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Olá, seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e de fato, quem nós vimos aqui ouvir é o Jorge Adolfo Marques, o historiador, que tanto sabe e tanto tem jeito para nos contar e para nos fazer passear e viajar, não só pela geografia como aconteceu ontem, mas também pela história. Hoje vamos voltar a este herói mítico, o Viriato. Vamos falar um cadinho mais sobre este herói lusitano, tivemos umas sessões dedicadas a ele na semana passada, mas parece que hoje ainda há um rematezinho a fazer. Vamos a isso. Viriato há de ser sempre o tema.
O Viriato, esse grande herói lusitano. E começo por aqui, esse grande herói lusitano, luso-espanhol. Porque ele, quer de um lado, quer do outro da fronteira, é venerado como o grande herói. Nós num dos programas que dedicamos falámos precisamente em Zamora, onde se encontra uma estátua que ali foi erguida ao nosso ideial, Viriato.
Um herói local, regional.
É, porque o que eu vou dizer agora explica já a razão de ser venerado, ser homenageado, quer de um lado, quer do outro da fronteira. Porque importa referir o seguinte: Estrabão, um daqueles autores que nós referimos, romano, do século I antes de Cristo, numa obra que ele escreveu intitulada "Geografia", no livro terceiro dessa obra, que a Lusitânia era o maior agregado populacional dos Iberos e o combatido durante a guerra com os romanos. Mas ele diz que essa região, essa Lusitânia, era delimitada de um lado, do lado sul, tinha o Tejo, a oeste e a norte, o oceano, e a este, os Carpetanos, os Vetónios, os Vacceios e os Galaicos, quer dizer, que era uma série de outros povos ibéricos que habitavam precisamente a península. E, portanto, ele diz: "De um lado o mar, a sul o Tejo, e do outro lado aqueles povos todos". Para além destes povos, o Estrabão nomeia uma série de outros povos que habitavam a península Ibérica e que revelam precisamente quem é que os romanos foram encontrar na sua conquista, à medida que foram conquistando o território. Eu na altura ainda referi, nos programas, que os lusitanos e os galaicos constituíam uma grande etnia, mas que tinha dois ramos. Esses dois ramos depois também se subdividiam em povos mais pequenos, que os romanos designavam de populi, nas palavras de Plínio, o Velho. Uma vez também a propósito de Viseu, referi que Viseu era a capital de uma civitates, corretamente lendo, que era uma unidade territorial político-administrativa. Portanto, os romanos estabeleceram estas civitates, essa espécie de distritos político-administrativos, a partir dos povos pré-existentes, a partir desses territórios que cada um desses povos dominava. Portanto, o que procuraram manter essa divisão cultural que existia. Mas em 27 antes de Cristo, a província ulterior foi dividida na Bética e Lusitânia.
Bética mais a sul, que corresponde mais ou menos à Andaluzia. Aquela parte mais a sul.
Exato. A sul, a Bética. E, portanto, a Lusitânia integrou quem? Os lusitanos. Sendo que a Lusitânia que os romanos vão criar não é o território que era dos lusitanos, é maior, é um território maior. Depois temos pelo caminho, neste processo, fizemos referência às guerras do Viriato. Nós só conhecemos as guerras que o Viriato travou a partir dos autores greco-latinos. Esses autores é que escreveram sobre ele. E portanto, foram contando a história à medida da época em que contavam, à medida que o tempo foi passando, vão relatando os acontecimentos que não viveram. Esses autores não viveram esses acontecimentos que o Viriato viveu.
Porque são posteriores.
São muito posteriores, eles vivem muito depois, porque as guerras do Viriato são, importa dizer, entre 146 antes de Cristo e 139 antes de Cristo. Portanto, é um período relativamente pequeno de tempo. Mas a verdade é que é um século, dois séculos, três séculos depois que temos esses autores a falar sobre eles. Nós agora relatarmos um acontecimento, uma batalha, um conflito, uma desavença política que ocorreu há 300 anos. Mas sem as fontes que nós temos hoje. Porque nós hoje temos fontes históricas, documentos escritos, textos, literatura. Agora imagine-se à época. Passado uns séculos, e aqui é que se liga a relação com Viseu, com a cidade de Viseu. Ela vai nascer essencialmente pela mão do tal frei Bernardo de Brito, que viveu no século XVI e início XVII. Esse frei Bernardo de Brito, monge de Alcobaça, vai escrever uma obra que é a "Monarquia Lusitana". E é aí que ele vai ligar o Viriato a Viseu. Portanto, ele vai ser o pai e a mãe. A paternidade dessa ligação de Viriato, de colocar Viriato no sítio onde hoje é Viseu, é de frei Bernardo Brito. É curioso, ele coloca o Viriato a atacar a Cava de Viriato, porque era entendido que a Cava era uma fortificação romana. E, portanto, ele vai colocar o Viriato a atacar. E depois todos os escritores, os poetas, os romancistas, os cronistas portugueses que vão escrever sobre o assunto no século XVII, XVIII, XIX, XX.
