Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: as taxas de juro vão voltar a subir?
"As the author Helen Keller wrote: 'Our worst foes are not belligerent circumstances, but wavering spirits'. We have made significant progress, but faced with a more persistent inflation process, we cannot and we will not waver. Of course, we wish, but we cannot declare victory yet. Thank you very much".
Christine Lagarde terminou desta forma o discurso de abertura do Fórum do Banco Central Europeu em Sintra. A presidente do Banco Central Europeu citou Helen Keller para avisar que nada a fará vacilar na tentativa de repor a inflação para níveis inferiores a 2%. Mas isso tem um custo: a subida das taxas de juro, que se refletem de forma impiedosa nas prestações do crédito à habitação que milhões de famílias pagam mensalmente aos bancos. As taxas de juro vão continuar altas e ainda podem subir mais? Que pistas deixou Christine Lagarde em Sintra? Vou conversar com Edgar Caetano, jornalista do Observador, que está a acompanhar os trabalhos do fórum do BCE. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Edgar. Pelo menos em Sintra, imagino que esteja um pouco mais fresco do que no resto do país.
Está, sobretudo, muito ventoso, tal como no ano passado. Me leva a crer que alguns destes analistas, economistas e responsáveis de bancos centrais só conhecem Sintra assim, o que é uma pena, porque em outros dias é um sítio fabuloso.
Edgar, já aqui explicaste isto que te vou pedir na história do dia, mas nunca é demais voltares a explicar. A arma mais eficaz ou a arma mais usada para combater a inflação é a subida das taxas de juro por quê?
Nesta fase, é a principal ferramenta da política monetária, porque naturalmente se é mais caro pedir crédito, será menos atrativo para as empresas e para as pessoas pedirem crédito. Portanto, se houver menos crédito, há menos procura e dessa forma o crescimento económico é deprimido, é contido.
E é importante combater a inflação, porque uma inflação alta retira força à economia, é isso?
Retira, sobretudo, poder de compra às pessoas e retira poder de compra a toda a gente. A inflação quando sobe, sobe pra toda a gente, embora nós saibamos que depois são as pessoas com menos posses e com menos recursos que sofrem mais com isso, porque uma maior parte do seu rendimento é gasto em bens essenciais. Portanto, quando as taxas de juros sobem, isso é mau para alguns, para aqueles que têm créditos, mas quando a inflação é muito alta, isso é mau para todos. E até chega a um ponto em que o próprio financiamento das empresas e dos próprios Estados se torna mais difícil, porque os investidores exigem um juro mais elevado pra emprestar dinheiro às empresas e aos Estados. Isso é o início de uma espiral muito pouco vantajosa e favorável.
E nesta altura, qual é o nível ou a taxa de inflação que temos na zona euro e qual seria a ideal?
O ideal seria 2%, mas já vamos aí. Neste momento, nós temos a última leitura que saiu do Eurostat, que foi de 6,1% pra inflação na zona euro, o que foi menos do que os 7% do mês anterior e até menos do que os 6,3 que os economistas previam que fosse a leitura deste mês de maio. Ou seja, a inflação está a baixar com alguma velocidade, não com aquela velocidade que se calhar o BCE queria, mas o problema é que esta é a leitura da inflação em geral, que inclui todos os preços calculados numa economia. O problema é que há uma outra inflação, uma outra forma de calcular, que é chamada a inflação core, a inflação subjacente, que retira o efeito da energia, dos preços dos combustíveis e das alfaces no mercado. E essa inflação ajuda a perceber melhor até que ponto é que a pressão inflacionista está enraizada na sociedade. E essa baixou de 5,6 para 5,3, o que no fundo mostra que está a baixar mais devagar a inflação que mais fielmente retrata aquilo que é a pressão sobre os preços na economia do que aquela inflação que é a inflação geral. O que é a mesma coisa que dizer que neste momento a energia, que foi aquilo que fez aumentar a inflação numa fase inicial, até está a ter um contributo positivo para baixar a inflação. O problema está no resto.
Christine Lagarde é a presidente do Banco Central Europeu. Foi ela quem abriu o fórum do BCE, que decorre em Sintra por estes dias. Que diagnóstico fez Christine Lagarde do atual momento?
Ela disse que nós continuamos com uma inflação muito elevada e prevê-se que assim seja durante algum tempo. Isso é que é o mais preocupante. Ela, no fundo, diz que nós neste momento estamos, porém, numa segunda fase de uma inflação que é mais persistente, menos rápida, mas mais teimosa.
The second phase of the inflation process is now starting to become stronger.
E nesta segunda fase da inflação, deste surto inflacionista, podemos achar que se calhar o diagnóstico que foi feito no início desta crise inflacionista já não é adequado àquilo que devemos fazer agora. Há aqui outros fatores em jogo nesta altura.
