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Esta é a história do dia da Rádio Observador: 20 dias num apagão permanente.
Estado de calamidade da meia-noite. Decidimos prolongar até ao próximo dia 8.
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Calamidade até ao próximo dia 15.
É provável que a esta altura já sinta um certo cansaço. Liga a rádio, liga a televisão e de manhã à noite é sempre a mesma coisa: tempestade.
Isto aqui levantou e foi pra ali. E foi pra ali, sim, para o lençol. Não quero imaginar quando entrar dentro de casa, o que é que tenho lá dentro. Tivemos que comprar tudo, telhas e tudo.
Nós perdemos o contacto, móvel.
Aquele radiador a gás, para não termos frio.
Há um momento em que o excesso de relatos começa a ter o efeito contrário, como se fosse uma anestesia lenta. As histórias passam-nos à frente dos olhos, mas já não doem da mesma maneira, porque parecem todas iguais. Vinte dias da mesma tragédia. Daí a pergunta: ainda conseguimos colocar-nos no lugar do outro, no lugar de quem, 20 dias depois, por exemplo, continua sem eletricidade?
O que é que podemos fazer só com água fria? Não se pode tomar banho, não dá para cozinhar porque não temos luz. E pronto, andamos a salsichas, ovos e atum, que é realmente o que nos chega.
Consegue imaginar a sua vida assim? Não por uma noite, mas durante quase três semanas. Como é que se vive sem luz? Como é que se organiza um dia inteiro quando o básico deixa de existir? Como é que se aquece a casa? Como é que se toma banho? Como é que se faz o jantar? Como é que se deita uma criança sem saber quando é que a luz volta? E talvez a pergunta mais difícil: em que dia é que a esperança começa a ceder ao desespero?
É complicado. Complicado.
Hoje vou falar com Álvaro Cardoso, presidente da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria. Quero, com esta conversa, fazer uma coisa simples e difícil ao mesmo tempo: levar-nos até lá, colocar-nos no lugar de quem vive há 20 dias num apagão permanente. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 18 de janeiro. Olá, senhor presidente, bem-vindo.
Obrigado pelo convite. É um prazer estar a falar convosco.
Muito obrigado, o prazer é todo nosso, até porque temos muito gosto que partilhe conosco as histórias que se vivem ainda em Vieira de Leiria, passados tantos dias. Vamos, se calhar, começar por fazer essa viagem, tentar transportar quem nos está a ouvir para aquilo que o senhor vê e ouve todos os dias. Quando anda pelas ruas, o que é que vê à sua volta ainda agora?
Olhe, continuo a ver um rasto de devastação, na sequência da tempestade Christine, que assolou fortemente o nosso território. Segundo os entendidos, o olho da tempestade entrou, efetivamente, pela praia da Vieira, atingiu passando pela freguesia e depois seguindo o seu rumo. E deixou, efetivamente, como referi há bocadinho, um rasto de grande destruição. Felizmente, tivemos a bênção de todos, no território, estarmos vivos. Isso é uma bênção que nós saudamos. Se tivesse sido durante o dia, se calhar, as consequências ao nível de gravidade humana seria bem pior. E estamos a tentar fazer tudo por tudo o que estiver ao nosso alcance para nos reerguermos com grandes constrangimentos, nomeadamente naquilo que às infraestruturas essenciais para a nossa vivência em sociedade, se possa fazer com condições dignas.
Há quem faça um bocadinho a comparação com aquilo que se vive aí, que se vê aí, com, às vezes, um cenário de guerra, onde as coisas estão efetivamente destruídas. E talvez não seja exagerado fazer essa comparação, tendo em conta o que vê à sua volta, certo?
