Estamos num fim de semana com temperaturas a subir. No início do que vai ser uma onda de calor. Com 38ºC de máxima e mais de 20ºC de mínima. A dias da chegada do outono, que começa já na próxima quarta-feira cinco minutos depois da uma da manhã. E as perguntas mais ouvidas são ‘quando é que este calor acaba?’ ou ‘quando é que chega o frio?’. Pois bem: os vários modelos meteorológicos já lançaram as suas previsões sazonais. Sobre o que teremos até final do ano ou mesmo até ao final do inverno.
Todas as previsões já conhecidas têm um nome que as cruza: o El Niño, que pode ser o mais forte de sempre. Lá para dezembro confirmar-se-á. Mas a influência da grande anomalia do Pacífico só se fará sentir por interpostos fenómenos na meteorologia europeia. E, para o que nos interessa, que tempo fará em Portugal? Depois do inverno do ‘comboio de tempestades’, o que se pode esperar para 2026/2027? É muito difícil dizer, é uma das divergências das previsões, porque Portugal tem uma posição especial no puzzle meteorológico da circulação do Atlântico norte.
Há um factor essencial que torna sempre Portugal uma das grandes incógnitas. Chama-se storm track e define o caminho preferencial por onde vão passar em cada ano as depressões. Só que esta estrada, que no ano passado esteve quase sempre aberta na direção de Portugal, depende muito de quem a constrói: a circulação Atlântica, o jet stream, o vórtex polar, a NOA (Oscilação do Atlântico Norte — North Atlantic Oscillation) mais a EA (padrão do Atlântico Este — East Atlantic Pattern). E como para toda esta conjugação, aí sim, o El Niño conta, as previsões não são fáceis: bastam pequenas descidas do jato polar ou do anticiclone dos Açores, para se repetir o inverno passado. Mas há já alguns dados sobre os quais todas as previsões convergem. A Europa deve ter um inverno ameno nas temperaturas, com muito pouca neve, mas chuvoso.
É possível saber já em setembro, e ainda antes do outono, como vai ser o inverno?
Antes de olhar em concreto para Portugal é preciso explicar o que são estas previsões sazonais. Começaram agora a ser publicadas por vários institutos e especialistas em meteorologia, apontam para as probabilidades a três ou seis meses e não são a mesma coisa que a previsão do tempo. Não dizem se vai chover ou fazer sol no dia X do mês Y. Isso só é possível fazer com grande grau de certeza a três ou quatro dias e ainda com alguma confiança a nove ou dez dias. Nas sazonais estamos apenas perante modelos matemáticos que criam probabilidades face aos padrões.
▲ Como vai estar a circulação atmosférica de acordo com o cruzamento dos modelos já conhecidos
O ECMWF (Modelo numérico de previsão do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a médio prazo) trabalha com ensembles. São dezenas de simulações que partem de condições iniciais ligeiramente diferentes para depois procurar alterações nas probabilidades de determinados padrões atmosféricos nos meses em análise. O próprio IPMA, Instituto Português do Mar e da Atmosfera, explica que o grau de confiança da previsão sazonal diminui à medida que o horizonte temporal aumenta. Daí que seja impossível dizer se vai chover no dia de Carnaval ou se estará a nevar na Serra da Estrela no início de fevereiro.
Mas há dados que já é possível antecipar. Ou melhor, sinais atmosféricos. E permitem dar respostas a perguntas como: ‘A probabilidade do trimestre (ou do inverno) ser mais frio ou mais quente do que o normal é maior ou menor?”, “E de ser mais chuvoso?”, “E de ter mais neve?”.
Para Portugal, a previsão sazonal usada pelo IPMA tem como base o Copernicus Climate Change Service. Trata-se de um sistema multimodelo que reúne as previsões dos principais centros meteorológicos internacionais. Mas quanto mais concreta for a tentativa de previsão — Quantas tempestades? Quantas vagas de frio? Neve no Natal? Sol no Ano Novo —, menor é a possibilidade de dar uma resposta agora em setembro.
Já existem alguns sinais indicativos para Portugal?
Já existe mesmo uma previsão sazonal oficial para Portugal. Foi publicada pelo IPMA a 17 de setembro. Mostra que a temperatura média deverá ficar acima do normal no continente durante este último trimestre até final do ano. Ou seja, um outubro, novembro e dezembro mais quentes do que o normal para a época.
