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Esta é a história do dia da Rádio Observador: PT e Altice, a maldição repete-se.
"Je pense que le PT, pour nous en tout les cas, c'est un apport très important. Qu'est-ce que vous comptez faire de la PT? On compte faire ce qu'on fait partout ailleurs.
Uma reestruturação à la H.
Non, mais restruturer certaines choses, oui."
Em fevereiro de 2015, entrevistado em Paris pela RTP, Armando Pereira prometia mudanças na PT em pouco tempo, três a seis meses, à semelhança do que acontecia com outras empresas compradas pela Altice. O imigrante português respondia em francês. Era o homem forte de um muito poderoso grupo empresarial na área das telecomunicações, que tinha comprado a Portugal Telecom, uma gigante portuguesa envolvida num caso de alegada corrupção que tinha como protagonistas José Sócrates e Ricardo Salgado. Armando Pereira foi detido no âmbito da Operação Picoas na quinta-feira, dia 13 de julho, no Minho. O que está, afinal, em causa nesta investigação? E por que é tão apetecível esta velha PT, agora Altice? Vou conversar com Alexandra Machado, editora de Economia do Observador e coautora do livro publicado em 2015, "A implosão da PT: como políticos e empresários se serviram da PT ao longo de 20 anos". Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Alexandra.
Obrigada, Ricardo.
Alexandra, vou te lançar aqui um desafio já para começar. Conta-nos a história desta Altice portuguesa, mas desde pequenina, desde o tempo dos TLP.
Mas a história do dia esticou em tempo. Vamos estar aqui duas horas a falar da história.
O que eram os TLP, Alexandra, quem sabe?
Telefones de Lisboa e Porto, mesmo assim, era a sigla e era precisamente isso. Era a empresa que fazia as ligações em Lisboa, na região de Lisboa e no Porto. Depois havia outra empresa que fazia as telecomunicações no resto do país, que por acaso estava dentro dos CTT e que depois saiu para dar lugar à Telecom Portugal. Isto tudo para, em 1994, muita gente se calhar ainda não era nascida, houve uma mega fusão dos TLP, da Telecom Portugal, da TDP, que tinha a rede de transmissão televisiva, e da Marconi, que tinha as comunicações internacionais. Daqui, disto tudo, desta junção toda, surgiu a Portugal Telecom, que foi um porta-aviões da nossa economia e do nosso tecido empresarial. A Portugal Telecom foi privatizada por esses anos. Em 95, foi a primeira operação de venda do Estado da Portugal Telecom e logo aí o Banco Espírito Santo entrou no seu capital. Foi com o aval de Ricardo Salgado, o então dono e presidente do Banco Espírito Santo, que a Portugal Telecom foi parar, mais tarde, aos brasileiros da Oi. Reuniu-se aí um rol de acionistas que no Brasil se viram a braços com a Lava Jato e em Portugal, já se sabe o bé, caiu em 2014. No ano seguinte, os brasileiros foram obrigados, porque precisavam de dinheiro, a vender a Portugal Telecom, a PT Portugal, na altura, a uma empresa francesa que tinha um português na sua propriedade. E foi assim que em 2015 a PT Portugal passou a Altice.
E esta é uma história resumida desta Altice.
Muito resumida.
Muito resumida, mas muito interessante, com pontos muito interessantes. A Altice é a herdeira da PT, é a dona da MEO e tem participação noutras empresas importantes em Portugal.
Sim, o principal ativo da Altice é, como disseste, a operadora de telecomunicações, a dona da MEO, conhecida pela marca MEO também, fornecedora de serviços de telecomunicações, como televisão, telecomunicações móveis e fixas. Tem também a TDT, que é a rede de televisão que transporta os canais abertos, como a RTP, a SIC, a TVI e a ARTV, da Assembleia da República. Tem também a Altice Labs, que é um importante polo de inovação em Aveiro. Tem centros de dados, sendo o mais conhecido o megacentro da Covilhã, mas também empresas de outsourcing, que agora dão pelo nome de Intelcia, que é as que têm os call centers e outros serviços de outsourcing a empresas, e ainda participa em sociedades que operam e instalam redes de telecomunicações.
Mais há mais.
