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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O Twitter está vulnerável aos inimigos do Ocidente?

"Twitter has been all too eager to take private information from its users without telling them, to sell it and monetize it without their permission, to expose them to the worst kind of security threats, to censor them, to spy on them. You have painted a picture of a company that is not only out of control, but is truly, in many ways, a malign actor."

Josh Hawley é senador republicano, é representante do estado do Missouri, um território bem no centro dos Estados Unidos. O senador encerrou uma audição de mais de duas horas da Comissão de Assuntos Judiciais e, como ouvimos, acusa o Twitter de ser ganancioso, de vender os dados dos utilizadores e de os colocar em perigo. Uma empresa que, segundo diz, é um actor malicioso. As empresas têm obrigações legais para garantir a segurança dos clientes e dos utilizadores, como por exemplo, nos casos das redes sociais. No Twitter, partilham-se pensamentos, alegrias, tristezas, verdades, mentiras, partilha-se informação. Nos Estados Unidos, mas não só, investigam-se indícios de pouca preocupação, para não usar uma fórmula mais severa, pouca preocupação com a segurança dos utilizadores e dos dados que partilham. A audição na Comissão do Senado dos Estados Unidos a um ex-chefe de segurança do Twitter deixa-nos ainda mais apreensivos. As perguntas e respostas foram acompanhadas pela jornalista do Observador, Cátia Rocha, com quem vou conversar. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Olá, Cátia.

Olá, Ricardo.

Tens conta no Twitter?

Tenho.

Então vou seguir-te, posso?

Ok, por mim, tudo ok.

É seguro?

Sim.

É seguro?

O Twitter, enquanto plataforma, podia ser mais, como percebi ao ouvir as duas horas e meia da audição no Senado.

Então, vamos falar dessa audição. Vamos começar pelo princípio, pelas apresentações. Quem é este senhor Peiter Zatko?

"I appear before you today to answer questions about information I submitted in written disclosures about cybersecurity concerns I observed while working at Twitter."

É um hacker veterano muito conhecido na comunidade, aliás, um dos nomes mais conhecidos que anda há anos a alertar para essas questões da segurança. Nos anos 90, curiosamente, já foi ao Senado, ainda era um miúdo, justamente para falar sobre esta história de segurança e as fragilidades na internet. Só que agora, entre novembro de 2020 e janeiro deste ano, foi o chefe de segurança do Twitter, portanto, tinha uma responsabilidade grande nesta rede social.

E ele foi ouvido agora nesta comissão do Senado, por quê, especificamente?

Porque no mês passado veio a público fazer uma denúncia às fragilidades de segurança do Twitter, a dizer que tinha fragilidades muito graves. E aqui também a fazer chegar esta denúncia não só à Comissão de Mercado de Capitais dos Estados Unidos, mas também ao Departamento de Justiça e à Comissão Federal de Comércio. E referia não só que havia vulnerabilidades de segurança, mas também que os executivos estavam um bocadinho como que a fechar os olhos a esta questão da segurança e a estar mais focados no crescimento da base de utilizadores, que, vamos ser sinceros, é o que neste momento dá dinheiro ao Twitter.

Fazer crescer esses utilizadores. Quantos utilizadores tem o Twitter?

Duzentos e trinta e oito milhões de utilizadores a nível global, mas esta métrica é importante, são os utilizadores ativos diários.

Mas em Portugal não é assim uma rede de massas, não é?

Não sabemos concretamente qual é o número de utilizadores do Twitter em Portugal, mas é um número que é considerável. Mas ainda é visto um bocadinho como uma rede social de nicho, muito associada a uma questão de bolha. Só que nos Estados Unidos, por exemplo, é utilizado por utilizadores comuns, vamos dizer assim.

É muito importante nos Estados Unidos, não é? Toda a gente está no Twitter, não é?

Sim, e foi uma rede social onde pelo menos políticos e aqui também órgãos de comunicação social perceberam logo que tinha a questão do imediatismo, que ajudava a construir relações diferentes com o público.

Estavas a dizer, este ex-responsável pela segurança no Twitter, no Senado norte-americano, transmitiu um testemunho que afinal nos deve deixar preocupados. É isso, Cátia?

Sim, acho que a questão é essa, até porque ele retratou uma empresa que tem demasiada gente com acesso a demasiada informação importante e isso, em teoria, não devia acontecer.

E foi isso que Peiter Zatko disse nesta audição, que há pouco controle interno, por exemplo, sobre o acesso aos dados dos utilizadores?

