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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Qual é a jogada de Luís Montenegro?

Desta vez, decidi não. Se algum dia entender dizer sim, já sabem, eu não vou pedir licença a ninguém.

Estávamos em 2018 e Luís Montenegro fazia um discurso marcante no palco do Congresso de Lisboa.

Se lhe querem dar o selo do calculismo, podem dar. Eu fico com esse selo, mas não se esqueçam que há aí alguém que deve ter a caderneta cheia.

Os recados para Rui Rio, que tinha substituído Passos Coelho à frente do PSD há um mês, seguiram-se um atrás de outro.

Quero ser honesto consigo. Mais do que lhe cobrar vitórias, quero lhe cobrar ambição, tenacidade, arrojo pra construir um projeto mobilizador para Portugal.

Montenegro cumpriu. Fez essa cobrança repetidas vezes nos quatro anos seguintes. Avançou contra o líder, depois fez um recuo estratégico e acabou apoiando Rui Rio na última corrida às legislativas. Esta quarta-feira, Luís Montenegro oficializou a candidatura à liderança do PSD.

Sou candidato a presidente do Partido Social Democrata para ser primeiro ministro de Portugal. Esta candidatura resulta de uma ponderada reflexão e de uma inabalável convicção de que sou capaz de unir o PSD e de o abrir à sociedade.

Por que avançar agora? Quais são as reais hipóteses de Luís Montenegro? Hoje vou conversar com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso. Olá, Miguel.

Olá, Catarina.

Quem é Luís Montenegro?

O perfil de Luís Montenegro é tudo menos linear. Cresceu na JS de Espinho, foi vereador, foi candidato autárquico derrotado, foi apoiante de Menezes contra Mendes, foi apoiante de Santana contra Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho e finalmente foi apoiante de Passos contra Rangel e Aguiar Branco. Cresceu no Parlamento pela mão de Miguel Macedo e chegou finalement a líder parlamentar, onde ganhou grande visibilidade pela mão de Passos nos quatro anos de governo PSD/CDS.

E depois, nesse período pós-Passos Coelho, Luís Montenegro decide não avançar para uma candidatura à liderança do PSD, decide tentar lançar Paulo Rangel, mas acaba a apoiar Santana. O que se passou nessa fase?

Luís Montenegro era, se nós recordarmos, o herdeiro natural de Pedro Passos Coelho. Era uma espécie de extensão do Governo no Parlamento. Mas os quatro anos defendendo aquele período, que foi um período difícil do PSD/CDS, em que foi preciso aplicar aquele memorando da Troika, fizeram com que Montenegro achasse que a colagem ao passismo e à Troika era uma barreira impossível de ultrapassar. Montenegro queria muito Paulo Rangel, que faltou à chamada, como sabemos, e acabou, de alguma forma, a apoiar Santana, mesmo sem grande convicção. Se quisermos resumir aquele período de vida política de Montenegro, Montenegro queria tudo, menos Rui Rio na liderança do PSD.

O próprio havia de elencar o que os opositores lhe apontavam então. Dizia ele: "De falta de coragem a taticismo".

De calculismo a falta de autenticidade, o deslumbramento de alguns deu pra quase tudo.

E disse isto no congresso de consagração de Rio, em fevereiro de 2018. Montenegro sobe então ao palco do Centro de Congressos de Lisboa para lhe garantir apoio, mas acaba deixando mais de 20 minutos de recados dirigidos como setas ao novo líder.

Não fui eu que estive 10 anos à espera de, no tempo e no modo que são legítimos, não fui eu que estive à espera de disputar a liderança do PSD entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro ou de ser Presidente da República.

Rui Rio assistia da plateia com aquela expressão que os atores fazem no momento em que percebem que não vão ganhar o Oscar, mas sabem que têm uma câmera focada neles.

