Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, sejam muito bem-vindos. Já sabe, esta é a História das Histórias, eu sou o João Paulo Secadora e é Jorge Adolfo Marques, historiador e arqueólogo, que nos vai falar hoje. Nós fomos avançando nesta semana, desde a pré-história e monumentos megalíticos da Orca, que nós falámos, aquela anta do princípio de segunda-feira, até hoje, sexta, que vamos falar das casas-torre de Lafões, ali pra zona de Vouzela. No fundo, uma forma de habitar. Vamos falar das casas onde morava a nobreza medieval. Vamos a isso, Jorge. Bem-vindo, vamos a isso.
Muito obrigado. De facto, nós avançámos. Temos vindo aqui a fazer uma viagem no tempo. Começámos lá na longínqua pré-história, no Neolítico final, e viemos pelos romanos e pela Idade Média mais antiga, o período da Reconquista. E agora chegámos aqui a um período bastante interessante, que é a chamada Baixa Idade Média. É aquela Idade Média mais próxima de nós. Digamos, século XII, XIII, XIV. Portanto, um período em que o reino de Portugal já existe, às vezes com uma saúde um bocado débil, devido a conflitos políticos que foram existindo, mas que estava perfeitamente consolidado. Um tipo de habitação muito curioso e que foi moda por toda a Europa, nós encontramos este tipo de construção um pouco por toda a Europa, são as chamadas casas-torre. As casas-torre, que em latim, nos documentos medievais, aparecem referidos como domus fortis. Fortis, forte. Torre domus é casa. Portanto, as domus fortis, que foram muito comuns a partir do século XII, em Portugal também começaram a ser construídas logo no último quartel do século XII, por um nobre, Lourenço Fernandes da Cunha, que edificou uma casa-torre. Estas casas-torre eram muito semelhantes àquilo que nós também costumamos observar nos castelos, a chamada torre de menagem. É uma torre, embora sendo uma torre que está no meio de uma estrutura defensiva, militar, de maior dimensão. Quando há uma casa-torre numa determinada localidade, como por exemplo, aquelas que existem no Conselho de Vouzela, mas também aqui no Conselho de Mangualde, a Torre de Gandufe, que está muito arruinada, mas que pode ser visitada. Aliás, todas elas podem ser visitadas. A Torre de Vilharigues, a Torre de Cambra, a Torre de Alcofra, isto para falar no Conselho de Vouzela. Geralmente, as populações olham para estas torres e dizem que é o castelo.
Sim.
Até na estrada encontram-se placas assim: "O castelo de Vilharigues, o castelo de Vilharigues, o castelo de Cambra". Portanto, há esta associação àquele edifício, àquela estrutura, a uma fortaleza. E o próprio nome domus fortis. Domus, casa forte, casa torre. Leva também a esta associação. E elas, para além disso, têm uma característica arquitetônica, que é ter ameias na parte superior. Ameias como os castelos têm.
Os merlões, não é?
Exatamente. É uma característica da arquitetura militar medieval, que tinha a ver com o tipo de defesa que se pretendia fazer a partir do interior para o exterior. Portanto, no fundo, era uma forma de os arqueiros ou os besteiros que se encontravam no circuito de ronda dos castelos, das muralhas, dos castelos, conseguiam estar ali protegidos pelos merlões, mas no intervalo entre eles disparar umas setas ou umas lanças. Portanto, é um elemento defensivo dessa arquitetura. Estas torres também têm isso. As curuólas, é tipo coroa. As curuólas tinham esse sistema defensivo.
Portanto, ainda era uma altura de grandes conflitos, ainda era preciso construir essas casas nobres com essa defesa cupulada, para proteger.
Sendo que é mais como símbolo do que propriamente como elemento de guerra. É um símbolo. E quem é que constrói estas torres? Isto é um aspecto importante. É uma nobreza que se instala no seio dos seus domínios, constrói uma casa. Mais tarde vamos ter, por exemplo, no século XVII e XVIII, os nobres que constroem os seus solares, no seio das suas quintas. E aqui a nossa região da Beira Alta, em Viseu, e a região de Oriense, e todo o norte, todo o país, ao fim ao cabo. Essa construção desses solares barrocos. Até muitos deles, é curioso, também têm torreões. Esses solares do século XVIII têm a arquitetura, tem um corpo central e tem dois torreões laterais. E as curuólas têm Ameias. É aquela nostalgia da Idade Média, da nobreza, para dar a ideia de grande antiguidade e grandes percalços dessa nobreza, dos seus proprietários. Constroem, edificam esses palácios muito mais tardios com essas características da Idade Média. Ora, estas torres, estas casas-torre, são casas de habitação. Evidentemente que também no castelo e na torre de menagem tinha os aposentos do alcaide, do senhor que comandava aquele castelo. Mas aqui, estas torres, localizadas no seio das propriedades daquele nobre que constrói aquela casa. É uma nobreza com, pelo menos, um piso térreo, fechado, um primeiro piso e um segundo piso, todos eles sobradados.
Com chão de madeira, tábuas.
Exatamente, sobrado. E a estrutura interior era em madeira. Portanto, o que é que nós temos hoje? O que é que nós encontramos em muitos sítios? É a torre, mas só as paredes da torre, porque o interior ardeu, apodreceu, caiu, desapareceu.
Muitas vezes era canibalizado, como as pedras boas. As pessoas iam lá, os vizinhos iam lá aproveitar as boas pedras e as boas madeiras, claro.
