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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como é que um coração que não bate mexe tanto com o Brasil? Banda militar. Salva de canhões. E a esquadra da fumaça, como lhe chamam no Brasil, os aviões da Força Aérea que desenham um coração enorme no céu. Depois de ter chegado a bordo de um Rolls-Royce e de passar por todas estas honras de Estado, eis que as câmaras nos mostram que à sua frente ele tem agora o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e a primeira-dama, Michelle, que estão posicionados à entrada do Palácio do Planalto. Mas neste caso não estamos a falar de um qualquer chefe de Estado que está de visita a Brasília, nem tão pouco de uma pessoa. Trata-se de um coração conservado num frasco de formol que pertence ao português mais importante para a história dos brasileiros. Dom Pedro IV para os portugueses, Dom Pedro I para os brasileiros. O homem que deu o famoso Grito de Ipiranga e foi o responsável pela independência do Brasil. Foi a 7 de setembro de 1822 e estamos, por isso, a poucos dias dos 200 anos desse momento histórico. Ora, é precisamente no âmbito das comemorações dos 200 anos da independência do Brasil que o coração de Dom Pedro saiu pela primeira vez de Portugal. A relíquia costuma estar guardada, não a sete, mas a cinco chaves, no Porto, na Igreja da Lapa. Neste episódio da História do Dia, vamos recordar quem foi Dom Pedro IV. Vamos igualmente perceber por que é que o coração do monarca está em Portugal, mas o corpo está sepultado no Brasil. E também por que é que foi recebido no Brasil como se fosse um chefe de Estado vivo. Eu sou o João Santos Tuarte e hoje vou falar com a Rita Pereira Carvalho, jornalista do Observador. Olá, Rita, bem-vinda.
Olá, obrigada.
Vamos começar por uma pequena aula de história, mas muito resumida. Quem foi Dom Pedro IV?
Dom Pedro IV viveu a maior parte da vida no Brasil. Ainda era uma criança quando saiu de Portugal e foi para lá com a família real em 1807. Aliás, com o pai, Dom João VI, e com a mãe, Carlota Joaquina, e foram para fugir à primeira invasão francesa. A corte mais tarde regressou depois da Revolução Liberal, em 1820, mas Dom Pedro não quis voltar a Portugal. Dois anos depois, em 1822, proclamou a independência do Brasil nas margens do Rio Ipiranga e é proclamado imperador do Brasil. Ficou então eternizado o famoso Grito do Ipiranga: "Independência ou morte!" Entretanto, Dom Pedro foi obrigado a regressar a Portugal e começou uma guerra civil entre os liberais e os absolutistas. Dom Pedro estava então do lado da causa liberal e Dom Miguel, o seu irmão, estava do lado dos absolutistas. A luta terminou no Porto, e esta cidade é muito importante e já vamos ver por quê. Dom Miguel foi expulso do país e foi implementada a Carta Constitucional, que foi inspirada na Constituição brasileira. Dom Pedro morreu novo, aos 35 anos, no mesmo quarto onde nasceu, no Palácio de Queluz, e o seu coração sempre pertenceu ao Porto.
O coração de Dom Pedro é o maior tesouro do Porto, porque nada nos vale se não tivermos liberdade. E o significado do coração de Dom Pedro é exatamente o significado da liberdade. Eu creio que para Dom Pedro também a cidade do Porto tinha significado, o significado da liberdade, porque ele conheceu bem a cidade e viu como a cidade se bateu com ele por ela.
Ouvimos aqui então o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, falar da importância desta relíquia para a cidade. Por que é que o coração de Dom Pedro IV está em permanência na cidade do Porto?
Antes de morrer, Dom Pedro escreveu no testamento que pelo menos o seu coração teria de ficar em Portugal, mais especificamente na cidade do Porto, precisamente porque foi a cidade do Porto o símbolo da resistência da luta dos liberais contra os absolutistas, em que Dom Miguel, o seu irmão, estava do lado dos absolutistas e Dom Pedro, do lado dos liberais. E Dom Pedro, que liderava as tropas liberais, viveu nesta cidade durante os meses do Cerco do Porto. Dom Pedro não morreu na cidade invicta, morreu em Queluz em 1834, mas cinco meses depois da sua morte, o coração foi então para o Porto e até chegar à Igreja da Lapa, onde está hoje, ainda passou pelo Palácio das Carrancas e pelo edifício onde está hoje a esquadra da PSP.