Sim, ele dividiu muito a questão em: metade dos trabalhadores do Twitter são engenheiros e, portanto, a partir do momento em que és engenheiro dentro do Twitter, tens acesso a praticamente tudo, porque de acordo com o que ele diz, e é importante ressalvarmos aqui esta parte de que isto é a versão dele. O Twitter optou por não estar presente nesta apresentação, o que até mereceu uma farpa nos senadores, porque a justificação do Twitter foi: o CEO não vai, porque neste momento está-se a discutir a venda ou não do Twitter. E o senador até atirou que pra eles devia ser mais importante a segurança dos utilizadores americanos e não tanto o que acontece à empresa, se é vendida ou não. Mas pelo discurso dele, foi justamente isto, que há demasiada gente que tem acesso, um acesso que não é de todo controlado e em que nem sequer há registros de que empregados é que estão a aceder a que tipo de informação.

Mas, Cátia, há um número pra esses engenheiros? Quantos engenheiros são?

São cerca de 4 mil.

"One of the disturbing things that I saw, based upon being 10 years behind where I would expect a modern tech company to be, was a lack of an ability to internally look for and identify inappropriate access within their own systems."

São 4 mil pessoas com acesso aos dados Estás a explicar que não há forma de saber se o engenheiro, vamos criar aqui um nome, José ou Francisco, acedeu aos teus dados ou aos meus dados no Twitter, é isso?

Exato, foi esse o cenário que ele pintou. A questão é: em teoria, em empresas deste gênero, tem de haver um acesso controlado e as pessoas só têm dados de acesso a determinada informação que seja necessária para a tarefa que têm. E não teres acesso aos dados.

A todas as salas, não é?

Exato. Tens uma chave que abre uma porta. Continuando aqui com este cenário, o engenheiro José, por exemplo, quando acede a determinadas coisas, devia, em teoria, anotar ao que acedeu. Claro que em empresas desta dimensão é tudo feito digitalmente. A questão é que, pelo que foi partilhado, não haverá esse tipo de registo, que é surpreendente numa empresa desta dimensão e com a importância global que o Twitter tem.

Já voltamos à conversa com a Cátia Rocha.

"История России и Украины".

Em russo, isto significa história da Rússia e da Ucrânia. E José Milhazes vai explicá-la em bom português a partir do dia 22 de setembro, no primeiro curso da Academia Observador. E nem precisa de sair de casa. Inscreva-se em academia.observador.pt.

Пока.

Até lá.

Academia Observador. Grandes cursos a pequenos preços. Cátia Rocha, mas o Twitter não foi obrigado há uns anos a rever medidas de segurança?

Foi, em 2011 até assinou um acordo a dizer que se comprometia a rever a segurança. É importante darmos este contexto. O Twitter, ao longo da história da empresa, tem tido vários incidentes de segurança, de pessoas que estavam a aceder a coisas que não deviam. E em 2011 comprometeram-se com um dos reguladores norte-americanos a dizer que iam reforçar a segurança. E justamente na denúncia deste antigo chefe de segurança do Twitter, está escrito que quando ele lá chegou, em 2020, tinham passado nove anos desde a assinatura daquele acordo, não havia praticamente progresso nenhum neste reforço da segurança, que estaria aqui a infringir um bocadinho aquilo que estava estipulado.

E esse acesso aos dados de que falavas e de que falou este ex-responsável pela segurança do Twitter, na prática, isso pode traduzir-se em quê? Pode, por exemplo, abrir a porta à manipulação de publicações? Imagina, alguém em teu nome, Cátia, publica na tua conta este episódio da História do Dia, isso seria uma boa ação. Isto é possível?

É possível e aliás, já foi feito. Há uns anos, já foram feitas publicações, na altura descobriu-se que eram dois adolescentes, que tinham publicado a partir das contas do Barack Obama e do Joe Biden, na altura, que era vice-presidente dos Estados Unidos. E aqui foi interessante perceber que este responsável de segurança tentou muito dar exemplos concretos do que estava a acontecer ou o que poderia acontecer aos senadores. A dizer, por exemplo, neste momento, se metade dos trabalhadores do Twitter conseguem ter acesso às contas dos utilizadores, provavelmente podem enviar tweets a partir das contas de todos os senadores que estão presentes nesta sala.

Isso é muito preocupante.

Sim, principalmente se for verdade. Lá está, só estamos a ver o relato de uma pessoa que já não trabalha no Twitter desde janeiro e que passou por lá uma temporada e neste momento temos de dar sempre a hipótese do Twitter também se tentar defender, que é uma coisa que até agora ainda não aconteceu.

