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Continuamos aqui na Quinta da Cruz, nesta exposição temporária intitulada "Sopro Luminar", uma exposição baseada na fotografia e um dos elementos mais importantes da mesma: a luz. Sandra Oliveira, estamos aqui numa das salas. Sei que não podemos dividir esta exposição por espaços, mas sim por narrativas. Então pergunto-lhe, até porque estamos a olhar para duas fotografias de Lisboa, da autoria de Paulo Catrica. Estas fotografias são em período diário, ou seja, têm a luz espalhada por toda a sua extensão.
Antes de entrarmos nos artistas, eu gostava de poder falar um bocadinho sobre o sopro luminar e como é que foi feita a seleção destas fotografias. A curadoria é uma disciplina muito importante para poder selecionar as fotografias dentro de uma coleção. E o Miguel encontrou este denominador comum, muito importante também na história da arte, que é a luz, tanto na pintura, não existe fotografia sem luz. Desculpem este barulho, mas são os alunos.
Já lá vamos, até porque tem bastante aceitação na comunidade escolar.
Acabei de fazer uma visita guiada. O denominador comum que é a luz. Esta exposição demonstra também, ou propõe, um olhar para vários dispositivos diferentes. Ou seja, nós temos aqui fotografia analógica, fotografia digital, fotografia de pequeno formato, de médio formato, grande formato, de gelatina e prata. Temos vários tipos de fotógrafos, vários tipos de meios e fotógrafos intergeracionais. Ou seja, não é só um tipo ou um olhar cronológico sobre a coleção, é mais um olhar a partir da luz, como é que os fotógrafos e como é que estes artistas se relacionaram com Portugal. Isto é uma perspectiva também de Portugal, mas também se relacionaram com os meios e os dispositivos diferentes. Por exemplo, nesta sala temos duas imagens do Catrica, que revelam muito do seu trabalho, que tem a ver com a paisagem urbana e o retrato social à época da relação da intervenção humana na paisagem. Estas fotografias aparentemente são datadas, mas essa data é propositada. A maior parte da exposição tem uma certa intemporalidade, ou seja, são fotografias muito subjetivas que atravessam o tempo sem o lado pejorativo de serem datadas num espaço temporal. Mas neste caso é super deliberado, porque é esta a natureza do trabalho do Catrica, identificar a paisagem urbana e a forma como as sociedades vivem nelas, neste caso, Portugal, e nestas periferias de Lisboa.
Falar, neste caso, uma fotografia de Oeiras e também de um jogo de futebol entre o Pontinha e o Via Longa, datada de 2003.
Aqui consegue-se ver perfeitamente como é que é a vida da sociedade portuguesa nestas periferias de Lisboa, neste período de tempo. Vê-se bem a arquitetura, vê-se perfeitamente a cidade do outro lado. Tem várias camadas e vários layers que podemos perceber, no fundo, o contexto social de como estas pessoas vivem e na sua relação com a cidade maior.
Estamos a passar agora para outra sala, até porque outra, neste caso, um pequeno corredor onde vemos uma fotografia de Duarte Belo, datado de 1995, de uma cidade que é aqui relativamente perto, não só o Pinhal, mas também aqui um retrato da cidade do Porto, bem junto à Ponte Dom Luís.
Esta fotografia do Gabriel Basílico é de 95 e esta fotografia do Duarte Belo também é de 95 e são ambas feitas em prova de gelatina e prata. Estas fotografias foram feitas também de encomenda, no fundo, porque os encontros de fotografia fizeram este trabalho incrível que foi encomendarem aos artistas três passos fundamentais em Portugal: o Sul, fotografar o Sul, que tem um livro catálogo que está disponível aqui nesta exposição para vocês poderem ver o contexto dessas encomendas e dessa residência artística, que na altura não se chamava assim. O Duarte Belo foi fotografar a linha de fronteira, a parte do norte, onde há muito granito
A zona raiana.
Exatamente. Essa zona raiana, como se sabe, tem um denominador comum que é imenso granito e bastante árido. O Duarte Belo, que é um fotógrafo português que tem um espólio de mais de 1 milhão de fotografias sobre Portugal ao longo de 40 anos, conhece profundamente o território. Esta fotografia foi selecionada e feita pelo Duarte Belo para ilustrar as características específicas do lugar, da zona raiana. Toda esta brutalidade e toda esta composição demonstra muito mais do que a sociedade, consegue-se perceber a natureza social do lugar através da sua morfologia. Eu penso, não sei se ele fez isso, mas penso que ele escolheu estas duas peças para estarem lado a lado, porque embora sejam da mesma data, também têm o mesmo meio, ou seja, são provas feitas em gelatina e prata, que permite mostrar tecnicamente ou evidenciar muito mais esta porosidade, esta robustez, esta solidez destes volumes graníticos que demonstram a característica do lugar. Por oposição, ao lado, está uma peça do Basílico.
Uma variação entre um Portugal mais profundo e a metrópole, pode-se dizer.
Sim, mas se reparar, um denominador comum das duas são estes maciços granitos que estão em ambas as peças. Ou seja, o granito é o denominador comum, mas depois os contextos são bastante diferentes. Ou seja, aqui temos uma imagem de um Porto, como estão a ver, a Ponte São Luís, é um lugar icónico, toda a gente conhece o Porto.
Mesmo ao lado da escadaria que as pessoas costumam muito usar para subir, caso não estejam em cima do tabuleiro, neste caso, o tabuleiro superior.
Certo, precisamente. Qualquer pessoa do Porto ou que conheça o Porto, conhece esta zona e é icónica. Ou seja, é uma imagem que reflete muito o que é o Porto ou o que foi o Porto nesta data, nos anos 90. Aqui temos duas fotografias que se opõem. Mas por quê? Porque aqui vê-se muito a intervenção humana na paisagem com a ponte e toda a arquitetura envolvente, que define o que é o lugar. E aqui, como estamos na zona raiana, a intervenção humana não é tão forte como numa metrópole ou numa grande cidade e o fotógrafo relaciona o granito com o resto da paisagem sem vermos a intervenção humana.
E vamos continuar a explorar esta exposição sobre o luminar nos próximos episódios aqui na cidade de Viseu.