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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem é o homem que quer passar à frente de Donald Trump na corrida à Casa Branca?

I understand that you may have an announcement to make. We've got, I think, a record audience assembled here. What would you like to tell them?

Well, I am running for President of the United States to lead our great American comeback.

Já foi em tempos o reino de Donald Trump e agora foi o terreno usado pelo homem que o quer vencer na tentativa de chegar à presidência. Foi numa entrevista no Twitter com o dono da rede social, Elon Musk, e não através das televisões, que Ron DeSantis anunciou que vai procurar a nomeação do Partido Republicano para as eleições de 2024. O governador da Flórida é uma estrela ascendente no partido. Reeleito em novembro do ano passado, tem ganho apoiantes com o seu posicionamento conservador, populista e não raras vezes polémico. Ficou conhecido por ser contra as restrições durante a pandemia e mais recentemente pelas medidas anti-imigração e pela proibição decretada no estado da Flórida de as escolas abordarem questões relacionadas com a identidade de género e orientação sexual. Quanto vale DeSantis na corrida à Casa Branca? Pode mesmo ser uma ameaça para Donald Trump? E trata-se de um Trump mais novo e versão 2.0, ou é alguém diferente? São questões para a conversa com Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia. Bem-vindo, Nuno Gouveia.

Obrigado, João. É um prazer estar aqui.

Nuno, vamos começar pelo mais simples. Quem é este homem, Ron DeSantis, e como é que ganhou protagonismo na cena política nacional nos Estados Unidos e nomeadamente no Partido Republicano?

Portanto, Ron DeSantis não é propriamente uma novidade na política americana. Olhando para ele, vemos que é um candidato de sonho presidencial dentro daquelas histórias que os Estados Unidos nos contam. Ele é formado em Yale e em Harvard, foi veterano da Marinha, esteve na guerra do Iraque. Em 2012 foi eleito para a Câmara dos Representantes e em 2018 foi eleito pela primeira vez governador do estado da Flórida. Ele venceu essa eleição com a ajuda de Donald Trump e venceu facilmente a sua reeleição em 2022, com quase 60%, um facto que não é muito normal no estado da Flórida, nas eleições que costumam ser bastante equilibradas, acrescido do facto de que ele foi candidato contra Charlie Crist, agora democrata, mas que tinha sido governador republicano entre 2006 e 2010. Portanto, ele depois dessas eleições foi elevado a estrela nacional do Partido Republicano.

For Disney to come out and put a statement and say that the bill should have never passed and that they are going to actively work to repeal it, I think one was fundamentally dishonest, but two, I think that crossed the line.

É um homem que se tem posicionado como um político conservador, mesmo até populista, e que se tem envolvido também em algumas polémicas.

Sim, talvez a mais conhecida de todas foi a da Disney.

Exato, e uma das mais recentes, não é?

Exatamente. Ele em 2022 assinou uma lei estadual que previa, entre várias coisas, foi uma lei que ficou conhecida pelo nome "Don't Say Gay", que proibia a discussão nas escolas públicas da Flórida, penso que nos jardins de infância e do primeiro ciclo, sobre questões como a homossexualidade ou questões relacionadas com o género. E essa lei foi bastante polêmica na altura. A Disney, cuja sede é no estado e é uma das mais importantes companhias do estado, insurgiu-se contra a lei. Ron DeSantis não gostou e desde então tem trocado argumentos. Ron DeSantis chegou já a ameaçar a empresa com algumas iniciativas por parte do Estado e, portanto, é uma questão que tem estado bastante em voga, este feudo entre Disney e Ron DeSantis.

Mas foi ainda durante o tempo da pandemia que penso que ele começou a ganhar maior visibilidade pública, precisamente por ser contra as restrições que estavam a ser impostas na altura.

Sim, precisamente. Apesar de numa fase inicial Ron DeSantis ter alinhado com a prática comum dos governos, ou seja, ele vacinou-se, ele tomou algumas precauções, mas com o andamento da pandemia, ele juntou-se a muitos no Partido Republicano e começou a questionar inclusive as vacinas, mas sobretudo os lockdowns, e foi uma das vozes mais defensoras de que os estados, e neste caso o estado da Flórida, não implementassem restrições de movimento às pessoas durante a pandemia. E isso o levou também um pouquinho ali entre a herói de uma fação do Partido Republicano, que era contra as restrições do Estado federal.

The problem with Ron DeSanctimonious is that he needs a personality transplant, and those are not yet available. When it comes to lack of personality, Ron would be in a class with Asa Hutchinson, and that's not good. Ron's foreign trip was a total bomb. They didn't even know what he was doing there. What are you doing here, Ron? Why are you here?

