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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu, João Paulo Secadura, estou aqui para acolher Alberto Correia, ele em Viseu, este grande historiador e investigador da história e das tradições de toda esta região Centro. Hoje fala-nos de uma coisa que eu gosto particularmente: o assador de castanhas. E fala do pouso da vendedeira numa rua de Viseu. Vamos lá ouvir mais estas memórias.
"Mas as castanhas são tão bonitas com sua oval fantasiosa, seu sépia de veludo, tão tenras quando espreitam juntinhas às duas, às três e até às quatro, inclusa a boneca do ouriço arreganhado, tão bonitas até mesmo no chão, uma das faces plana, outra convexa, à semelhança da broa do açafrate, que o equilíbrio se perfaz na pulcritude e quantidade". Isto escreveu Aquilino Ribeiro no livro "Cinco Reis de Gente". Quando o verão já ia adentro e as castanhas se anunciavam fartas nos soutos da Beira ou de Trás-os-Montes, os oleiros de todas as oficinas lembravam-se a uma que era o tempo de fazer os assadores. Bisalhães, Vilar de Nantes, Santa Comba ou Barreira, na beira transmontana, e mais aquém, Molelos, Carvalhar da Louça, na beira plena. E era então o reinventar dessa peça tão antiga como todas as outras que já vinham do tempo dos avós. Peça esquisita, levantada sobre a roda como se fosse púcara ou panela que estivesse para nascer, e o oleiro entretanto se detivesse na reserva deste tronco de cone, que transfigura com a posição de um bordo em gola esvasada e duas asas laterais opostas e fitiformes. Às vezes, o oleiro criava uma forma quase esferoidal e prendia-lhe uma asa à maneira de cesta. Em ambos os casos, perfurava com furador de madeira o corpo das peças, ato que justificaria o fim a que as mesmas se destinavam: a colocação sobre o brasido, cujo calor atravessaria deste modo e mais facilmente as paredes do assador. Vendiam-se nas feiras. Vila Nova de Foz Côa, Trancoso, Guardaveira, Tondela e na feira franca de Viseu. Os camponeses compravam-nas ali, os assadores, ou compravam-nos à porta, na aldeia, onde às vezes se trocavam por uma malga de feijão. E nas velhas cozinhas, as castanhas assavam lentamente, agitadas a espaços com o gesto certo de mão, que amparava as asas quentes protegidas com um trapo. Hoje, ainda há quem compre assadores de barro nas tendas dos últimos oleiros ou nas feiras para assar castanhas, esse pão da gente que vem do princípio do mundo. Lembro-me, como muita gente haverá de lembrar, a mulher que ao fundo da rua Direita, em Viseu, pousara anos sem fim, acocorada à parede, o assador de barro sobre o brasido, o cheirinho bom das castanhas a assar e o seu pregão: "Quentes e boas, ó freguês". Sabiam bem as castanhas quentinhas, a casca estaladiça coberta com uma leve poalha cor de cinza, no agasalho dessa inventada cornucópia feita com a folha de uma velha lista telefónica das antigas páginas amarelas.
Que já não existem e que eu sinto que fazem muita falta. Também sou claro desse tempo. E hoje em dia, Alberto, até vendem uma espécie de envelopes num papel pardo, que já tem o sítio para as castanhas e ao lado tem um bolso extra para pormos as cascas, como se não fosse uma coisa biodegradável. Mas também tenho muitas saudades desse tempo. O Alberto lembra-se de em sua casa alguma vez, eu tenho quase a certeza que isto lhe aconteceu, irem a algum vendedor ou a algum oleiro vender à sua casa um destes assadores e a sua mãe lhe comprar e depois pagar-lhes com uma malga de sopa ou uma coisa assim. Isto é do seu tempo, lembra-se bem disto ou não? Destes vendedores que iam de porta em porta.
Não acontecia exatamente. Havia quem fosse pedir. No entanto, as castanhas não eram exatamente oferta em termos de esmola a pobre, embora se oferecessem. Tanto o lavrador da terra que podia oferecer uma cesta delas, um punhado delas àquelas famílias que eventualmente fossem mais pobres ou tivessem colaborado com trabalhos durante o verão para essa mesma família.
Muito bem. Sim, senhora, mais uma memória que ficámos, uma rica memória de Alberto Correia. Alberto, marcamos então encontro amanhã. Bem-haja, até amanhã.
Até amanhã.