O sinal é de que as temperaturas sejam superiores até 1,5ºC. Em concreto, entre +0,5 a +1,0 ºC em outubro e novembro e entre +0,5 a +1,5 ºC em dezembro. As maiores anomalias de calor estão previstas para o interior. O sinal apontado pelo IPMA coincide com o da previsão sazonal europeia do Copernicus/C3S, que foi atualizada a 10 de setembro. E que fala de um inverno ameno, com temperaturas acima da média, praticamente em todos os países europeus.
Mas ter uma média de temperaturas acima do normal não significa que todos os dias serão quentes. Muito menos que não surjam dias gelados. Um inverno mais quente em média não significa que não tenha uma vaga de frio intensa.
Rita Cardoso, investigadora em Meteorologia do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha precisamente em variabilidade climática, fenómenos extremos e modelação climática. Estudou também a sucessão de tempestades de 2025/26. Mas não é uma seguidora das previsões sazonais. Diz que muitas vezes nem olha para elas. “As previsões sazonais para Portugal a maior parte das vezes não têm sinal. Têm um sinal agora, mas depois, quando chega a altura, não é nada daquilo que acontece. As previsões sazonais não são uma ferramenta boa para para a nossa região”. E explica porque não se aplicam a Portugal. “O modelo não é capaz de representar o nosso clima com tanta antecedência, com um mês de antecedência, sim, mais antecedência não é capaz. A fiabilidade do modelo é muito e muito fraca para Portugal.”
O ‘comboio de tempestades’ pode acontecer novamente?
As previsões sazonais não conseguem antecipar em setembro quantas tempestades nos vão atingir. Nem quando. Nem se serão mais ou menos intensas. Mas conseguem dar algumas pistas sobre o mais importante: que estrada pode estar já a ser construída para elas percorrerem e onde é que ela termina. Saber a storm track, a rota preferencial para as depressões atlânticas neste inverno, ajudará a perceber se Portugal está ou não no seu caminho.
Se esse corredor ficar mais a norte, como era habitual, a previsão é simples. As depressões irão sobretudo em direção ao Reino Unido e ao norte da Europa e Portugal ficará sob abrigo da influência anticiclónica. Mas se o caminho descer em latitude, também não há como errar. A possibilidade das depressões e respectivas frentes atingirem Portugal e a Península Ibérica é muito grande e o anticiclone dos Açores pode entrar de novo numa espécie de hibernação.
Portanto, quanto mais cedo se perceber melhor esta rota, mais fácil será responder à pergunta. Não se vai chover muito, mas se voltará a acontecer o mesmo do inverno passado, que se mantém na memória e na paisagem. “Isso é completamente impossível dizer, porque aquilo que aconteceu no ano passado foi um fenómeno isolado. Pode acontecer. Mas aquele inverno anómalo, de tanta água, tanta tempestade é impossível dizer”, diz Rita Cardoso.
Vai chover muito ou pouco durante o inverno?
As previsões sazonais sobre a chuva não são tão garantidas como as das temperaturas. A confiança é consideravelmente menor. No entanto, já surgiram também os primeiros sinais. O IPMA prevê já para outubro uma anomalia positiva de precipitação de 5 a 10 mm no norte do país. Para novembro e dezembro, o sinal abrange também o centro e aumenta para +5 a +20 mm (mm são litros por metro quadrado). Traduzindo, os modelos apontam para mais chuva do que o habitual no norte e no centro.
▲ A anomalia de chuva para o inverno, que se prevê húmido em toda a Europa
São previsões muito semelhantes às que são feitas para a Europa. O Copernicus/C3S antecipa um inverno mais húmido do que o habitual na maioria dos países europeus. Deixa no entanto um sublinhado para o que podem ser exceções: as margens sul e norte da Europa.
Portugal está precisamente perto dessa fronteira sul. Pode ser uma das exceções. “Estamos no limite inferior de fronteiras. Falar de Inglaterra é uma coisa. Falar do centro da Europa é outra. Se estivemos a falar do Pacífico então aí as previsões sazonais são mais do que certeiras. Em Portugal, a maior parte das vezes não”, explica Rita Cardoso.
Não vai fazer frio?
