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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quem é J.D. Vance, o homem que odiava Donald Trump e que agora pode chegar à Casa Branca?
"It is therefore my honor to nominate Ohio Senator J.D. Vance for the office of Vice President of the United States of America."
Com apenas 39 anos, J.D. Vance já era uma estrela em ascensão na política norte-americana, mas agora ganhou um novo protagonismo. Das origens humildes ao mundo da advocacia e da finança, Vance foi eleito para o Senado há menos de dois anos e acaba de ser escolhido por Donald Trump como candidato à vice-presidência. Quem é J.D. Vance e como é que um dos críticos mais ferozes de Trump se transformou, nos anos mais recentes, num dos seus maiores apoiantes? Mais do que isso, por que esta escolha e o que ela revela sobre a estratégia de Trump para ganhar as eleições em novembro? E o que significa para o futuro do Partido Republicano? São questões para a conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, 17 de julho. Olá, Cátia, bem-vinda.
Olá, João.
Finalmente política norte-americana. Nós já nos conhecemos há alguns anos. É um dos temas que eu gosto mais de falar contigo, mas acho que nunca calhou na história do dia.
Acho que agora vamos ter muitas oportunidades ao longo dos próximos meses para voltar a ela.
Até novembro vamos ter muitas. Olha, vamos começar por tentar perceber primeiro quem é este homem. Ele vem de origens humildes, passa pelo exército, pela advocacia, antes disso por uma comissão no Iraque, até chegar depois a uma carreira de sucesso no mundo da finança.
Sim, J.D. Vance tem um percurso que não é de todo o que se esperava de uma pessoa que cresceu onde ele cresceu. Ele nasceu numa pequena terra no Ohio, em uma família muito desestruturada, uma mãe com problemas de toxicodependência graves, com situações de violência doméstica, com vários namorados. E J.D. Vance acabou por, o que ele próprio diz, ser muito criado pela avó, que ele chamava de Mimo, e que era a figura mais estável na sua vida e que foi uma grande influência, diz ele, na forma de pensar, na sua personalidade, na maneira de olhar pro mundo.
I grew up in a poor family. I remember when my grandmother, who raised me, she used to negotiate with the Meals on Wheels people to give her additional food so that she could feed me.
Não só era uma família em si já com problemas, como toda a região onde ele cresceu era aquele exemplo, protótipo típico, das cidades pobres da Appalachia, a zona dos Estados Unidos que envolve vários estados, mas que sobretudo ali concentrados no Ohio e na Pensilvânia, que são zonas que tinham grandes centros industriais que se foram esvaziando com a saída das fábricas e desses empregos, e cuja população acabou por cair em ciclos de pobreza muito acentuados. E, portanto, J.D. Vance cresceu rodeado disso. Seria de esperar que o seu futuro não fosse brilhante, mas acabou por, como muitos jovens norte-americanos, encontrar um caminho no exército para conseguir sair do sítio onde cresceu. Foi para o exército, fez uma comissão no Iraque, participou nessa guerra, saiu de lá com bastantes dúvidas sobre a sua participação nessa guerra e depois conseguiu ir estudar para Yale, uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos, onde tirou direito. E depois acabou por não seguir uma carreira de jurista, mas sim entrar no mundo da finança, no mundo do capital de risco. E é de fato uma ascensão econômica face àquilo que era a experiência dos seus pais e dos seus avós, muito marcada. Uma grande diferença do meio onde nasceu.
I love you.
I promise that I'm gonna do better.
Kimmy, you got a right to your own life.
Esse passado humilde que falavas, de resto, J.D. Vance transformou num livro. Um livro inspirado na experiência própria de vida, que depois, pra além de best-seller, ainda foi adaptado a um filme.
Sim, o "Hillbilly Elegy" tornou-se um fenômeno por ter sido publicado perto da campanha eleitoral em que Donald Trump surgiu como candidato pela primeira vez, em 2016. E o livro acabou por ser muito consensual, quer à esquerda, quer à direita, no sentido de ser um livro que retratava uma classe de eleitores que ninguém tinha percebido que existia. Ou seja, como se J.D. Vance estivesse a explicar como é que Trump captou este eleitorado. Por quê? Porque havia todos estes problemas que o resto do país estava a ignorar e não estava a notar. E era como se o livro dele abrisse uma janela para esse mundo que o resto da América não conhecia. E, portanto, acabou por ser um livro muito consensual, quer à direita, porque diziam: "Vem, é por isto que Trump venceu", quer à esquerda, porque dizia: "Nós temos de entender por que as pessoas votaram em Trump e está aqui uma explicação que nos tinha passado ao lado".
