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Olá, sejam todos bem-vindos. Esta é a "História das Histórias", eu sou o João Paulo Sacadura e, em Viseu, Alberto Correia vai hoje falar-nos dos bordados de Tibaldinho, uma arte de mulher. Vamos a isso. Alberto, bem-vindo.

Tibaldinho é um pequeno povoado da freguesia de Alcafache, conhecido ao longe pelas suas águas termais que rebentam quentes, sulfurosas, penhor de saúde, à beira do rio Dão. Tibaldinho tem jeito de aldeia implantada na meia encosta soalheira da margem esquerda do rio e a sua fama advém-lhe dos especiosos bordados que ali tiveram berço, parece, e onde permanecem activos graças ao fervor e amor das bordadeiras. Mulheres com filhos criados, raparigas na idade núbil, crianças de idade tenrinha cultivam esta arte do bordado desde há um tempo longo, que terá séculos, mas é nos finais do século XIX que se encontra com suficiência o rasto deste lavor de arte que hoje ainda se mantém ocioso, ora classificado o bordado como produção certificada, tendo a Câmara Municipal de Mangualde como entidade promotora e uma região abrangente que inclui os municípios de Mangualde, Nelas e Viseu. É esta arte secular que eu evoco com alguma poesia no meu texto. Quando a mulher é rapariga nova, borda e sonha ao mesmo tempo, recorta corações no linho cru ou no pano de algodão, alvoroçada, porque o seu desenho é como um poema numa carta de amor. Quando a mulher é já mulher, casada e cansada das lides da vida, borda e recorda. Ela é firma no amor maduro e a beleza que absorve da paisagem coloca-a toda em seu bordado. As bordadeiras são artesãs. Mulheres da aldeia sentam-se na varanda ou nos balcões soalheiros e aproveitam toda a luz da tarde. Estendem no regaço panos de linho ou de algodão, riscam desenhos. Bordados são os pontos miudinhos dados com saber, dedos ligeiros conduzindo a agulha que deixa sempre o rasto de obra-prima. E bordam, bordam enxovais de noivas com lençóis floridos e almofadas com monogramas festivos e panos redondos para o centro das mesas e toalhas de chá para mesas de ricos e toalhas de altar, de Páscoa, de batizado, que antigamente se guardavam em baús de lata com raminhos de alfazema. Bordam lenços, panos de tabuleiro, camisinhas de criança. Antigamente bordavam com poesia todas as vestes alvas da intimidade da mulher. A riqueza dos motivos que elas bordam tem só o gosto popular. Os símbolos foram inventados há mil anos e perduram. O significado é denso e linear ao mesmo tempo e a alma da gente compreende-os tão bem como as primeiras coisas. São rosas, corações, estrelas, astros florais com pétalas que se desfolham às vezes, eleios que se dobram como gestos envergonhados, crivos que lembram os velhos fioltos de amor, óculos que deixam passar a magia da luz. Os desenhos das bordadeiras ficam sempre a brincar sob o nosso olhar.

Que bela homenagem a estes bordados de Tibaldinho. Muito bem, uma arte de mulher. Tão criativos, sempre tão curiosos. Muito bem, Alberto. Nós para hoje estamos conversados. Marcamos encontro para a semana. Bem-haja, até para a semana.

Então, até para a semana.