Nuno, Trump ataca agora, naturalmente, DeSantis, que se posiciona como seu adversário na corrida à nomeação do Partido Republicano para a Casa Branca. Mas a verdade é que houve um tempo, como já referi há pouco, e não muito distante, em que Donald Trump apoiou DeSantis e foi mesmo decisivo, importante para a sua carreira política.

Eu penso que isso é verdade. Nas primárias para escolha do candidato republicano para o estado da Flórida em 2018, Ron DeSantis estava atrás do então comissário da Agricultura do estado da Flórida, Adam Putnam. Ele iria à frente nas sondagens e foi depois do apoio do então presidente Donald Trump à candidatura de Ron DeSantis, que ele passou a liderar as sondagens e depois venceu a nomeação republicana. Vem daí o fato de Donald Trump ter, ainda por estes dias, relembrado que se não fosse o apoio que ele deu a Ron DeSantis, ele hoje não seria governador.

"Everyone knows my husband, Ron DeSantis, is endorsed by President Trump, but he's also an amazing dad. Ron loves playing with the kids."

Build the wall.

He reads stories.

"Then Mr. Trump said: 'You're fired.' I love that part."

Mas ao inverso, DeSantis tem escolhido não atacar demasiado Donald Trump, pelo menos até agora. Enfim, terá de mudar de estratégia, não?

Eu penso que Ron DeSantis, até anunciar a sua candidatura, tem mantido essa estratégia de não atacar, não responder à letra Donald Trump, por todos os ataques que tem sofrido, mas eu penso que isso vai ter que invariavelmente mudar, porque é impossível um candidato passar, e repare-se estamos em maio, a campanha vai durar certamente longos meses, e será impossível Ron DeSantis não responder da mesma forma a Donald Trump. Por outro lado, vão acontecer debates, eles vão se enfrentar no mesmo palco e será impensável alguém ouvir o nível de ataques que Donald Trump tem proferido e não responder na mesma linha, diria eu.

O Nuno falava aí, de fato, que campanha dura meses e isso é algo que para a realidade portuguesa pode parecer sempre estranho, mas nos Estados Unidos há eleições que vão acontecer em novembro de 2024, mas a corrida em si começa sempre muito tempo antes, nomeadamente com o que se chama as eleições primárias nos partidos. Recorde-nos só um pouco como funciona esse processo e por que é preciso, de fato, este posicionamento tão cedo por parte dos candidatos.

Repare-se, as eleições nos diferentes estados apenas irão começar no início do ano e os candidatos já sentem a necessidade de anunciar a sua campanha, porque de fato, isto é um processo muito longo. Os partidos, desde a década de 70 do século passado, que têm estas eleições primárias, ou seja, cada estado, em ambos os partidos, vota pelo seu candidato preferido para a nomeação presidencial. É um processo, de fato, bastante complexo, porque só para dar dois pequenos exemplos, em alguns estados podem votar todos os eleitores, outros estados só podem votar os eleitores desse partido, os eleitores que estão registrados ou no Partido Republicano ou no Partido Democrata. Há alguns sistemas de votações muito estranhos para nós europeus, como no Iowa, que é os caucus do Iowa, que são pequenas assembleias onde os cidadãos se juntam primeiro para discutir quem vão apoiar e depois é que finalmente decidem o seu candidato. Portanto, é uma mescla enorme. São 50 eleições para escolher o nomeado e os candidatos sentem a necessidade de estar na estrada muito antes. Primeiro, porque precisam de angariar dinheiro, porque isto é uma campanha muito cara e cada vez tem vindo a ser mais cara. E é preciso estar na estrada muitas semanas para angariar dinheiro, não só dos grandes doadores, mas também dos cidadãos e dos pequenos doadores individuais, que normalmente são relevantes. É preciso, sobretudo para candidatos menos conhecidos ou que pretendem a nomeação, mas não têm a notoriedade devida e precisam de passar meses nos primeiros estados a ir a votos, que são Iowa, New Hampshire e, em certa moda, Carolina do Sul. Nós nos últimos meses, desde que Nikki Haley anunciou a sua candidatura, ela não tem estado muito presente nos mídia, mas eu estou certo que ela deve estar quase a viver entre o Iowa e New Hampshire a fazer campanha. Isto é muito regular. Ron DeSantis já foi várias vezes a estes estados e, portanto, é uma campanha muito longa e os candidatos precisam de tempo para construir a sua campanha.