You literally said you texted a friend that Trump is a cynical a-hole like Nixon, who wouldn't be that bad and might even prove useful, and that he's America's Hitler.
Mas em 2016, J.D. Vance foi um dos críticos mais ferozes de Donald Trump na campanha e depois quando chegou à presidência. O que ele defendia nessa altura?
Ele era muito claro nessa altura que continuava a achar que, de fato, havia problemas muito graves no sítio onde nasceu e em toda aquela região, que havia uma grande frustração entre os eleitores daquela região, mas não achava que Trump fosse a solução para esses problemas. E sabemos que Vance pensava isto, não só pela série de tweets que fazia na altura a falar sobre o assunto E que ele entretanto apagou, mas sabemos que na internet nada desaparece. Esses tweets foram recuperados. Mas também pelas várias entrevistas que deu, onde dizia que considerava que Trump era uma pessoa que estava a cicatrizar o ódio racial, que não era uma pessoa com perfil próprio para o cargo de presidente. Chegou a dizer, inclusivamente, numa entrevista, que estava a considerar, se Trump tivesse fortes possibilidades de vencer, engolir o sapo e votar em Hillary Clinton, embora hoje em dia ele diga que não o fez, diz que votou num terceiro candidato, um candidato independente que concorreu no estado do Ohio. Mas as suas críticas a Trump eram tão claras que ele chegou a escrever um artigo que foi publicado na Atlantic no verão de 2016, e portanto depois da eleição, foi em novembro, onde notava como a toxicodependência era um grave problema na região da Apaláquia, e Trump era a nova droga, dizia ele, que estava a dominar as pessoas que procuravam um escape à sua vida, mas que ele não era a verdadeira solução, não era o verdadeiro medicamento de que as pessoas necessitavam.
Yeah, he said some bad things about me, but that was before he knew me and then he fell in love.
Assim sendo, quando é que se dá essa viragem? Quando é que Vance, que era um never Trump, como ele dizia, passou para alguém que diz que Trump foi um grande presidente?
Ele diz que essa viragem foi gradual. Nas palavras dele, aquilo que Vance tem justificado nas várias entrevistas que deu é que: "Eu achava que ele ia ser um mau presidente. Ele foi me provando que afinal era um bom presidente à medida que exercia o seu mandato e, portanto, eu mudei de opinião". A primeira vez que temos uma noção clara dessa mudança de opinião é ali mais ou menos por volta de 2021, o que coincide com a altura em que Vance estava a começar a preparar-se para tentar ser candidato ao Senado pelo estado do Ohio.
Começou a ter ambições políticas, não é?
Sim, e nessa altura, sabemos agora por um artigo que o New York Times publicou recentemente, citando várias pessoas que estiveram presentes nessa reunião, o próprio J.D. Vance ter-se-á encontrado com Donald Trump, e este, nesse encontro, tê-lo-á confrontado com as coisas que disse sobre ele. E disse: "Você disse coisas terríveis sobre mim, você não gosta de mim". E Vance terá de imediato pedido desculpa e terá dito: "Eu não o entendi, eu não o compreendi, e eu devia ter compreendido, tendo em conta o meu passado e de onde eu venho, mas agora compreendo". E desde aí, ele passou a dar várias entrevistas onde diz abertamente: "Vou abordar o elefante na sala. Eu critiquei Trump, eu estava enganado, eu estava errado. Ele provou que é um excelente presidente e estou 100% com ele agora."
Vance chegou ao Senado em 2022 e o que é certo é que agora, cerca de dois anos depois, pode chegar já a vice-presidente. Quais são as pessoas ou quem são as pessoas que o apoiam e que podem ter influenciado esta escolha de Donald Trump?
O que vemos na imprensa norte-americana é que houve aqui um grupo de pessoas que se debateu muito fortemente para defender Vance como escolha, pessoas próximas de Trump, porque até à última, dizem, o candidato ainda estava indeciso. E há aqui, pelo menos, duas figuras muito relevantes. Uma é Tucker Carlson, o jornalista que era da Fox News e que se afastou e que agora tem sua própria plataforma independente, mas que é uma das vozes mais respeitadas para a direita do Partido Republicano, e que terá dito claramente a Trump: "Vance é a melhor escolha, qualquer um dos outros candidatos são os clássicos neocons", ou seja, os neoconservadores que são ligados à era Bush, os chamados falcões da política externa, Vance não é um deles. E temos também Donald Trump Jr, o filho mais velho do candidato, que já nos últimos anos desenvolveu uma ligação próxima a Vance e que ele próprio veio admitir à CNN: "Sim, eu disse ao meu pai, ele é a nossa melhor hipótese, é a escolha acertada."
