu acho, apesar de tudo, mais fácil ele intervir de forma mais contundente nestas matérias de direitos, liberdades e garantias, na questão da habitação parece muito difícil. Quer dizer, o presidente tem muito poucos poderes. Na história constitucional portuguesa, talvez o único presidente que tenha conseguido marcar de forma mais contundente a agenda do governo foi o doutor Soares. Mas o doutor Soares, primeiro, tinha um apoio popular que não é muito diferente de António José Seguro, mas o doutor Soares tinha um capital político que é uma coisa absolutamente extraordinária e tinha uma capacidade política que é inigualável, pelo menos até hoje. E na altura, no tempo de Cavaco Silva Soares, fez um conjunto de presenças abertas onde no fundo foi pôr o dedo na ferida em muitas situações. António José Seguro eu acho muito difícil que consiga fazer qualquer tipo de coisa semelhante nesta matéria de habitação, até porque depois há outra questão que é, como já falámos aqui, toda a gente tem dito isto, quer dizer, é uma banalidade. De fato, esta questão da habitação é uma coisa que demora muito tempo, exige muito dinheiro, não há resultados para amanhã e os partidos todos em Portugal, queiramos quer não, estão todos a pensar nas próximas eleições. Luís Montenegro ou o próprio José Luís Carneiro ou a própria Ana Ventura, estão a pensar nas próximas eleições e todos a fazer cálculos, a ver o que vai acontecer. Ninguém está a pensar em gastar capital político para ter uma solução para um problema que se vai resolver daqui a cinco ou 10 anos. E portanto, eu acho que neste momento Portugal está metido numa enormíssima embrulhada, que eu não estou a ver muito bem como é que isto se vai solucionar. Eu acho que aquilo que vai acontecer é o cansaço dos manifestantes, muito sinceramente, e eu acho que é nisso que o próprio Montenegro está a apostar. Vai haver um certo cansaço por parte dos manifestantes e a coisa vai acabar por morrer por si própria. Depois temos a velha solução de Portugal. Havia aquela piada no Brasil, que há uma geração no Brasil que é a geração do Galeão, que é o nome do aeroporto no Rio de Janeiro, e que é a geração Galeão. E portanto, quem não estiver satisfeito com a situação atual, quem achar que não tem condições financeiras pra comprar uma casa ou pra ter uma vida decente, faz o que muita gente fez ao longo da história portuguesa: emigra.

Jorge, deixa eu fazer-te uma pergunta

Jorge, tu não estavas à espera que depois desta contestação toda e da tração que a contestação ganhou, que agora no debate do orçamento que houvesse margem pra acrescentar umas centenas de milhões de euros à construção pública de habitação? Qualquer coisa que fosse ali anunciado um programa. De facto, a mim surpreende-me que não haja sequer qualquer reação a nível de discussão orçamental.

Até porque o Luís Montenegro tem usado muito essa estratégia, não é? Ir aos debates depois de alguma coisa acontecer e apresentar medidas.

Acho curioso o facto do Luís Montenegro não ter feito nada, mas eu acho que isso só mostra como ele está apostado em tratar isto como uma matéria de lei e ordem, como uma matéria fundamentalmente de um conjunto mais ou menos pequeno. Mais ou menos pequeno, porque de facto, objetivamente as manifestações não são numericamente grandes, não é propriamente a manifestação da TSU. É uma manifestação que numericamente não é enorme e apesar de tudo, é uma manifestação que dá voz a um problema profundo da sociedade portuguesa. Mas eu não sei muito bem, eu acho que ele está mesmo apostado em fazer disto uma matéria de lei e ordem, até porque ele depois está muito acossado. Eu já disse isto aqui, eu acho que ele está muito acossado entre, por um lado, a sua direita, que absolutamente acha que isto é uma questão de lei e ordem, e a sua esquerda, que pode eventualmente entrar com mais programas sociais e com mais esse tipo de apoios que o Luís estava a falar. E o problema é que o PSD corre o risco de ficar aqui numa terra de ninguém, que, na verdade, não satisfaz nenhum dos dois tipos de eleitorado. Agora, se por acaso, e aí eu acho que é um ponto fundamental, as manifestações não acabarem e eventualmente até crescerem e continuarem durante meses, etc., eu acho que aí o Luís Montenegro tem um grande problema e aí será outra coisa.

