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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quem tentou atacar a Marcha pela Vida?
Esta é a geração pró-vida. Esta é-
Há 14 anos que estes manifestantes percorrem anualmente as ruas de várias cidades do país.
Toda a vida pede amores, toda a vida tem dignidade. Somos pró-vida.
São ativamente contra o aborto, contra a eutanásia, identificam-se como pró-vida. Na manifestação, há grupos ligados à Igreja Católica, há representantes de partidos como o CDS ou o Chega e há cidadãos que, não pertencendo a uns ou outros, saem à rua todos os anos para manifestar as suas convicções. E esta história não teria nada de especial numa democracia como a nossa, não fosse o fato de, no fim da manifestação, ter havido uma tentativa de ataque que acabou por não se concretizar.
Aquele indivíduo que está ali no chão atirou uma garrafa de Molotov que, por sorte, não acendeu para cima de mulheres e crianças. Isto é completamente anormal, isto não é admissível num Estado democrático.
Quem tentou lançar um coquetel Molotov contra manifestantes? A que organização pertence? Que motivações teria para fazer uma coisa destas? E como é que devemos interpretar este episódio? Eu vou fazer estas perguntas ao jornalista Miguel Pinheiro Correia, que cobre notícias de crime no Observador. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 24 de março. Miguel, leva-nos àquele sábado à tarde em Lisboa. O que estava a acontecer?
Este sábado aconteceu, como já vem acontecido nos últimos anos, a Caminhada pela Vida, que foi uma ideia ou um projeto que nasceu ainda em 1998, na altura à boleia do primeiro referente sobre o aborto, e também na altura realizaram-se algumas manifestações. Depois, em 2012, a Federação Portuguesa pela Vida decidiu começar a organizar esta manifestação todos os anos. E tem sido cumprido, acontece todos os anos, não só em Lisboa, onde aconteceu esta quase tragédia ou este acontecimento que podia ter contornos piores. Acontece não só em Lisboa, mas em todo o país. Este ano foram em 12 cidades.
E junta muita gente.
Tudo ao mesmo tempo. Mobiliza muitas pessoas. A organização este ano falou em milhares de pessoas. A PSP, referindo-se exclusivamente ao momento em que aconteceu este ataque ou a tentativa de ataque, estavam 500 pessoas, por isso seguramente estariam mais durante o período todo, porque a manifestação começou às 15h na Praça Camões e depois os manifestantes seguiram em direção à Assembleia da República, onde aconteceu este momento.
Antes de irmos a esse momento específico, isto é um movimento, uma manifestação pró-vida, estamos a falar de questões de pessoas que são contra o aborto, presumo também contra a eutanásia. Isto junta o quê? A Igreja, partidos.
Esta Caminhada pela Vida, e no site da Caminhada pela Vida mencionam que não são exclusivamente católicos, mas que naturalmente, atendendo ao que defendem, que reúnem muitas pessoas de setores católicos. Inclusive, na semana passada, o próprio Papa enviou uma mensagem de ânimo e de coragem às pessoas que iam participar nesta caminhada este ano, daí ter esta movimentação católica muito presente, naturalmente.
E entretanto, este grupo de manifestantes chega à Assembleia da República e quando a manifestação está mais ou menos a acabar, o que acontece?
De acordo com o relato da PSP daquilo que aconteceu, estava um pequeno grupo junto à manifestação, que estariam as tais cerca de 500 pessoas na altura final da manifestação, acho que eram 17h20, uma manifestação que já tinha começado mais de duas horas antes. E este homem, que estava integrado nesse pequeno grupo, um homem de 39 anos, aproximou-se da zona onde estavam os manifestantes, isto tudo à frente da escadaria que dá acesso à Assembleia da República, e atirou um coquetel Molotov, ou aquilo que a PSP descreve como sendo parecido com um coquetel Molotov, um coquetel Molotov improvisado com gasolina contra as pessoas que estavam lá. Depois há muitos relatos de que algumas pessoas foram regadas com gasolina.