É impossível prever uma vaga de frio numa previsão sazonal. É verdade que todos os modelos já conhecidos apontam para um inverno ameno. O Copernicus3S antecipa temperaturas acima da média praticamente em toda a Europa.A Severe Weather Europe, com base nos atuais modelos do ECMWF e em outros modelos sazonais, converge também na análise: uma circulação atlântica morna.
Mas, mais uma vez, a média não elimina extremos. O inverno pode acabar 1ºC acima da média e ter uma semana gelada pelo meio. Algumas previsões mostram mesmo sinais de anomalias mais frias no sudoeste da Europa, sul da Península, Norte de África e Mediterrâneo, sobretudo em janeiro e fevereiro.
E vai nevar?
Sobre a neve a confiança nas previsões sazonais baixa ainda mais. Não há em setembro qualquer capacidade para prever quando nevará na Serra da Estrela, nem a altitude a que pode acontecer um nevão. Podem apenas observar-se tendências. A análise das previsões de neve do ECMWF para 2026/27 nota défices de neve em grande parte das terras baixas e médias da Europa. Porque chover mais, como parece que vai acontecer, não significa necessariamente mais neve. Se a temperatura do ar for superior à média, uma parte da precipitação que poderia cair sob a forma de neve, cairá como chuva.
Já nas cotas mais elevadas dos Alpes, a situação será diferente. Como a temperatura permanece suficientemente baixa, a maior disponibilidade de humidade na atmosfera pode favorecer acumulações importantes. Já Portugal não deve ter “um inverno de muita neve”.
▲ As previsões apontam para pouca neve, a não ser nos pontos mais altos dos Alpes
Os dois indicadores que podem ajudar a responder
Há vários padrões indicadores que são estudados nestas previsões sazonais. Ajudam a dar os sinais sobre o que aí pode vir em termos meteorológicos. Desde este mês de setembro que o IPMA passou a disponibilizar conjuntamente a monitorização de dois deles: a Oscilação do Atlântico Norte — NAO e o padrão do Atlantic leste — EA.
A NAO revela as mudanças de intensidade e de posição do Anticlone dos Açores e da depressão da Islândia. Segundo o IPMA, “fases negativas da NAO favorecem a deslocação das depressões atlânticas para latitudes mais baixas”, o que aumenta a probabilidade de chover mais na Península Ibérica. A combinação NAO negativa + EA positivo (NAO−/EA+) também favorece as condições para que a chuva chegue a Portugal. Já uma NAO positiva + EA negativo surge habitualmente associada a tempo seco.
E há, claro está, o jet stream que tudo decide
A posição do jet stream é a que mais influencia o caminho das depressões. O fluxo de jato não é mais que uma faixa, não muito larga, de ventos muito fortes em altitude que rodam de oeste para este à volta da Terra em latitudes médias. Se circular mais a norte, deixa Portugal mais seco. Se descer no Atlântico e ficar por cima da Península, aumenta exponencialmente a possibilidade de surgirem depressões, sucessivas, chuva e vento.
▲ O jet stream será este ano muito influenciado pelo El Niño
As previsões publicadas pelo Severe Weather Europe para o inverno 2026/27 mostram um jet stream do Pacífico muito forte, associado ao El Niño. E que tem uma extensão de circulação de oeste em direção ao Atlântico e à Europa. Os especialistas concluem assim que haverá um fluxo predominantemente de oeste/sudoeste sobre a Europa, que vai transportar ar do oceano mais ameno e húmido. Mais uma vez: Portugal fica na tal margem sul desta circulação — e qualquer pequena deslocação, de poucos quilómetros, pode ter impactos completamente diferentes.
É preciso olhar para a circulação atmosférica do Atlântico. As depressões que atravessam o oceano tendem a seguir determinadas faixas. É a tal storm track, a trajetória preferencial das depressões. Só que não está sempre no mesmo lugar. Mais: todos os anos muda de sítio e é construída de novo, mais a norte ou mais a sul.
A corrente de jato, ou jet stream, é que mais contribuiu para as sucessivas demolições e construções. E a posição e configuração da faixa de ventos muito fortes que ondula de oeste para este à volta do planeta a vários quilómetros de altitude interfere na formação e no trajeto das depressões.
A possível influência do vórtice polar
O vórtice polar está neste momento em formação, mas ainda não está completo. Funciona durante o inverno, a várias dezenas de quilómetros de altitude. Aqui falamos de uma enorme circulação de ventos, em torno do Ártico. Mas qualquer grande interferência na estratosfera também pode alterar a circulação atmosférica.
