Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas enviadas pro e-mail foradobaralho@observador.pt. Esta semana é a vez do Nuno Garoupa, que vai responder a várias perguntas no seguimento da entrevista de Passos Coelho. Olá, Nuno, bem-vindo. O nosso ouvinte Pedro Veiga quer debater cenários e face às últimas declarações de Pedro Passos Coelho, coloca aqui duas opções em cima da mesa. Uma delas é o PSD e o Chega fazerem coligação e apresentarem listas conjuntas, e questiona como é que seriam divididos os lugares nas listas entre esses dois partidos. E, por outro lado, o PSD e o Chega irem separados, o Chega ter mais votos do que os outros partidos e ser convidado pelo presidente da República a formar governo. Neste caso, partiria do princípio que Luís Montenegro se iria embora e questiona se Pedro Passos Coelho aceitaria integrar um governo liderado por André Ventura. Queres começar por aqui? Há aqui várias perguntas sobre o Passos Coelho. Vamos ver se conseguimos responder a todas. Sim.

Vamos começar por essa. Eu penso que não vale a pena estar a fazer grandes cenários, porque eu penso que o mais provável é que os atuais líderes dos vários partidos vão ser os líderes em eleições e que, de acordo com as sondagens, a AD ficará em terceiro lugar. Isso cria um problema imediatamente no PSD. Não é de todo evidente, mas penso que provável, que Luís Montenegro seja forçado a demitir-se na noite de eleições, mas isso abre uma crise de liderança no PSD. E, portanto, pra mim não é nada claro o que acontece a partir daí, porque há dois cenários possíveis. O Partido Socialista ganha as eleições, José Luís Carneiro é convidado a formar governo e nessa questão apanha o PSD sem líder e, portanto, a posição do PSD em relação a esse governo não é clara. Aliás, José Luís Carneiro já disse várias vezes que espera que o PSD viabilize um governo do Partido Socialista, mas dependerá do líder. E o outro cenário em que ganha o Chega e André Ventura é convidado a formar governo, vai se colocar a mesma questão. É que PSD é que nesse momento existe e o PSD entre a demissão do Luís Montenegro e a eleição do novo líder, vai ter um hiato, que haverá uma liderança interina, e nós não sabemos como é que isso vai influenciar o PSD. E, portanto, eu acho que é muito pouco provável que nesse cenário, Pedro Passos Coelho tenha uma grande margem pra ter qualquer efeito naquilo que é o cenário imediatamente a seguir às eleições.

Deixa-me fazer-te uma pergunta, não é dos nossos ouvintes, mas é minha. Pedro Passos Coelho, nessa circunstância em que, por exemplo, o PSD ficaria em terceiro lugar e teria, à partida, um resultado bastante mau, teria vantagens em querer regressar nesta circunstância? A vontade seria assim tanta?

Repara, eu acho que fica numa situação muito complicada, mas ele já disse várias coisas, que tem alguma ânsia de ser primeiro-ministro, está aberto a essa ideia, mas que será líder do PSD, não será líder de outro partido, portanto, ficou claramente fora a possibilidade dele poder vir a integrar outro partido, porque havia rumores e pessoas que diziam por que ele não vai pro Chega. Ele deixou isso muito claro que não, é no PSD. E ele diz que só será primeiro-ministro depois de obviamente ratificado nas urnas pelos eleitores. Ora, o problema que se vai colocar exatamente é: se ele chegar à liderança do PSD nessa posição do PSD muito debilitado, ainda por cima, não há eleições, ou ele não estará como terceiro partido forçar eleições.

Mas aí coloca-se a questão deste ouvinte, que é: ele aceitaria integrar um governo liderado por André Ventura sem ir a eleições? Que aí já seria diferente, não é? Não seria primeiro-ministro.