Sim, eu nunca vivi esses espaços, esses territórios, mas sim, por aquilo que se vê nos filmes, é um bocadinho isso. E aquilo que as pessoas nos relatam do que vivenciaram naquelas duas ou três horas, ao ouvirem o ruído, quer do vento, quer dos seus telhados a voar, foram momentos de grande agonia, de grande sofrimento. E depois a constatação quando a luz do dia chegou e viram o estado em que o seu património se encontrava.
Imagino como é que deve ter sido o choque das pessoas por aí. Agora diga-me uma coisa, nós estamos há cerca de 20 dias, que passaram já desde essa grande tempestade da Christine. Ainda há pessoas sem eletricidade por aí. Quantas pessoas?
Infelizmente, ainda existe um número considerável de pessoas sem luz. Temos reportado à E-Redes, num link que foi criado para o efeito, mas muitas vezes nem temos o feedback, nem recebemos o retorno da parte da população que as situações fossem atendidas. E isso cria algum sentimento de injustiça e simultaneamente de revolta, porque veem os vizinhos, veem um conjunto dos seus pares, da sua população, com luz, que é um bem essencial no nosso quotidiano, adaptámo-nos a ela e hoje dificilmente vivemos sem ela para termos alguma qualidade de vida. Tudo nos nossos lados depende da energia elétrica e, portanto, uma das grandes preocupações que nos tem sido manifestada pela nossa população é efetivamente a energia elétrica e as telecomunicações.
E como é que as pessoas estão a organizar-se para viver sem luz? O que está a perceber que as pessoas estão a fazer? Porque o senhor presidente disse que é um bem essencial para as nossas tarefas do dia a dia e estamos a falar de coisas básicas, quer dizer, aquecer o jantar, aquecer água para tomar um banho. Como é que as pessoas estão a viver estes dias?
Ao nível da alimentação, e num processo que se estava a linear e que estava em velocidade de cruzeiro, digamos assim, de converter tudo o que era sistemas de gás para sistemas elétricos, este fato veio também dificultar, ao nível alimentar, a vida das pessoas. No entanto, a solidariedade que se gerou de norte a sul do país, este movimento, esta onda solidária que se gerou, veio atenuar e fomos recebendo muitos equipamentos a gás que vieram minimizar ou pelo menos colmatar algum destes grandes constrangimentos. A energia elétrica, tivemos também ofertas de vários equipamentos a gás, de iluminação a gás, tentámos atenuar também isso. Portanto, para a sobrevivência das pessoas, improvisou-se um bocadinho e voltámos um bocadinho atrás no tempo, às antigas lareiras, a um conjunto alternativo disso, porque efetivamente, apesar de nos ser facultado alguns geradores, a fragilidade financeira de algumas pessoas não se compadecia com os custos que estão associados. Daí que a energia elétrica seja, neste momento, a principal preocupação e a principal reclamação, no bom sentido, por parte das pessoas. Elas estão ansiosas em cada casa, em cada lar. A principal preocupação é efetivamente a energia elétrica, as telecomunicações com mais rede, menos rede, deslocando-se mais 1 km ou menos 1 km, e as pessoas ainda vão fazendo algumas comunicações. Agora, efetivamente, a energia elétrica constatou-se nesta tempestade que é um bem essencial à vida hoje em sociedade.
Ó senhor presidente, eu já lhe vou perguntar daqui a pouco como é que tem sido também a sua vida todos estes dias, que imagino que tenham sido passados no terreno. Já voltamos a conversar. E estamos de volta à conversa com o presidente da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, uma das mais afetadas pela tempestade Christine, já há muitos dias. Estávamos a conversar sobre o fato de passados tantos dias ainda haver muita gente sem luz elétrica em casa. Senhor presidente, quando há pouco me falava das pessoas que já estão mais ansiosas, já estão um bocadinho impacientes, tem sentido com o passar dos dias que o espírito das pessoas vai mudando? Estão a ficar mais revoltadas, estão a ficar mais impacientes, mais desesperadas?
