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Esta é a história do dia da Rádio Observador: por que a Estónia tem medo da Rússia?
Silvia, just tell us what you're seeing there. Paint a picture.
loads happening here on the ground, Jeff, but let me start with just a brief geographical context. We are at the top of military base. This is in the eastern part of Estonia.
Silvia Amaro é jornalista da televisão norte-americana CNBC. Está na Base de Tapa, no centro da Estónia. É lá que estão estacionados os soldados da NATO mobilizados para aquele país. São cerca de 1700. Como reação à invasão russa da Ucrânia, a Aliança Atlântica reforçou a presença na região e quase duplicou o número de efetivos. Na Estónia há uma forte comunidade de falantes de russo e há mesmo quem compare cidades como as de Narva à Crimeia, anexada por Moscovo em 2014. A Estónia tem razões para estar preocupada? Hoje vou conversar com a jornalista do Observador, Cátia Bruno, que esteve recentemente em Narva, uma cidade com vista para Ivangorod, na Rússia. CátiaBruno, estamos aqui a ouvir uma fanfarra? O que é isto?
Sim, estamos a ouvir uma demonstração com música militar na Estónia, numa cidade chamada Narva, no dia 25 de fevereiro de 2015, portanto sensivelmente um ano depois da anexação da Crimeia pela Rússia.
Ma võin täna täie kindlustundega öelda, et Eesti kaitsevägi on paremas vormis kui kunagi varem.
E neste som ouvimos o tenente-general Riho Terras, que na altura era o comandante das Forças Armadas, mas neste momento até por acaso é eurodeputado.
Sellel aastal võtame kasutusse uued relvasüsteemid.
Estamos a abrir esta história do dia com o som de um desfile militar de 2015, numa pequena cidade da Estónia chamada Narva. Por que essa cidade e esta parada são assim tão interessantes, Cátia?
São particularmente interessantes porque Narva é apelidada por alguns de uma possível nova Crimeia. Narva é uma cidade estónica que fica a poucos metros de distância da Rússia e onde mais de 80% da população é etnicamente russa e fala russo no seu dia a dia. E, portanto, há aqui muitas ligações à Rússia de uma comunidade que está num país da União Europeia. Só para percebermos essa proximidade, ela é até geográfica. Narva está muito mais perto de São Petersburgo do que de Tallinn, a capital da Estónia. E a Estónia não é um país muito grande, portanto ajuda-nos bem a perceber esta ligação.
No fundo, Cátia, Narva pode funcionar aqui como o símbolo de uma preocupação constante da Estónia em relação a uma eventual invasão russa?
Oficialmente, a Estónia desvaloriza essa preocupação dizendo que estes cidadãos estônios são iguais a todos os outros cidadãos estônios e, portanto, não há aqui qualquer diferença a não ser a língua que se fala. Foi isso mesmo que nos disse a Secretária de Estado da Defesa estónia, Tuuli Duneton, quando a entrevistámos em Tallin, mais ou menos na mesma altura em que visitámos Narva.
Well, we are not really making differences between Estonian speakers and Russian speakers. We consider Russian speaking minorities fully integrated to the Estonian society.
Parece que há aqui uma dimensão oficial de que não há problemas, não há receios, mas na prática aquela comunidade daquela pequena cidade de Narva, que está ainda coberta de neve por esta altura, sente grande proximidade com a Rússia.
Sim, sente tanta proximidade com a Rússia que não só fala russo comme acompanha tudo o que se passa na Rússia, consome notícias russas, telenovelas russas.
На украинском фронте практически без перемен. Зеленский призывает Путина к переговорам.
Vai às compras à Rússia e, portanto, há uma ligação que vai além do simples fato de serem etnicamente russos. Há uma ligação quase quotidiana. Não por acaso, a Estônia faz questão de ter serviços de rádio e televisão públicas em russo, precisamente para tentar contrariar essa influência dos media russos, que são aqueles que são os mais consumidos na pequena cidade de Narva.