A expressão de Rui Rio, de fato, era impagável naquele congresso. Isto explica-se muito facilmente. Rui Rio e a linha que representa dentro do partido, com figuras como Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira, sempre foi uma linha muito mais social-democrata. Pedro Passos Coelho, sendo da linha liberal e depois, em cima disso, tendo aplicado as medidas que teve de aplicar, fez com que esta fricção entre as duas famílias que sempre coabitaram dentro do PSD fosse muito evidente. E há muito que o passismo vivia incomodado com as intervenções públicas e privadas de Rui Rio sobre o governo de Pedro Passos Coelho. Portanto, Luís Montenegro, que quis nesse congresso, além de ter dito desde o minuto zero que seria a sombra do Rui Rio, Luís Montenegro quis desse primeiro momento dizer: "Nós não nos esquecemos do que Rui Rio fez a Pedro Passos Coelho”. E portanto, marcou-se desde ali uma rivalidade que seria evidente e que cresceria ao longo dos próximos meses.

Quase um ano depois desse congresso, em janeiro de 2019, volta a embater de frente com Rui Rio, mas esse desafio não correu muito bem.

Não, e essa questão nunca foi inteiramente explicada no PSD, nem por Montenegro, nem pelos seus mais próximos apoiantes. Aquela tentativa de golpe de Estado, como chamaria Rui Rio, Fadada a grande sucesso, se quisermos. Em parte porque era muito difícil, conhecendo o partido como Montenegro conhecia ou aparentemente conhecia, derrubar Rui Rio naquelas condições. A tese que sempre correu nos bastidores do PSD foi que Montenegro tinha sido muito pressionado a avançar logo ali, sob pena de perder os apoios que tinha e sob pena de perder a vez. Se faltasse à chamada, alguém apareceria no lugar dele. O resultado foi o que foi. Montenegro estampou-se, tornou-se ainda mais o inimigo número um do Rui Rio e ganhou logo um anátema de derrotado.

E nestes avanços e recuos, já vamos em três anos seguidos de janeiros atribulados. Primeiro, janeiro de 2018, esse tal Congresso de Lisboa e os avisos que deixou na festa de Rui Rio. Depois, janeiro de 2019 e o tal impeachment falhado. E depois chegamos então a janeiro de 2020 com Montenegro de volta à carga e a disputar diretas com Miguel Pinto Luz e Rui Rio.

Certo. Se o processo anterior já tinha sido traumático, estas eleições foram absolutamente traumáticas para Luís Montenegro. É verdade que teve um resultado muito interessante. Não só conseguiu forçar a segunda volta, como teve nessa segunda tentativa 47% do partido, o que significa que rachou a meio o PSD. Mas é preciso não esquecer que este resultado acontece depois de Rui Rio ter tido dois resultados desastrosos, dos piores da história do partido, nas europeias e nas legislativas, e quando toda a gente no PSD, quando o aparelho no PSD parecia estar todo inclinado para Luís Montenegro. Ter perdido ali, naquelas circunstâncias, foi absolutamente traumático para Montenegro, que depois se afastou da vida política do partido, fez uma longa travessia no deserto e ficou nessa altura a ideia de que além de ter sido derrotado uma vez, tinha sido derrotado duas vezes, três vezes. Montenegro tinha se tornado um ativo tóxico do PSD.

Antes de iniciar essa longa travessia, ainda foi no mês seguinte ao Congresso de Viana do Castelo dizer que o PSD precisava de refrescar o ambiente.

Eu peço alguma tolerância, senhor presidente. Por razões óbvias. Mais dois minutos. Companheiros, peço silêncio para ouvirmos o companheiro Luís Montenegro. Há demasiada crispação e há demasiada agressividade verbal. Há demasiado fanatismo até. E há muitas vezes excessos que são cometidos por responsáveis políticos que não devem continuar.

Esse discurso é quase uma nota de rodapé na história dos congressos, porque foi bastante confrangedora a forma como o partido recebeu Luís Montenegro. Aquele mesmo homem que tinha quase conquistado o partido acaba apupado por uma grande parte dos militantes ali presente e sai pela porta pequena. Luís Montenegro despedia-se da primeira linha de combate político da pior forma possível para alguém que acreditava genuinamente que poderia derrotar Rui Rio.

Como dizias, Montenegro ficou depois resguardado na sombra desde 2020 até novembro de 2021.

