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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Pode a esquerda unida vencer a aliança de direita em Lisboa?

Entre a moderação de quem sonha e quem faz, e o radicalismo. O radicalismo que já conseguiu minar uma grande parte do Partido Socialista, que prejudicou o país e que agora quer trazer esse modelo falido para Lisboa.

Carlos Moedas lançou esta quarta-feira a recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa. Segue à frente de uma coligação PSD, CDS e Iniciativa Liberal.

Vieram apontar o dedo à omissão e à inércia de Carlos Moedas, designadamente em questões como o lixo, o consumo de álcool na via pública, o ruído. Nada foi feito. As pessoas estão fartas.

Esta sexta-feira será a vez de Alexandra Leitão surgir à frente de uma outra frente, a frente que une PS, Livre, Bloco de Esquerda e PAN. São dois grandes blocos, um de centro-esquerda, outro de centro-direita, e vão enfrentar-se nas eleições autárquicas de 12 de outubro. O PCP e o Chega ficam de fora e seguem sozinhos na corrida. Lisboa vai ser o centro do confronto político entre os dois lados, esquerda e direita. Que leitura podemos fazer sobre a organização destas duas frentes? E haverá nessa altura alguém em vantagem? É sobre isto que vou conversar com José Manuel Fernandes, o publisher do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de sexta-feira, 18 de julho. Bem-vindo, Zé Manuel.

Olá, Ricardo.

Zé, há muito tempo que não vinhas à história do dia, ainda bem que tivemos esta oportunidade para o teu regresso. Como sabes, aqui na história do dia temos sempre preocupações pedagógicas e a 12 de outubro os eleitores vão ter três boletins de voto, da Assembleia de Freguesia, o da Assembleia Municipal e os da Câmara Municipal, mas aqui vamos falar só na Câmara. E só para te pedir para nos explicares isto rapidamente. Quem vencer, o candidato a presidente da Câmara, quando vence, não vence tudo. Ou seja, pode ficar em minoria, que de resto é o que está a acontecer agora em Lisboa. Carlos Moedas venceu, mas não conseguiu ter todos os vereadores. Como é que isto funciona?

As câmaras funcionam de uma forma diferente da Assembleia da República. De facto, basicamente continua a ser uma espécie de bigoverno, porque há uma Câmara Municipal e uma Assembleia Municipal. Na Câmara Municipal os eleitores escolhem listas e elegem para presidente de Câmara o primeiro candidato da lista que vencer. Isso não é obrigatório, como todos sabemos, em eleições legislativas. O partido mais votado pode não conseguir formar governo. No caso das autarquias municipais, não é assim. O partido com mais votos é o partido que designa o presidente da Câmara. Agora, pode acontecer esse presidente da Câmara não ter maioria no Executivo Municipal. Na maior parte das câmaras do país há maiorias, portanto, apesar da divisão partidária, costuma haver maiorias. Nas assembleias municipais é um pouco mais complicado, não só porque a votação é diferente, não só porque o número de membros é diferente, o que muitas vezes permite que partidos mais pequenos consigam eleger deputados municipais, como ainda temos os presidentes das juntas. E os presidentes das juntas podem embaralhar isto tudo. Nós neste momento, por exemplo, em Lisboa, temos uma presidente da Assembleia Municipal que foi indicada pelo Partido Socialista. Só para teres uma ideia de como isto pode ser diferente.

E como torna, às vezes, ainda mais difícil o governo da cidade. Zé, há aqui algo de inédito ou já tivemos na nossa história recente eleições autárquicas em Lisboa em que tivemos duas grandes frentes, uma de centro-esquerda e outra de centro-direita? Isto, obviamente, com as devidas distâncias, está-me a fazer lembrar as presidenciais de 86, em que tivemos Freitas do Amaral contra Mário Soares, em que estava o país dividido ao meio. Se calhar estou a exagerar aqui um bocadinho a imagem.