В Нарве реализуется комплекс действий
Das imagens que vemos de Narva, vemos aquele estreito rio, embora poderoso, a separar os dois países com um forte de cada lado. Comme é a cidade, Cátia?
Esses dois fortes ao pé do rio, o Russo e o Estônio, são precisamente as únicas réstias de uma arquitetura mais antiga e que remonta ao período de ocupação sueca. Desde a Segunda Guerra Mundial e com o início da ocupação soviética, que Narva se tornou uma cidade muito semelhante a uma qualquer cidade russa, com muitos prédios tipicamente soviéticos cinzentos Que, na verdade, fazem muito mais lembrar algumas cidades russas do que Tallin, a capital da Estónia.
Com essa descrição conseguimos perceber que são apenas algumas dezenas de metros que separam os dois países com o rio pelo meio e com a Ponte da Amizade, é assim que se chama a ponte que liga as duas fronteiras, não é?
Sim, uma ponte que foi construída com recurso também a fundos europeus numa tentativa de aproximar a União Europeia da Rússia e de manter boas relações.
A ponte e a cidade de Narva foram palco de uma violenta batalha na Segunda Guerra Mundial entre fevereiro e agosto de 44, que provocou milhares e milhares de mortes.
Tempos diferentes dos atuais, onde embora no lado estónio seja possível ver cidadãos russos a pescar, por exemplo, isso é visível a olho nu, sabemos que a travessia da fronteira terrestre nos últimos tempos é muito mais difícil, com muito mais tensão. Isso mesmo relataram-nos alguns locais lá. Não é tão fácil nem se é tão bem recebido quando se tenta entrar na Rússia.
Já voltamos à conversa com a Cátia Bruno.
Olá, eu sou o João Francisco Gomes e sou um dos autores da série de reportagens "Em Silêncio" sobre os abusos sexuais de menores na Igreja Católica em Portugal. Este trabalho valeu-nos o mais importante prémio de jornalismo do país, o Gazeta, e ganhámos ainda o prémio de melhor artigo de serviço público dos Prémios SAPO 2020. Estivemos três meses dedicados a este trabalho e para fazer jornalismo de investigação precisamos de apoio. Como? Assinando o Observador. Assinar o Observador faz a diferença.
A convivência tem sido mais ou menos pacífica, mas estes sons que estamos agora a ouvir, Cátia Bruno, indiciam um pouco o contrário. O que é isto? Que sons são esses?
Estes sons são da chamada Noite de Bronze, uma noite que ficou conhecida assim por estar relacionada com o Soldado de Bronze de Tallinn, que é uma estátua dos tempos soviéticos que existia na capital da Estónia, e que o governo estónio à altura decidiu mudá-la de local por achar que lhe estava a ser dado grande destaque e era uma estátua que remontava aos tempos soviéticos e que estava muito ligada a um legado, a uma herança histórica que a Estónia se queria distanciar. Mas essa decisão foi muito mal recebida por alguns estônios etnicamente russos, que consideraram que isso era uma forma também de apagar a sua própria presença no país e, portanto, houve uma reação com alguma violência, com tensão, com confrontos com a polícia, que não terminou muito bem. Houve um morto a registar.
Já percebemos que há uma comunidade em Narva que fala russo, consome produtos russos, vai atravessando frequentemente a fronteira e é símbolo dessa preocupação. Há no Governo da Estónia uma preocupação com a Rússia de Putin?
Sem dúvida. A preocupação não está tão ligada a esta comunidade em si, a não ser a possibilidade dela ser usada pela Rússia de Putin pra justificar algum envolvimento na política estonia, com possíveis acusações de discriminação, de necessidade de proteger a minoria russa, como aconteceu na Ucrânia com as repúblicas autoproclamadas independentes de Donetsk e Lugansk. Ainda recentemente, a primeira ministra estônia Kaja Kallas deu uma entrevista à CNN onde dizia muito claramente que os estônios não têm medo da Rússia, em parte por serem Estados membro da NATO.