Ainda há folga para isto. Tem também uma posição na Sport TV, na Blueticket, que está à venda, na Altice Arena, na gestora do Altice Arena. Esteve também no capital do SIRESP, posição que o Estado, depois da polêmica e dos incêndios de 2017, acabou por comprar. Enfim, é uma empresa com muitas pernas e que ainda tentou ter mais outra na comunicação social ao avançar para uma tentativa de compra da Media Capital, que detém a TVI, mas um negócio que acabou por não ir para frente.
Vamos só aqui dar mais um salto ao passado. A PT, e isto é importante para percebermos toda esta história, esteve no centro de um escândalo, já aludiste a ele, que tinha, entre outros protagonistas, José Sócrates e Ricardo Salgado.
Sim, esteve e foi aliás uma das principais investigações no âmbito da Operação Marquês, que como se sabe, é a que vai levar o ex-primeiro-ministro a julgamento, se houver
Se chegarmos a isso.
Se chegarmos lá. Por suspeitas de que o então primeiro-ministro, José Sócrates, teria recebido indevidamente contrapartidas para atuar a favor dos interesses de Ricardo Salgado, no que respeitava à Portugal Telecom. Na instrução, muitas das acusações, nomeadamente contra os ex-gestores da PT, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, acabaram por cair, mas o Ministério Público, na acusação, fez do caso PT quase um caso exemplar com mão pesada. Nessa acusação, Ricardo Salgado, nas suspeições do Ministério Público, teria movido mundos e fundos para que José Sócrates apoiasse decisões na Portugal Telecom, nomeadamente na famosa OPA, oferta pública de aquisição, que a Sonae lançou sobre a Portugal Telecom, que não conseguiu concretizar, mas também no processo de venda da Vivo no Brasil e posterior entrada da Oi e venda da Portugal Telecom da Oi. Portanto, eram muitos casos com triangulação entre PT, Ricardo Salgado e José Sócrates.
E agora temos a Altice de novo sob suspeita. Que caso é este, Alexandra?
Fazendo já uma ressalva de que eu não vi qualquer mandado de busca nem de detenção, portanto, não os consultei, de nenhum dos suspeitos que neste momento estão a ser interrogados pelo juiz Carlos Alexandre. O Departamento Central de Investigação e Ação Penal já fez saber que está a investigar crimes como branqueamento, falsificação, fraude fiscal, mas também corrupção privada, de forma ativa e passiva. Estarão também em causa, pelo que se tem lido nos jornais, crimes de recebimento indevido de vantagem, mas pode haver mais ou podem cair alguns destes.
Mas podes dar-nos um exemplo concreto de uma dessas suspeitas? Por exemplo, fala-se no ramo imobiliário.
Sim, esse é um dos principais negócios que estará a ser investigado, que é o de compra, neste caso, de venda de imóveis da Altice a empresas dos arguidos, ligadas aos arguidos, pelo menos. E as suspeições, pelo que se tem conhecido, é de que a Altice terá vendido a um preço mais baixo do que estariam disponíveis no mercado, a essas empresas ligadas a estes elementos que estão a ser investigados, e depois revendido a preços mais elevados, ganhando mais-valias com esse imobiliário. Muito desse imobiliário que a Altice vendeu quando ficou com a Portugal Telecom eram prédios devolutos e que estão agora a ser transformados em empreendimentos, alguns deles de luxo, mas que já tiveram alguns processos, entretanto, de compra e venda e que resultaram em algumas mais-valias entretanto conseguidas.
Alguns desses prédios ainda vinham do tempo dos TLP.
Sim, alguns desses ainda vinham do tempo dos TLP. Um deles, creio mesmo que era dos TLP, na Rua Conde Redondo, mas há um que está a ser investigado que albergou a TMN, que também é uma marca que já não existe, que era de telecomunicações móveis, que é na Rua Tenente Spancka, em Lisboa, e que terá sido vendida pela Altice por cerca de 2 milhões, em determinada altura, vendida a uma empresa ligada a Hernâni Vaz Antunes, que o Ministério Público admite que possa ter ligações a Armando Pereira. Mas esse prédio da Tenente Spancka foi vendido por cerca de 2 milhões e pouco tempo depois revendido por 3,6 milhões de euros por empresas destes circuitos de empresários, portanto, uma mais-valia choruda.
Já voltamos à conversa com a editora de Economia do Observador, Alexandra Machado. Vamos conhecer quem são os protagonistas desta história. Estamos de regresso à conversa com Alexandra Machado, editora de Economia do Observador. Alexandra, e quem é Armando Pereira?