Obviamente. Noutros países, já vimos antigos primeiro-ministro integrar governos como ministro de Negócios Estrangeiros ou como ministro da Defesa Nacional. Isso aconteceu em Inglaterra, aconteceu em França, aconteceu na Itália, aconteceu na Grécia. Em Portugal, não. Essa tradição de um primeiro-ministro voltar a um governo numa posição secundária, com exceção, obviamente, de Carlos Mota Pinto, mas Carlos Mota Pinto tinha sido primeiro-ministro de um governo de iniciativa presidencial. E voltou, obviamente, como vice-primeiro-ministro no governo do Bloco Central. Mas tirando essa exceção, não há essa tradição. E, portanto, pra mim não é claro que Pedro Passos Coelho aceitaria integrar um governo de André Ventura com uma pasta, seja uma pasta mais política, mas isso é um cenário completamente novo.

Sim, até se tem colocado a questão de ser, por exemplo, vice-primeiro-ministro de André Ventura.

Exato. Isso seria um cenário completamente novo, que seria a primeira vez que um primeiro-ministro, que foi primeiro-ministro de um governo eleito, digamos assim, não de iniciativa presidencial, volta numa posição de vice-primeiro-ministro. Inferior. Mas tivemos também, é verdade, nós tivemos há pouco tempo e Telmo Correia, que foi ministro do governo e voltou como secretário de Estado. Portanto, há algum precedente pra isso em democracia, mas não é, de facto, muito claro que isso aconteça, não é?

Sim, seria pelo menos algo para ser debatido.

Chamaria a atenção.

Exatamente, na bolha política. Outro dos nossos ouvintes, também com a questão de Passos Coelho, Luís Matos Chaves é o nome dele, quer falar sobre o fato de Passos Coelho ter dito que o PSD tinha e tem a obrigação de explorar uma coligação, aquilo a que chama uma grande maioria de direita, e disse o seguinte: "Excluindo da análise, pra já, a questão retórica e o tom do Chega, esta afirmação de Pedro Passos Coelho pressupõe que o Chega é efetivamente um partido de direita ou centro-direita, com o qual o PSD pode coligar-se ou ter algum tipo de acordo parlamentar". E o que este ouvinte quer perceber é se concordas com este pressuposto, chama-lhe assim, ou se as propostas do Chega mais recentes demonstram que na economia até está mais próximo do PS.

Eu acho que aqui há vários problemas, evidentemente. Há aqui um problema de contradição, como o nosso ouvinte já chama a atenção, é que o Pedro Passos Coelho, de alguma maneira, encarna a face mais liberal do PSD. Portanto, nesse aspecto, até mais próximo, em termos das suas ideias para a economia, da Iniciativa Liberal, e o Chega é a direita corporativa, é a direita coletivista. E o Chega teve um programa liberal, é verdade, ao princípio, em 2019, mas há muito tempo que assumiu que é uma direita corporativa, coletiva, de presença onipresente do Estado na economia. Portanto, há logo aí uma grande diferença entre aquilo que é o projeto econômico do Chega e o projeto econômico de Pedro Passos Coelho. E depois, em matérias muito concretas, o que nós temos visto é grandes divergências entre aquilo que a AD tem proposto, e no fundo, a AD é um programa que Pedro Passos Coelho pode criticar por ser pouco reformista, e na minha opinião, com razão, mas a verdade é que o Chega não tem atacado a AD por ela ser pouco reformista. Ele tem atacado a AD por ser excessivamente reformista em áreas como trabalho, segurança social e, como estamos agora a ver, na habitação e na lei das rendas. Onde Pedro Passos Coelho tem razão e a AD cedeu, é de facto a maioria constitucional. E aí eu acho que ele tem razão, porque a direita passou 50 anos a dizer que isto era uma Constituição de esquerda, que era uma Constituição que não deixava a direita governar, e agora quando há a oportunidade de rever essa Constituição e de fazer a Constituição que a direita tanto lutou nos últimos 50 anos, a AD vira as costas ao Chega e à IL e diz que vai fazer o acordo com o Partido Socialista. Isso sim, nesse aspecto, acho que Pedro Passos Coelho tem razão de que há uma maioria constitucional completamente diferente daquela que houve nos últimos 50 anos e que a AD desperdiçou essa oportunidade. E penso que isso vai contribuir também para a derrota muito grande da AD nas próximas eleições.