Já voltamos à conversa com Edgar Caetano, jornalista da seção de Economia do Observador. Lagarde deixou pistas sobre subidas ou descidas nas taxas de juro Vamos procurar a resposta na segunda parte da história do dia. Estamos de regresso à conversa com o jornalista Edgar Caetano. Edgar, nesta altura há milhões de famílias a fazer contas e mais contas à prestação do crédito à habitação. Há um dado interessante e muito revelador sobre o caminho que tem sido percorrido pelas taxas de juro. Basta comparar os valores que hoje temos com os que tínhamos no anterior fórum do Banco Central Europeu, também em Sintra, que foi o ano passado. Consegues fazer essa comparação, Edgar?
Em junho do ano passado, quando aconteceu o último fórum do BCE, nós tínhamos taxas de juro em -0,5. Neste momento, está em 3,5. São 400 pontos de base de aumento, quatro pontos percentuais, no espaço de menos de 12 meses. E é curioso que na altura, no ano passado, no fórum BCE, Christine Lagarde foi uma das primeiras vezes que ela garantiu que viria aí um aumento muito rápido da taxa de juro, talvez não tão rápido como acabou por ser, mas foi talvez um dos discursos mais importantes naquela altura, porque mostrou o que iria acontecer nos meses seguintes. Tanto que em julho de 2022 veio a primeira subida logo pra zero.
E essas taxas, depois esses aumentos refletem-se naquilo que as pessoas pagam ao banco pelo empréstimo à habitação. Mas já agora, explica-nos isto, Edgar: a Euribor joga por antecipação ou primeiro sobe o BCE e depois é que sobe a taxa Euribor? Como é que isso funciona?
Primeiro sobe a Euribor, se a expectativa de que vá subir a taxa de juro do BCE também se confirma. Ou seja, o que eu quero dizer é que a Euribor não é uma taxa calculada por decreto, de forma administrativa. É aquilo que os bancos, os 50 e também aos bancos da zona euro pagam para emprestar uns aos outros. Agora, segue muito fielmente aquilo que são as expectativas de onde é que irá a taxa de juro do BCE. Por uma razão muito simples, porque se o BCE tem uma taxa de juro de 3,5, no caso dos depósitos, os bancos sabem que ao depositar dinheiro no BCE, estão a ganhar 3,5. Portanto, há de ser um valor muito próximo, em termos de circunstâncias normais, que eles vão exigir pra emprestar a outro banco, conforme estejamos ou não a falar de uma altura em que não existe estresse no setor financeiro, etc. Mas a Euribor é uma taxa calculada em mercado todos os dias, ao passo que o Banco Central Europeu decide taxas de juro de seis em seis semanas.
E que pistas deixou, afinal, Christine Lagarde sobre o caminho a seguir agora com as taxas de juro?
Ela disse que não queria deixar pistas.
"Disclaimer", typical of a lawyer, some will say. My intention is not to signal any future decisions, but rather to frame the issues that monetary policy will face in the period ahead.
Claro que sempre que um banqueiro central fala, pelo menos, mesmo que não queira, está a dar pistas, nem que seja com a cor da roupa que escolheu para vestir naquele dia. Agora, pistas ela deixou claro que muito provavelmente haverá uma nova subida em julho, mas isso não é novidade. Agora, pistas pro que vai acontecer a seguir, eu penso que não existem muitas. Porém, ficou claro, e esta é que é a mensagem que é importante passar às pessoas, o que está neste momento na cabeça do BCE é não só subir um pouco mais a taxa de juro, e esse um pouco mais pode ser só mais uma subida ou pode ser duas ou três.
Isso seria quanto?
Não sabemos. Sabemos, pelo menos, que há 25 pontos pra subir em julho. Depois, se haverá novas subidas em setembro e nos meses seguintes, não sabemos ainda. Agora, o que também é importante as pessoas perceberem é que não é subir pra depois passar uns meses voltar a descer. A mensagem que está a ser passada agora é que suba pro nível que subir, seja pra 3,75, seja pra 4, seja pra 4,25. O que está aqui agora em causa e o que vai ser cada vez mais importante acompanhar é o tempo, a duração, o tempo que estas taxas de juro são elevadas e são reconhecidamente elevadas e que sabemos que estão a restringir a atividade econômica, e a ideia é essa. Sabemos que elas vão estar assim durante muito tempo. Portanto, quando se pensa: esta subida da taxa de juro é uma coisa episódica e daqui a um ano tá tudo bem, estamos todos com taxas de juro negativas outra vez, isso seria um péssimo sinal. Isso seria a pior coisa que podia acontecer. Significava que estava tudo a arder, basicamente.
E no início deste episódio, ouvimos o final do discurso da presidente do Banco Central Europeu. Christine Lagarde cita Helen Keller e a mensagem parece muito clara, Edgar. Ela diz que não irá vacilar, ou seja, os juros não vão descer enquanto a inflação não estiver abaixo dos 2%, aconteça o que acontecer. É isto, Edgar?
