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Esta é a história do dia da Rádio Observador: tiros em Minneapolis. A operação do ICE volta a matar. Estes apitos são uma forma de avisar quem está nas redondezas de que há ali uma operação do ICE, a Polícia de Imigração dos Estados Unidos.

What the is wrong with you?

Esta é uma manhã de sábado em Minneapolis, a cidade para onde Donald Trump enviou 3 mil agentes do ICE. Alex Prady, um enfermeiro de 37 anos, está a empunhar aquilo que, nos vários vídeos que circulam na internet, parece ser um telefone. Ele está a filmar a operação policial contra uma mulher. Essa mulher é empurrada contra o chão. Alex Prady parece, nesse momento, decidir ir ajudá-la. Os agentes do ICE atingem ambos com gás pimenta. Prady não desiste e puxa a mulher das mãos dos polícias. E é nesse momento que é imobilizado por seis agentes, atirado ao chão e, já no chão, um dos homens puxa de uma pistola. Ouvem-se seis, sete tiros, talvez mais. Alex Prady fica estendido no chão. É declarado morto pouco depois.

What did you just do?

A Secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos vem a público explicar que o homem abatido pelo ICE, a segunda pessoa já este mês, tinha planos para praticar atos de terrorismo doméstico. Tinha uma arma, estava apontada aos agentes e que quem o matou o fez de acordo com as normas e para proteger a segurança dos colegas.

This looks like a situation where an individual arrived at the scene to inflict maximum damage on individuals and to kill law enforcement.

Mas as imagens que circulam de vários ângulos e que já foram verificadas por órgãos de comunicação social, como o New York Times, contam uma história diferente. Alex Prady teria uma arma, mas aquilo que apontou aos homens do ICE foi uma câmera de filmar.

How many more Americans need to die or get badly hurt for this operation to end?

"Quantos cidadãos americanos têm de morrer para esta operação parar?", perguntava o presidente da Câmara de Minneapolis. O que se está a passar naquela cidade? Perguntamos nós. O que aconteceu no sábado de manhã? Por que em Minneapolis? E que consequências pode ter este segundo caso de um cidadão americano morto às mãos do ICE? Para responder a estas perguntas, eu vou conversar com a Madalena Moreira, jornalista de internacional do Observador. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 26 de janeiro. Olá, Madalena.

Olá.

Vamos começar pelo mais básico, que na verdade é quase uma história que se repete, porque da outra vez que houve um caso de uma pessoa assassinada pelo ICE, havia também versões contraditórias. Desta vez, logo a seguir ao caso deste Alex Prady, as autoridades vieram explicar que ele estava armado, tinha a arma carregada e que se preparava para disparar contra os agentes do ICE. Mas aquilo que tem vindo a público, nomeadamente os vários vídeos de telefones que têm sido divulgados, mostra uma versão contrária a essa.

Sim, e a comparação é muito boa com o caso de 7 de janeiro, da Renee Goode, porque em ambos os casos, o Departamento de Segurança Nacional da administração Trump diz-nos que os agentes do ICE agiram em legítima defesa. No primeiro caso, porque ela supostamente estava a utilizar o carro para atropelar um agente e agora, neste caso, que Alex Prady teria levantado uma arma e teria avançado com uma arma contra os agentes do ICE.

Para quem não viu os vídeos, basicamente aquilo que vemos, ele está de fato com a mão levantada, mas aquilo que parece ter na mão é um telefone e está a filmar.

Exatamente. Ou seja, as imagens que foram analisadas e que nós podemos ver e que foram analisadas ao detalhe por alguns meios de comunicação, é que ele não tinha arma, ele tinha realmente uma arma, mas era uma arma oculta que no estado do Minnesota é legal carregar. Ele tinha licença de porte de arma e podem carregá-la de forma oculta. E, portanto, o que se vê nos vídeos não é a mesma coisa que a administração Trump e o poder federal diz que foi em legítima defesa, porque os agentes do ICE estavam a ser atacados. O que nós vemos é um homem que estava durante uma operação do ICE a procurar defender pessoas da comunidade e que estava rodeado de muitas outras pessoas que, lá está, foram elas que filmaram.