E neste seguimento da questão da forma como o Chega está e faz política, o mesmo ouvinte pergunta-nos: será que a ideia de Passos Coelho é que as medidas do Chega são apenas populistas e que em termos econômicos será possível aproximar-se da génese, neste caso, mais do que do PSD atual, do próprio Pedro Passos Coelho, se houvesse perspectivas de entendimento?

Claro, aqui o problema é exatamente perceber que plataforma é que nós estamos a falar, porque repara, a crítica a Luís Montenegro e a AD, na minha opinião, a crítica de Passos Coelho, é uma crítica justa e é uma crítica meritória, no sentido em que a AD não está a fazer reformas. Mas a AD não está a fazer reformas porque foi eleita para não fazer reformas. Luís Montenegro apresenta-se ao país dizendo: "Eu sou a mudança suave, eu vou fazer coisas que não doem, eu vou distribuir recursos às pessoas." É isso que este governo tem feito. Ora, quando Pedro Passos Coelho diz: "É preciso fazer reformas", isso significa que há largos segmentos do eleitorado que vão ser penalizados. Não há reformas sem penalizar largos segmentos do eleitorado. Eu não vejo como é que o Chega vai concordar com essas reformas, porque grande parte das reformas que vão ter que ser feitas na saúde, na educação, na administração do Estado, na economia, na justiça, são reformas que vão prejudicar largos segmentos do eleitorado do Chega. Eu não vejo como é que isso pode ser feito. Esta ideia de que vamos culpar os imigrantes ou vamos culpar os corruptos do Partido Socialista e que são esses que vão pagar o preço das reformas, é evidente que não é verdade. É evidente que haverá uma larga parte dos portugueses que vão ter que apertar o cinto e que vão ter que se sacrificar para fazer essas reformas. Ora, o que a classe média nos diz de eleição para eleição é que não está disposta a fazer isso. Portanto, o meu problema é que eu não vejo onde é que está o apoio popular a essa coligação para fazer essas reformas. E eu penso que André Ventura sabe isso, como se tem visto, quer na legislação de trabalho, como na habitação.

Como agora na habitação. A última pergunta, e é muito nesse sentido, se o Chega teria a possibilidade de se afastar de políticas que este ouvinte chama de centro-esquerda quando uma grande percentagem da sua base eleitoral são efetivamente as pessoas com menores rendimentos.

Evidentemente, eu acho que o Chega tem um problema de consistência, que é: o Chega recebeu uma enorme bolsa de eleitores do Partido Socialista e do Partido Comunista, e esses eleitores, obviamente, não estão dispostos a entrar em aventuras, vamos chamar neoliberais, que eu não acho que sejam neoliberais, mas para utilizar a linguagem de esquerda, neoliberais de Pedro Passos Coelho. Portanto, eu acho que o Chega tem uma enorme contradição entre, por um lado, aquilo que é a sua plataforma partidária e aquilo que é o projeto político de Pedro Passos Coelho. Eu sinceramente não percebo muito bem como é que seria feito.

Como é que seria possível.

Porque acho que Pedro Passos Coelho, sim, tem entendimentos fáceis com a Iniciativa Liberal, só que isso não chega. E com o Chega, não vejo como é que esses entendimentos possam ser feitos, para além de coisas, quer na revisão constitucional, que é muito importante, sem dúvida, e talvez nas políticas de law and order, de direito e ordem, ou seja, da administração interna. Mas para além disso, não vejo onde é que está, e alguns valores na questão do aborto, admito que sim, mas em política econômica e orçamental, não vejo onde é que está a coincidência da agenda de Pedro Passos Coelho com o Chega.

Ainda vamos ter muito tempo para falar sobre estes temas. Muito obrigada, Nuno. Este Fora do Baralho, ouvintes, fica por aqui. Para nos escrever, fazer perguntas ou deixar comentários para que os ases respondam, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Até para a semana.