Sim, é verdade. Costuma-se dizer que a paciência tem limites. Cá pelos nossos territórios fala-se desta forma, a paciência tem limites e estamos a chegar ao 20º dia e 20 dias sem infraestruturas essenciais à nossa vida quotidiana. É efetivamente um grande sofrimento. E depois associado, como me referi há bocadinho, à questão de injustiça, mas porque é que o meu vizinho tem, porque é que eu não tenho? Porque é que continuamos nesta senda esquecidos e abandonados? E é efetivamente à Junta, porque é a entidade que está mais próxima dos cidadãos, que chegam todas estas manifestações. Nós vamos alimentando alguma esperança que já chegou ao vizinho, que pode ser que chegue próximo, mas para quem já vem há 20 dias a sofrer deste problema, muitas vezes não é fácil e as nossas palavras, por muito que sejam de esperança, não são suficientes para acalentar o sofrimento por que eles estão a passar.
Fica frustrado. Como é que se lida com isso? Eu imagino que os seus dias sejam passados, agora sobretudo estes últimos 20, a ouvir pessoas, a andar pela rua, como é que tem sido?
Para além da frustração, é o sentimento de impotência, de querer e não conseguir satisfazer as necessidades, porque tentámos daquilo que nos foi humanamente possível e ao nível dos bens de primeira necessidade, e continuo aqui a reiterar a questão da onda de voluntariado que se criou de norte a sul do país, de empresas, de associações, de pessoas a nível individual. Por via dessa mesma solidariedade, conseguimos aquilo que são os bens essenciais: a alimentação, a higiene, o vestuário, materiais de construção, serviços de mão de obra para reposição dos telhados. Tudo isso temos à disposição, por via deste movimento de voluntariado e que, no fundo, vai atenuando este sofrimento e vai criando também algum ânimo nas pessoas, porque sabem que há outras pessoas que não sofrendo este problema, estão a ajudar, estão connosco. Falta-nos aquilo que não conseguimos controlar. Isto nós conseguimos, com muito apoio, como referi, a alimentação, os bens essenciais. Conseguimos de várias partes do país muitos materiais, essencialmente as telhas, telas que vieram, alguns destes materiais. Não conseguimos resolver o problema das infraestruturas básicas, porque não estão nas nossas mãos. Não obstante, reportamos sistematicamente, fazermos alguma pressão.
E se tivesse uma palavra a dizer a quem nos está a ouvir e que tem luz, água quente e internet em casa e está a viver a sua vida normal, o que é que gostava de lhe explicar relativamente à vida das pessoas que vivem aí na sua freguesia, às vidas com que se cruzou e aos problemas que tem vivido e que tem presenciado e testemunhado nestes últimos dias?
Que a natureza os poupe de uma devastação desta natureza. Infelizmente, cada vez constatamos que estes fenómenos são mais assíduos e o que eu desejo, e é isso que desejo quando vêm os voluntários para junto de nós ou vêm bens oferecidos, que nunca tenhamos que retribuir da mesma forma e nestas circunstâncias, porque a natureza é uma força que não conseguimos efectivamente controlar.
Senhor presidente, muito obrigado e desejo-lhe toda a força para o trabalho que ainda tem pela frente e que a comunidade de que é presidente consiga recuperar rapidamente a normalidade que for possível.
Agradeço-lhe esta mensagem e este grito de alerta e de esperança que temos, que se mantém entre nós. Obrigado pela oportunidade.
Muito obrigado nós.
Obrigado.
Álvaro Cardoso é o presidente da Junta de Freguesia de Vieira de Leiria, uma terra que nos últimos anos, entre tempestades e incêndios, tem posto à prova os limites da resiliência. Ali vivem cerca de 5000 pessoas e com a passagem da tempestade Christine, uma parte significativa delas ficou, até agora, sem luz. O relato que Vítor Cardoso aqui nos deixou é suficientemente duro para nos deixar a pensar como é que isto foi possível. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benovides. Até amanhã.