Sim, o país dividido ao meio é o que faz lembrar. No entanto, há duas eleições em Lisboa que podem de alguma forma recordar esta. Uma é de 1989, quando também houve duas frentes. Tivemos, de um lado, a primeira vez que o PS se aliou ao PCP, portanto, com Jorge Sampaio. Jorge Sampaio até era o líder do Partido Socialista, portanto, foi uma eleição muito original. E tínhamos, do outro lado, uma candidatura com um senhor que na altura não era tão conhecido como é hoje, chamado Marcelo Rebelo de Sousa, que também unia o PSD com o CDS. Sendo que o CDS tinha anteriormente a presidência da Câmara, por via também de uma coligação deste género, que era o contrário, não era o CDS que era o presidente, era Nuno Cruz Abreu Cacis. Houve aí um confronto entre duas frentes, ganhou a frente de esquerda. Em 2001, 12 anos depois, continuou a haver uma frente de esquerda. Entretanto, Jorge Sampaio tinha saído para presidente da República e quem encabeçava essa frente de esquerda era João Soares e não houve frente à direita. A direita apresentou-se dividida com Pedro Santana Lopes pelo PSD e Paulo Portas pelo CDS. E surpreendentemente, contra toda a expectativa, Pedro Santana Lopes ganhou essa eleição. Foi talvez a eleição mais renhida da Câmara de Lisboa, menos de mil votos de diferença entre as duas candidaturas Na altura até houve uma polémica sobre a contagem de votos, mas o que é facto é que acabaram por ser verificados aqueles votos e foi assim que ficou. Pedro Santana Lopes acabou por se tornar presidente, não completaria o mandato porque sairia para primeiro-ministro. Portanto, temos aqui algumas eleições em que já houve quadros semelhantes, quer pelo lado de haver frente contra frente, de esquerda contra direita, quer pela proximidade do resultado. Não quer dizer que agora aconteça a mesma proximidade do resultado, não sabemos o que vai acontecer.

E Lisboa é um entre 308 conselhos de Portugal. Não tem a maior área, mas é sem dúvida o mais populoso, que tem mais população. Mas aqui o interesse todo que tudo isto suscita, José Manuel, é sobretudo porque tem um grande interesse político, tem um grande peso político vencer a Câmara de Lisboa.

Evidente, a Câmara de Lisboa é a capital. É onde o mundo político se movimenta, onde estão sediados a maior parte dos órgãos de informação e onde também moram, imagino eu, ou pelo menos trabalham grande parte dos jornalistas e dos políticos. E aspecto muito relevante, é o conselho mais populoso e é de longe o que tem o maior orçamento. Eu não me queria enganar, mas julgo que o orçamento de Lisboa é mais do dobro do segundo orçamento municipal do país, que ou é Cascais ou é Sintra. Eles estão ali muito perto um do outro, portanto será um desses. É um orçamento gigantesco, mais de mil milhões de euros. É também um número de funcionários imenso e tem muitas originalidades, Lisboa, desse ponto de vista, para lhe darmos muita atenção.

À volta de 10 mil, salvo erro, funcionários da Câmara de Lisboa?

Eu creio que já são mais. O número já ultrapassa os 10 mil. Não sei de cor qual é o número de funcionários da Câmara de Lisboa. Lisboa tem também um sistema de freguesias que é diferente da maior parte dos outros, porque ao contrário de uma ordem de junção de freguesias, houve um processo mais demorado e as competências das juntas são muito mais alargadas do que as outras.

São quase minicâmaras.

São quase câmaras, são quase pequenas câmaras e os seus eleitos têm uma remuneração também bastante mais elevada que os presidentes de outras juntas de freguesia. Tudo em Lisboa é um bocadinho diferente. E não nos podemos esquecer que da Câmara de Lisboa já saiu um presidente da República, da Câmara de Lisboa já saiu um primeiro-ministro.

Dois. António Costa.

Dois primeiros-ministros, quero eu dizer, dois primeiros-ministros, Pedro Santana Lopes e António Costa. A Câmara de Lisboa, além disso, pode funcionar como uma espécie de trampolim para o palco nacional. É mesmo importante.