Nós estávamos a dois metros dele, tanto, e eu tinha um bebê de três meses ao colo, que ficou cheio de gotas de gasolina por cima. O que vale é que ela se virou de costas, por isso a gasolina furou nas costas nossas, não acertou no bebê, mas nós ficamos as duas encharcadas.
A PSP não confirma essa parte, diz apenas isto, que houve um coquetel Molotov que foi atirado contra as pessoas. Por algum motivo, este engenho, quando foi atirado para o chão, ao contrário do que costuma acontecer com um coquetel Molotov, não pegou fogo, o que obviamente evitou o que seria uma desgraça muito maior. De qualquer das formas, não tendo havido feridos, o pânico, o susto entre as pessoas, pelo menos, estava instalado, porque estava ali alguém a causar distúrbios.
E o que aconteceu a esse homem?
Nesse momento, isto de acordo com o relato de algumas pessoas que estavam no local, ele foi antes de haver a abordagem da polícia, que estava a acompanhar a manifestação, naturalmente. Este suspeito foi interceptado primeiro por populares, ou pelo menos por um popular que estava na manifestação, e depois sim, apareceu a polícia e conseguiu deter este homem. Que lá está, não estaria sozinho e no momento em que ele é detido, um homem de 39 anos, o resto do grupo foge e depois o suspeito é detido e os outros, pelo menos três deles foram identificados pela polícia. Perto deste homem antes dos desacatos. Não se sabe ao certo o motivo pelo qual foram identificados, mas relacionado com este ataque.
E já se sabe o que é que vai acontecer agora a partir daqui?
Este suspeito foi apresentado a juiz na segunda-feira e depois de ter sido apresentado à autoridade, foi determinada a medida de coação de apresentações diárias, ou seja, fica em liberdade, mas tem que se apresentar diariamente às autoridades e proibido de frequentar o local da prática dos factos, neste caso, o Parlamento ou a escadaria da Assembleia da República.
Nós já sabemos quem é que é este homem, o que é que o motivou, por que ele fez isto?
A PSP, no comunicado, fala logo num grupo connotado com o anarquismo, com movimentos anarquistas. E de fato, até pelas imagens que chegaram à redação do que aconteceu, vê-se um grupo de pessoas sem grandes identificações, o que é costume também nestes movimentos, que ao contrário, se pensarmos de outros movimentos extremistas que se identificam e levam bandeiras, são mais discretos e neste caso estavam infiltrados. Infiltrados, não estavam a tentar passar despercebidos, porque as pessoas que estavam ali sabiam que aquelas pessoas não pertenciam à manifestação.
Estavam próximos, pelo menos, ali do grupo.
Sim, exatamente. Há relatos de que estariam lá com uma caixa muito grande, não se sabe ao certo o que estaria nessa caixa, que se vê também nas imagens, mas eles estariam ali perto da Assembleia no momento em que tudo aconteceu.
E o que nós sabemos sobre este movimento, sendo que tu falaste aí do movimento Antifa, que é um conceito que percorre vários países, por exemplo, nos Estados Unidos, tem sido usado também muito como arma de posicionamento político, quase. O que nós sabemos sobre este tipo de grupos, por onde é que eles andam, o que os move, o que eles fazem e, já agora, se são mesmo um perigo para a nossa sociedade, se podem ser considerados terroristas como o Chega já está a propor.
Ao longo do dia de hoje, ao longo da segunda-feira, eu estive a tentar falar com algumas pessoas especialistas no assunto, para tentar perceber, com a Polícia Judiciária e com a PSP, que acompanham de perto estes fenómenos, o que é que está em causa, o que é que é afinal um movimento anarquista. E olhando para os documentos oficiais que são públicos, por exemplo, da Europol, eles agrupam os movimentos anarquistas com os movimentos antifascistas, com movimentos de extrema-esquerda. Sendo que, no que diz respeito a estes movimentos anarquistas, a grande definição acaba por ser, passando aqui um pleonasmo, a indefinição dos próprios movimentos, porque muitas vezes não se sabe o que é que defendem ou sabe-se que eles são contra alguma coisa, mas não se sabe ao certo o que eles defendem, o que propõem, porque muitas das vezes não propõem nada. Eles defendem esse caos, essa tal anarquia, que depois também se transporta para os próprios grupos, que não têm líderes definidos como tivemos noutros grupos, por exemplo, de extrema-direita, em que há líderes claramente definidos e há uma hierarquia muito respeitada, até porque há uma organização mais paramilitar e com essa inspiração nessas figuras da autoridade. E os anarquistas ou os movimentos anarquistas não têm tanto essa... Não é que não o consigam, mas não querem simplesmente, porque não é essa a filosofia deles e por isso vivem mais neste caos e nesta indefinição do que são os movimentos anarquistas.