Kátia, falando também do acontecimento que está a marcar estes dias, J.D. Vance foi dos primeiros a tentar, de alguma forma, ligar esta tentativa de atentado contra Donald Trump aos democratas e a Biden.
Sim, foi dos primeiros congressistas, pelo menos, a falar nisso. Houve outro congressista que também falou da declaração de Biden, de colocar Trump na mira, que isso seria uma espécie de incentivo ao atirador, mas J.D. Vance foi logo dos primeiros a dizer: "O problema aqui é que os democratas retratam Trump como um fascista autoritário que deve ser travado a qualquer custo e, portanto, alguém ouviu isso e tentou fazê-lo". E é interessante que, embora Donald Trump diga que quer baixar a temperatura, poucos dias depois anunciou o homem que disse estas palavras como seu candidato a vice-presidente.
Já regressamos à conversa com Kátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Na segunda parte vamos perceber qual a estratégia de Trump ao fazer esta escolha para a vice-presidência e se Vance se posiciona já para ser, no futuro, o grande sucessor de Donald Trump. Estamos de regresso à conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Cátia, em 2016, quando Trump escolheu Mike Pence, isso foi visto como uma forma de procurar o apoio dos cristãos evangélicos. Normalmente, a escolha do vice-presidente é também, de certa maneira, uma forma de equilibrar a candidatura, alargar o mais possível a base de apoio. Só que não foi isso que aconteceu agora. O que nos diz esta escolha de um homem como J.D. Vance?
É interessante, porque os outros nomes que estavam em cima da mesa teriam certamente ajudado nisso. Marco Rubio poderia ter sido uma boa escolha para tentar conquistar o voto dos hispânicos, por ele ser cubano-americano. Falava-se no nome de Tim Scott, podia ter sido uma forma de alargar para o eleitorado afro-americano. J.D. Vance é o homem que representa a working class branca da Appalachia, que já é um eleitorado que geralmente está com Trump. Portanto, nesse sentido, à primeira vista, esta não é uma escolha que traga muito em termos eleitorais. Mas há aqui duas leituras possíveis de como pode haver algum grau de estratégia. Por um lado, porque isso pode sinalizar que a campanha Trump está focada em conquistar toda essa região. E a verdade é que a matemática dos swing states, que são necessários um candidato conquistar para se tornar presidente, geralmente tem sempre de incluir pelo menos um destes estados, como Ohio ou Pensilvânia. Com J.D. Vance, Trump tem muito mais hipóteses de conquistar todos esses estados e, portanto, Biden fica com um caminho muito difícil e teria de conseguir fazer uma ginástica e ganhar em muitos outros estados, em outras zonas do país, o que torna tudo mais difícil. Por outro lado, temos também o facto de J.D. Vance ser um candidato jovem. Ele tem 39 anos, vai fazer 40 anos em breve, numa altura em que a campanha de Trump tenta muito capitalizar a ideia de que Biden está demasiado velho e incapaz para o cargo. Trump não só ficou revigorado com a sua reação à tentativa de assassinato, como ainda por cima tem um braço direito que é também um homem jovem e combativo. Tudo isto pode ter influência, a que se junta o facto de Vance ser um político que, apesar de ter pouca experiência, é tido como inteligente, capaz de falar em público, possivelmente bom em debates. Veremos como será o debate dele com Kamala Harris, por exemplo. Apesar de não ser uma escolha óbvia nessa lógica de alargar eleitorado, não quer dizer que prejudique necessariamente a campanha de Donald Trump.
E onde é que o podemos posicionar ideologicamente dentro deste movimento do Trump, o MAGA, Make America Great Again? O que defende este homem? Esta é uma pergunta que dava para várias histórias do dia.
