Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador. Onde andava o anticiclone dos Açores quando tudo correu mal?

"Vamos fazer um minuto de silêncio pelo anticiclone das Açores."

Está a ouvir o apresentador do programa humorístico Land Rober, da televisão da Galiza. Ele está a despedir-se de forma solene do anticiclone dos Açores.

"Temos traído días de sol, oito días em julio e quatro em agosto. E bueno, agora marchou, há dois ou três meses que já não se lhe vê, por suposto que morreu."

Há silêncio na plateia, há música e há até um ambiente de melancolia.

"Dende aquí vai o nosso homenaje ao anticiclone das Açores."

Claro que isto é uma piada, mas como todas as boas piadas, tem um fundo de verdade. Durante semanas, o anticiclone dos Açores não pareceu o mesmo. E por cá, isso coincidiu com chuva incessante, vento violento e destruição num país que atravessa um dos invernos mais duros do que há memória. E agora repare nisto: à medida que essa peça-chave do sistema climático do Atlântico, o nosso velho amigo açoriano, começa a mexer-se de novo, diz-se que o bom tempo está a regressar. Nada disto é coincidência e, por isso, hoje queremos perceber o essencial. O que é, afinal, o anticiclone dos Açores? Onde andou quando tudo correu mal? Terá ele saído do sítio do costume? E, sobretudo, quando é que o sol volta a aparecer e nos dá uma trégua? Vou fazer estas perguntas ao climatologista Carlos da Câmara, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Eu sou o Pedro Benvides e esta é a história do dia de sexta-feira, 13 de janeiro. Olá, senhor professor.

Como está? Gosto em ouvi-lo, Pedro.

Igualmente. Até porque tenho aqui algumas dúvidas pra lhe colocar. Espero que não lhe pareçam muito básicas, mas o anticiclone dos Açores é uma coisa que eu ouço desde miúdo. Agora, eu confesso-lhe que se me pedissem para explicar exatamente o que é o anticiclone dos Açores, eu não saberia fazê-lo. Por isso, vou aproveitar esta oportunidade para que nos ajude, a mim e eventualmente outro ouvinte que tenha a mesma dúvida.

Eu vou começar por algo que pode ser também escusado dizer, mas já tenho visto às vezes pessoas com dúvidas, que é: quando se diz que é anticiclone dos Açores, uma pessoa pensa que é uma coisa que está ali em cima dos Açores.

Certo.

Pra já, o primeiro aspecto importante é que é uma área brutal. Quando o anticiclone dos Açores está bem desenvolvido, ocupa aí à volta de seis milhões de quilômetros quadrados. Pra dar uma ideia do que isto representa, a Península Ibérica tem, se eu não estou em erro, 580 mil. Portanto, arredondemos pra 600 mil quilômetros quadrados. Portanto, são 10 Penínsulas Ibéricas, estamos aqui a falar sobre o oceano. E daí, os americanos muitas vezes chamarem o anticiclone das Bermudas, porque gostam mais de usar outra ilha pra o referenciar. Portanto, a primeira coisa é que é algo de mesmo muito grande. Por outro lado, o que é um anticiclone? Um anticiclone é aquilo que nós chamamos um centro de altas pressões. O que é um centro de altas pressões? No fim das contas, como a palavra está a dizer, é uma zona em que, na parte central, a pressão da atmosfera é superior à pressão nos bordos. Ora bom, isso o que é que vai fazer? Isso vai fazer com que o ar circule em torno desse centro de altas pressões e mandam as leis da física, que têm a ver com a rotação da Terra, que no hemisfério norte, as altas pressões ficam sempre à direita. Portanto, pra quem é conservador, é uma boa mnemônica. As altas estão à direita. E, portanto, repare que pra haver uma circulação com as altas à direita, só pode ser no sentido dos ponteiros do relógio.

Certo.

Portanto, na realidade, um anticiclone é uma zona da atmosfera em que o vento circula nos ponteiros do relógio. Esse é o primeiro aspecto. O segundo aspecto é que como o centro é de altas pressões, é tal e qual como nós esvaziamos um balão. Se quando eu tenho um balão cheio, ele esvazia se eu abrir o pipo, porque vai das altas pressões pras baixas pressões. Portanto, isto quer dizer que vai haver sempre ar que se desloca do centro para os bordos. O que isso implica? Bom, se na superfície está o ar a fugir do centro para os bordos, ele tem que ser substituído e como não há ar cá por baixo, que venha da terra, a única maneira é o ar descer dos níveis mais elevados. Portanto, quando o ar desce dos níveis mais elevados, o que é que vai acontecer? Nós também sabemos que a pressão nos níveis altos é mais baixa que nos níveis baixos. Toda gente nota isso quando nós vamos de carro e subimos numa montanha, sentimos logo os ouvidos a estalar porque a pressão diminuiu.