E é também no gabinete de Rui Moreira que estão guardadas as chaves que abrem a urna onde está o coração. Ora, normalmente dizemos de um segredo bem guardado que está guardado a sete chaves, mas no caso desta relíquia costumam ser cinco. Esta é uma história curiosa. Explica-nos também um pouco desta história.
Neste caso não são sete, são cinco. E são precisas cinco chaves para chegar ao coração de Dom Pedro. E é também necessária a presença de seis pessoas para completar este processo todo. Primeiro é utilizada uma chave que tem mais ou menos 15 centímetros para abrir a porta de madeira do monumento onde está o coração e depois há mais quatro chaves iguais, ou aparentemente iguais, que vão abrindo os portões até chegar à urna que protege o coração.
E há também um outro pormenor interessante desta história: o coração está em Portugal, mas o corpo do monarca está no Brasil, certo?
Sim, se bem que o corpo também estava em Portugal, no Mosteiro de São Vicente, fora em Lisboa. E o que acontece agora com o coração não é mais do que a história a repetir-se. O Brasil, que vivia em ditadura, pediu os ossos de Dom Pedro a Portugal a propósito da comemoração dos 150 anos da independência do Brasil, para assinalar esta data. Isto foi em 1972 e desde essa altura as ossadas estão no Museu do Ipiranga, em São Paulo, e nunca mais regressaram a Portugal, porque depois de 1972 e depois das ossadas terem ido para o Brasil, Portugal tentou recuperar os restos mortais de Dom Pedro, mas sempre sem sucesso.
Esta é a primeira vez que o coração de Dom Pedro sai de Portugal. Já aqui disseste que esta é uma relíquia que está muito bem guardada. Como é que se preparou esta viagem e o que é que essa preparação implicou?
A viagem e a estadia do coração no Brasil têm sido discutidas nos últimos meses, sobretudo entre o governo do Brasil e a Câmara Municipal do Porto. E neste caso, o coração foi transportado por um avião da Força Aérea do Brasil, que veio buscar o coração a Portugal e o levou para o Brasil. O coração foi colocado num espaço reservado aos passageiros como se tratasse de uma pessoa, num ambiente pressurizado, porque é um coração com quase 200 anos, portanto tem de ter uma pressão e uma temperatura adequadas para voltar a Portugal intacto. E foi também transportado dentro de uma caixa que é usada para transportar e para proteger obras de arte. O Rui Moreira, o presidente da Câmara Municipal do Porto, acompanhou esta viagem, assim como um representante do governo brasileiro. Portanto, o coração esteve sempre acompanhado por representantes do governo português e por representantes do governo brasileiro. Além disso, o comandante da Polícia Municipal do Porto também esteve presente na viagem entre Portugal e o Brasil e está responsável por trazer de volta a relíquia para o Porto.
Fato curioso, viu Lu, é que segundo as autoridades responsáveis pela vinda desta relíquia ao Brasil, o Itamaraty está dando tratamento ao coração do Dom Pedro I como se o imperador estivesse vivo. Fala, inclusive, de um dos responsáveis, ou seja, ele está recebendo tratamento de chefe de Estado aqui em Brasília.
Rita Pereira Carvalho, já aqui referiste que o coração viajou no avião, tal como se fosse um passageiro. E esta semana o Brasil recebeu esta relíquia conservada em formol, exatamente da mesma maneira e com o mesmo protocolo, como se estivesse, por exemplo, a receber Marcelo Rebelo de Sousa ou outro chefe de Estado, certo?
Sim, exatamente. O governo brasileiro já tinha prometido que ia tratar o coração como se Dom Pedro estivesse vivo. E portanto, enquanto chegava ao Palácio do Planalto de carro, seis aviões da Força Aérea fizeram as honras militares e voaram sobre o edifício da presidência. Neste momento de chegada, desenharam as palavras "independência 200 anos", seguida de um coração. E não faltaram as salvas de canhão e o hino nacional. Além disso, tocou também o hino da independência do Brasil, que foi curiosamente composto por Dom Pedro.