Já usam a fonte da "Monarquia Lusitana", claro.
Vão sempre seguir essa fonte. E, por exemplo, talvez o maior, o que sucede a frei Bernardo Brito nesta mitologia é Brás Garcia de Mascarenhas. Eu até referi que eles vivem no período de domínio castelhano, portanto, fazem em espelho os lusitanos que lutavam contra os romanos, agora lutavam contra os castelhanos, os portugueses. Os portugueses são os lusitanos de ontem, ou se preferimos, são os lusitanos de hoje, à altura, à época. E, portanto, esta mitologia radica aqui.
E só para tratar isto, uma coisa muito breve, Jorge, desculpa. E a Cava de Viriato, está mesmo provada que a origem seja romana? Consegue se perceber isso?
Não, não é romana.
Não é. Eu tinha ideia que não.
Não é romana.
Mas podia até imaginar. Pedras como o fadado, este tanto de coisas. Portanto, havia como em Bobadela, faz de conta, que já falaste. Podia haver referências que fosse.
Ao longo dos séculos, nos lugares que continuam a ser habitados, os sítios que continuam a ser habitados, as populações que vêm a seguir reutilizam as pedras e outros materiais.
Empregamos como se fosse pedreira, exato.
Como se fosse uma pedreira. Nós temos muitos monumentos. Olhe, por exemplo, nós falámos aqui do Castelo de Celorico da Beira. O Castelo de Celorico da Beira serviu de pedreira, com aquelas pedras já todas talhadas.
Aparelhadas, exato.
Aparelhadas. Serviu de pedreira para a construção das casas da vila que cresceu em torno de Celorico. E isto aconteceu por todo o lado.
Exatamente, claro.
Os castelos que se tornaram obsoletos, que se tornaram arquitetura militar obsoleta.
Serviram de matéria-prima para as construções futuras.
Isto aconteceu em Roma com todos os mármores que foram transformados em cal para a construção depois de épocas posteriores. Portanto, isto que aconteceu relativamente a esta mitologia vai se enraizar, e vai se enraizar ainda mais no início do século XX com Adolf Schulten, que nós fizemos a referência, e quando ele coloca o Viriato, dizendo, o Adolf Schulten, que publica a obra Viriato e que vai ter uma grande recepção em Portugal quando é publicada, e vai dizer que o Viriato é oriundo da Lusitânia Ocidental. Ora, a Lusitânia Ocidental seria território atualmente português, e que ele vivia no Mons Erminius. E fazendo corresponder o Mons Erminius à Serra da Estrela, muitos autores fizeram isso, era juntar um mais um. Ora, o Viriato não podia ser de outro sítio que não da Serra da Estrela. A Serra da Estrela é a maior serra que está mais próxima de Viseu.
É aqui que radica essa ligação a Viseu. Já percebemos de onde vem. Graças a um monge cisterciense, já percebi, de Alcobaça.
De Alcobaça. Sendo que hoje, os historiadores, eu fiz referência ao professor Jorge Alarcão, e não só, e outros historiadores e arqueólogos, Manuel Rial, Catarina Tente, e antes deles outras propostas da doutora Helena Catarino, Vasco Gil Mantas, que propuseram, estes últimos dois, uma construção da cava na época muçulmana, provavelmente ligada ao Mansor, quando passou com as suas tropas por aqui a caminho de entrar em Coimbra. Mas mais recentemente, quer o professor Alarcão, quer os restantes arqueólogos, consideram que a construção da cava é uma construção que está ligada ao rei Ramiro, que teve a sua corte aqui em Viseu no período da Reconquista, portanto, estamos a falar do século X, o que não diminui a importância da Cava de Viriato. Claro, Viriato nada tem a ver com aquilo. Já o frei Bernardo Brito dizia que aquilo era um acampamento romano.
Ficamos a saber.
Aquilo nada tem a ver com acampamento romano.
Muito bem. De novo, voltamos ao herói lusitano, ao Viriato. Jorge, nós marcamos encontro amanhã. Bem-hajas. Obrigado, até amanhã.
Grande abraço.