Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: André Ventura avança para Belém, mas quer mesmo ganhar?

É por isso que estas eleições presidenciais não foram uma escolha minha, não são o meu desejo, nem seriam o meu desejo, mas elas são, neste momento, compreendam todos agora ou não, a melhor forma de liderar a oposição em Portugal.

André Ventura confirmou na tarde desta terça-feira que avança mesmo com uma candidatura à Presidência da República. O líder do Chega encontra na corrida uma forma de cimentar a ideia de que é líder da oposição e também o líder de uma mudança do regime. Ventura não queria assumir este papel numa altura em que estamos à beira de autárquicas e uma sondagem recente coloca o Chega na liderança das intenções de voto para as legislativas. Mas Ventura não tinha outra alternativa? E de que forma esta candidatura vem mexer na corrida a Belém? É sobre isto tudo que vou conversar com Inês André Figueiredo, jornalista da seção de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de quarta-feira, 17 de setembro. Bem-vinda, Inês. Onde é que estás agora?

Obrigada, Ricardo. Estou na sede nacional do Chega, em Lisboa, onde André Ventura fez o anúncio sobre a sua candidatura presidencial há poucos minutos.

Exatamente. Estamos a gravar esta conversa já no rescaldo dessa declaração. Mas vamos talvez começar por dar algum contexto. Qual era a ideia inicial do Chega ou mesmo de André Ventura em relação a estas presidenciais de 2026?

A história destas eleições presidenciais já vai muito longa. O primeiro objetivo do partido foi apoiar alguém e nessa fase surgiu o nome de Henrique Gouveia e Melo, que por várias razões agradaria ao eleitorado do Chega, por ser um militar, pela ideia de ordem, por ser alguém que vinha de fora do sistema. Depois o almirante começou a afastar-se e o próprio nome já não agradava a toda a gente, acabou a fazer cada vez mais comichão ao Chega, o que levou André Ventura a chegar-se à frente e a colocar-se na corrida eleitoral. Lembramo-nos que tudo isto aconteceu no início do ano, mas só que a realidade política tem sido muito dinâmica nos últimos tempos. E entretanto houve uma crise política, caiu um governo, houve eleições legislativas e André Ventura chegou a líder da oposição, um cargo que estava a ambicionar há muitos anos e que o deixa mais perto do tão desejado fato de primeiro-ministro. A candidatura de André Ventura ficou em standby durante meses e meses. Ele acabou por nunca desistir desta candidatura, foi só dizendo que ainda não tinha tomado uma decisão. Ainda assim, a intenção do Chega continuou a ser, em primeiro lugar, apoiar um candidato, de preferência um independente, mas alguém que conseguisse uns 10, 11, 12, 13%, que no fundo seriam honrosos para o Chega e que não fosse um candidato como António Tanja Correia, que continua a ser de má memória para o partido e que não daria garantias de fazer uma boa figura quando o partido, neste momento, é o segundo maior partido em termos de deputados.

Exato, Inês. Já que estamos a fazer um ponto de situação sobre o momento em que esta decisão é tomada e anunciada. Nesta altura, a avaliar pelos resultados de uma sondagem recentemente publicada pelo Diário de Notícias, o Chega está à frente nas intenções de voto para as legislativas, portanto está muito bem posicionado.

O Chega está no melhor momento da sua curta história de vida. Conseguiu conquistar 60 deputados nas últimas eleições, tornando André Ventura o tal líder da oposição de que falávamos. E na última semana surgiu essa sondagem de que falavas do Diário de Notícias, que coloca o Chega pela primeira vez no primeiro lugar das intenções de voto. E estes números não são só históricos, porque na verdade nunca um partido que não o PS ou PSD os tinha conseguido, mas acabam por ser um peso extra nos ombros de André Ventura. E esta decisão também é um pouco a prova de que o líder do Chega sentiu esse peso.

Exato. Nesta terça-feira, André Ventura veio dizer, não sei se vou ser maldoso na interpretação, mas no fundo, o que André Ventura vem dizer é: "Eu não queria, eu não queria mesmo ser candidato, mas não tenho alternativa".