É verdade, ficou resguardado na sombra, os seus apoiantes nem por isso, mas quem foi de facto a jogo foi Paulo Rangel. Luís Montenegro pairou sobre essas diretas. Havia uma grande expectativa pra perceber o que faria e o que fariam os apoiantes de Luís Montenegro em relação a Paulo Rangel e a Rui Rio. Obviamente, não morriam de amores por Rio, aliás, isso era para todos evidente, e havia a expectativa de apoiarem, mesmo que a contragosto, Paulo Rangel. Durante um par de semanas, um mês até, toda a gente, quer na comunicação social, quer numa parte do partido ligada a Rui Rio, acreditava que Montenegro e os seus apoiantes iam ajudar Paulo Rangel. A verdade é que Rangel, no final do dia acabou a gritar traição. Aqui não foi Paulo Rangel, obviamente, mas os seus apoiantes, porque o que se viu foi que aquelas estruturas que eram afetadas a Luís Montenegro, ou que eram antes afetas a Luís Montenegro, foi nessas estruturas que Paulo Rangel desiludiu na noite eleitoral. Portanto, criou-se sempre esta ideia e esta tese, obviamente não comprovável, porque é impossível comprovar isto, de que os apoiantes de Montenegro decidiram boicotar Paulo Rangel porque sabiam que se Paulo Rangel ganhasse aquelas eleições diretas, o sonho de chegarem ao poder ficaria eternamente adiado. E portanto, Rio ganha, Rangel perde, Montenegro ganha uma quarta vida.

E chega então Rui Rio a mais um congresso, desta vez o de Santa Maria da Feira, em dezembro passado, com todo um novo elã, depois dessa vitória. Montenegro sobe então ao palco novamente, desta vez de barba rala, com uma nova imagem, para lhe jurar lealdade.

Eu queria lhe dizer, doutor Rui Rio, que você já demonstrou cá dentro que consegue ser eficaz e aproveitar as oportunidades para ganhar eleições diretas. Eu que o diga. E eu que o diga também o Paulo Rangel, a quem envio daqui uma saudação amiga. Portanto, doutor Rui Rio, nós queremos é que faça o mesmo ao doutor António Costa e ao Partido Socialista.

Sim, naquele congresso lembro-me de sentir que estava a viver uma realidade paralela. O inimigo número um do Rui Rio a jurar que faria tudo O líder do PS chegasse a primeiro-ministro. Montenegro disse que o seu recato tinha acabado, que agora estava de volta ao combate político e apareceu ali a dizer que Rui Rio ia derrotar António Costa. Mais uma vez, parecia uma realidade paralela e parecia que todos, incluindo os apoiantes do Rui Rio, se tinham esquecido das tropelias que Montenegro fez ao ainda líder do PSD.

E de certa forma essa realidade paralela continuou, não é? O que aconteceu a seguir?

É verdade que nas legislativas houve uma espécie de competição de quem ia mais depressa ao beija-mão a Rui Rio. Luís Montenegro não faltou a essa corrida e apareceu no distrito de Aveiro, andou de carro com o líder do PSD, falou aos jornalistas com o líder do PSD, andou de braço dado com o líder do PSD e acabou a dizer que o líder do PSD, Rui Rio, o seu adversário de sempre, ia chegar a primeiro-ministro. Portanto, o papel estava cumprido na perfeição. Rui Rio tinha um apoiante de peso a seu lado, Luís Montenegro era um novo Luís Montenegro, era o Luís Montenegro 2.0, liberto daquele pecado original de ter sido um crítico feroz de Rui Rio.

Só que Rui Rio perde as eleições.

Rui Rio perde as eleições e fica toda a gente de novo até estar a perceber o que é que faria Luís Montenegro. Houve uma grande expectativa. Luís Montenegro geriu muito bem o seu tempo político. Entretanto, todos os candidatos a candidato foram deixando a corrida e Luís Montenegro finalmente anunciou que será candidato à sucessão do líder do PSD. A dispersão de votos no espaço do centro-direita mostra que há lugar para novos discursos e renovadas narrativas. Esse espaço é por natureza o espaço do PSD. O PSD é o incumbente do espaço não socialista e tem de voltar a ser a casa mãe de todas as tendências não socialistas.

Por que Luiz Montenegro se quer candidatar agora? O que ganha em arriscar agora?

Em boa verdade, não tinha grande alternativa. Era esta a última oportunidade depois de se tentar três vezes derrubar um líder. Se agora não fosse a jogo, seria rapidamente esquecido. E é uma oportunidade que surge quando quase ninguém parece verdadeiramente querer ser líder do PSD. Ou seja, mais do que nunca, Montenegro tem o caminho aberto à liderança do partido.

