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Esta é a primeira versão da história do dia desta sexta-feira. Ouça também a versão atualizada. Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quais as motivações por detrás da morte do físico português do MIT, Nuno Loureiro?
Nós tivemos, há muito pouco tempo, a informação de que foi assassinado também o professor Nuno Loureiro em Boston. Pelo menos foi morto a tiro, enfim, não se conhece ainda bem, que era o diretor do Plasma Science and Fusion Center do MIT. Portanto, não sabe como contar-vos, mas enfim, é também uma notícia triste para a comunidade portuguesa no mundo.
A notícia foi partilhada pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, no Parlamento. O físico português do MIT foi morto a tiro à porta de casa, em circunstâncias ainda por clarificar. Nuno Loureiro era diretor de um laboratório do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. O caso está a ser investigado como homicídio, mas as autoridades têm revelado poucos detalhes. O Jerusalem Post coloca a possibilidade de Israel estar a investigar se há envolvimento do Irão nesta morte, mas não há evidências que suportem essa teoria. Vou conversar com Daniela Melo. É professora de Ciência Política da Universidade de Boston, sobre como está a comunidade portuguesa a viver este momento e o que se sabe sobre o que se passou. Eu sou o Luís Soares, esta é a história do dia de sexta-feira, 19 de dezembro. Bem-vinda, Daniela.
Olá, obrigada.
Daniela, esta morte, imagino, apanhou todos de surpresa aí em Boston. Como é que soube exatamente desta notícia?
Sim, é verdade, foi uma notícia chocante para a comunidade académica, sobretudo, mas obviamente em Boston para toda a comunidade de Brookline, que fica mesmo ao lado da minha universidade, que é a Boston University, e era onde residia o professor Loureiro. Isto aconteceu também apenas dias depois do tiroteio na Brown University, em Providence, que também é relativamente próximo aqui de Boston. Portanto, dizer que estamos todos abalados é pouco, mas faltam palavras realmente para exprimir a dor. Sobretudo porque em ambos os casos, não só no caso deste assassinato tão brutal à porta de casa, ainda não temos nenhuma pessoa indicada como sendo o provável criminoso. Portanto, continua a haver muito medo e muita insegurança nas ruas entre Rhode Island e Massachusetts.
A Daniela não conhecia diretamente o Nuno Loureiro, mas ele era falado e ouvia falar dele. Como é que ele era recordado, não só o cientista, mas também o homem?
Nuno Loureiro era extremamente respeitado na comunidade científica em Boston, eu diria até a nível global, porque não é uma comunidade científica assim tão grande a que se dedica à física nuclear, como era a sua especialidade, e como sabemos, ele estava à frente de um centro no MIT, o Plasma Science and Fusion Center, que é considerado um dos melhores, senão mesmo o melhor a nível mundial. Portanto, a sua pesquisa, a sua investigação estava na vanguarda da sua área de estudo. Para além disso, tem havido vários testemunhos de colegas de trabalho, de colegas de percurso que falam nele, obviamente, como uma pessoa, não só um cientista de mérito, mas um amigo de mérito, um colega de mérito. Portanto, toda a Grande Boston, na verdade, está a sentir imenso, mesmo as pessoas que não conheciam o Nuno Loureiro. Eu ouvi, por exemplo, algumas entrevistas com seus vizinhos, falando dele, falando da família, das filhas, do fato de ele ser uma presença muito simpática no bairro. Houve também uma vigília na comunidade, tem havido todo tipo de esforços para se apoiar também a família do Nuno Loureiro. Portanto, eu diria que é algo absolutamente chocante, mas o Nuno Loureiro deixou uma marca, tanto a nível pessoal como certamente a nível profissional.
De resto, houve também uma homenagem ao professor junto ao prédio onde ele vivia. Pelo que nos explica, esta foi uma homenagem merecida.