Desculpa, mas há aqui uma alavanca que é a lei do arrendamento. Eu estou muito convencida que a lei do arrendamento vai ter que acabar por cair por causa disto. Antes de se pôr a construir, e assim que seria ideal. Atenção, não estou a dizer que esta é a solução boa, mas estou a dizer que me parece muito difícil que perante esta contestação, que a lei do arrendamento vá sobreviver. Nuno, Luís Montenegro apareceu, como falávamos aqui, à boleia desse debate, falou em empatia, mais tarde repetiu que a crise da habitação não se resolve com este estalar de dedos. Estalou mesmo os dedos, na verdade, para dizer isto. Sendo este um facto, faz sentido não haver uma resposta mais concreta, pelo menos para travar esta contestação?

Repara, aqui há dois problemas, e eu queria separá-los, usando um pouco o que já disse o Jorge, que é um problema de lei e ordem, e depois há um problema de habitação. Sobre o problema de lei e ordem, eu genericamente estou de acordo com o que foi dito, apenas gostava, porque é alguém que eu tenho criticado muito neste programa e, portanto, gosto sempre de elogiar, por uma vez que seja, alguém que tantas críticas tenho dado, que é o Procurador-Geral da República, que parece-me teve uma intervenção que mostrou bem o grau de cinismo dos partidos políticos. O Procurador-Geral da República disse, na minha opinião, o óbvio, quer dizer, se há opiniões diferentes sobre o papel da polícia, a autoridade do Estado e há opiniões diferentes sobre a constitucionalidade da atual lei, o normal é que os partidos políticos na Assembleia da República ou façam uma nova lei, os que não estão de acordo com a atual lei ou os que acham que a atual lei tem determinados problemas, ou então os outros partidos que levem esta lei para o Tribunal Constitucional, através das prerrogativas que têm em fiscalização sucessiva, uma vez que têm bancadas parlamentares para isso. A resposta de todos os partidos foi: "Nem pensar que vamos tocar nisso". Portanto, mostra o grau de cinismo dos partidos, ou seja, estamos todos a criticar ou a defender a lei, a polícia, a autoridade do Estado, os abusos ou não abusos, mas ninguém se mexe para esclarecer se é ou não é preciso fazer alguma coisa. Aí o procurador-geral esteve bem, toda a gente deu pancada no PGR desta vez, eu desta vez digo que o PGR esteve bem, na minha opinião. A outra questão é a questão da habitação. E aí, já no último programa, eu tinha dito que o que me deixava um pouco a ver esta questão é a hipocrisia dos partidos. Nós estamos na situação que estamos, porque obviamente o PSD e o PS falharam. Só pode ser, não foram os marcianos, nem outros entes fora de Portugal que criaram o problema. O PS e o PSD não assumem nenhuma responsabilidade pela situação atual. Simplesmente continuam a narrativa de dizer que a culpa é do vizinho do lado, ao ponto de vermos pessoas que tiveram titularidade do Ministério da Habitação em manifestações. Quer dizer, isto é, de facto, o cúmulo da hipocrisia. Mas dada esta hipocrisia do PS, do PSD, há que juntar, obviamente, uma hipocrisia parcial do PC e do Bloco no tempo da Geringonça, e obviamente o CDS, enfim, já nem conto com esse partido, mas obviamente faz parte desta panóplia dos partidos que estão a exercer hipocrisia. Depois há este cinismo, porque eu estou completamente de acordo com o Luís nesta matéria. Não percebo como é que não há, do ponto de vista do Presidente do Primeiro-Ministro, nada no Orçamento de Estado, na discussão do Orçamento de Estado, sobre a matéria da habitação, reforço de algumas verbas que seja para programas de habitação. Mas aí entra também o cinismo do Partido Socialista. É que o Partido Socialista está aos berros a dizer que este orçamento é péssimo pra habitação, que é uma vergonha o que o PSD está a fazer na habitação, mas veja-me isso ao Orçamento de Estado

abstém-se no Orçamento de Estado e nem sequer diz: "Vou viabilizar o Orçamento do Estado, mas vamos pôr uma moção de censura ao governo pela sua política de habitação". Portanto, o cinismo total, já vi hipocrisia, parece-me que esta semana ficámos a ver o cinismo total da AD, por um lado, e do PS, por outro, que é: vamos todos falar do tema, mas ninguém de facto tem soluções, nem ninguém se mexe na verdade, porque até agora, daquilo que disse o José Luís Carneiro e daquilo que se ouviu o Luís Montenegro, as soluções a prazo, porque como disse o Luís a semana passada e eu concordei com ele, não há soluções a curto prazo, mas a prazo, quais são as soluções? Mais legislação, mais institutos do Estado pra criar mais programas do Estado com institutos do Estado que vão regular não sei o quê, e depois muito discurso. Ora, eu acho que a parte triste do pacote da habitação é essa, é que não se vê uma consciência da parte do PS e do PSD que isto é pra 10 anos, que isto não é pras próximas eleições e que a primeira coisa é assumir a responsabilidade do que foi feito e aquilo que tem que ser feito nos próximos 10 anos é começar neste Orçamento de Estado. Penso que realmente foi um momento perdido. Agora, como é que isto vai acabar? Estou como o Jorge, vamos ver como é que isto vai acabar.