Foi isso. André Ventura foi tendo declarações bastante polarizadas relativamente às eleições presidenciais. Tanto foi dizendo que o fato que melhor lhe assenta é o de primeiro-ministro, mas também foi dizendo, já depois de faltarem opções, que o partido não podia entrar em aventuras loucas, que poderiam levar a um desastre para o Chega. No fundo, quis mostrar que o partido não queria ficar fora destas eleições e que até devia ambicionar a segunda volta. Perante isto tudo, e principalmente perante a ideia de que esta segunda volta é uma ambição, a candidatura de André Ventura começava a parecer cada vez mais inevitável, porque obviamente que ninguém no partido dá garantias de um resultado melhor do que aquele que André Ventura dará.

Ou seja, Inês, apesar deste crescimento, apesar deste, aqui numa metáfora futebolística, apesar deste momento de forma do Chega, não há, nesta altura, outra figura com peso suficiente para ser uma alternativa para o partido apoiar numa candidatura a Belém.

No fundo, é isso o resumo. Nós ao longo dos últimos dias fomos falando com vários Várias pessoas do Chega e o único nome que parecia agradar era um nome que por lei não é possível, que é a Rita Matias, que não tem idade suficiente para ser candidata a Belém, mas que chegaria aos jovens que o partido tanto tem conquistado. André Ventura disse nesta conferência de imprensa que não é segredo para ninguém que procurou, que falou com nomes, com outras pessoas possíveis, até chega a dizer que tinha preferido, e isto também não é segredo para ninguém, que Pedro Passos Coelho fosse candidato a presidente da República e que aí, sim, o Chega tinha uma pessoa para apoiar. E já agora, faz um reconhecimento de culpa ao dizer que falhou nesta tarefa. Por outro lado, também diz que o Chega, como líder da oposição, não poderia ficar em silêncio, não poderia ignorar os seus eleitores, que no fundo é como quem diz não podia deixar os votos que têm sido dos eleitores do Chega sem um sítio onde meterem a cruzinha. E isto, mais uma vez, pesou muito nos ombros de André Ventura.

E já voltamos à conversa com a jornalista Inês André Figueiredo. E se Ventura ganha? Estamos de regresso à conversa com Inês André Figueiredo, jornalista da secção de política do Observador. Inês, André Ventura é mais um candidato, e é um candidato de peso aqui no centro-direita. Que tipo de consequência é que isto pode ter na corrida a Belém com os outros candidatos?

Eu arrisco dizer que André Ventura muda completamente o rumo destas eleições presidenciais. Não só há Gouveia e Melo, que por várias indicações que temos de sondagens, vai buscar parte do eleitorado à direita, como há obviamente Luís Marques Mendes, que nem é preciso falar, vem do PSD e é todo esse espaço político que representa, como também já tinha entrado na corrida João Cotrim Figueiredo, que a meu ver pode ser o mais prejudicado com esta opção de André Ventura, já que como se viu nas eleições europeias, consegue ir buscar, roubar um bocadinho o eleitorado mais jovem que tem caído muito para o Chega. Portanto, dificilmente poderia haver uma candidatura neste momento que abanasse mais o espaço de direita do que a entrada de André Ventura em jogo.

E há aqui uma forte possibilidade de André Ventura conseguir passar à segunda volta.

Há vários pesos a colocar na balança para responder essa pergunta. Sabemos que as eleições presidenciais não são umas eleições legislativas.

O presidente precisa de 50% mais um, pelo menos.

Exatamente. Também sabemos que o nome de André Ventura tem muito provavelmente mais valor do que o próprio Chega. Aliás, as primeiras eleições presidenciais a que se candidata foram as primeiras a mostrar isso. Conseguiu suplantar em muito o partido. Depois, há sondagens que abrem de fato espaço a essa possibilidade da tal segunda volta entre Gouveia e Melo e André Ventura. Por fim, há os grandes números com que o Chega vai aparecendo nas últimas eleições, que foram há pouco tempo, e também na sondagem que falávamos há pouco. Não sendo fácil prever, com a atual dispersão à esquerda e mesmo havendo muitos candidatos à direita, Ventura estará bem posicionado, pelo menos para tentar chegar a essa segunda volta.