Eu imagino que por isso também seja mais difícil depois conseguir desmantelar alguma rede, algum grupo, alguma coisa, por causa dessa desorganização orgânica.
Sim, como estávamos a falar há pouco, os movimentos, e recentemente a Polícia Judiciária teve várias operações em que conseguiu desmantelar grupos de extrema-direita. E eram grupos que não só tinham nome, até tinham merchandising, tinham autocolantes, camisolas, tinham perfeitamente identificados. E há bandeiras, por exemplo, se falarmos dos antifascistas ou dos anarquistas, há símbolos que associamos, no caso dos anarquistas, o A com o círculo à volta, e mesmo dos antifascistas também, mas de resto não há assim essa identidade tão vincada como há noutros grupos, o que lá está dificulta. Estão identificados, a Polícia Judiciária acompanha este fenómeno, mas claro, é mais complicado segui-los, até porque os outros grupos que falávamos há pouco partilham grande parte da atividade nas redes sociais, são muito ativos nas redes sociais, e se calhar estes tentam passar um bocado mais discretos. Não que não usem as redes sociais, porque tanto dos relatórios da Europol como da Interpol, as redes sociais são, em todos os movimentos radicais, importantes para angariar pessoas, sobretudo jovens, e por isso eles estão na mesma presentes nas redes sociais, mas se calhar não da forma que estão outros grupos.
E há um nível de ameaça já que se pode atribuir a estes grupos ou para já ainda é uma coisa muito etérea, ainda tão pouco materializável que não se pode definir o nível de ameaça?
Acho que pode ser considerada ou é considerada uma ameaça noutros países, tanto que em alguns deles são consideradas organizações terroristas. E lá está, como falávamos, a questão tanto da Europol como da Interpol acompanharem estes movimentos significa que são uma preocupação e, além disso, se calhar no caso português, e especificando aqui no caso português que nos interessa mais, o RASI, no ano passado quando saiu o documento, o Relatório Nacional de Segurança Interna, que congrega as avaliações feitas por diferentes forças de segurança sobre A atividade policial em Portugal. O ano passado falou-se muito na questão de um capítulo que estava no RASI, na versão que não foi tornada pública e depois quando foi tornada pública não estava esse capítulo, que falava sobre os fenômenos extremistas e nesse capítulo mencionava-se também os movimentos anarquistas e os movimentos de extrema-esquerda e notavam como, à semelhança do relatório da Europol, sendo que o relatório da Europol mais recente foi publicado em agosto de 2025 e é referente a 2024, mas que falava precisamente sobre essa preocupação na questão da Europol. Em 2024 tinham sido perpetrados por movimentos de esquerda ou de extrema-esquerda, movimentos anarquistas, 21 ataques, foram 28 detenções. Portanto, é um perigo real.
Existe e já estava a ser monitorizado.
Sim, exatamente. E lá está, tanto na Europol como em Portugal, atendendo a esses dados do RASI, ou essas avaliações que estão no RASI que depois não chegaram a ser tornadas públicas.
Miguel, obrigado.
Obrigado.
Como explicava agora o jornalista Miguel Pinheiro Correia, os números oficiais dizem que a ameaça real destes grupos anarquistas em toda a Europa existe, embora ainda em números pouco significativos. E mesmo em Portugal começam a ser levados a sério. Felizmente, no caso da Marcha pela Vida, a garrafa com gasolina que foi atirada à multidão nunca chegou a pegar fogo ou hoje estaríamos a contar uma história completamente diferente. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.