Exatamente. Ou seja, tudo aponta para que o Nuno Loureiro fosse realmente uma pessoa muito querida na sua comunidade. Ele vivia numa comunidade de Boston que se chama Brookline, uma comunidade muito afluente, em que este tipo de crime é absolutamente raro. Não que qualquer comunidade esteja de qualquer maneira alguma vez preparada para este tipo de acontecimento, obviamente, mas isto abalou e mobilizou também a comunidade. E o fato de haver ainda muito pouca informação sobre o que realmente motivou este crime e a forma como ocorreu, obviamente, lançou o medo também. Não é só a empatia, é também o medo que se sente na comunidade, seja nas comunidades académicas, seja nas ruas de Brookline, nas ruas de Boston. Há uma presença da polícia muito mais marcada desde que isto aconteceu. Isso é verdade nos campus universitários e é verdade nas ruas da cidade. Portanto As pessoas estão a lidar com a realidade deste crime todos os dias.
Já vamos continuar a conversa com Daniela Melo. Agora fazemos uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Daniela Melo. Estamos a falar de um físico que estava no MIT desde 2016. No ano passado foi nomeado para liderar o Centro de Ciência do Plasma e Fusão. Para quem não sabe, e a Daniela pode ajudar-nos nisso, pode explicar-nos exatamente o que é o MIT, qual a importância desta instituição?
O Massachusetts Institute of Technology é uma das principais universidades, talvez das mais inovadoras no mundo. É um lugar que atrai os maiores cérebros de todo o mundo, e de onde saem muitas startups, muitos projetos, milionários até. Ou seja, é um lugar onde se faz ciência para o presente e para o futuro. Isso diz-nos imenso realmente sobre o ponto profissional a que Nuno Loureiro tinha chegado, tinha ascendido, e a sua promessa. Esta é uma perda para a ciência, é uma perda para a humanidade, na verdade, quando se perde um cientista do valor de Nuno Loureiro, com a presença e com o impacto à frente do Centro de Plasma e Fusão do MIT. Ele estava ligado a vários projetos e muitos deles muito promissores. Enfim, não posso falar necessariamente sobre o valor da ciência, porque não é o meu ramo, mas pelo que dizem os meus colegas da área, perdeu-se realmente uma pessoa essencial.
O Nuno Loureiro estava a trabalhar no sentido de promover a energia limpa. Sabemos que a questão da energia nuclear, como explicava também, é sensível na conjuntura internacional. Quem investiga, Daniela, mesmo que no âmbito académico, este tipo de temas, pode ser um alvo?
Sim. Não é só quem investiga estes temas da energia. Há outras áreas da investigação que têm sido sempre monitorizadas pelo governo. Por exemplo, na Boston University, sei que o mesmo é verdade na Harvard e também no MIT, sempre que algum de nós esteja a fazer investigação, não é preciso ser na ciência, se a investigação envolva financiamento de outro país, de outra entidade, temos que preencher uma série de formulários para que a universidade e as autoridades estejam a par disso. Isto tem sido um problema em relação à China, em particular, em várias áreas, algumas ligadas à segurança nacional, cybersecurity, mas também, obviamente, e aqui voltando à questão do Nuno Loureiro e o facto de ele ser um físico nuclear, o facto de se trabalhar em áreas que podem ter realmente um impacto muito grande do ponto de vista da segurança nacional, da defesa dos países e da sua capacidade de ataque. Por exemplo, esta semana, o Washington Post e a PBS, em conjunto, pularam um trabalho de investigação aprofundado sobre o que chamam targeted assassinations, feitas por Israel dentro do Irão e quem eram as vítimas visadas, sobretudo cientistas ligados ao programa nuclear do Irão. O Irão acusa Israel há muito tempo de o fazer. Há provas que claramente substanciam que Israel tem adotado essa estratégia. Israel acusa também o Irão de adotar o mesmo tipo de estratégias. Mas uma estratégia dessas dentro dos Estados Unidos seria realmente uma notícia de manchete.