Que era um músico nas horas vagas.
Exatamente. Depois de tudo isto, e já no final da cerimônia, Bolsonaro fez um curto, mas mesmo muito curto discurso.
Dois países unidos pela história, ligados pelo coração. 200 anos de independência pela frente, uma eternidade em liberdade. Deus, pátria, família. Viva Portugal, viva o Brasil.
No entanto, apesar de curto, Bolsonaro fez questão de mencionar a máxima do Estado Novo, em referência ao período em que Portugal viveu numa ditadura, Deus, pátria e família.
O coração está então, a partir de agora, em exposição no Brasil. Ele vai ficar apenas em Brasília?
Sim. E esta foi uma das exigências feitas por Portugal durante, e podemos chamar assim, o processo de negociação dos últimos meses. Porque é um órgão muito frágil, que tem quase 200 anos, qualquer alteração de pressão, de temperatura, pode danificar o coração. Fazer uma espécie de tour por várias cidades aumentava as hipóteses de isso acontecer e Portugal quer ter a certeza que o coração regressa nas mesmas condições em que saiu. Por isso, sim, vai ficar apenas em Brasília. E aqui temos uma diferença entre aquilo que aconteceu no século passado e o que está a acontecer agora, porque com as ossadas de Dom Pedro, durante as comemorações dos 150 anos, estas ossadas desfilaram pelas ruas de várias cidades durante cinco meses e vários historiadores e arqueólogos disseram inclusive que as ossadas estavam em muito más condições e até para estudar outras coisas. E, portanto, esta viagem e esta exposição se tornaram impossíveis outros estudos e Portugal certamente não quer que isso agora aconteça.
Internamente, no governo
Houve sim uma orientação, ou pelo menos um aconselhamento ao presidente Bolsonaro, que esse ato de trazer o coração, que claro, atende àquela ala monarquista que existe dentro do governo, mas acima de tudo, esse gesto poderia ajudar na eleição.
Esta viagem da relíquia não é, no entanto, consensual. Há também muitas críticas a esta iniciativa, tanto em Portugal como no Brasil.
Sim, precisamente. Várias e feitas essencialmente, como tinha dito, por historiadores e arqueólogos. Primeiro, porque o coração chegou ao Brasil em plena campanha para as presidenciais e pode ser visto como uma manobra de Bolsonaro. Depois, está a repetir-se uma cerimónia feita em plena ditadura do século passado, que pode trazer muitas memórias ao povo brasileiro. E há ainda quem mencione a falta de contexto histórico. O coração fica em exposição apenas duas semanas, o que é considerado muito pouco tempo. Aliás, uma das arqueólogas que estudou as ossadas de Dom Pedro e que disse que foram as cerimónias em que as ossadas estiveram expostas que impossibilitaram o estudo de muito da história de Dom Pedro. Ela disse que a partir do momento em que há um uso de órgãos humanos para uma simples exposição, sem contexto de ensino, a exibição então torna-se simplesmente bizarra. E portanto, as críticas andam muito à volta desta questão da propaganda política e da falta de contexto histórico que isto tem.
Já aqui referiste que as ossadas nunca chegaram a regressar. E o coração, quando é que está previsto que regresse a Portugal?
O coração deverá voltar no dia 8 de setembro para o Porto, tal como era o desejo de Dom Pedro, e vai ficar nesta cidade novamente em exposição durante dois dias e depois é fechado novamente a cinco chaves e as chaves voltarão para o gabinete de Rui Moreira.
Obrigado, Rita Pereira Carvalho.
Obrigada.
Rita Pereira Carvalho é jornalista do Observador. No site pode encontrar também artigos dela sobre a chegada do coração de Dom Pedro IV ao Brasil. Esta foi a história do dia. Neste episódio ouvimos também sons da TV Brasil, CNN Brasil e Porto Canal. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Até amanhã.