Luís, muita coisa foi aqui dita. Sente-te livre, vou só aqui acrescentar um dado, porque a sondagem do Expresso e da SIC diz que nem 10% dos simpatizantes do PSD acham que o país está melhor. Ainda assim, vemos o governo a manter a mesma narrativa. Como é que olhas para esta avaliação? E por outro lado, pergunto-te: o governo que tanto criticou a bolha está a viver uma bolha neste momento?

Eu acho que essa sondagem sumariza bem o grande problema que o governo e o PSD têm em mãos. Quer dizer, independentemente agora do país estar melhor ou não e de quem é a culpa, o governo obviamente não tem culpa das atrocidades do Donald Trump no Estreito de Ormuz, das tarifas e isso tudo, que tem tudo impacto na inflação e alguma retração econômica, e agora a questão dos preços da energia que dispararam no início do ano e agora estão constantemente a aumentar. Portanto, uma coisa que era efêmera tornou-se permanente. Ou podia ser efêmera, mas agora está a se tornar permanente e as consequências começam a se sentir. O governo não tem culpa disso, obviamente, mas quem está no poder apanha com as culpas, não há volta a dar, nem que seja por não conseguir resolver o problema. E essa sondagem também nos diz aquilo que outras sondagens dizem, que é, neste momento, o governo ou o partido do governo é o terceiro partido das sondagens. E isto penso que justifica parte do desespero a que temos assistido e, de certa forma, já há mais que uma pessoa a defender isto, por exemplo, a Ana Sá Lopes defendeu isto no Público. E de certa forma, pode explicar esta tentativa do governo de criar uma batalha campal. Porque eu não consigo toda esta atuação da polícia, todos os feridos, toda a violência partiu da polícia. Portanto, isto não é comparável ao que nós vemos no resto da Europa. E portanto, se partiu da polícia, quer dizer, parece que é a polícia, e desculpem lá as autoridades, a mando do governo, que estão a querer provocar uma crise nas ruas, que por sua vez causa o caos e daí se calhar o governo queira conseguir esta imagem de macho forte que consegue controlar as massas violentas. Não sei, é uma explicação possível, mas tudo isto é um bocado perplexizante.

Aham. Ainda temos aqui um minutinho, só perguntar aqui à Susana, porque saiu uma notícia a dizer que o Banco de Portugal não se compromete a destinar imóveis vazios à habitação acessível. Esta questão dos imóveis vazios tem sido um tema na discussão da habitação. Percebe-se que o banco central não tenha nenhuma preferência pelo uso futuro destas instalações?

Não, acho que não se percebe. Eu percebo que o banco central é independente, mas também é uma instituição que tem bastantes recursos. Aqui acho que se trata mais precisamente do edifício ali na Almirante Reis, no centro de Lisboa, pra quem nos está a ouvir não é de Lisboa, que é um edifício muito alto e que dava de facto pra recuperar, pra ter ali uma série de casas e que podia haver alguma espécie de programa público, ou pelo menos o Banco de Portugal podia ter dito que ia falar com o governo pra encontrar uma forma legal de fazer isso, com compensações do governo, não sei. Agora, vir neste momento, com o contexto que o Luís aqui deu, e bem, em que há de facto um rastilho na rua das pessoas se sentirem desrespeitadas, despeitadas, violentadas e de cabeças abertas, e o Banco de Portugal neste momento preciso e dizer: "Não, nós vamos alienar o edifício, mas não estamos nada preocupados com o destino final", isto é gozar com quem trabalha, no fundo.

E muito obrigada a todos. Temos mesmo de ficar por aqui e relembrar os nossos ouvintes que podem enviar-nos perguntas através do e-mail foradobaralho@observador.pt e que os ases respondem no Especial Ouvintes sempre ao domingo. Eu sou a Inês André Figueiredo, este é o Fora do Baralho e pode ser ouvido aqui na Rádio Observador e em podcast nas plataformas habituais. Até pra semana.