Armando Pereira é um miúdo de Vieira do Minho, de origens humildes, andou a vender em feiras até que decidiu, como muitos portugueses faziam nos anos 60, ir para França a salto, com uma mão à frente e outra atrás. Foi morar para um bidonville, que não eram mais do que bairros de lata para onde muitos portugueses tiveram que viver perto de Paris, e começou a trabalhar na construção civil e mais tarde a instalar canos de água nas ruas. Conheceu a mulher, que segundo os vários perfis que foram sendo publicados na imprensa, era a filha do patrão, que tinha a tal empresa de canalização, e foi aí que aprendeu este serviço de instalação de cabos. E foi complementando com formação na área, também em França, até que criou a sua própria empresa de infraestruturação em França, a Sogetel, que foi vendida anos mais tarde a um banco holandês, o ABN AMRO, nos anos 90, por cerca de 40 milhões, e começou a ver a conta a aumentar. Terá sido por essa altura, mais ou menos, conta-se, que conheceu Patrick Drahi, nascido em Marrocos, mas com origens em Israel, e aliás, com passaporte português, e com eles criaram a Altice. Armando Pereira tem 71 anos, continua a visitar a miúde Vieira do Minho, onde tem uma mansão, onde aliás, foi detido e alvo de buscas na semana passada, e até é uma pessoa relativamente respeitada por esses lados, por esse conselho Até pelos postos de trabalho que criou com o call center na região da Altice, em Vieira do Minho. Aliás, quando a Altice comprou a Portugal Telecom, depois do período conturbado com a queda do BES, o ministro da Economia de então, António Pires de Lima, até o chamou de Herói de Vieira do Minho.
E há outros protagonistas nesta história, Hernani Vaz Antunes, a filha de Hernani Vaz Antunes, Jéssica Antunes, e Álvaro Gil Loureiro. Quem são estas pessoas, Alexandra?
O principal desse rol de três pessoas será Hernani Vaz Antunes, também originário de Braga, e que, tal como Armando Pereira, emigrou cedo. Mas ao contrário do fundador da Altice, Hernani Vaz Antunes atravessou o Atlântico, foi pro Canadá, começou a criar ligações depois, quando regressou a Portugal, a vender flippers aos restaurantes da região de Braga.
São máquinas de jogos pros mais novos, que não sabem o que é, com uma bola.
Sim. Houve um tempo em que se tinha que ir a um restaurante pra jogar esses jogos.
Exatamente.
Mas foi no imobiliário que terá feito fortuna. É conhecido, aliás, como comissionista. Pediu até uma comissão, e fez uma providência cautelar pra isso, de quase 70 milhões à Altice, pela compra que diz ter intermediado à Oi, na altura em que depois a Portugal Telecom foi parar à Altice. Já antes tinha estado ao lado de Armando Pereira nas compras da Altice, da Oni e Cabovisão, que são duas operadoras de telecomunicações também, que depois a Altice teve de vender para poder ficar com a Portugal Telecom. Vaz Antunes terá ainda ligações ao mundo do futebol. Aliás, este processo designado Operação Picoas, terá tido origem em escutas ligadas ao mundo do futebol, uma informação que ainda não foi confirmada. Jéssica Antunes é filha deste empresário. Também é presença como acionista e como administradora em várias empresas ligadas ao pai. E Álvaro Gil Loureiro é economista, também acionista e administrador em algumas dessas empresas ligadas a esta teia. É economista e, como tal, o Ministério Público poderá ter colocado também Álvaro Gil Loureiro como arguido e um dos principais a ser interrogado nesta primeira fase, por estar muito dentro dos negócios de Vaz Antunes.
E depois Alexandre Fonseca, que foi o CEO da Altice em Portugal e agora era co-CEO do grupo, que entretanto suspendeu funções.