Aliás, aquilo que se vê no vídeo é ele a tentar arrastar uma pessoa, penso que uma mulher, que estava de fato a ser alvo de uma operação do ICE, estava no chão a ser atingida com gás pimenta, e ele tenta levantá-la no momento em que é basicamente detido pelos agentes.

Exatamente. No momento em que ele é agarrado, ele está a tentar proteger uma outra cidadã, pensamos que é uma cidadã. E é isto que tem acontecido nestes confrontos entre manifestantes e o ICE, são grupos de pessoas organizados, de cidadãos, muitas vezes norte-americanos, que sabendo que são imunes às operações de imigração e de deportação, porque são cidadãos norte-americanos, procuram utilizar esse privilégio para proteger os alvos da ação de imigração, que são pessoas que não têm documentos e que, portanto, serão suscetíveis à deportação. Foi a mesma coisa que tínhamos visto no caso da Renee Goode, que era um grupo de pessoas que, diz a mulher dela, tinham apitos e, portanto, as pessoas vão para o meio da rua Localizam onde estão os grupos de patrulha, muitas vezes à paisana, dos agentes do ICE e depois avisam os imigrantes nos seus locais de trabalho, nas suas casas, de que há agentes do ICE e que não se desloquem. Em alguns casos, como parece ter sido o que aconteceu este sábado, há uma intervenção direta destes grupos de manifestantes para proteger esses imigrantes dos agentes federais.

Sinto que uma das novidades que temos visto com estas operações é que a população se organiza e é incentivada a usar os seus telefones precisamente para filmar este tipo de operações para eventualmente vir a ser usado como meio de prova contra ações ilegais dos agentes.

Sim, parece ser isso mesmo. Não sei se há aqui uma consciência organizada de pegar no telemóvel e filmar.

Até porque as pessoas fazem isso sempre hoje em dia.

Exatamente. Hoje em dia, onde há um telemóvel, haverá sempre alguém a filmar. Este caso da Alex Praty não é a primeira vez que o ICE tem comportamentos descritos pelos manifestantes como abusivos, há uma tendência ainda maior para pegar no telefone e poder ter provas físicas, reais, de que a narrativa utilizada pelo Departamento de Segurança Nacional é contraditória com estas imagens que nós temos aqui do caso. Portanto, eu não sei se é consciente, mas existem estas imagens que servem muitas vezes para esse objetivo.

E permitem, por exemplo, até para os jornalistas tentarem perceber exatamente o que se passa.

Apresentar o contraditório de estas imagens são o que nós vimos, o que podemos ver, e depois está aqui o relato que é feito pelas autoridades oficiais, citando os agentes que estavam lá. Só que aqui cria-se sempre um relato muito contraditório entre o que está realmente a acontecer e o que está a ser dito que está a acontecer.

Sendo que, naturalmente, temos de esperar por mais dados para perceber exatamente o que aconteceu ali, mas mais uma vez, tal como no outro caso, a versão oficial parece difícil de sustentar face às imagens, aos vários ângulos da cena a que tivemos acesso.

Sim, e a pressão das autoridades locais e dos manifestantes é que seja aberta uma investigação federal a ambos os casos para avaliar se houve realmente aqui um abuso de poder por estes dois agentes do ICE que dispararam contra cidadãos civis. Ou seja, pode ser discutido se eles estavam realmente a obstruir o trabalho do ICE e se, portanto, os agentes do ICE agiram de forma legítima ou não. Mas o que está a acontecer é que até agora o poder federal ainda não confirmou que vai abrir investigações formais a qualquer uma destas mortes, o que também leva os manifestantes e o poder local a questionar ainda mais a ação, porque quando há uma acusação de abuso de poder, seria normal que o poder federal reconhecesse, mesmo não reconhecendo que esse abuso de poder existe, querer analisar e esmiuçar este caso até ao fim. E não é isso que tem acontecido aqui.

Eu daqui a pouco vou continuar a conversa contigo, até para percebermos por que a cidade de Minneapolis, de todas as que existem nos Estados Unidos, foi a escolhida para este tipo de operação. Até já. Madalena, por que tudo isto está a passar em Minneapolis? Porque à primeira vista não é a Meca da imigração de quem quer ir para os Estados Unidos. Por que está tudo a acontecer ali?

A desculpa, como definem os manifestantes e como definem alguns analistas, que o poder federal utilizou, que Donald Trump utilizou, é um caso de fraude que foi exposto no final do ano passado.

