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"Nossa Cultura", a Rádio Observador está em Penava do Castelo. Eu sou o João Costa Campos. Estamos a conhecer um pouco mais da história da Casa da Ínsua, aqui em Penava do Castelo. Continuamos com a companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsua. José Luís, depois de darmos uma volta pelo museu e conhecermos mais da história da casa e da família que o habitou, em particular do grande protagonista Luís de Albuquerque, estamos agora no exterior, no jardim e no espaço exterior da Casa da Ínsua. Depois vamos conhecer um pouco mais da produção de vinho, de queijo da Serra da Estrela e de maçã, que também faz parte da produção desta casa. Mas antes falemos um pouco dos jardins.

Toda a envolvente da casa é um jardim-quinta cheio de recantos e de pontos a descobrir. A maior parte deles vem destas origens da fase em que Luís de Albuquerque reconstrói e constrói uma casa nova e reconstrói a capela. É ele também, nessa altura, que cria aqui a Alameda dos Buchos. Há uma carta, inclusivamente, para o pai, em 1777, em que ele pede ao pai que encarecidamente acabe rapidamente esse acesso, porque vai ser o acesso principal à casa. Ele preocupa-se com este tipo de detalhes. Quando cá chega, contraria o pai e dá uma contra-ordem, porque o pai despediu um funcionário que achava que era muito despesista, porque queria fazer um muro de pedra à volta de toda a quinta e o filho, quando chega, manda vir buscar rapidamente esse técnico e que construa o muro, que é essencial a casa ter um muro à toda a volta. Luís de Albuquerque meteu o dedo, de facto, na construção dessa casa e dos jardins. À frente da casa temos o magnífico jardim francês à la note, que tem dois níveis, é chamado mesmo o jardim de baixo e o jardim de cima, e que tem alguns pontos e recantos a descobrir, como por exemplo, um pequeno, mas muito pequeno mesmo, espelho d'água, que está no centro da casa, mas todo rodeado de topiária de grande altura e parece incrível naquele espelho d'água. Ou temos lá a flor de lis, que veio para aqui do Jardim Botânico de Coimbra, mais uma obra do Marquês, e que só à 19ª tentativa é que pegou, e pegou até hoje. Ainda hoje podemos ver, só que a flor de lótus só floresce e morre quase 24 horas depois. Há muito pouco tempo para admirar a beleza da flor, mas que ela está lá, está. E com as suas enormes folhas tratadas com aquele produto que, pelos vistos, já havia na época para as plantas, nós é que não sabíamos, o scotchgard, porque mete-se água na folha e a folha expulsa todas as bolhinhas d'água que lhe caem em cima. O incrível é que nesse espelho d'água, está feito de tal forma que se rodarmos meia volta em frente dele, vê-se espelhada toda a frontaria da casa, que é bem grande, como sabemos.

E bonita.