Mas também escrevias recentemente que este era o cargo menos atrativo da política portuguesa.

Sim, primeiro, há uma questão de legitimidade interna. Por tanta gente ter faltado à chamada, Luís Montenegro vai enfrentar muito provavelmente um candidato em menores condições de chegar a líder do PSD. Portanto, não vai ter um adversário à altura e não tendo um adversário à altura, ninguém garante que no futuro, provavelmente daqui a dois anos, essa pessoa que muitos no PSD queriam que fosse agora a jogo, e estou a pensar, por exemplo, em Carlos Moedas, possa aparecer. Luís Montenegro pode até ganhar estas eleições diretas, mas vai ficar sempre aquela sensação de que faltou um adversário capaz de o enfrentar.

E há outras desvantagens claras também, não é?

Eu vejo como uma desvantagem óbvia as eleições europeias. Serão o primeiro grande teste de Luís Montenegro, serão unas eleições muito difíceis. O PSD parte de um resultado desastroso, mas não é claro que consiga crescer muito para lá disso. E portanto, para um líder ou para um candidato a líder como é Luís Montenegro, que sempre exigiu resultados aos outros, se nessas europeias falhar e não conseguir ter já nem digo uma vitória, mas um resultado que não seja poucochinho, muito provavelmente terá a cabeça a prémio. E depois, há em cima disso o ciclo interno, que é infernal para qualquer líder que venha a ganhar essas eleições directas. Para termos bem a noção, se Luís Montenegro ganhar estas eleições, em condições normais, terá de enfrentar mais umas eleições daqui a dois anos e mais outras eleições internas daqui a quatro para, ou se quiser, ser candidato a primeiroministro. Da última vez que isto aconteceu, em que um partido como o PSD esteve na oposição quatro anos com o PS maioritário, o PSD queimou, triturou três líderes e quindi Luis Montenegro pode entrar nessa gloriosa galeria de honra e juntar-se a nomes como Luís Filipe Menezes, Luís Marques Mendes e Manuela Ferreira Leite. Não será certamente um ciclo interno fácil para Luís Montenegro.

Se num cenário tão pouco favorável, o que o move?

Como em qualquer boa história, e esta é a História do Dia, há sempre um twist. E de repente, todos na politica portuguesa começam a discutir a hipótese de, apesar de António Costa ter vencido com maioria absoluta, podermos estar daqui a dois anos novamente em eleições antecipadas se António Costa cumprir a sua alegada ambição de chegar a um cargo europeu. Portugal precisa de uma oposição atenta e, para além disso, uma oposição pronta para governar a qualquer momento, porque como muito bem lembrou o Presidente da República na tomada de posse do Governo, um cenário de eleições antecipadas será inevitável caso o Primeiro-Ministro venha aceder à sua tentação pessoal e européia. Portanto, Luís Montenegro pode, no momento em que muita gente no partido o considera um líder de transição, alguém que vai apenas cumprir calendário, daqui a dois anos concorrer para primeiro-ministro com um sucessor de António Costa, que não será necessariamente António Costa, portando terá sempre alguém mais frágil e depois do líder do PSD desertado. Ora, passamos dum candidato a líder de transição para um candidato a primeiro-ministro num piscade de olhos de dois anos. E isso é a grande jogada de risco de Luís Montenegro. Ele próprio, no discurso de apresentação de candidatura, disse: "Sou candidato a líder do PSD e candidato a primeiro-ministro". Portanto, também está a perspetivar essa janela de oportunidade. E esse risco, no final do dia, o tal cargo menos apetecível da política portuguesa pode rápidamente transformar-se no cargo de primeiro-ministro. E portanto, Luís Montenegro joga aqui tudo, joga aqui o seu percurso político, a sua carreira política, se quisermos. Pode ganhar as diretas e rapidamente ser corrido da liderança do PSD, pode ganhar as diretas e rapidamente chegar aprimeiro-ministro.

Obrigada, Miguel.

Obrigado, Catarina.

O Miguel Santos Carrapateoso é editor adjunto de Política do Observador. No jornal e na rádio vamos continuar a acompanhar a atualidade política ao detalhe. Hoje e amanhã estaremos de olhos postos no Parlamento, onde será apresentado e discutido o programa de governo. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Catarina Santos. Até amanhã .