What made you wanna kinda take the chance of doing it this way, as opposed to just doing it on cable news or the usual way?

Well, when Covid hit, I had to make decisions about do you go with the crowd or do you look at the data yourself and cut against the grain?

Nuno, falando então de estratégias, anunciar uma candidatura através do Twitter é uma originalidade, não é? E quebra aqui um pouco o que têm sido as convenções destes anúncios. Por que acha que Ron DeSantis decidiu anunciar desta forma a sua candidatura?

Não estando, obviamente, na cabeça dele ou dos seus estrategas, eu presumo que o Twitter foi sempre a plataforma de Donald Trump.

Até ser banido.

Até ser banido, depois deixar de ser presidente, mas foi sempre a plataforma primordial dele, onde ele sempre fez política e onde teve bastante sucesso. Portanto, penso que é DeSantis a querer dizer que também pode jogar no terreno de Donald Trump. E, por outro lado, eu penso que para Ron DeSantis é interessante anunciar a candidatura ao lado de Elon Musk, que nestes últimos anos tem sido uma espécie de herói digital para algum segmento do eleitorado republicano. E, portanto, eu penso que ele viu algum interesse nisso também.

Trump eu acho que foi banido, foi readmitido por Musk, apesar de não ter querido regressar. Mas é também uma plataforma forte entre os eleitores conservadores, entre muitos dos eleitores que DeSantis precisa roubar a Trump.

Precisamente. Ron DeSantis tem uma via para vencer esta primária, que é ser a alternativa de Trump, mas dentro do mesmo posicionamento político. E esta plataforma poderá ser um excelente meio para chegar a esses eleitores que ele vai precisar.

Já voltamos à conversa com Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Vamos precisamente perceber se Ron DeSantis pode mesmo ser uma ameaça às aspirações de Donald Trump de voltar a concorrer à Casa Branca. Estamos de regresso à conversa com Nuno Gouveia. Nuno, neste momento, quais as reais hipóteses de DeSantis contra Trump? O que é que nos dizem as sondagens, pelo menos por agora?

Se nós olharmos para as sondagens atuais, verificávamos que DeSantis teria poucas hipóteses, porque Donald Trump está com uma vantagem considerável, sobretudo nas sondagens nacionais. Mas se formos analisar o historial deste tipo de eleições primárias, verificamos que as sondagens nesta fase da corrida significam muito pouco.

A corrida é longa, não é?

A corrida é longa e tudo muda. E eu destacava que na dinâmica deste tipo de eleições, os primeiros estados a ir a voto são sempre fundamentais, porque muitas vezes alteram por completo a dinâmica até das sondagens nacionais.

Daí o investimento também nos candidatos nesses estados iniciais, não é? E DeSantis também parece estar apostado nisso.

Sem dúvida. Se um destes candidatos, Ron DeSantis ou outro, vencer, por exemplo, o caucus do Iowa, que será a primeira eleição a ter lugar, isso irá dar-lhe o que os americanos chamam momentum para o resto da campanha, que depois torna-se imprevisível. Nós já tivemos eleições e, por exemplo, basta recuar a 2016, que nós por esta altura, se alguém dissesse que Donald Trump iria ser o vencedor, apesar de ele ter notoriedade grande nessa altura, ninguém iria acreditar, porque de facto era uma campanha muito improvável. E, na verdade, ele obteve a nomeação e até com relativa facilidade. O que pode acontecer nesta campanha é que, em primeiro lugar, Ron DeSantis, de facto, o principal adversário de Donald Trump, mas algum dos outros pode chegar a um destes dois estados, obter um resultado interessante ou vencê-los, e isso irá catapultá-los para uma possibilidade de obterem a nomeação.

Mas neste momento, e apesar de ter perdido as últimas eleições, embora a esmagadora maioria talvez dos apoiantes de Trump acredite que ele não perdeu, continua a acreditar nessa narrativa, neste momento Trump tem ainda uma influência e um poder muito grande dentro do partido.

Isso é inegável. Quando nas últimas eleições intercalares, em 2022, os candidatos apoiados por ele de facto tiveram maus resultados e os republicanos perderam algumas eleições que eu diria facilmente teriam ganho se tivessem tido um republicano mais convencional. Na altura, o consenso entre alguns analistas americanos é que Donald Trump teria dificuldades em obter essa nomeação. Depois veio o caso da acusação judicial e Trump voltou a ganhar este momentum e permanece com grande apoio dentro do eleitorado do Partido Republicano e dentro daquele eleitorado que participa neste tipo de eleições. Por outro lado, ele continua com um apoio importante entre muitos eleitos do Partido Republicano, nomeadamente da Câmara dos Representantes. Eu diria que já não é aquele apoio esmagador que tinha em 2020, mas ainda é um apoio considerável e que irá certamente mobilizar-se para o apoiar.