E isso, Inês, seria uma vitória para o Chega. No fundo, seria o consolidar do Chega no atual panorama político como uma força que já passou o PS e pode ultrapassar o PSD.

Como diria hoje André Ventura, o objetivo do Chega com esta candidatura é ter uma candidatura antissistema contra candidaturas que, aos olhos de André Ventura, são todas alinhadas com o sistema. Portanto, obviamente que passar à segunda volta seria, ele tem dito que queria o fato de primeiro-ministro, mas no fundo seria mais uma vez vestir o fato dessa liderança da oposição, mesmo numas eleições presidenciais.

É curioso estares a dizer isso, que queria o fato de primeiro-ministro. Aliás, já o referiste, no fundo, novamente, Inês, não quero aqui ser maldoso, mas André Ventura não quer ganhar as presidenciais, pois não?

O cenário ideal para André Ventura, aquele que a meu ver lhe permitiria cantar vitória nestas eleições, é ter um bom resultado na primeira volta, que chegue para passar à segunda volta, chegar à segunda volta e perder. Portanto, eu não digo que André Ventura não quer vencer as eleições presidenciais, mas digo antes que seria perfeito para o Chega perder se passasse à segunda volta.

E nós já vimos acontecer muita coisa em pouco tempo, Inês. E se ganhar?

Se ganhar, por muito que haja quem já comece a antecipar que poderia ter alguns poderes a partir da presidência, eu tenho dito que ficará quase exilado cinco anos no Palácio de Belém, com dificuldade em ser presidente da República e presidente do Chega ao mesmo tempo, com muito menor capacidade de fazer campanha e propaganda a que André Ventura nos habituou nas redes sociais, ainda que não me pareça de todo impossível. E no fundo, o Chega deixa de ser o maior ativo do partido no Parlamento, nos debates contra o primeiro-ministro. Até desaparecerá, à partida, não sabemos que tipo de presidente da República seria, mas à partida desapareceria da campanha eleitoral para as eleições legislativas, já para não falar da cola que faltaria ao partido no Parlamento. E André Ventura tem essa capacidade de unir o partido. O partido não é totalmente unido, há várias fações dentro do partido, mas André Ventura é essa cola e isso seria uma dificuldade. E André Ventura já disse, e vou repetir, que quer o fato de primeiro-ministro, por isso também disse que corre riscos com esta eleição. Acho que tudo isto e provavelmente muito mais está na cabeça do líder do Chega neste momento. É o primeiro a assumir riscos, por isso também é o primeiro a poder ter esses riscos na realidade.

Inês, e há aquela ideia também defendida por Pacheco Mourinho, resta a entrevista à Rádio Observador. Ele largou aquela ponta dizendo que o presidente da República também pode presidir ao Conselho de Ministros a convite do primeiro-ministro, como quem quer dizer que Ventura até eventualmente poderia ser um presidente em Belém com um pé no governo, era isso?

Sim, mas acho que isso são tudo planos para quem não consegue, ou para quem se tiver a Presidência da República no meio, não consegue o objetivo primordial que será obviamente chegar ao governo e ser primeiro-ministro. Claro que André Ventura poderia assumir uma postura diferente do Presidente da República, muito mais metido no dia a dia da atualidade política, mas como sabemos a Presidência da República está limitada pelos poderes da Constituição e André Ventura pelo menos esses não poderia ultrapassar.

Obrigado, Inês.

Obrigada, Ricardo.

Inês André Figueiredo é jornalista da secção de política do Observador. Ficam ainda algumas notas importantes para esta quarta-feira. No âmbito do processo de escolha do novo governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira é ouvido no Parlamento. No Reino Unido, Donald Trump e Melania iniciam oficialmente a segunda visita de Estado ao Reino Unido em Windsor com os monarcas britânicos. Uma visita que ocorre num momento complicado politicamente para o primeiro-ministro Keir Starmer. E por cá, assinala-se o Dia da Língua Mirandesa. O mirandês foi reconhecido como língua em 1999. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.