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Esta é a história do dia da Rádio Observador: um massacre ou uma guerra justificada? O que aconteceu mesmo nas favelas do Rio de Janeiro?

Os tiroteios foram intensos no Complexo da Penha, na Zona Norte. Cena típica de uma guerra. Os corpos foram encontrados por moradores e familiares numa área de mata, entre os complexos do Alemão e da Penha.

Um fracasso, uma tragédia, um horror inominável. É desta forma que a Ministra dos Direitos Humanos do Brasil classifica o que aconteceu esta semana nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. Uma megaoperação policial contra o grupo criminoso Comando Vermelho acabou por resultar na morte de 121 pessoas, entre elas quatro polícias. É já a operação mais mortífera da história do Estado brasileiro. A ministra prometeu aos familiares a abertura de um inquérito independente, e o caso vem pôr a descoberto a tensão entre o governo federal e o estadual. O governador do estado do Rio diz estar a travar sozinho, e sem apoio de Brasília, uma guerra contra os grupos criminosos. O que realmente aconteceu nas favelas do Rio? A resposta da polícia foi proporcional ou houve excesso de violência e tratamento desumano? Vou falar com Andreza Matais, jornalista brasileira do portal Metrópoles. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de sexta-feira, 31 de outubro. Bem-vinda, Andreza.

Oi, João. Obrigada pelo convite.

Vamos só começar por contextualizar esta megaoperação. Que operação policial foi esta? Onde aconteceu e quais eram os objetivos?

Foi uma operação policial que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, que tem um amplo domínio de facções criminosas, principalmente do Comando Vermelho, a maior facção criminosa que atua lá no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a gente tem o PCC, que é o Primeiro Comando da Capital, e cada um no seu terreno. Então no Rio de Janeiro é o Comando Vermelho.

E é maior no Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro é maior. Hoje é uma das maiores do país. Ela já atua em 25 estados aqui no Brasil. Ela só não é maior do que o PCC, mas viraram um pouco como empresas, que funcionam em várias áreas de negócios, não apenas mais no tráfico de drogas. Elas estão também envolvidas em contratos com governos estaduais e municipais na questão do lixo, hospitalar, enfim, elas estão intrincadas dentro do Estado brasileiro. Muita gente já fala que a gente vive um narcoestado. E uma das novidades que a gente viu recentemente foi a ligação delas dentro de fintechs. Está dentro do sistema financeiro, não é regulamentado pelo nosso Banco Central, mas elas estão usando essas fintechs também pra lavagem de dinheiro aqui no Brasil. Então essa operação no Rio de Janeiro focou em duas regiões ali do Rio, que são os complexos do Alemão e da Penha. São regiões de favela que ficam em morros no Rio de Janeiro, então são regiões em que o Estado já não tem mais possibilidade de acessar esses locais. São regiões totalmente dominadas pelo tráfico. Então pra entrar nesses locais, ou você pede autorização das facções ou você vai certamente ser atingido pelas facções. Inclusive, o próprio governo federal, o presidente Lula, se quiser ir em um desses locais, eles pedem autorização, o que na minha avaliação, já é um retrato de que o Brasil está vivendo com muitas áreas do seu território, onde quem controla é a facção e não mais o Estado brasileiro.

Mas é que, de facto, o que impressiona nesta operação contenção, são os números, é a dimensão da operação e também das consequências da operação.

Exato. É uma região bastante grande, os complexos do Alemão e da Penha. Então o que a gente viu neste momento são 121 mortos, dos quais quatro são policiais. O que o governo do Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro, diz, é que os policiais foram recebidos com armamentos pesados. Parece que essa operação vazou. Não sei se esse termo vocês compreendem aí.

Exato, souberam com alguma antecedência, os alvos.

Exatamente, com antecedência, tanto que o alvo principal, que era o chefão do Comando Vermelho, não foi capturado e eles se prepararam pra receber a polícia. Então eles estavam usando roupas camufladas, eles tinham armamentos muito pesados. Então quando a polícia chegou, ela não surpreendeu os bandidos. Ela foi surpreendida por, inclusive, armamentos muito modernos.

Fala-se de drones, exato.

Isso foi algo que não estava ali. Claro, há uma operação de inteligência quando você vai fazer uma operação como essa, mas o fato dessas informações já terem sido antecipadas para os criminosos, porque há uma infiltração também dentro do poder do Estado, dessas pessoas envolvidas em facções criminosas. Isso fez com que a polícia, eu não estou justificando Órgãos oficiais dizem ao governo que reagisse de uma forma mais violenta e isso acabou ceifando 121 vidas, das quais quatro policiais e dos nossos, o que o governo do Rio de Janeiro diz é que eram todos das facções criminosas, eram todos bandidos.