Dava para muitas histórias do dia, é muito interessante. O que podemos falar sobre o que defende J.D. Vance? Podemos falar do que ele defende ao longo dos últimos anos. Não sabemos o que ele defendia exatamente antes de escrever o seu livro, que se tornou um sucesso. Sabemos o que ele defende recentemente e que é aplaudido, e ele próprio já disse identificar-se com uma espécie de ramo da direita americana que se autointitula como a nova direita, e que é uma espécie de fração do MAGA, do Make America Great Again, que une um eleitorado muito específico, de pessoas geralmente com elevados níveis de educação, por vezes empresários, muita gente que está ligada a discussões em plataformas online, podcasters, etc., onde se incluem empresários como Elon Musk, por exemplo, que já vieram claramente apoiar Trump, cuja ideologia se define essencialmente por uma ideia de que a América tem estado dominada pelas elites, sejam elas não só do Partido Democrata, mas também, de certa forma, do Partido Republicano ao longo dos últimos anos. E o que a nova direita acha é que é preciso uma transformação disso e que é preciso focar na verdadeira classe trabalhadora americana, porque ela que é o motor do desenvolvimento econômico do país. E para este grupo, e as ideias de J.D. Vance são completamente alinhadas com estas, isso faz-se através de uma mistura de, por um lado, políticas econômicas que às vezes são até próximas da área mais à esquerda do Partido Democrata. Não é por acaso que J.D. Vance, por exemplo, já fez projetos de lei no Senado em parceria com Elizabeth Warren, que é uma das senadoras mais à esquerda, e que defende a continuação de algum tipo de coisas sociais, investimento público em determinadas regiões, etc., mas conjugado com uma política anti-imigração, assentando muito na ideia de que se for permitida uma entrada de imigrantes em massa, os salários irão baixar e, portanto, os imigrantes é que serão contratados e os americanos não serão. E, ao mesmo tempo, uma política protecionista que também se estende a impor mais tarifas sobre a importação de produtos e estimular a economia nacional, e que depois, às vezes, está também ligada a um movimento muito ligado às guerras culturais, em que aqui, já muito mais à direita, se considera que as elites têm promovido a ideia do wokeness, uma ideia de defesa de políticas identitárias que prejudicam a classe tradicional operária branca norte-americana, que é exatamente de onde J.D. Vance vem.
E o que a ascensão deste homem e tudo aquilo que temos falado até agora pode representar também para o Partido Republicano?
Depende de quão eficaz for a sua marca na próxima administração Trump, se Trump for eleito. Mas ao escolher este homem e não uma figura como Marco Rubio, que seria muito mais da ala mainstream do Partido Republicano, temos aqui um aprofundar de um corte com o Partido Republicano do passado. Ou seja, ideias como as que J.D. Vance defende em termos económicos, por exemplo, ele chegou a criticar algumas das reduções de impostos que o Trump fez sobre os mais ricos, são ideias que são completamente contra a lógica popularizada, por exemplo, por Ronald Reagan. É uma política económica completamente atípica para aquela do Partido Republicano. Na política externa, a mesma coisa. Esta é uma ala que considera que os tempos de George W. Bush foram os tempos dos neocons e que isso tem que ficar completamente para trás. J.D. Vance usa repetidamente a sua experiência da guerra no Iraque como um exemplo de que o envolvimento em guerras no estrangeiro não é bom para os norte-americanos e, por isso, tem sido um dos senadores mais críticos do apoio à Ucrânia. E isto é também um corte com aquilo que tem sido a tradição do Partido Republicano. E não é por acaso que no primeiro dia da Convenção Republicana, o mesmo dia em que ele foi anunciado como candidato a vice-presidente, Mitch McConnell, que é quase como uma figura símbolo do Partido Republicano clássico neste momento, ainda, quase como uma figura do Partido Republicano antigo, que ainda resiste, foi vaiado. Portanto, acho que essa transformação fica muito clara na mesma noite, com o anúncio de J.D. Vance como vice-presidente e Mitch McConnell a ser vaiado. Há aqui um Partido Republicano que não só é um Partido Republicano mais pró-Trump, mas que é um Partido Republicano ainda mais MAGA do que Trump já era.
Nós sabemos pela história da política norte-americana que a vice-presidência pode também ser um trampolim mais tarde para a presidência. E não precisamos de ir mais longe. Joe Biden foi vice-presidente de Barack Obama. Também Richard Nixon, George Bush, o pai, foi também.
Lyndon Johnson.
Exatamente, há muitos casos. Achas que J.D. Vance tem condições, imaginando que Trump ganhará as eleições, para ser sucessor de Trump no Partido Republicano e o próximo candidato à presidência dentro de alguns anos?
Por um lado, tem idade para isso. A maior parte dos candidatos a vice-presidentes são substancialmente mais velhos do que aquilo que ele é. E tem pela frente um presidente que só vai poder fazer quatro anos de mandato porque já concorreu e já foi presidente no passado. E, portanto, nem sequer são os oito anos que normalmente os vice-presidentes geralmente podem ter de esperar. E depois há muitas figuras dentro da nova direita que acham isso mesmo, que J.D. Vance pode ser um presidente no futuro. Steve Bannon é uma delas, disse-o claramente recentemente num artigo do Politico. Artigo esse onde a pergunta também foi colocada ao próprio J.D. Vance, que não quis ir tão longe, mas notou que Trump só será presidente durante quatro anos. Portanto, não me parece uma negativa.
Obrigado, Cátia.
Obrigada eu, João.
Cátia Bruno é editora de internacional d'O Observador. Esta foi a história do dia. Neste episódio usámos também sons da Fox News. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.