Certo.

Então o que acontece? Quando o ar desce, a pressão aumenta, ele é comprimido. É como quando está a encher um pneu de uma bicicleta, comprime o ar, a temperatura aumenta. Então o que é que acontece? As características deste centro de altas pressões, deste anticiclone dos Açores, é ar que gira como se fosse um enormíssimo ralo de lavatório, com seis milhões de quilômetros quadrados, onde o ar gira no sentido dos ponteiros do relógio. E ao mesmo tempo, o ar também desce, é comprimido e aquece, e portanto, temos bom tempo, porque se o ar é comprimido e aquece, temos maior temperatura e não há nuvens.

E é isso que garante que zonas como Portugal tenham, pelo menos a fama, agora olhando pra o que está a passar, a pessoa não diria isso, mas têm fama de ser países com um tempo ameno

Exatamente. Eu digo sempre que é o mito do clima ameno. Mas o que este anticiclone tem? Eu dantes, e provavelmente vou ainda dizer a palavra, mas depois só 10% dos ouvintes é que vão perceber, é um dos polícias sinaleiros da rota das depressões no Atlântico. Eu há tempos disse isso na aula e ficaram a olhar pra mim, porque já ninguém sabe o que é um sinaleiro. Vamos dizer um regulador de trânsito. O anticiclone dos Açores é um dos grandes reguladores do trânsito sobre o Atlântico Norte, e esse trânsito são conjuntos de depressões. Uma depressão é exatamente o contrário: é um centro de baixas pressões, o ar aí, em vez de andar no sentido dos ponteiros do relógio, anda no sentido contrário aos ponteiros do relógio, e o ar, em vez de descer, sobe e, como sobe, diminui a temperatura, condensa e faz precipitação. Pois bem, essas depressões vão se movendo ao longo do bordo do anticiclone dos Açores. Daí eu dizer que ele é um controlador de tráfego, é um agente de trânsito. Mas há um segundo agente de trânsito que nós falamos menos, talvez porque seja menos português, que é a depressão da Islândia. A depressão da Islândia é um centro de baixas pressões, que tal como o anticiclone dos Açores, é muito extenso e está sempre lá no norte, e também é muito maior do que a Islândia. Arranje-se a Islândia pra dar uma ideia de que estamos a falar. E estes dois centros são quem faz com que as depressões passem mais a norte ou passem mais a sul. Anos há, que é exatamente aqueles anos em que há seca em Portugal, em que o anticiclone dos Açores está pujante, a pressão é muito alta e ele estende-se para os seus seis milhões de quilômetros quadrados, e a depressão da Islândia também está pujante, ou seja, a depressão está extremamente deprimida. A depressão tem muito baixas pressões. O que acontece? Acontece que a rota das depressões é essencialmente no sentido mesmo oeste-leste, mas às latitudes das Ilhas Britânicas ou ainda mais a norte, e Portugal era como a velha publicidade ao Citroën das cavalos, que diziam: "O adianto e ia vê-las passar". No fundo, as depressões vão passando e não querem rigorosamente nada conosco e temos seca, muitas vezes, quando o cenário é particularmente intenso, de falta de depressões. Anos há, como este, em que é exatamente o contrário. O anticiclone dos Açores fica muitíssimo mais fraco, uma pessoa diz que quase desapareceu, coitadinho. Encolhe-se. A depressão da Islândia também fica muitíssimo mais fraca. E o que quer dizer? Os agentes de trânsito têm um papel muito menos proativo e há muito mais liberdade pra rota fazer meandros. As depressões resolvem vir cá muito mais abaixo e bombeiam água exatamente para a Europa do Sul e o norte da África, Marrocos, etc.

Já percebemos o que está a acontecer nesta fase e neste inverno, em particular. Daqui a pouco vou lhe pedir que me explique se isto vai continuar assim ou se temos aí notícias mais animadoras para quem gosta de sol. Até já. Estamos de volta à conversa com o professor Carlos Câmara. Professor, isso quer dizer que é isso que explica este tempo que nós estamos a passar agora, e já agora, para também dar algum ânimo a quem nos estiver a ouvir, há sinais de que o anticiclone dos Açores esteja a ficar com mais pujança ou com a pujança que costuma acontecer?

O dar ânimo eu vou deixar pro fim, que é pras pessoas não desligarem entretanto.

Faz bem.