E muitos desses corpos foram depois encontrados na mata. O que explica isso, o que aconteceu? Houve também uma estratégia por parte da Polícia Militar para depois cercar os alvos?

É a rota de fuga mesmo. Ali pela região, que é uma região de montanha, então esses corpos na mata é realmente por onde os bandidos fogem. Então por isso que foram encontrados ali. Inclusive, as imagens mostram, por exemplo, todos sem roupa, os mortos ali empilhados. Isso é porque eles estavam usando roupas camufladas para fazer o ataque aos policiais e quando eles se sentiam de alguma forma encurralados, eles tiravam essas roupas para não serem identificados como bandidos.

Os familiares que terão tirado quando recolheram, porque foram os familiares que recolheram depois os corpos, quando percebem.

Tem duas coisas. Algumas os familiares, mas muitas os próprios bandidos retiravam as roupas para tentar que não virassem alvos da polícia. Porque a polícia já estava identificando que eles estavam fardados, os bandidos. Então quem estava fardado era um alvo da polícia. Eram roupas quase como as do exército. Então para que não fossem alvejados, eles tiravam as roupas para tentar se disfarçar de moradores da comunidade. Então tem um pouco de tudo ali, o que explicaria o fato de eles estarem sem roupa. E a questão da mata é realmente a rota de fuga. Já não é a primeira vez que tem operações de bastante confronto entre a polícia e o Comando Vermelho lá no Rio de Janeiro, e a rota de fuga sempre é por esse caminho aí da mata.

Para contextualizar também melhor daquilo que estávamos a falar, de facto, uma das imagens, das fotos mais marcantes desta operação, é a foto desses corpos seminuos alinhados numa praça, penso que do Complexo da Penha. Neste momento, e esta é uma operação também que está a causar muita polêmica no Brasil e não só, há aqui ou não indícios de uma atuação policial excessiva neste caso, ou não é ainda possível falar disso? É necessário ainda apurar o que realmente aconteceu?

João, os governos mais de centro e direita, e essa questão foi muito politizada no Brasil, eles têm uma polícia mais agressiva, uma polícia que entra para matar. E aí virou um debate grande no Brasil. A gente tem um governo do presidente Lula, que é um governo de esquerda, que tem uma política mais de defesa dos direitos humanos, de uma polícia que não tem esse comando. Uma polícia que vai mais pela questão do diálogo. Ocorre que, neste caso, o que o governador do Rio diz, o Cláudio Castro, é que não houve uma ordem "entre para matar", mas os dados contradizem esse comentário do governador. Tudo indica que a polícia já chegou. Ela foi atacada e ela reagiu, mas reagiu de uma forma que, segundo os relatos ali dos moradores, ela via bandido e ela matava. Não partia para a prisão dessas pessoas. Eu coloquei essa questão da política, da direita, mas a gente também vê governos do PT, que é o partido do presidente da República, como por exemplo, na Bahia, que também têm uma polícia bastante violenta, de entrar justamente para executar os bandidos, quando pelas regras do Brasil, você tem que prender os bandidos, e que eles respondam pelos atos que cometeram. O que os governos dizem é que não dá para você entrar e distribuir flores para os bandidos, você está ali combatendo uma guerra. Então tem explicações para tudo neste momento. O que acontece é que a política brasileira, o governador do Rio diz que pediu ajuda ao governo federal, o governo federal se recusou a ajudar. Ontem, o diretor da Polícia Federal deu uma entrevista em que ele confirma, desmentindo, inclusive, o próprio ministro da Justiça, ele confirma que houve um pedido de ajuda para que se encaminhassem blindados pro Rio de Janeiro para essa operação e o governo federal negou esse pedido. O governo do Rio de Janeiro é um governo que faz oposição ao governo Lula, e o que o governo Lula diz é que ele deveria ter pedido o que a gente chama no Brasil de GLO, que é a garantia da lei da ordem, em que o governo estadual é afastado de toda essa questão da segurança pública e quem comanda isso é o exército. Não houve esse pedido da parte do governador, porque ele disse que o presidente Lula já comentou várias vezes que é contra o instituto da GLO. Então já que é contra, ele disse que nem pediu. Então nesse momento há um debate político muito grande no país, das duas frentes, entre governadores que acham que a polícia tem que ser mais incisiva e o governo federal, que acha que o que houve no Brasil foi uma chacina.

E o presidente Lula já falou de viva voz sobre este caso, não?

