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A Nossa Cultura, a Rádio Observador está em Penava do Castelo. Continuamos esta nossa viagem pelo tempo na Casa da Ínsula. Eu sou o João Costa Campos, continuo na companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsula. E José Luís, estamos em 1893, assim é que é, 100 anos atrás, com a chegada da eletricidade à Casa da Ínsula e à quinta. E estamos agora na central elétrica da Quinta da Ínsula.

Na primitiva. De facto, a Casa da Ínsula sempre esteve em tudo à frente do seu tempo. E aqui também, porque foi um dos sítios pioneiros no país a ter eletricidade e a usá-la e arranjar soluções para usá-la de forma prática no dia a dia da quinta. Mas já agora recuemos uns anitos pra saber quando é que começámos a ter eletricidade prática em Portugal com funcionalidade. Isso aconteceu precisamente nos festejos do 15º aniversário do então príncipe real Dom Carlos, o futuro rei Dom Carlos, que o pai Dom Luís manda vir de França umas lâmpadas que tinham estado no semestre anterior, também a fazer o mesmo tipo de experiência, na avenida em frente à Ópera de Paris. Ele comprou essas lâmpadas e trouxe-as para Cascais, pra Cidadela, onde eles passavam esta época de verão. Estamos a falar em setembro, ele fazia anos em 28 de setembro. E para o seu 15º aniversário, o pai oferece-lhe uma noite iluminada no jardim da Cidadela. É evidente que ali na Cidadela não fazia assim tanto jeito, que eles pouco tempo as teriam. E portanto, essas lâmpadas vão iluminar Lisboa pela primeira vez em novembro desse ano, precisamente para o aniversário do rei Dom Luís, e passam a iluminar o Chiado, que deixa a sua iluminação nessa zona do gás e do azeite. Ainda havia iluminação a azeite, que era preciso ir acender todos os dias e apagar de manhã, e passou a ter a solução de fornecer iluminação através da eletricidade. É neste contexto que a Casa da Ínsula dá um passo em frente e em 1893 monta aqui, precisamente nesta sala onde nos encontramos, daí eu chamar de Casa da Eletricidade, porque foi aqui que nasceu a eletricidade nesta região e quase que eu diria, na maior parte do país. E temos aqui o primeiro motor, a primeira forma de gerar eletricidade era por efeito termoelétrico, termodinâmico e elétrico, de uma marca que hoje conhecemos noutras andanças, a Junkers, sem publicidade, obviamente. Ainda existe e ela está aqui, primitiva, de 1893, esta máquina que permitiu trazer a eletricidade às atividades primeiro da quinta, não ainda às comodidades da casa. E essa história é nos contada no quadro geral elétrico que temos aqui, e que realmente o primeiro seccionador aponta para a ínsula. Portanto, ínsula no sentido de quinta, das atividades da quinta serem trabalhadas com a ajuda da eletricidade e de motores. Só a seguir vem a casa. E na casa, uma das coisas que quem cá vier pode admirar de grande beleza é, por exemplo, na sala dos retratos, nós temos um aquecedor elétrico Pavier, aquele modelo em concreto foi apresentado. Temos o catálogo, temos a peça em si, na Exposição Universal de Paris de 1900, portanto, nos primórdios da eletricidade. Três anos depois da eletricidade chegar à casa da Ínsula, já tinha cá um aquecedor elétrico pra comodidade das pessoas da casa. A seguir é o seccionador dos motores. Portanto, tudo que é mecânico passa a ser a eletricidade. Um dos pontos que está hoje musealizado é a antiga serralharia. Essa serralharia tem as ferramentas mais incríveis, todas elas eletrificadas. A força motriz era transmitida através de um veio, passava por cima de todas as máquinas e através de correntes fazia cada uma das máquinas funcionar ou não, conforme se ligava ou não a essa corrente. A seguir vem Castendo. Castendo, hoje, se calhar pouca gente sabe o que é, tirando as pessoas aqui da região. Era o nome de Penava do Castelo até ser mudado em 1956. Portanto, em 1906 é autorizado, em 1913 já está eletrificado Castendo. E portanto, a povoação de Castendo foi uma também das primeiras do país, hoje Penava do Castelo, a ter eletricidade em casa. Daí a justificação, uma das coisas que nós vemos aqui muito são os contadores, porque as pessoas tinham contadores já nessa altura. Não era de borla a eletricidade.

Sim, há uma série de contadores aqui expostos.

De vários modelos e, portanto, que são precisamente dessa época.

Depois, ainda neste painel, temos um outro que é muito interessante. O gelo, a fábrica de gelo, uma das primeiras no país.