Mas falavas aí, por exemplo, no caso de dois miúdos que terão usado as contas de Obama e também de Joe Biden. Mas podemos também estar perante casos concretos de manipulação ou mesmo venda de informação. E já aqui a pensar em tipos se calhar menos recomendáveis e que podem, de alguma forma, usar esta informação para guerras comerciais ou para guerras como estamos a assistir na Ucrânia.

Sim, este ex-responsável de segurança do Twitter disse mesmo que já encontrou em subfóruns da internet relatos de que poderia haver acessos de alguns empregados do Twitter já à venda. Não mencionou valores, não mencionou sequer há quanto tempo é que viu este tipo de informação, mas que existe. Já pode ter acontecido. E neste ponto foi uma audição muito americana da parte destes senadores, principalmente os republicanos, muito focado na história de intromissão de agentes ligados a Estados como a Arábia Saudita ou a China, o que também já foi documentado que até já aconteceu no Twitter. Já se percebeu que em tempos alguns empregados que tinham ligações a estes Estados a trabalhar como agentes infiltrados e a conseguir aqui aceder a informações de utilizadores. E temos de ter consciência que o Twitter é muito utilizado por políticos e tem uma base importante de agências governamentais. Portanto, é informação muito sensível que está naquele lado. E nesse sentido, foi os republicanos muito: "É uma questão de segurança nacional, temos aqui de desenvolver esforços nesta matéria".

De resto, o senador que ouvimos no arranque deste episódio, e como explicámos, é do Missouri, portanto, é do centro dos Estados Unidos, é um senador republicano e que demonstra essa preocupação. Perante isso tudo, as autoridades norte-americanas ou europeias, mas neste caso estamos a falar dos Estados Unidos, já fizeram alguma coisa?

Tentam fazer. E foi isso outro dos pontos que foi discutido nesta audição. A FTC, que neste caso é a entidade que tem de regular esta questão.

Que é uma espécie de Autoridade da Concorrência, talvez.

Um bocadinho, penso que será o equivalente. A questão é que dada a dimensão deste tipo de empresas e esta entidade é também quem tem a cargo um Facebook, agora Meta, uma Google, uma Amazon, Apple, são empresas de dimensões demasiado grandes para os meios que esta entidade tem. E, portanto, fica a promessa de que a ideia é reforçar um bocadinho estes poderes, mas curiosamente, a Zatko referiu que há reguladores, inclusivamente europeus, como é o caso do regulador francês, que inspirava aqui um bocadinho mais de medo ao Twitter do que propriamente o regulador dos Estados Unidos.

Mas as multas não são daquelas multas astronómicas.

A questão é que no caso das multas que foram aplicadas ao Twitter, fala-se de multas de 150 milhões de dólares, o que para uma empresa que tem uma faturação que anda na escala dos milhares de milhões, é uma escala diferente e foi isso que este responsável tentou justificar. É que a questão do regulador europeu não é um caso único. Além de uma coima, tinha também a questão da reputação. E no caso do regulador americano, era uma multa que se pagava uma vez e pronto, era um episódio.

E como diria Jorge Jesus, são peanuts, 150 milhões. E no meio disto tudo, o Twitter continua à venda?

Bem, isso aí é toda outra questão e é uma questão muito mais complicada. O Twitter, em teoria, continua à venda e o Twitter quer muito ser comprado. A questão é que quem em tempos quis comprar o Twitter, agora já não está assim tão interessado.

Elon Musk.

Elon Musk, exatamente. É o homem de que se fala sempre. E ainda esta terça-feira, em assembleias acionistas do Twitter deram luz verde à venda a Elon Musk. É uma formalidade. A questão é que só se vai perceber se Elon Musk vai mesmo comprar o Twitter a partir de outubro, que é quando se dá o julgamento que quer obrigar Elon Musk a comprar a rede social.

Cátia, por tudo aquilo que disseste e com base na audição do antigo responsável de segurança no Senado, parece que o Twitter, que é uma rede com 238 milhões de utilizadores, com peritos de top em informática e em redes, deixou a chave do cofre debaixo do vaso à entrada de casa ou deixou mesmo a porta encostada.

Nem isso. Foi usada uma expressão desse gênero nesta audição, que é: fizeram essa pergunta e a resposta foi que até havia chaves, não havia era fechaduras nas portas. Tem um bocadinho esta a questão dele.

Obrigado, Cátia.

Obrigada.

A Cátia Rocha é jornalista do Observador e acompanha temas ligados à tecnologia. Assina um especial sobre esta audição no Senado, que tem ainda mais pormenores sobre o que foi dito durante mais de duas horas. Esta foi a história do dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.