O presidente Lula ainda não falou. Ele reuniu o governo ontem de emergência, ele estava viajando quando o episódio ocorreu. O nosso Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, no momento dos fatos, em que já tinha se notícia de 64 mortos, ele estava num evento festivo em Fortaleza, que também é uma cidade, é um estado, o Ceará, totalmente dominado por outras facções criminosas. Ele estava numa festa e não cancelou a participação nessa festa, o que chamou muito a atenção aqui no Brasil. Então somente ontem, um dia depois do evento, que foi na terça-feira, o governo se reuniu para ver como é que faria essa situação, porque o governo do Rio de Janeiro está acusando o governo federal de não ter colaborado no enfrentamento ao crime, de não ter a segurança pública como prioridade. De fato, o governo Lula não colocou a segurança pública como prioridade. Agora que estão correndo, João, para aprovar leis, para tentar fazer alguma coisa, para responder a essa questão, que vai ser um tema da campanha, a gente tem campanha no Brasil no ano que vem, a segurança pública certamente vai ser um tema. Então o presidente Lula não falou publicamente, mas o que tem dito, e o que tem saído dessas reuniões, é que o governo vai tratar isso como uma carne de piscina, como algo que o governo do Rio entrou ali para matar o que fere todas as leis dos direitos humanos aqui no Brasil.

Sim, de resto, há também já muitas posições e muitas críticas de organizações de direitos humanos e até mesmo a nível internacional da própria ONU.

Sim, a gente tem também que ver que muitas organizações não governamentais aqui no Brasil, que estão fazendo essas críticas, são organizações controladas por familiares dos faccionados, tanto do Comando Vermelho quanto do PCC. Então eles comandam essas ONGs que têm feito essas críticas e que têm divulgado essas informações de que houve ali uma violência policial. Eu acho que tem dois lados a serem analisados nessa questão. As imagens são muito fortes. Claro, o trabalho da polícia não é entrar para matar, deveria ser entrar para prender as pessoas, mas a gente tem que compreender também que se está lidando com uma facção criminosa de um tamanho gigantesco, que está controlando áreas e áreas dentro do Brasil, inclusive com exportação. Eu não sei como é que está aí em Portugal, se já tem o Comando Vermelho e o PCC, mas a gente tem notícias aqui no Brasil de que organizações criminosas que foram criadas no Brasil estão se expandindo para outros países e o que os governos dizem é o seguinte: é uma guerra e você precisa enfrentar os bandidos com as mesmas armas que eles têm. Eles também estão ali para matar os policiais, não estão ali para outra coisa.

Esta operação deixou, obviamente, partes importantes da cidade do Rio em estado de sítio. Qual é, do que sabe, a situação neste momento no Rio de Janeiro?

Pois é, claro que quando tem esse confronto, o que as autoridades pedem é para que as pessoas não saiam de casa, para que não sejam vítimas dessa troca de tiros de um lado para o outro. Inclusive se diz muito isso, que nessas comunidades, nas favelas do Rio de Janeiro, só estar na rua, geralmente, claro, quando o episódio acontece, a polícia chegou lá às 05h, muita gente estava saindo para trabalhar, estava chegando do trabalho, então você tem pessoas inocentes ali. Mas as pessoas já sabem que quando está tendo esse confronto, elas têm que ficar dentro da casa delas. Então se você não está numa situação que você foi surpreendido ali, quem está na rua geralmente são os bandidos, para fazer um enfrentamento com as organizações criminosas. A gente teve, sim, um tempo em que houve um aconselhamento para que as pessoas não saíssem. Hoje, a situação já está diferente, dois dias já se passaram, mas todo mundo entende que em algum momento vai ter um revide, outras operações serão feitas nesse sentido. O que o governador do Rio fala é que o Rio não é uma cidade violenta a ponto de você não ir para lá, mas é claro, pelas cenas a gente viu que não é bem assim. A embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por exemplo, emitiu um alerta pedindo para que as pessoas evitem sair às ruas, principalmente nesses dias em que está tudo muito vivo ainda com relação aos episódios.

Obrigado, Andreza.

Eu que agradeço, João.

Andreza Matais é jornalista do portal Metrópoles. A terminar, três coisas a ter em conta esta sexta-feira. O governo espanhol presta homenagem a cerca de 20 vítimas da Guerra Civil de Espanha e do regime franquista, entre as quais o poeta Federico García Lorca, o cineasta Luis Buñuel e a pintora Maruja Mallo. A iniciativa, que tem lugar no Dia da Lembrança e Homenagem às Vítimas, conta com a presença de familiares e dos homenageados ainda vivos. Depois do reconhecimento do Estado palestiniano por Portugal, a Embaixada da Palestina em Lisboa vai hastear hoje uma nova bandeira. Vai também colocar uma nova placa a assinalar a declaração política por parte do governo português. E hoje assinala-se o Dia Mundial da Poupança. Para marcar a data, docentes e estudantes de várias universidades do país nas áreas de Economia, Gestão, Finanças e Contabilidade mobilizam-se para darem aulas e conselhos sobre como poupar no âmbito da iniciativa Educar para a Cidadania, Poupar um Compromisso com Futuro. Esta foi a história do dia. No início deste episódio, ouvimos ainda um som da Rede Band. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Bom fim de semana.