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Depois de termos conhecido um pouco da história da Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, vamos começar a entrar por dentro do círculo familiar de Aristides de Sousa Mendes, o herói internacional que salvou mais de 14 mil pessoas na época do Holocausto. Estamos agora na primeira sala referente à família, à história também desta casa, a Casa do Passal, onde nos encontramos, e que começa a revelar um pouco já desta esfera familiar que aqui viveu. Não a casa de nascimento de Aristides de Sousa Mendes, mas a casa onde acabou por passar toda a sua vida. Mas muito melhor do que eu, quem nos vai explicar isto é Luís Medeiros, aqui comigo. Olá, Luís.
É efetivamente a casa das memórias felizes. Passou aqui 45 anos e uma curiosidade é que esta casa não foi efetivamente a casa onde Aristides nasceu. Nasceu numa outra casa chamada Casa do Aido, aqui a 300 metros, também em Cabanas de Viriato, mas esta foi prenda de casamento em 1909, por parte de um padrinho abastado, o reverendo Abranches, que era prior de Alcobaça e que ofereceu esta casa a Angelina e Aristides. E aqui criaram então as suas memórias em família durante 45 anos. Efetivamente, temos que perceber que durante alguns anos esta era a casa de veraneio, a casa de férias, porque Aristides servia Portugal lá fora. Trabalhou três décadas enquanto cônsul de Portugal em vários países, mas aqui era o destino da família sempre que vinha a Portugal ou quando não podia estar junto de Aristides nos postos consulares, aqui estava Angelina Sousa Mendes e a sua prole de filhos.
E nesta sala estamos já rodeados de várias fotografias, que acabam por nos mostrar já um pouco da esfera familiar de Aristides de Sousa Mendes, também da sua descendência. E estamos perante uma grande fotografia que mostra um outro lado de Aristides de Sousa Mendes, não é verdade?
Um lado a que as pessoas estão muito pouco habituadas. Quem acompanha a história do cônsul vê com frequência fotografias em que está numa postura bastante mais concentrada, mais séria, no seu papel de diplomata. Desta feita, e na primeira sala de visita neste museu, as boas-vindas são dadas desta forma, numa imagem inédita em que o cônsul está sorridente, de orelha a orelha. Uma fotografia tirada precisamente nesta sala em 1942 e na sua companhia tem então Angelina de Sousa Mendes, uma prima da família, e, eu tenho sempre que os contar só para não me enganar, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito dos seus filhos.
Dos 15 filhos.
Oito dos seus 15 filhos, precisamente.
E esta sala é também ainda composta por outros objetos que certamente pertenciam a esta casa, mas algo que chama bastante a atenção dentro desta sala são chaves que estão suspensas no teto por vários fios. Isto para quem nos ouve perceber um pouco melhor como é que estão expostas estas chaves, que têm certamente um significado.
Neste caso, têm dois, duplo significado. Todas as salas deste museu têm sempre uma peça âncora, uma peça-chave a partir do teto, que nos remete efetivamente para a temática daquela sala. Neste caso em particular, as chaves têm dois significados. É um objeto que nos remete sempre para a ideia de casa, do nosso refúgio, do nosso espaço, mas neste caso é também uma das tradições mais simbólicas da comunidade judaica, que ao longo dos anos e com muitas perseguições, quando tinha que abandonar a sua casa e o seu país, a única coisa que guardava era a chave, na esperança de um dia poder voltar.
Uma realidade que mostra aquilo que acontecia antes e que acaba por mostrar um pouco daquilo que continua a acontecer noutros pontos do globo. Esta que é uma sala que conta mais um pouco da história de Aristides de Sousa Mendes, uma das muitas salas que compõem este museu, esta casa-museu, se assim a podemos chamar, a Casa do Passal, aqui em Cabanas de Viriato, e que vale a pena conhecer. Há também nesta sala ainda várias imagens que nos remetem para o passado daquilo que foi esta casa antes de, infelizmente, ter sido vendida e depois ter sido deixada ao abandono, mas que agora renasceu e está transformada num museu que foi inaugurado numa data especial, a data do aniversário de Aristides de Sousa Mendes. E é nesta sala que termina o episódio de hoje da "Nossa Cultura" da Rádio Observador.