Interessante também que esta semana a Justiça norte-americana anunciou o início do julgamento de Donald Trump no caso dos pagamentos a Stormy Daniels para março de 2024, ou seja, o julgamento vai decorrer já em plena campanha para as primárias. Ora, isto de alguma forma pode afetar Donald Trump ou, pelo contrário, pode até contribuir para lhe dar ainda mais força junto do seu eleitorado ou potencial eleitorado, levando Trump mais uma vez a queixar-se de perseguição política?

Isso foi precisamente o que aconteceu no anúncio da acusação. A sua vitimização em relação à acusação, que era uma perseguição do Partido Democrata, isso funcionou na altura e o bump que ele recebeu nas sondagens foi consequência disso. A minha questão é que em março as primárias já estarão a decorrer em toda a força e poderá ser ali um fator de distúrbio para a sua campanha. Por outro lado, o que me parece mais preocupante para Trump não é este processo, falando em termos judiciais, mas serão os outros dois processos que estão em investigação e poderão ter novidades até à altura. Um deles, o processo em que ele está acusado de ter interferido nas eleições do estado da Geórgia, o outro que é referente a ele ter ficado com documentos secretos e não ter cumprido a lei nessa matéria.

Já referimos aqui que, de facto, há outros candidatos dentro do partido, para além de Donald Trump ou Ron DeSantis. Estes parecem à partida, e vamos ver o que é que pode mudar ou não, serem os dois que vão na frente. Qual deles poderia ter mais hipóteses de vencer Joe Biden? Ou ainda é muito cedo para de facto avaliar isso?

Sim, eu penso que é cedo, até porque se olharmos para as sondagens, e eu estive a ver algumas sondagens, e neste momento Donald Trump parece melhor colocado que Ron DeSantis para enfrentar Joe Biden. Mas eu diria que dada a bagagem de Donald Trump, dado até o recente historial eleitoral dele e a taxa de rejeição enorme que ele terá na sociedade americana, que talvez fosse mais fácil para Joe Biden ser reeleito contra Donald Trump do que propriamente contra Ron DeSantis. Mas uma campanha eleitoral é muito longa e por vezes os candidatos revelam-se durante essa campanha. Portanto, é difícil dizer se Ron DeSantis seria melhor ou pior que Trump, porque ele até pode, e já aconteceu no passado, candidatos que à primeira vista são candidatos formidáveis e que depois se revelam Revelam muito mal as campanhas e é difícil fazer uma previsão desse género.

Mas há muitas diferenças entre os dois enquanto candidatos. Podemos dizer que DeSantis é uma espécie de Trump mais novo, Trump 2.0, ou é um candidato completamente diferente?

O que nós conhecemos até ao momento das posições de Ron DeSantis, eu alinhava por essa teoria. É um candidato muito dentro da linha de Trump, sem a sua bagagem política, sem os seus escândalos e com alguma experiência governativa. Eu não sei se a palavra correta será seriedade governativa, mas enquanto, por exemplo, vemos imensos ex-colaboradores de Trump, de várias linhas políticas, a afirmar que Trump não tem habilidade para governar ou não tem condições para governar, não vemos isso de Ron DeSantis. Portanto, penso que Ron DeSantis terá melhor capacidade governativa que Trump. Agora, relativamente às suas posições políticas, de facto não se veem grandes diferenças. Até Trump tem criticado Ron DeSantis porque ele tem assumido posições demasiado extremistas ou demasiado afastadas do centro político nos Estados Unidos, como na questão do aborto, onde Ron DeSantis aprovou uma lei para limitar o aborto depois das seis semanas. Neste feudo que ele tem com a Disney, onde Donald Trump o criticou porque não devias ter uma guerra política contra uma grande empresa como a Disney, que é muito importante no seu estado. Portanto, em termos políticos não se veem grandes diferenças. O que eu presumo que vá acontecer é que Ron DeSantis, de alguma forma, terá que se distinguir de Trump nestas primárias.

Obrigado, Nuno Gouveia.

Foi um prazer estar aqui.

Nuno Gouveia é especialista em política norte-americana. Esta foi a História do Dia. Neste episódio ouvimos sons das televisões ABC e CBS. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Este episódio contou ainda com o apoio do jornalista Manuel Rocha Leite. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.