Um vórtice mais fraco não revela se vai fazer frio em Portugal. Nem mesmo se existir uma grande perturbação. Mesmo um SSW — Sudden Stratospheric Warming, um aquecimento súbito da estratosfera — não permitiria fazer essa dedução. O que acontece é que depois de uma perturbação, o ar frio pode ir para a América do Norte, para a Ásia, para uma parte da Europa e permanecer sempre longe da Península. Ou pode dirigir-se às nossas latitudes.
“Ainda não está definido o vórtice polar que está a começar. Ainda não começou a arrefecer o suficiente para sabermos se será forte, se vai ser fraco. Não sabemos se terá ondas que passam para a estratosfera”, vai enumerando a meteorologista Rita Cardoso sobre as dificuldades em prever que inverno poderemos ter: “Quando muito, teremos a previsão sazonal para dezembro. Não temos para o inverno. Portanto, no início do inverno, logo se vê. Quanto mais longo o prazo, menor a fidelidade da previsão”.
▲ O vórtice polar, que ainda está em formação, não se sabendo qual será a intensidade
Como vai ser na Europa? Mais quente e mais húmida
Não há muitas dúvidas: temperaturas mais amenas que o normal e também chuva acima da média em quase toda a Europa. Aquilo que aparece com maior nitidez não são, para já, as tempestades, mas a temperatura. É um ponto em que praticamente todas as previsões convergem. Nas atualizações feitas este mês, os cinco grandes sistemas europeus que se podem comparar diretamente — ECMWF, Met Office, Météo-France, DWD e CMCC — colocam a temperatura média europeia mais alta que o habitual em todos os meses do inverno, dezembro, janeiro e fevereiro.
O ECMWF — Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo — avança com anomalias médias europeias de cerca de +0,99º C em dezembro, +0,93º C em janeiro e +0,65º C em fevereiro. É o mais comedido de todos. O Met Office, serviço meteorológico britânico, aponta para mais calor: +1,21º C, +1,30º C e +1,21º C. Já o modelo francês, a Météo-France, está igualmente positivo nos três meses, assim como o alemão, DWD — Deutscher Wetterdienst — e o CMCC — Centro Euro-Mediterrânico para as Alterações Climáticas.
Mas, mais uma vez, os números não podem ser lidos como previsões de temperaturas. São apenas tendências de médias para grandes áreas europeias. Sendo que cada sistema usa a sua própria climatologia como referência. A grande utilidade é mostrar como os vários modelos concordam em relação a um certo sinal. Em fevereiro, por exemplo, o modelo menos quente dos cinco continua mesmo assim positivo. E o mais quente aproxima-se de +1,4 ºC de anomalia. E nenhum deles prevê um inverno europeu frio.
Essa concordância foi imediatamente encontrada pelo Copernicus Climate Change Service ao juntar os vários sistemas numa única previsão. O resumo foi este: “Os primeiros sinais para o inverno europeu favorecem condições amenas, com temperaturas acima da média”. Mas, vale a pena repetir, isto não significa que a Europa, como Portugal, esteja todo o inverno sem frio. As previsões fazem a média de um mês ou de uma estação. Pode haver uma vaga de frio de vários dias em janeiro e mesmo assim a média do mês terminar acima do habitual.
▲ As anomalias de temperatura ao detalhes
Há outra razão para a dificuldade de fazer estas previsões para a Europa. O oceano tropical conserva anomalias durante vários meses, por isso é muito previsível. Mas em latitudes médias, como a portuguesa, a circulação atmosférica é muito mais caótica. Qualquer pequena diferença pode mudar a posição de uma depressão, do anticiclone ou do jet stream.
E vai chover muito na Europa?
Tal como para Portugal, quando chegamos à chuva na Europa os modelos já começam a divergir. O consenso é muito menor. Para dezembro, os cinco modelos ainda concordam sobre uma anomalia positiva (vai chover mais), mas com intensidades diferentes. Depois, a partir de janeiro, as posições já não são as mesmas.