Vai ter o fator suspense. No fundo, a pergunta é: por que nós temos estas oscilações? E estas oscilações, de resto, têm um nome, que é um nome bastante pouco original, chama-se oscilação do Atlântico Norte. A oscilação do Atlântico Norte é exatamente esta alternância entre anticiclone dos Açores e depressão da Islândia pujante. Rotas das depressões muito pra norte e aqui chove muito pouco, ou então a fase negativa, que é esta, que é quando estão os dois muito fraquinhos e nós temos normalmente cheias, ou pelo menos precipitação forte. É importante eu voltar a este assunto, por quê? Porque isto é aquilo que nós chamamos a variabilidade climática, a variabilidade do clima. Se quiser, dito de uma forma mais prosaica, é dizer: isto não é defeito da atmosfera, é feitio. A atmosfera tem estas oscilações e nós temos que aprender a conviver com elas, porque a memória é curta. Há um ano, eu estava numa desta história do dia, a falarmos da seca no Algarve, dos 12 anos de seca e o que ia acontecer. Ora temos falta, ora temos excesso. Temos que perceber que isto é o temperamento da atmosfera no clima mediterrâneo, que é em particular em Portugal. Isto implica saber lidar com isso. Por outro lado, é preciso perceber que, como pano de fundo, temos as alterações climáticas, que muito rapidamente tornam a atmosfera mais energética, é como se fosse uma gasolina com mais octanas. E como estes comboios de depressões são o equivalente a um motor de automóvel, no sentido que convertem a energia armazenada na atmosfera em movimento e em precipitação. Se nós temos uma atmosfera, entre aspas, mais rica em octanas, quer dizer que o motor de pressão vai ser mais efetivo e vamos ter mais Ventos muitíssimo mais fortes e precipitações muitíssimo mais intensas. Por outro lado, o reverso da medalha é que também vamos ter secas mais prolongadas, mais extensas e mais intensas. Nós temos que perceber, por um lado, a alternância, por outro lado, as alterações climáticas estão a potenciar o contraste entre estes anos de seca e estes anos úmidos. Isso implica todo um conjunto de reflexões profundas ao nível da política da água, como é que se armazena, como é que se distribui, como é que se racionaliza. Esse é o primeiro aspecto. O segundo é o de revermos políticas de construção, normas de construção, porque, no fundo, vamos ter mais extremos. E tudo isto faz com que a climatologia tenha um papel eventualmente mais importante, que muitas vezes acaba por ser ignorado. Por quê? Porque se para o ano tivermos um ano mais próximo da média ou da mediana, o Pedro já se esqueceu e já nem sequer vem perguntar nada. Porque só se irá lembrar quando a falta d'água lhe bater à porta.

Isso não é verdade, porque eu tenho muito gosto em ouvi-lo, é sempre um prazer ouvi-lo.

Ainda bem, que eu também tenho.

Essa descrição deu-nos, de facto, imagens muito vivas daquilo que se passa, da normalização, por um lado, e da forma extrema como as coisas vão acontecendo cada vez mais por força das alterações climáticas.

O que é que vai acontecer agora?

É isso que eu ia perguntar.

Eu não sou um previsor profissional, é muito importante perceber isso, não me arrogo olhar, apesar de eu conhecer como é que funciona. É a velha história, quem sabe faz, quem não sabe ensina, e eu sou dos que ensinam. O que acontece, mas sei ler as cartas e sei falar com aqueles que, de facto, têm treino pra isso. Olhando para as previsões, tudo aponta que a partir de dia 14, sábado de Carnaval, as coisas melhorem um bocadinho. Passado esta nova frente que aí vem associada a uma depressão, tudo há esperança de que melhore. A previsão mais alargada também indica que a próxima semana não irá ter precipitação forte, vai ser fria, o que pra mascararmos no Carnaval não é assim tão agradável, mas pelo menos chuva haverá de menos. O que eu notei é que há uma possibilidade de precipitação na sexta-feira, dia 20, se eu não estou em erro.

Certo, dia 20.

No dia 20. Ou seja, acho que finalmente, talvez, a atmosfera nos comece a dar tréguas, até porque o anticiclone dos Açores está a revitalizar-se e está a estender-se mais pra norte e, portanto, a cumprir as funções de agente de tráfego, desviando as depressões mais pra norte. Não vou dizer que é onde elas merecem estar, mas pelo menos dando-lhes uma certa trégua.

Isso é uma ótima notícia para terminarmos a nossa conversa, senhor professor Carlos Câmara, muito obrigado.

Olha, eu é que agradeço. Grande abraço.

Grande abraço. Hoje é sexta-feira, 13, mas o professor Carlos da Câmara, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um climatologista reputado, trouxe-nos boas notícias. Parece que sábado vai finalmente regressar o bom tempo. Até lá, muita chuva e muito cuidado com as cheias, em particular no distrito de Coimbra. É pra lá que todos os olhares estão virados neste momento. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides, bom fim de semana.