Já regressamos à conversa com José Manuel Fernandes, o publisher do Observador, e quem terá nessa altura mais hipóteses de vencer. Estamos de regresso à conversa com José Manuel Fernandes, publisher do Observador. José Manuel, vamos olhar aqui talvez para a solidez destes dois blocos, um liderado por Alexandra Leitão do PS e outro por Carlos Moedas do PSD. Vamos talvez começar pelo centro-esquerda. Alexandra Leitão é uma candidata forte à frente de um bloco coeso?

Eu penso que de uma forma genérica, o bloco até tem alguma coesão e essa coesão é em boa parte lhe dada pelo facto de Alexandra Leitão ser, entre os dirigentes socialistas, um daqueles que se situa mais à esquerda. Alexandra Leitão, em muitos aspetos, está muito próxima do LIVRE, está muito próxima do Bloco e portanto desse ponto de vista, do ponto de vista da visão de sociedade, digamos assim, não há aqui grandes clivagens. Quer isto dizer que é um bloco totalmente coeso? Há dentro deste bloco, pelo menos noutros domínios, uma competição entre o LIVRE e o Bloco de Esquerda. O LIVRE e o Bloco de Esquerda foram partidos em que o LIVRE tem crescido muito à conta do Bloco de Esquerda, com dissidentes do Bloco de Esquerda, a começar pelo seu principal dirigente, Rui Tavares, e tem de alguma forma substituído o Bloco de Esquerda na posição eleitoral no Conselho de Lisboa. Isso é muito evidente. É o melhor conselho do LIVRE, de longe, tem as melhores votações do país em algumas freguesias de Lisboa, portanto, é um bastião do LIVRE. E o Bloco, que tinha essa posição anteriormente, perdeu-a.

Exato.

Até que ponto conseguirá recuperá-la ou não, é difícil dizer. Eu creio que não está em boas condições para o fazer. Há nesta coligação, no entanto, algo que pode ser uma semi fragilidade. As últimas coligações do Partido Socialista incluíam um conjunto de cidadãos, Cidadãos por Lisboa, que lhe davam alguma diversidade. Este grupo é um grupo a que estiveram ligados nomes muito conhecidos. É o caso de Helena Roseta. Helena Roseta esteve na Câmara de Lisboa, já não estava, mas acompanhou nalgumas decisões, nalguns momentos, António Costa e os Cidadãos por Lisboa tiveram papel nestes últimos anos. No entanto, não são um partido. Penso que não se vão tornar num partido entretanto, não irão concorrer. Não sei se de alguma forma vão apoiar ou não esta lista, é natural que o façam, mas ficaram de fora. Não sei porquê, não estou por dentro, mas pode haver aqui alguma clivagem. Sem esquecer que o PCP não está.

Exatamente, ficou fora.

O PCP esteve com Jorge Sampaio há mais de 30 anos. Em 89, depois continuou com João Soares até há 20 e tal anos atrás e agora não está. O PCP está a seguir uma estratégia em Lisboa e aparentemente também nas eleições presidenciais, de correr em pista própria, de contar os seus votos para, se quisermos, aguentar-se no seu castelo e ficar por aí. O que é que isto pode representar em termos de votação? Pode fazer mossa, porque o PCP tem em eleições autárquicas Votações habitualmente acima das que tem legislativas. Em Lisboa tem sido até muito acima e tem um candidato conhecido, uma figura que já foi candidato várias vezes a várias coisas e pode fazer mossa aos votos à esquerda.

Então deixa-me inverter a pergunta: e do lado de Carlos Moedas e do bloco de centro-direita?

Do lado de Carlos Moedas e do bloco de centro-direita, eu creio que há uma incógnita e um problema. A incógnita é o peso que possa vir a ter a votação no CHEGA.

Que também corre sozinho nestas eleições.

O CHEGA corre sozinho e tem peso eleitoral em Lisboa. O peso eleitoral será uma grande incógnita por causa de não haver, neste caso, André Ventura, que é que vale. Mas nas últimas eleições legislativas, há dois meses, 45 mil votos. 45 mil votos é muito voto.

E isso pode afetar esta coligação liderada por Moedas.