Foi essa a motivação para levar estes agentes do ICE.

Foi essa a motivação formal para enviar mais agentes do ICE, em janeiro de 2026, para a cidade de Minneapolis. E o estado do Minnesota, desde os tempos da Covid-19, tinha tido muitos casos de fraude, uns em cima dos outros, e portanto ajuda a justificar casos de fraude atribuídos a comunidades imigrantes, de Somali e norte-americanos. E portanto, ajuda a justificar enviar estes agentes para deter estes imigrantes que supostamente estariam envolvidos em caso de fraude.

Já agora, deixa-me só esclarecer para quem ouve falar do ICE, mas não sabe exatamente o que é o ICE. O ICE é uma polícia precisamente para controlar a imigração e as fronteiras.

São os serviços de imigração. É os Serviços de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos.

Então eles tinham essa desculpa dos casos de fraude, mas estamos a falar de cerca de 3000 agentes que foram para uma cidade que não é assim tão grande, Minneapolis não é uma grande cidade.

Não é uma das grandes cidades. E nem sequer é uma das grandes cidades de grandes comunidades de imigrantes. A principal comunidade de imigrantes em Minneapolis é a comunidade somali, são cerca de 80 mil membros e é a maior comunidade somali no país. Ou seja, a maior parte destas 80 mil pessoas tem a situação nos Estados Unidos regularizada, muitos têm mesmo cidadania norte-americana, ou seja, estão no país há várias décadas e têm cidadania norte-americana.

Então por que esta operação ali?

Não é comparável com Nova York ou o estado da Flórida ou do Texas, onde há grandes comunidades sem documentos. O que muitos analistas dizem que há é uma tempestade perfeita de características que tornam Minneapolis um alvo muito apetecível para Donald Trump. Por um lado, é casa de dois dos seus principais adversários políticos, que é Tim Walz, que é o governador do Minnesota.

Foi candidato a vice-presidente.

Exatamente. E é daí que vem um pouco este sentimento negativo direto contra ele, foi de ter concorrido em 2024, e ele tem se oposto muitas vezes às políticas de Donald Trump. Ao atacar o estado do Minnesota, Donald Trump está a tirar capital político a Tim Walz. O outro alvo pessoal de Donald Trump será a congressista Ilhan Omar, que é de origem somali, tem nacionalidade somali e norte-americana, e que é uma das vozes mais progressistas no Congresso e mais firmemente anti-Trump. Portanto, ela não concorda com Donald Trump em nenhum dos seus pontos e tem se tornado um alvo muito comum para o presidente. E portanto, ao atacar o Minnesota, está a atacar estes dois alvos. E depois há uma outra faceta que é O Minnesota e particularmente Minneapolis é um estado profundamente democrata. A última vez que deram a vitória, só por curiosidade, a um presidente republicano foi com Ronald Reagan em 84. Nunca Donald Trump ganha eleições lá. Tem uma abertura muito grande à imigração desde os tempos depois da Guerra do Vietname, em que abriram portas a pessoas que fugiram do Vietname e do Camboja, e até hoje essa abertura à imigração continua. Tem também um estado social muito forte, ou seja, uma economia e um estado social mais semelhante ao modelo europeu do que propriamente ao que nós imaginamos como o modelo norte-americano.

Portanto, representa tudo aquilo que-

Que Donald Trump não quer e é o oposto das políticas de Donald Trump. Por um lado, isto cria uma tensão pessoal com o presidente, por outro, funciona um pouco como um laboratório, porque se as políticas de Donald Trump, políticas de imigração, de perseguição aos seus adversários políticos, mesmo bloqueios do poder legislativo e, neste momento, coloca-se em cima da mesa a utilização da força militar, se funciona na cidade de Minneapolis e no estado do Minnesota, que é um terreno muito pouco fértil a Donald Trump, então será muito mais fácil implementá-las noutros estados que são muito mais abertos às suas políticas.

Isto pode ser um laboratório, aquilo que nos vai chocando com as imagens que vamos vendo de uma sociedade quase distópica, se funcionar ali em Minneapolis, pode ser alargado para outras partes do território americano.