Um jornal israelita diz que está a ser investigado o eventual envolvimento do Irão neste crime, apesar de as autoridades norte-americanas nada dizerem ainda sobre as motivações. Pelo que nos explica, esta hipótese poderá até ter alguma credibilidade?
Neste momento, há mesmo muito pouca informação, pelo menos aberta ao público. Há várias linhas de investigação. Nós sabemos, por exemplo, que a polícia estadual, tanto como a polícia local, e os meios de investigação do estado de Massachusetts foram ativados para seguir todas as linhas de investigação, mas, por exemplo, recusaram, para já, ajuda do FBI. Recusaram também, para já, ajuda vinda de fora dos Estados Unidos. Isso indica-nos que, em princípio, não será a linha de investigação mais promissora. E para agora é uma linha de investigação que não foi minimamente substanciada. É verdade que um jornal israelita abriu esta possibilidade, fala sobre uma investigação feita com base no facto de que a família de Nuno Loureiro apoiaria o Estado de Israel e que isso seria conhecido, e que isso talvez o tenha tornado um alvo de terrorismo, o que nós chamamos de state sponsored terrorism. Terrorismo de Estado dentro dos Estados Unidos. Se isso for uma realidade, poderia ser catastrófico mesmo para o Irão, porque os Estados Unidos teriam que reagir, obviamente, se isso fosse comprovado. No entanto, eu quero realmente sublinhar que esta linha de investigação ainda não foi substanciada De forma alguma. Mas o que acontece? É o óbvio. Há medo, há pouca informação, há muitas conjecturas, muita especulação e obviamente que sempre que é anunciada uma nova linha de investigação, o papel dos media e o papel dos jornalistas é investigá-la, mas temos que fazê-lo com cuidado neste caso, porque ainda não há indícios que indiquem que esta seja a causa mais provável.
E houve essa coincidência, como nos explicava há pouco, desta morte ter acontecido poucos dias depois de um tiroteio na Brown University, que provocou a morte a dois estudantes. Aparentemente, neste caso, poderemos estar perante uma coincidência.
De acordo com as autoridades, tanto em Rhode Island como em Massachusetts, parece que sim. Ou seja, até agora eles não encontraram indícios de que haja uma ligação entre os dois casos, mas como sabemos, em ambos os casos, a pessoa que cometeu estes crimes ou as pessoas que cometeram estes crimes continuam a monte. Portanto, é muito limitado aquilo que sabemos. Isso gera uma certa instabilidade, é óbvio, medo, mas a única coisa que sabemos realmente é que este tipo de violência continua a aumentar nos Estados Unidos. Não sabemos ainda se há uma motivação política, se há uma motivação pessoal em nenhum dos casos. Portanto, é normal que estejamos a especular sobre a sua probabilidade, mas não passa disso. Ainda neste momento, infelizmente, é só especulação.
Obrigado, Daniela.
Obrigada, Luís.
Daniela Melo é professora de Ciência Política da Universidade de Boston. Nesta história do dia, deixo ainda três coisas que vão marcar esta sexta-feira. O presidente do Politécnico de Portalegre, Luís Loures, toma posse como presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. A cerimónia realiza-se no campus do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, em Barcelos. Luís Loures foi eleito no dia 10 de novembro, inicia um mandato de dois anos à frente do órgão que representa os institutos superiores politécnicos portugueses. A Associação Mutualista Montepio Geral vai a votos para o próximo mandato. O atual presidente, Virgílio Lima, será eleito pela lista A, uma vez que não tem qualquer concorrente. A lista B concorre apenas à Assembleia de Representantes. A Super Bock Arena, no Porto, recebe o segundo concerto que celebra os 45 anos da carreira de Rui Veloso. Além da participação especial da Banda Sinfônica da GNR, o espetáculo conta com arranjos de John Beasley, premiado músico e compositor de jazz norte-americano. É às 21h. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Luís Soares. Bom fim de semana.