Alexandre Fonseca foi o gestor-chave da Altice em Portugal. Entrou no radar da Altice na altura da Cabovisão e Oni. Alexandre Fonseca chegou a liderar estas operações quando eram detidas pela Altice e depois quando a empresa francesa adquiriu a Portugal Telecom, não demorou muito tempo até ser nomeado presidente-executivo da agora Altice Portugal, mas então PT Portugal. Desde 2017 que Alexandre Fonseca era o presidente executivo da Altice Portugal, lugar que entregou a Ana Figueiredo no ano passado, mas manteve-se como presidente não executivo, ou como nós gostamos de chamar, o chairman, para subir mais alto no grupo Altice, passou a ser co-CEO, portanto dividia a função de presidente executivo com outra pessoa, mas passou a ser então co-CEO do grupo e chairman da Altice USA, a empresa cotada nos Estados Unidos. E este é um aspecto muito importante. Alexandre Fonseca rapidamente suspendeu todas as funções no grupo Altice e também na Altice USA, embora no comunicado feito à Polícia do Mercado de Capitais dos Estados Unidos, que é a SEC, não diga qual é a razão da saída. Alexandre Fonseca também terá sido alvo de buscas e poderá vir a ter um papel relevante nestas investigações, até porque era o CEO da PT Portugal, quando muitos destes negócios do imobiliário e de compra de serviços e redes de telecomunicações, onde Armando Pereira e Vaz Antunes estão também a operar, muitos destes negócios foram feitos nessa altura. Alexandre Fonseca não está ainda constituído arguido neste processo. Fontes judiciais têm dito a alguns jornais que estará por horas, até porque é uma peça-chave, precisamente pelas funções que desempenhou na PT Portugal, na altura em que estes negócios foram feitos.
Estamos a gravar esta conversa no início da noite de segunda-feira. Alexandra, Armando Pereira será, segundo a imprensa e aquilo que será a convicção do Ministério Público, suspeito de corrupção no setor privado. Faz sentido enganar a própria empresa ou a Altice já não é de Armando Pereira?
Na realidade, não se sabe se Armando Pereira ainda detém alguma participação na Altice Europe, porque a Altice Portugal é detida por esta Altice Europe. Esta Altice Europe deixou de estar cotada, Patrick Drahi retirou-a de bolsa em 2021 e, como tal, a informação agora começa a ser difícil de chegar, até porque não são obrigados a prestar um conjunto de informação que uma empresa cotada está obrigada. Na realidade, também nunca se soube ao certo quanto é que Armando Pereira tinha na Altice. Falou-se de 20, e chegou-se a falar também de 30%, mas nunca se soube ao certo qual a participação que Armando Pereira teve. Soube-se só que foi um dos fundadores, com Patrick Drahi, da Altice, mas, em concreto, não sabemos quanto é que ele tinha e não sabemos quanto é que ele tem, e se ainda tem. Não tem funções de administração e por isso se presumiu que ele tivesse saído do capital da empresa. Sabemos apenas que Patrick Drahi é ainda o maior acionista. Ou seja, em relação a estar a enganar ou não a própria empresa, já não será a primeira vez que vemos, mas, por um lado Pode não ser já dono ou acionista da empresa, mas, por outro, pode ter, alegadamente, baseando-nos nas suspeições, até porque não temos ainda dados concretos sobre o processo, seria uma forma de garantir mais facilmente a retirada de dinheiro da Altice ao usar empresas dele que compravam a Altice e que receberiam ou fornecimentos, como se referiu os imóveis, para revender com mais-valias, mas seria a forma mais rápida de retirar dinheiro da Altice, até porque como acionista teria de esperar que a Altice pagasse dividendos. Assim, são esquemas que se tornam mais fáceis de extrair mais rapidamente o dinheiro.
A Altice, a antiga PT, os antigos TLP, estamos aqui quase a falar da mesma massa. Tudo isto se alterou, obviamente, ao longo dos anos, mas há aqui uma massa que é comum e é uma empresa gigante em Portugal, com muito poder, com muito dinheiro, como já percebemos e já explicaste, está em vários tabuleiros em Portugal e tenta estar em vários. A história repete-se, Alexandra?
A Altice Portugal movimenta muito dinheiro com fornecedores e tem muita liquidez com a operação que tem, geram uma margem. Eles queixam-se das margens, mas geram uma boa margem e por isso é uma empresa bastante apetecível. Aliás, a Altice comprou-a por 7400 milhões de euros. Pelo menos foi essa a avaliação do negócio e Ricardo Salgado também tentou extrair o que pôde e o que não pôde da Portugal Telecom. Por isso, é uma empresa muito apetecível e a história poder-se-á repetir, em moldes diferentes, mas poder-se-á, sim, repetir de alguma forma, mas o julgamento não será feito por nós, será feito pelos tribunais.
Obrigado, Alexandra.
É um prazer, Ricardo.
Alexandra Machado é editora de Economia do Observador e é coautora do livro "A Implosão da PT: Como Políticos e Empresários se Serviram da PT ao Longo de 20 Anos", um livro publicado em 2015. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.