Sim, parece que é um teste. Ou seja, vamos testando as nossas políticas aqui, até onde é que conseguem aplicá-las para depois as poder replicar. Tanto que a Casa Branca diz que pretende replicar este modelo noutros estados e esta semana já começou com uma nova operação no Maine, no estado do Maine.

Vamos ver o que é que vai acontecer. Há uma dúvida: nós quando vemos estas imagens ficamos chocados com a violência que é usada. Não é só nestes casos que resultam em mortes, mesmo crianças de cinco anos a serem detidas no caminho para a escola, a forma como até responsáveis políticos são violentados por estes agentes. Mas aquilo que não se vê, até agora não se viu, vimos no sábado à noite uma manifestação impressionante a baixas temperaturas, as pessoas correram aos milhares, mas não vemos uma dimensão nacional dos protestos contra estas ações do ICE.

Sim, os protestos têm tido agora com esta segunda morte e durante este fim de semana, houve uma expansão nacional um pouco maior, mas realmente não é aquilo que se está à espera. E há uma comparação muito fácil que foi em Minneapolis em 2020, houve um outro caso de um cidadão norte-americano morto às mãos de uma autoridade, que foi o caso de George Floyd. Foi na mesma cidade, foi na realidade muito perto do sítio onde-

Para quem não tem memória, estamos a falar daquele cidadão que foi estrangulado.

Exatamente.

Aquelas imagens também eram impressionantes, alegadamente por estar a usar uma nota falsa.

Exatamente. E isso foi em março de 2020, mesma cidade, e depois disso nós tivemos um rastilho que se espalhou pelo país inteiro e nem foi a dimensão, foi a violência destes protestos que resultou em motins na cidade de Minneapolis e que na altura causou vários mortos.

E que se espalharam para outros sítios.

Exatamente. Chegou a haver cá em Portugal um protesto que tinha o lema do Black Lives Matter. E o que estamos a ver agora, talvez por ser uma coisa mais localizada, por ser no estado de Minneapolis e por não ter essa vertente de violência perpetrada pelos manifestantes e destruição de propriedade privada, estão a ser manifestações pacíficas. Houve uma greve geral na sexta-feira, então não está a ter o mesmo impacto visível de movimentos comparáveis com o movimento de 2020 do Black Lives Matter, mas por outro lado, também não há nenhum sinal, e agora com a morte de uma segunda pessoa, não há qualquer sinal que estes protestos venham a abrandar.

Vamos acompanhar esta situação nos próximos dias, até porque nem que seja porque a administração de Trump já disse que este modelo é para replicar noutros sítios. Obrigado, Madalena.

Obrigada eu.

A Madalena Moreira é jornalista e tem escrito muito sobre aquilo que se está a passar na política dos Estados Unidos. No Observador pode ler exatamente sobre isto que estivemos a conversar, no texto da Madalena, sobre como Donald Trump está a usar Minneapolis como um laboratório para os limites do seu próprio poder. Hoje há desenvolvimentos em tribunal, uma audiência no âmbito do processo levantado pelas autoridades locais e estaduais do estado do Minnesota para pôr fim à Operation Metro Surge. Hoje vai ser um dia para perceber se o caso deste fim de semana vai ter impacto a nível nacional e que impacto será esse. Por cá, hoje é dia de apuramento geral dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais. Vai ser esta manhã no Tribunal Constitucional. E se tudo correr como previsto, amanhã pode ter início oficialmente a campanha eleitoral para a segunda volta. E como a política não se cinge às presidenciais, o governo tem hoje um dia de anúncios para fazer. A Ministra da Saúde vai estar pelo Algarve, vai assinar um acordo estratégico, outro de acompanhamento, vai visitar o terreno de implantação do novo Hospital Central e vai ainda inaugurar a remodelação do bloco operatório central do Hospital de Faro. Quanto ao Primeiro-Ministro, vai estar no Porto para o lançamento da carteira digital da empresa, onde se podem concentrar os documentos essenciais pedidos pelo Estado para que as empresas possam fazer negócios. Ainda só está no início. A ideia é aumentar o portfólio de documentos daqui para frente. É uma obrigação europeia, mas o governo diz com orgulho que somos o primeiro país a implementá-la. E o orgulho vê-se. Para além do Primeiro-Ministro, vão lá estar o ministro adjunto e da Reforma do Estado, a ministra da Justiça e ainda o ministro da Economia. Esta foi a história do dia, a sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.