A partir de janeiro começam as discordâncias. ECMWF, Met Office e Météo-France mantêm uma anomalia positiva, para mais chuva; mas o DWD fica praticamente neutro; e o CMCC passa ligeiramente para terreno negativo, de menos chuva. E em fevereiro, as diferenças continuam: ECMWF, Met Office e DWD mantêm anomalias positivas, a Météo-France fica praticamente neutra e o CMCC está ligeiramente negativo. Há unanimidade sobre a existência de condições mais húmidas numa grande faixa da Europa. Com as margens norte e sul a poderem ser exceções. Depois, os próprios modelos de cada país ou região divergem à medida que se avança no tempo, de dezembro para janeiro e fevereiro.
A média europeia esconde exatamente o que mais interessa a Portugal. O próprio Copernicus3S diz que a previsão multimodelo favorece “uma estação mais húmida do que a média na maior parte do continente, afastada das margens sul e norte.” Como Portugal está precisamente junto à margem sul desse sinal húmido, a conclusão que é relativamente segura à escala europeia — inverno mais húmido em boa parte do continente — deixa de ter o mesmo grau de confiança na Península Ibérica.
À escala de um mapa da Europa parecem existir apenas diferenças pequenas. Para Portugal essas pequenas diferenças são enormes: vão de passar boa parte do inverno sob influência anticiclónica ou receber sucessivas depressões atlânticas.
Que influência pode ter o El Niño?
Mas se as previsões sazonais ainda procuram mais sinais sobre o próximo inverno europeu, os modelos já não têm dúvidas sobre o fenómeno do ano. A concordância é total. O El Niño está completamente instalado no Pacífico tropical e deve intensificar-se e tornar-se o mais forte de sempre até dezembro.
O El Niño é a fase quente do ENSO — o El Niño–Oscilação Sul. Trata-se de uma oscilação natural, que envolve ao mesmo tempo o oceano e a atmosfera no Pacífico equatorial. Quando há um episódio de El Niño, áreas enormes do Pacífico ficam anormalmente quentes. Isso altera os ventos, a pressão da atmosfera e as zonas onde se concentram as trovoadas e a chuva tropical. São alterações tão grandes que mudam depois a circulação atmosférica para além do Pacífico.
A NOAA — a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos — escreveu na atualização de 10 de setembro: “O El Niño está a intensificar-se, com uma probabilidade superior a 90% de se tornar um evento muito forte durante o outono e o inverno de 2026/27 no Hemisfério Norte.” Calcula em 75% de probabilidade de, entre outubro e dezembro, o índice RONI ser de +2,5 ºC ou até mais, o que confirmaria este o maior El Niño desde que há medições, em 1950. Mesmo assim, alguma cautela: “Com um evento desta magnitude, aumenta a probabilidade de ocorrerem impactos consistentes com o El Niño, embora não estejam garantidos.”
▲ A previsão para o El Niño, que pode ser o maior de sempre
E o Copernicus3S faz um bom resumo dos vários modelos sobre o El Niño. Os diferentes sistemas estão em “acordo qualitativo”, mas “não concordam inteiramente quanto à amplitude no pico do evento”. A Organização Meteorológica Mundial, WMO, diz no entanto que o El Niño muito forte esperado para este inverno aumentará os riscos de “cheias, secas e calor extremo em diferentes partes do mundo” e que a reorganização da circulação vai alterar as probabilidades climáticas à escala global. Isto não significa que cada região sofra tudo isto. Mas sim que vai haver uma reorganização da circulação associada ao fenómeno que pode mudar as probabilidades climáticas à escala global.
Rita Cardoso explica que o “El Niño vai fazer aquecer o planeta o ano inteiro”, mas “com Portugal não tem nenhuma relação direta”. Mas o impacto será enorme: “O El Nino vai aquecer o Pacífico, vai aquecer o Índico, na zona junta Moçambique, e depois vai ter alguma consequência no Atlântico Equatorial. Vamos ouvir falar de problemas em África. Vamos ouvir falar sobre problemas na América do Norte que é diretamente afetada, na Califórnia e em toda a bacia do Pacífico. Mas não na Europa”.
A metereologista lembra ainda que o “El Niño vem em cima de um aquecimento global” e que”tudo isso vai alterar todo o globo”, mas não podemos dizer que em Portugal “teremos mais ou menos chuva.” Até porque os efeitos podem demorar: “A temperatura do globo vai estar mais elevada, as temperaturas do mar também serão mais elevadas. Teremos outra vez um Atlântico mais quente na zona equatorial. Mas será já para o próximo Verão, não agora”.