Exatamente. Aquelas torres que eu referi há pouco, por exemplo, a torre de Vilharigues, só tem duas paredes intactas, quase intactas. A torre de Câmara também apresenta um grau de destruição em, pelo menos, duas das paredes. A de Gandufe, que eu referi também, em Mangualde, tem também só uma parede e não está intacta essa parede. Agora, fruto de trabalhos arqueológicos, é que foi possível também encontrar a planta toda da torre. Quer dizer, nós temos ali uma parede e temos outra parede, ok.
Os vestígios do solo, consegue descobrir.
Há de ter as outras duas partes. Exatamente. Por exemplo, no caso de Câmara e da torre de Alcofra, no Conselho de Vouzela, as portas estão lá. A torre de Alcofra também é digna de ser visitada, porque ela encontra-se toda intacta. Ela foi objeto de uma recuperação, de uma musealização do seu interior, com uma estrutura metálica que foi aplicada no seu interior. Aliás, como a de Vilharigues também, numa intervenção que foi algo polêmica pra algumas pessoas, porque a torre tinha só duas paredes e foi lhe aplicada uma estrutura paralelepipédica no interior, mas que permite hoje, a quem a visita, ter a percepção do senhor que lá viveu com a família, do piso superior, qual era a percepção da paisagem. E é completamente diferente de visitar uma torre dessas a nível do solo ou no segundo andar, que eram os aposentos desse senhor. Enquanto que no piso de baixo era sala onde se comia, onde se recebia quem ia lá visitar.
Ou ia à despacha.
Ou ia à despacha. E a parte fechada, que se podia ter um acesso a partir do soalho desse primeiro piso, era tipo armazém, onde se guardavam todo tipo de objetos e de produtos.
Alimentares, também.
Exatamente. Agora, não quer dizer, nós hoje olhamos para a torre e está só aquela estrutura em pedra, com belos silhares, eventualmente com mata-cães, para se defenderem.
Mata-cães eram aqueles buracos por baixo das varandas.
Exatamente. E geralmente essa varanda, que é o balcão, são balcões, estavam em sítios mais vulneráveis. É o que acontece também nos castelos. Sobre as entradas dos castelos, geralmente há esses balcões, que é pra fazer tiro vertical.
Ou pra verter água a ferver.
Ou deitar azeite ou água a ferver.
Exato.
Ou os calhaus.
Como a gente via nos filmes.
Exatamente.
E algumas dessas torres também tinham frestas e assim, não tinham seteiras.
Exatamente. Ou seja, esses elementos como as ameias, as frestas, os balcões, são elementos arquitetônicos de uma defesa ativa. Ao contrário, estamos aqui já no século XIII, XIV. Isto é, em que as estruturas militares, os castelos, deixam ter apenas uma configuração passiva, de defesa passiva. Isto é, iam lá pra dentro as populações, as tropas, o alcaide, e ficavam lá à espera que os que estavam a sitiar se aborrecêssem e fossem embora.
Se cansassem do cerco, exato.
Se cansassem e fossem embora. Então ficavam ali durante semanas, eventualmente meses, e os que estavam no interior, por falta de água, de alimento, acabavam por morrer ou rendiam-se.
Ou rendiam-se, claro.
A partir desta altura, século XII, XIII, os castelos góticos começam a ter estes elementos de defesa ativa. É, ok, venha nos cercar, mas também atiramos, também nos defendemos. E estas torres, estas casas-torre, têm esses elementos Como é o caso destas que eu referi há pouco, quer no Conselho de Vouzela, e eu faço aqui publicidade sobretudo à torre de Alcofra, que está visitável e tem elementos positivos no seu interior muito interessantes. E depois outras que existem aqui no território, nomeadamente a de Gandufe, também o Passo de Lamas.
Ali em Satão também.
Em Satão, na freguesia de Ferreira de Aves. Esse Passo de Lamas tem um aspecto curioso: é que esse Passo de Lamas foi edificado pelos Pachecos, que eram senhores de Ferreira de Aves. Tinha à volta um fosso, portanto, um elemento também de defesa. Tinha à volta um fosso, que ainda estão lá vestígios. E essa família que vivia lá, vai ser um aspecto interessante, é que o Dom Lopo Fernandes Pacheco e a sua mulher, Dona Maria Gomes Taveira, estão sepultados. Aonde? Na Sé de Lisboa. Em dois belíssimos sarcófagos que se encontram lá, na Sé de Lisboa, em calcário, de Liós, portanto, dois belíssimos sarcófagos.
Até com estátuas acentes, os dois.
Exatamente, com estátuas acentes.
Em Liós. Bonito.
E que, veja-se bem, a relação entre essas estátuas, essas personalidades, e esse Passo de Lamas, que tem uma torre e depois foi-lhe acrescentado um corpo já posterior. Mas a torre original está lá, pode ser visitada, embora com autorização dos proprietários, porque continua a ser habitação dos proprietários daquela quinta, mas em todo caso, trata-se de um lugar extraordinário. Como é, por exemplo, a Torre da Lagarica em Resende. Ou a de Lourosa.
Há uma série delas.
Torres destas encontramos um pouco por todo o nosso país, sobretudo no norte de Portugal, e corresponde a essa fase em que a nobreza se instala nos seus domínios.
Muito bem, até pelas centúrias de 200 e 300, até depois mais tarde 500. Ficamos com uma ideia destas casas-torres que falámos, e falaste em particular as casas-torre de Lafões, em Vouzela, e outras que mencionaste também. Muito bem, então por hoje temos conversado. Jorge Adolfo Marques, marcamos encontro com muita vontade de te ouvir outra vez amanhã. Bem-hajas, até amanhã.