Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá, sejam bem-vindos à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura. Já sabe, comigo tenho Alberto Correia, esse historiador beirão que tanto sabe sobre antropologia cultural, sobre as tradições desta região centro, arqueologia. Ele que foi diretor 18 anos do Museu Grão Vasco. O canto dos Martírios do Senhor é este tema, esta tradição quaresmal que vamos ouvir hoje. Já tivemos uma crônica ontem que se passava na Várzea, nesta aldeia da Várzea, que fica em Calde, no distrito de Viseu. E hoje é o tal canto dos Martírios do Senhor, ou como também se diz, da Encomendação das Almas do Purgatório. O que nos pode contar sobre esta tão antiga tradição secular?

Exatamente. Às vezes, desaparecida em muitas aldeias. Hoje, muitas aldeias ou vilas já a recuperaram como instrumento turístico também. Aqui, no nosso caso da Várzea, já há dezenas de anos que se cumpre esta tradição e que aqui é dita Martírios do Senhor. Esta Várzea, que nós já referimos como a aldeia de Portugal, um título que recebeu muito recentemente. Já aqui evocamos o Toco de São Francisco, a que eu chamo uma mística fogueira, que poderia assimilar à queima do seco de Natal, e que se cumpre anualmente durante a Quaresma, durante os 40 dias da sua duração, esse antigo ritual que é designado Martírios do Senhor e que em outras aldeias se celebram, como disse, Encomendação das Almas. Logo após a terça-feira de Carnaval, ao anoitecer, um grupo de cerca de 12 a 15 homens costuma reunir-se no local da aldeia onde há uma capela, um cruzeiro, um nicho de devoção, mas depois subdivide-se. Três ou quatro homens ficam ali. Um segundo grupo avança cerca de 50 metros e o mesmo faz um terceiro e um quarto grupo. Então, o primeiro grupo entoa a primeira estrofe de um cântico de teor quaresmal que evoca as almas do purgatório. E mal termina essa estrofe, avança para um novo pouso. E logo, o segundo grupo entoa a segunda estrofe desse cântico e avança até colocar-se mais longe, a seguir ao posicionamento do primeiro grupo. E o mesmo formulário acontece com o terceiro e o quarto grupo. Quando um dos cânticos termina, inicia um novo cântico de temática também quaresmal. E durante o percurso, que demora sensivelmente uma hora, entoam sete cânticos, procedendo sempre da mesma maneira, com essa rotatividade dos grupos. Encerram o percurso sempre junto de um pequeno monumento religioso, uma capela, a capela de São Francisco, um nicho de devoção, um cruzeiro, às vezes umas alminhas também por lá há, lá onde iniciarão os cânticos no dia imediato. A aldeia mantém-se em silêncio nessa hora, com respeito. Geralmente, a meio do longo percurso, que dura cerca de uma hora, há uma família que abre as portas da casa e oferece aos cantadores uma bebida quente e adoçada com mel, que ali é abundante, agradável, sobretudo em noites frias e chuvosas. O último cântico de uma série de sete, acontece por norma junto de um cruzeiro que existe numa das principais praças da aldeia. Esta tradição vem de há séculos e era comum ser cumprida em quase todas as aldeias. Às vezes, apenas por mulheres. Às vezes, apenas em alguns dos dias da Quaresma. Perdeu-se depois, no tempo, este cerimonial. Num quadro de turismo de temática religiosa, muitas aldeias hoje voltaram a celebrar com cânticos alusivos este cerimonial dos Martírios do Senhor ou da Encomendação das Almas do Purgatório, como é dito em alguns lugares.

Muito bonita esta tradição e ainda bem que, de certo modo, este novo turismo, digamos assim, de caráter religioso, pode reavivar e veio reavivar algumas destas tradições. Alberto, isto chegava a ser feito todos os 40 dias da Quaresma. Hoje em dia, quando acontece, se calhar não é todos os dias, mas que fosse uma vez por semana já não era mau. Isto hoje voltou a pegar-se em mais algumas aldeias ou é só na Várzea?

Eu falo aqui porque durante os 40 dias, quer chova, quer faça frio ou faça luar, os homens, aqui apenas acontece com homens. Há sempre.

Sim.

No distrito de Viseu, havia já aqui no Conselho de Tondela uma celebração deste gênero. Nas vizinhanças desta mesma aldeia, há um outro grupo que procede a um mesmo cerimonial, mas não é todos os dias.

Sim.

E é curioso que hoje, dada também já esta tonalidade turística que estes cantares assumem, estes grupos, nalguns dos dias, já vão cantar também a uma aldeia da vizinhança.

Mais do que uma aldeia, sim.

O grupo de lá oriundo, que também canta uma encomendação das almas, etc, vem também à Várzea em termos de retorno e isso é também interessante.

Claro que sim. Estava agora a pensar, Alberto, que quem assiste a isto, deve ser profundamente tocante isto de a aldeia, como o Alberto contou, em respeito, estar em silêncio, enquanto aqueles homens vão cantando e depois passam pro grupo seguinte, depois arrancam os seguintes a cantar e avançam pro grupo seguinte. Deve ser muito bonito e ao mesmo tempo tocante, profundamente tocante, haver este silêncio respeitoso a acompanhar todo este percurso da encomendação das almas. Sim, senhor.

É uma tônica, esse respeito que ainda hoje se mantém, mesmo por quem não seja eventualmente crente.

Exatamente. Mas pelo menos tem esse respeito. Muito bem, Alberto Correia, estamos conversados por hoje. Bem-haja e até amanhã.

Até amanhã.