O início do discurso não foi sobre a noite eleitoral, nem sobre as projeções.

Quando Benjamin Netanyahu começou a falar aos seus apoiantes no quartel-general do Likud na madrugada desta quarta-feira — já depois das 3h da manhã (1h em Lisboa) —, o primeiro tema em que se focou foi no Irão. “Destruímos uma ameaça existencial. Atacámos o regime iraniano, que está agora mais fraco do que nunca”, começou por dizer aos presentes. Depois, deixou uma garantia: “Ainda não acabámos. Porque enquanto o regime de Khamenei existir, vai ter gravado nas suas bandeiras e tarjas a nossa destruição. Mas, com o nosso maravilhoso amigo Donald Trump, decidimos que temos de remover essa ameaça de uma vez por todas.”

Só depois de prometer continuar a combater o regime de Teerão — nem que seja no período em que se mantiver como primeiro-ministro interino, o que ainda durará pelo menos algumas semanas —, é que o líder do Likud comentou os desenvolvimentos da noite. À altura, com menos de 20% dos votos contados, as projeções já tinham mudado várias vezes ao longo da noite e dividiam-se: naquele momento, das que inicialmente davam a vitória ao grupo de Gadi Eisenkot, agora duas previam um empate (com 51 deputados para cada bloco, sendo necessários 61 para ter maioria) e uma dava a vitória ao campo de Netanyahu.

“O Likud é o maior partido do Estado de Israel. Não é possível negar”, começou por dizer o primeiro-ministro, apontando para o facto de que em todas as projeções o seu partido surge sempre como o mais votado. Depois, reivindicando legitimidade para liderar as futuras negociações, afirmou que “o bloco da direita tem uma maioria significativa e decisiva”. “Temos de estabelecer um governo nacionalista de direita”, disse, repetindo algumas vezes ao longo do discurso a necessidade de uma “maioria sionista”, o que pode indiciar abertura para negociar com outros partidos que apoiam atualmente Gadi Eisenkot.

O adversário também se havia declarado vencedor horas antes, mas, à altura, uma das projeções ainda não tinha virado para Netanyahu. No seu discurso, o general não deu nenhuma indicação direta de estar a ponderar formar uma aliança com os partidos árabes, que obtiveram um crescimento histórico. Preferiu antes repetir as condições que lhes impôs ao longo da campanha, que incluem objetivos como a condenação do Hamas e a defesa de um Estado sionista.

Apesar disso, o primeiro-ministro não hesitou em tentar colar o adversário aos partidos árabes, que representam uma fatia significativa da população do país (cerca de 20%): “É proibido que ponhamos em perigo Israel ao estabelecer um governo que se apoia em partidos árabes que são antissionistas, que se opõem à nossa existência, que apoiam o Hamas e chamam assassinos e criminosos de guerra aos nossos soldados.”

No final do discurso, Netanyahu voltou a centrar-se no tema que lhe parece mais caro neste momento: a necessidade de esmagar o regime iraniano. “Vamos derrotar os nossos inimigos”, prometeu. “O leão vai rugir” — uma referência ao nome da operação militar da ofensiva norte-americana e israelita em curso — “e ninguém será verdadeiramente capaz de nos derrotar.”