Se fosse uma transposição automática, não, porque o bloco de direita em Lisboa teve nas últimas eleições 130 mil votos contra 115 mil do conjunto de partidos que estão agora na frente de Alexandre Leitão. Partem com vantagem. Se essa vantagem é ou não suficiente, depende de um fator que é sempre muito importante em eleições locais, que é as figuras Alexandre Leitão e Carlos Moedas. Carlos Moedas, à partida, teria a vantagem de ser um incumbente, o presidente que se recandidata, tem uma desvantagem: ele não fez um mandato glorioso. Pode sempre queixar-se que esteve em minoria, que não conseguiu tomar muitas medidas que gostaria de ter tomado, que teve que fazer compromissos, mas a verdade é que em algumas áreas os lisboetas queixam-se de aspetos que têm a ver com a sua cidade. O lixo, o trânsito e outros aspetos desse tipo. Se isso vai penalizar muito ou pouco Carlos Moedas, não sei. Se, em contrapartida, o facto de ser um incumbente lhe vai dar vantagem, o que por regra acontece, também é neste momento ainda é uma incógnita. Aquilo que se sabe dos estudos eleitorais, atenção, são todos, nenhum foi publicado, é tudo diz que diz.

Qual é que será nesta altura aquele que terá maior vantagem?

Aparentemente, a vantagem vai para Carlos Moedas, mas estamos longe. Carlos Moedas tem naturalmente muito mais visibilidade do que Alexandre Leitão. Aspecto que eu creio que é importante e que muitas vezes se esquece em Lisboa. Lisboa tem um eleitorado muito particular, porque tem eleitorado de classes médias e médias altas em algumas zonas da cidade, que tendencialmente votarão mais à direita, e depois tem uma percentagem de bairros sociais que é muito elevada. É o segundo conselho do país em percentagem de habitação social. Eu recordo que, por exemplo, houve umas eleições famosas em que Manuela Maria Carrilho concorreu pensando que tinha a eleição mais ou menos ganha e depois perdeu-a, creio eu, muito por causa do voto dos bairros sociais, que foi na altura para o candidato fim, que era o presidente em exercício, era quem sucedeu a Pedro Santana Lopes pelo PSD. Está-me a falhar agora o nome dele.

Carmona Rodrigues.

Carmona Rodrigues, exatamente. Também contribuiu um pouco os debates, os debates podem ser aqui importantes. Há muitas incógnitas ainda, há muita água para passar por baixo das pontes. Eu acabo de ouvir agora o primeiro-ministro anunciar que vai pôr mais dinheiro no bolsinho dos pensionistas.

Vai chegar em setembro, não é?

Antes das eleições. Não sei se isso vai ter ou não algum impacto no voto desses mesmos pensionistas no dia 12 de outubro, mas à partida, a vantagem neste momento é de Carlos Moedas. A desvantagem é que há uma parte do eleitorado de Lisboa, mesmo do eleitorado mais à direita, que não está entusiasmado de forma alguma com Carlos Moedas. Do ponto de vista político, eu creio que vamos ter algo que também é interessante, é que Carlos Moedas vai fazer uma campanha mais ao centro e Alexandre Leitão, pelas suas próprias características e pela coligação que formou, provavelmente vai se encostar mais à esquerda. Isto não creio que dê vantagem a Alexandre Leitão nos dias que correm, mas veremos.

Obrigado, José Manuel Fernandes.

Obrigado, Ricardo.

José Manuel Fernandes é publisher d'O Observador. E ficam ainda três destaques para esta sexta-feira. No fundo, duas sugestões e uma efeméride. Em Vila Nova de Gaia arranca o festival Marés Vivas, com nomes incontornáveis como os Xutos & Pontapés ou Scorpions. Em Amarante arranca um outro festival e num cenário encantador de Amarante, o MIMO tem entrada gratuita, tem música brasileira, sobretudo, palestras, exposições, isto só para citar algumas atividades. E também esta sexta-feira, 18 de julho, assinalam-se os 100 anos da publicação do "Mein Kampf", de Adolf Hitler, "A Minha Luta", uma autobiografia e manifesto político do líder nazi, o homem que liderou o Holocausto e conduziu a humanidade a tempos de morte e destruição nunca vistos. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.