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Olá, bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secador e comigo está Alberto Correia, historiador aqui, especialista na história e nas tradições desta região centro. Falamos das cavalhadas outro dia, falamos da Feira de São Mateus aqui neste espaço. Hoje vamos falar aqui de uma fonte, de um edifício, de uma zona aqui da cidade de Viseu, concretamente a Fonte do Poveiro, a Fonte de São Francisco, que é também um símbolo como uma fonte de amores. Estamos a falar do quê? Desta Porta dos Cavaleiros, desta zona onde fica o Passo dos Albuquerques, certo? E desta fonte mesmo aqui ao lado.

Ora, saúde também os ouvintes. Falamos hoje também de um emblema da cidade, esta Fonte de São Francisco, que tem e mantém hoje uma marca do século XVIII, portanto de estilo barroco, e que eu chamei Berço dos Amores. Esta fonte tem já uma longa tradição, deve ter sido substituída uma velha fonte mais tarde por aquela que ali está, com uma determinada imponência, o seu tanque de lavar, o pórtico envolvente com o nicho de São Francisco que lhe dá o nome. E ela fica encostada a uma das muralhas da cidade, a muralha dita afoncina do século XV, muralha que tem ali uma porta e que logo na margem da porta, sobranceira à própria porta, até com porta aberta para a cimalha da muralha, fica a chamada Casa dos Albuquerques, onde ao tempo em que se passa esta nossa história que eu vou contar e que foi contada na sua essência pelo escritor Camilo Castelo Branco, que em determinada altura, preso durante 15 dias na cadeia da relação do Porto, se entreteve construindo com essa força tamanha do seu génio, o Amor de Perdição.

Exatamente.

Esse Amor de Perdição tem lugar em Viseu e tem lugar centrado aqui na própria casa dos Albuquerques e junto à Fonte de São Francisco. É assim a pequena história que ele conta dentro do romance que constitui a sua essência, que iria um dia dar lugar a um excelente filme de Manoel de Oliveira. Havia, como filha da Casa dos Albuquerques, uma jovenzinha que andaria pelos 16 anos.

Fidalga.

Estava sendo recostada por um primo, Baltazar.

O Baltazar era o pretendente dela. Estava prometida, digamos assim, ao Baltazar.

Era um pretenso pretendente e era um pretendente aos amores de Teresa Albuquerque.

Mas não era o preferido.

Poucos anos mais velho do que ela. Simplesmente, a paixão de Teresa Albuquerque era Simão Botelho, portanto, um outro membro de uma família rival da família dos Albuquerques. Como tal, nem uma família, nem outra gostariam deste enlace.

Exatamente.

Só que Teresa também não queria o enlace com o primo, também ligado à família de ramo Albuquerques, e preferia Simão. Claro que um dia encontram-se junto à fonte, Simão requestando como namorado Teresa Albuquerque, viria à janela, e o Baltazar que aparece com os seus criados. Travam-se numa luta e o que acontece é que Simão mata o rival, mata Baltazar. Não foge, fica ali, enfim, estático, esperando o que poderia acontecer. Claro que o que acontecia verdadeiramente é que ele seria incriminado, seria eventualmente mandado para a forca. Só que a sua família, importante também, fez com que, em vez da forca, lhe processassem o degredo para a Índia. E assim vai para o Porto para um dia em que um barco parta para a Índia, ele seja levado nesse mesmo barco.

Para ser desterrado, exilado.

Ora, isso aconteceu quando Teresa é também Encerrada num convento do Porto. O fim desta história de uma grande paixão entre dois enamorados, uma espécie de Romeu e Julieta de tempos mais modernos e de tempos de Viseu, acontece que a tragédia acontece como essa da história de Simão.

De Shakespeare.

Embarca num dos barcos para ir pra Índia e vai acompanhado por uma sua namorada a quem ele não correspondia como tal, uma espécie de criada que o servia e que era filha de um ferrador que tinha a sua tenda em Viseu e portanto relacionado com a família. Mariana acompanha-o também nessa viagem de degredo. Simão adoece, passado pouco tempo ele morre. É, como acontecia sempre, envolto num lençol, numa mortalha, e é atirado ao mar.

Portanto ele morreu em alto-mar mesmo.

Morreu em alto-mar. A apaixonada Mariana, que da borda do navio olhava o seu apaixonado, atira-se também para o mar, abraça-se ao cadáver amortalhado e com ele morre.

É uma tragédia.

Teresa, no convento, também morrerá de amores passado pouco tempo. É uma história de paixão que marca também poderosamente e de uma forma muito bonita este imaginário que é grandioso em Viseu.

Diria que esta tragédia, falou no Romeu e Julieta, talvez para Verona, acha que a Teresa e o Simão estariam, por exemplo, como Pedro e Inês para Coimbra? Teresa e Simão estariam para Viseu como um casal com um amor não compreendido e com um fim tão trágico?

Sim.

De certo modo tem a ver, não é?

É um quadro similar. Nós aqui estamos um pouco no domínio do imaginário. Em Viseu estamos no domínio do imaginário. Em Coimbra, apesar da Quinta das Lágrimas, do sangue numa fonte que ainda se pode ver, o sangue de Inês degolada. Portanto há uma assimilação, só que num dos lados há uma verdade, no outro temos apenas fantasia. Temos apenas imaginário. De qualquer modo, são duas notáveis histórias de amor.

Muito bem. Por hoje é tudo, despeço-me aqui. Bem-haja e até amanhã.