Porque é mais fácil prever eventos no Pacífico do que no Atlântico?
O Pacífico tropical e a atmosfera do Atlântico Norte são muito diferentes. O Pacífico muda lentamente. Os modelos conseguem acompanhar a sua evolução durante meses. Já a atmosfera do Atlântico nas latitudes médias reorganiza-se muito rapidamente. Por isso é muito fácil fazer a previsão sazonal do El Niño. Até porque as alterações no Pacífico tropical modificam a circulação atmosférica. Geram ondas que se propagam a grandes distâncias e alteram os padrões de pressão e as correntes de jato. Estas ligações entre regiões distantes chamam-se teleconexões.
As teleconexões são conhecidas e existem sobretudo em regiões tropicais e subtropicais da América do Norte. Na Europa ocidental são muito menores. Mas é possível deslocar áreas de precipitação tropical, alterar o jet stream e favorecer padrões de chuva, seca e temperaturas em várias regiões.
Ou seja, a teleconexão não é uma ligação direta entre o Pacífico e Portugal. Mas o sinal pode ser mudado em muito local, por muita coisa. Pelo Atlântico, pela estratosfera e por vários padrões atmosféricos. O El Niño tem muito mais influência em algumas regiões do mundo do que na Europa ocidental. Mas o seu impacto é global.
A Météo-France resume o impacto europeu. “Na Europa, a sua influência é estatisticamente mais forte durante o inverno” — mas acrescenta que as previsões dos impactos deste El Niño fora do Pacífico equatorial “continuam a precisar de ser afinadas ao longo do tempo”. Para o Mediterrâneo, o CMCC é ainda mais direto: “No Mediterrâneo, o impacto de El Niño é indireto.”
O El Niño não está sozinho
Se o El Niño é o fenómeno deste ano, não é a única peça deste puzzle. A Organização Meteorológica Mundial prevê também o desenvolvimento de uma fase positiva do IOD — Indian Ocean Dipole, ou Dipolo do Oceano Índico. Trata-se da diferença de temperatura das águas superficiais entre as zonas ocidental e oriental do Índico tropical. A WMO prevê ainda temperaturas acima do normal tanto no Atlântico tropical Norte como no Sul.
Como a atmosfera funciona como um sistema interligado, isto importa. E muito. Alterações da convecção tropical no Pacífico e no Índico podem gerar ondas atmosféricas que chegam às latitudes médias. Onde está Portugal. E o calor do Atlântico influencia a atmosfera a oeste da Europa.
Felizmente para Portugal, estas influências indiretas têm ainda de atravessar um filtro decisivo: a circulação do Atlântico Norte. É por isso que NAO, EA, jet stream e trajetória das depressões acabam por ser mais diretamente importantes para saber se vamos ter chuva ou frio do que o El Niño.
O que já se sabe e o que ainda é impossível prever?
Primeira conclusão a ganhar consistência: a temperatura deverá ficar acima do normal. O IPMA já encontra esse sinal em dezembro. O Copernicus3S descobriu-o no conjunto do inverno europeu através dos principais modelos que mantêm anomalias positivas em dezembro, janeiro e fevereiro.
Sobre a chuva há ainda muitas dúvidas. O IPMA antecipa precipitação acima do normal no Norte e Centro em novembro e dezembro. Os restantes modelos também apontam para um inverno húmido em praticamente toda a Europa. Só que Portugal fica perto da fronteira sul desse sinal detetado, onde as pequenas diferenças entre os modelos contam muito na meteorologia do país.
Neste momento ainda não há dados para dizer que 2026/27 repetirá o inverno das tempestades. Não basta um El Niño muito forte, nem um inverno europeu mais húmido. Era preciso que a circulação do Atlântico colocasse de novo Portugal na trajetória das depressões. É essa parte da previsão que falta acertar nas próximas atualizações. À medida que dezembro se aproximar, será mais percetível perceber a posição do jet stream, a evolução da NAO e do EA, a força do vórtice polar e, sobretudo, onde é que ficará construída a rota das depressões atlânticas.
Para já, vamos entrar no outono em onda de calor. “Este ano vieram cedo demais e estão a continuar até cada vez mais tarde. Temos uma extensão do verão. Não é nada que não tivéssemos já previsto que acontecesse”, diz a especialista Rita Cardoso.