Therefore we are not afraid at the moment but we are trying to do everything what we can to support and help Ukraine fight this war. Putin must not win this war.
É importante lembrar que a Estónia faz parte da NATO e também faz parte da União Europeia, porque é um dos três estados conhecidos como Estados bálticos, que pertencem aos 27 estados membros da UE e foram precisamente as primeiras ex-repúblicas soviéticas a entrar na Comunidade Europeia. Falamos da Estónia, mas também da Letónia e da Lituânia.
E ouvimos a Primeira Ministra estonia falar precisamente da importância da NATO. A Estónia é um país muito pequeno, tem alguma capacidade de defesa ou está muito dependente da NATO?
Está dependente da NATO no sentido em que a Estónia é um país que tem pouco mais de 1 milhão de habitantes. Falamos de 1,2 milhões pessoas e, portanto, a possibilidade de ter um contingente de soldados disponíveis para assegurar a defesa de um país é limitado. Mas também por isso é que o país usa uma série de estratégias, como, por exemplo, a Liga Estónia de Defesa, que é conjunto de civis que se voluntariam para receber informação, treino militar, e que estão sob o chapéu do Ministério da Defesa estônio. E esta é iniciativa que já existe há muito tempo. Há uma consciência de que a política de defesa pro país é importante, que não aconteceu ontem, já existe há bastante tempo.
We will have to be ready for both conventional tactics by the enemy, but also for cyberattacks.
Há seis anos, na parada militar que ouvíamos no início deste episódio em Narva, o tenente general Riho Terras falava muito da necessidade da Estónia assegurar a sua própria defesa, de estar protegida e falava de como os acontecimentos na Ucrânia, na altura relativos à tomada da Crimeia, tinham chamado a atenção pra importância de assegurar uma defesa. Os estónios já há muito que têm esta sensação de "nós temos de estar atentos à Rússia, nós temos de estar preparados", e agora nos últimos tempos sentem muito: "Nós avisámos". Apesar de tudo, a Estónia continua a depender muito do contingente militar da NATO que tem no seu país, que até há pouco tempo era cerca de mil militares, neste momento já são 1700, que estão em Tapa, uma cidade que fica mais ou menos a meio caminho entre Tallinn e Narva, precisamente, e que tem um batalhão que está a ser liderado pelo Reino Unido e que está alerta e atento a qualquer movimentação russa que possa acontecer ali.
Cátia, perante tudo isto o que descreveste, a situação em Narva, a posição oficial do governo estónio, os receios da NATO, que reforçou a presença em todos os Estados bálticos e também na Estónia, qual é a real possibilidade de uma invasão russa da Estónia? A Ponte da Amizade, tal que separa Narva da Rússia, tem apenas 160 metros. Isto é um cenário credível?
Essa é a pergunta de um milhão de euros, porque, na verdade, os estónios creem que o facto de serem parte da Nato os protege de uma possível agressão militar russa, ao contrário do que aconteceu com a Ucrânia. Mas tendo em conta que o comportamento de Vladimir Putin tem sido megeto de ir desafiando e indo mais longe do que aquilo que os membros da NATO esperavam, os estónios querem manter-se preparados para todos os cenários e não esquecem que são só 160 metros a separar o seu país da Rússia.
Obrigado, Cátia Bruno.
Obrigada eu, Ricardo.
A jornalista Cátia Bruno esteve em Narva, na Estónia, numa viagem que a levou também por Lviv, no Oeste da Ucrânia, depois passou pela Hungria e também pela Eslováquia. No jornal e na Rádio Observador continuamos concentrados nas notícias que nos chegam da Ucrânia, onde estão os nossos enviados especiais, Pedro Jorge Castro e João Porfírio. Esta foi a história do dia. A música do genérico é do João Ribeiro, a sonoplastia, da Beatriz Martelo Garcia. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.