Isso, exatamente. O gelo aparece em Portugal pela mão dos espanhóis. Os Felipes não foram assim tão maus como isso. Trouxeram muita arquitetura, fizeram muita obra e uma das coisas que o Felipe trouxe, Felipe, neste caso, primeiro de Portugal, mas segundo de Castela, foi o gosto pelo gelo na comida, os gelados, os refrescos. E, portanto, como é que era nesse tempo produzido o gelo? Não era, não havia forma de produzir o gelo. Ele era, digamos, colhido. Era coletado nas serras. Um dos exemplos muito flagrantes é Santo António das Neves, na serra da Lousã, mas há outras. Quando nevava, o gelo era recolhido, era colocado em poços subterrâneos, bem calcado pra se transformar em gelo. Portanto, a neve é um pó, mas quando é calcada, transforma-se em gelo e mantém-no assim até o verão. E no verão era transportado até Lisboa Imagine que mais de metade do produto não chegava lá, ficava pelo caminho, mas alguma coisa chegaria. E um dos primeiros locais onde ele era transportado e chegava a Lisboa, ainda hoje o conhecemos, é o Martim da Arcádia, o restaurante no Terreiro do Paço, que foi o primeiro a comercializar gelo, recebia-o e vendia-o. Ainda hoje é um restaurante conhecido por ser do Fernando Pessoa, por ter lá uma mesa em exclusivo. Mas depois houve várias lojas a venderem gelo em Lisboa. Esta é a primeira forma como se faz gelo ou como se produz gelo para chegar às pessoas. Depois, é preciso mais uma vez ir pro tempo do Luís de Albuquerque e Marquês de Pombal, para se produzir mesmo gelo. E a primeira fábrica, ela também tem o nome de Real Fábrica do Gelo, é na serra de Montejunto. E aí a tecnologia como é? São vários tanques sucessivos no chão, que ao princípio da noite eram cheios com uma fina camada d'água, que se esperava que depois durante a noite se transformasse em gelo. E antes do nosso amigo sol voltar, pela madrugada, era todo apanhado, metido no tal poço e lá ia no verão, depois pra Lisboa outra vez. Aí tinha a vantagem de ser mais perto, portanto, provavelmente já chegaria uma maior quantidade, portanto, eram fardos envoltos em palha. E, portanto, o primeiro sítio onde se produz industrialmente, eu imagino que fosse aqui na Casa da Ínsua, porque de fato, foi ainda nos anos de 800, no século XIX, que é criada aqui a fábrica de gelo. Curiosamente, com o motor, nesse caso, não Junker, mas Davalou, que era o mais conceituado fabricante de motores dos carros de corrida da época, dos irmãos Baloo, que fizeram essa construção e corriam nas corridas. Essa fábrica de gelo ainda hoje existe, é visitável, obviamente que não está a funcionar, está algo degradada. É composta realmente por um motor que fazia funcionar tudo, depois as serpentinas e tem uma câmara frigorífica que parece um cofre forte. A parede é enorme, bem isolada e a porta, então. O Banco de Portugal não deve ter uma porta tão grossa e tão bem construída como aquela, onde era conservado o gelo. A fábrica do gelo acaba por ser descontinuada por aí no segundo quartel do século XX, quando aparecem os frigoríficos e a casa, sempre à frente da tecnologia, compra frigoríficos e deixa de precisar da fábrica de gelo. Agora, emocionou-me bastante, quero confessar-vos isto. As pessoas, na altura, quando reabrimos e mostrámos a fábrica de gelo, muitas velhinhas e velhotes aqui vinham à fábrica de gelo e vinham-lhe as lágrimas aos olhos. E perguntava-lhes por quê? "Porque o meu tio-avô, o meu bisavô, foi salvo com o gelo da Ínsua". Portanto, o gelo ia daqui pro hospital de Viseu e era a forma de baixar a febre. Se a febre baixasse, o homem ou a mulher podia se salvar. Senão, não havia forma de baixar a febre. E portanto, eles estavam convencidos que tinha sido o gelo da fábrica da Ínsua que permitia a ele estar ali, senão o avô ou o tetravô não tinha sobrevivido. Voltando à cronologia. Até um colégio aqui havia. Até um colégio, uma escola interna, aqui houve. Portanto, também temos ali eletricidade pro colégio. Ora, voltando ao princípio, nós estávamos aqui na produção de energia através de um efeito termodinâmico, um motor e um gerador. O que é que acontece? Isto foi, recordo, 1893. Muito pouco tempo, menos de 10 anos depois, em 1902, já a Casa da Ínsua construiu uma central hidroelétrica aqui no rio Zêzere, bem perto aqui da propriedade, com uma barragem, com uma levada d'água que caía sobre os geradores, que na altura já eram Siemens, uma marca que ainda hoje se mantém no mercado. E a partir de 1902, estes quadros passam a ser alimentados pela central da ponte e, portanto, a eletricidade passa a chegar aqui e não a ser produzida aqui e depois daqui é distribuída pra casa. Nos anos 30, é uma nova central hidroelétrica que é construída uns quilômetros mais abaixo no mesmo rio e que ainda hoje funciona na rede elétrica nacional, ainda está operacional a produzir energia. Casa da Ínsua, portanto, mais uma vez à frente do seu tempo. E é curioso aqui recordar um nome interessante, que é o Ezequiel de Campos, que é um engenheiro que vem do tempo da monarquia, que quando nos primórdios da eletricidade, ele defendia que as centrais hidroelétricas eram o futuro, eram a solução. Aqui foi uma missão que ele pôs na cabeça dele. "Eu tenho que levar este projeto pro país". Andou aí pelos meios dele, a descobrir os sítios onde deviam ser feitas, como deviam ser feitas. Veio à República, ele, que já no tempo da monarquia era republicano, ficou ainda mais republicano e pensava que a República lhe ia fazer o projeto dele. Não fez. Veio o Salazar, e ele até salazarista se tornou pra ver se o projeto dele andava pra frente, mas nem assim conseguiu. O senhor certo é o engenheiro Ezequiel de Campos. O Raul Brandão deixa nas suas memórias a dizer que era conhecido por senhor inexequível de Campos, porque não conseguiu fazer, mas tinha razão. Pois logo a seguir, depois de ele morrer, aparece Castelo do Bode, aparecem todas as outras grandes barragens que temos hoje até a produzir a nossa energia.

E é com mais uma história que fechamos este episódio aqui na Central Elétrica da Casa da Ínsua, que nos mostra mais uma vez que esta propriedade e a família que a foi gerindo, foram estando, aliás, sempre à frente do seu tempo. Fica por aqui este episódio na Casa da Ínsua, em Penava do Castelo. No próximo episódio vamos conhecer um pouco mais da vida de Luís de Albuquerque e desta casa, com o Museu da Casa da Ínsua.