Só uma pequena diferença, que não é bem esperar que a taxa de inflação vá pra 2% e depois assim podemos baixar. O que está em causa, o objetivo do BCE é 2% no médio prazo, o que significa que o que tem que fazer sentido é ver a inflação que existe em cada momento, seja 3, seja 4, seja 5, e conseguir dizer, perante as dinâmicas que estão a acontecer na economia, a médio prazo, daqui a dois anos, daqui a três anos, vamos estar com 2%. Ou seja, o BCE não trabalha pra inflação do mês passado, trabalha pra inflação ao longo de um horizonte de projeção. E, portanto, não é propriamente esperar, as pessoas não têm propriamente que esperar pro momento que a inflação vá pra 2%, até porque ela pode descer e voltar a subir, como aconteceu no Reino Unido na semana passada. As pessoas não têm que esperar que a inflação vá pra 2% pra achar: "Ok, agora o BCE vai abaixar os juros". Não é assim que funciona. O BCE tem é que ter uma visão de olhar pra frente e perceber que no médio prazo está de acordo com o objetivo que está estabelecido nos mandatos do BCE, que é o mandato, é só essa a missão que eles têm, é manter a taxa de juro em 2% no médio prazo E, portanto, é só quando houver a segurança de que isso vai acontecer é que eles podem vir a baixar a taxa de juro. E Christine Lagarde foi muito clara quando disse que ainda é cedo para dizer que esse pico da inflação já está para trás de nós, que é como quem diz: não podemos ainda garantir que a inflação não só vai baixar à velocidade que nós queremos, nem que não volte a subir eventualmente. Ninguém pode garantir que esse cenário está fora de causa.
E ainda não falámos das empresas, Edgar. Do lado das empresas, estão a portar-se bem também neste problema que estamos a atravessar, porque é um problema para quem tem empréstimos ao banco e perante este choque inflacionista, ou estão a aproveitar também o momento para aumentar os preços?
Na primeira fase do choque inflacionista, que foi o final de 2021 e ao longo do ano de 2022, Christine Lagarde já deixou bem claro noutras ocasiões, e nesta terça-feira também, que as empresas abusaram um bocadinho e aproveitaram-se do aumento dos custos. Mas basicamente as empresas abusaram nos preços por uma razão muito simples: conseguiram subir os preços e a procura económica por parte das pessoas não baixou por causa disso. Isso é que foi fora do vulgar. Tendencialmente, numa altura de desaceleração económica, aumento dos custos que as empresas pagam pelas matérias-primas que compram para fazer os seus produtos, nessas alturas, normalmente, o que a teoria económica diz é que depois há uma quebra na procura. Então as empresas têm que baixar os preços ou não subir os preços tanto. Significa que as empresas vão tentar, dessa forma, reter as quotas de mercado e escoar os seus produtos. E isso não aconteceu nesta ocasião. Nesta ocasião, os preços que as empresas pagam pelas suas matérias-primas subiram muito e as empresas repercutiram isso nas pessoas, nos consumidores e nas outras empresas, de forma quase integral. E isso é que é estranho. Numa segunda fase, que é aquela em que nós vivemos agora, isso já não está a acontecer tanto. As empresas já não estão a ter esses choques de preços suportados por elas próprias pelas matérias-primas, porque esses preços também já estão a baixar. Mas nesta fase, a preocupação já é outra. Nesta fase, é a negociação salarial que acontece individualmente e coletivamente por essa Europa fora, está no fundo a tentar correr atrás do prejuízo, tentar ser compensada pela inflação passada. E isso é uma situação que vai acabar por impulsionar os preços. Portanto, agora nessa fase, o que o BCE diz muito claramente é: é preciso subir a taxa de juro, porque não podemos chegar a uma situação em que as empresas continuam a poder fazer os preços que querem. É necessário que, pela própria redução da procura económica, que está ligada aos juros mais altos que falámos aí, as empresas tenham que baixar os preços, senão não vendem. E, portanto, é importante subir a taxa de juro por isso.
E o aumento dos salários?
O aumento dos salários é inevitável. Sempre que há um surto inflacionista, há sempre um jogo de cadeiras em que os vários agentes económicos, as empresas, as pessoas, tentam empurrar o impacto daquele problema inflacionista uns para os outros. É inevitável que os salários subam em termos nominais, ou seja, os numerozinhos que vemos no recibo de vencimento, tendencialmente, mas também em termos reais, ou seja, à medida que a inflação vai baixar, em termos reais significa descontando a inflação. À medida que a inflação baixar e os salários subirem em termos nominais, isso também vai ser um ganho real para as pessoas, que vão recuperar aquilo que perderam com este surto inflacionista. E, portanto, os salários vão subir de certeza. O que o BCE diz muito claramente é que os salários vão subir, mas têm de ser as empresas a sacrificarem as suas margens de lucro para acomodar essa subida de salários, senão estamos tramados, porque vão subir os salários, vão subir as margens de lucro das empresas e nunca mais ninguém agarra a inflação e isso vai ser muito mau para a nossa economia europeia e para a nossa história económica a longo prazo.
Obrigado, Edgar.
Obrigado, Ricardo.
Edgar Caetano é jornalista da seção de Economia do Observador. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos de Christine Lagarde foram retirados da transmissão em direto do fórum do BCE. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.