E bonita. Os jardins desta topiária incluem uma importante coleção de mais de quatro dezenas de tipos de camélias diferentes, incluindo uma criada por uma senhora da casa. E por isso esta nova camélia foi obviamente batizada de Camélia Camila de Faria. Foi uma tia, porque os senhores da casa não tinham esposa. Foi uma tia do tal João que já falamos. Depois, mais à frente, no Lago Cisne, podemos admirar o nosso cisne Margarida, e mais uns relógios de sol, são vários. Este é o da Senhora do Popó, uma senhora que tem uma bolinha de cabelo na cabeça e que diz que desencalhava as solteiras, não sei se funciona ou não, mas a senhora ainda lá está. E que é um relógio interessante porque tem três facetas, dá três horas diferentes. Também há relógios com fusos horários de sol. A seguir está o Jardim Inglês, que tem as suas brisas e os seus recantos para os tempos mais quentes de inverno, que tem muitas árvores, muitas espécies centenárias vindas do Brasil e de todo o mundo, muitas delas trazidas pelo próprio Albuquerque, e incluindo um dos mais antigos eucaliptos de Portugal, que é uma espécie com mais de 50 metros, com um diâmetro colossal na base e que foi mais uma das coisas que o Marquês, pelos vistos, fez mal, foi trazer para aqui os eucaliptos. Ainda tem depois o Jardim de Aromas, a Horta Pedagógica, o Canteiro das Castas, onde se pode ver como uma biblioteca de castas, todas as castas que existem na Ínsua, e depois os vários pomares de maçã-brava, dos mofo e as vinhas da Ínsua. A água é outro pormenor que está sempre presente em todos os jardins, com muitas fontes, canais, túneis, lagos, aquedutos, cascatas. Aqui destacar a Fonte dos Meninos no Jardim Inglês, que é uma fonte que tem hoje um pedestal póstumo do Bigaaglia. Morreu em 1908 e o Duarte Ferreira Machado só a fez em 1910. Depois de morto, o homem ainda trabalhava aqui na Ínsua. Outro ponto alto é os cinco portões desenhados para a periferia da casa, qualquer deles, qual o mais bonito de todos. E além do Bigaaglia, que está presente, também o Luigi Battistini está com o gigantesco painel de Santo António, que está datado de 1909, e que está situado precisamente no topo da Rua Camila de Faria. Andamos sempre aqui à volta do mesmo. No local preciso onde ficava a antiga capela de Santo António e existe um quadro com aquela dimensão e com aquele tema, só que num quadro, não em relevo, e aqui temos em relevo. E pode aqui passear longamente, tem n circuitos, n lagos, n recantos, vasos do Bigaaglia por todo lado, o cruzamento das quatro virtudes. Tem várias temáticas, a namoradeira mourisca. E se se quer mesmo se surpreender, vá mesmo até à ilha. Até uma ilha tem, artificial, obviamente, com uma ponte, que é uma pedra única para se chegar ao centro da ilha, e tem uma pequena pérola, que é uma fonte da serpente Está feita de tal forma que quando a serpente deita água pela boca, significa que um tanque que está aqui a vários quilômetros está cheio e é o aviso para ir lá virar essa água para a rega e deixar de vir para a quinta. Portanto, a tecnologia, mesmo a mais arcaica, sempre presente.

E Luís, dos jardins passamos para a produção da Casa da Ínsua, até porque já começa a cheirar a Queijo da Serra. Entramos aqui num edifício nos jardins, cheira já efetivamente a Queijos da Serra. José Luís, aqui é o centro da produção, Queijo da Serra, vinho e maçãs. É uma amostra do que se produz aqui.

É, e felizmente nós temos aqui um sítio que é único, porque congregamos aqui nesta área três regiões demarcadas: do Vinho do Dão, Queijo Serra da Estrela e a Maçã Bravo de Esmof. Temos aqui estas três regiões de origem denominativa situadas dentro da Casa da Ínsua, algo de que mais ninguém se poderá orgulhar. Aqui, este edifício é o edifício da queijaria e da doçaria. Em frente, temos a adega, que é um edifício de muito maior dimensão e que também já é ancestral. E o vinho, obviamente, na Casa da Ínsua, é um produto ancestral. Desde tempos imemoriais que a Casa da Ínsua produz vinho. Só que vinho Casa da Ínsua nós podemos datar precisamente. O vinho Casa da Ínsua, com a marca e com esta tipologia que temos hoje, nasceu em 1852. Depois do senhor da Ínsua, na altura, Manuel de Albuquerque, ter ido a Paris, e de Paris trouxe castas francesas, o Semillon, o Cabernet Sauvignon, e trouxe novas técnicas, construiu uma adega, que era um mimo, já não existe, já foi remodelada no final do século XX. Uma adega que era uma coisa que ainda hoje tem lá alguns vestígios disso, canais de granito por onde circulava o vinho. Portanto, temos aqui o primeiro vinho produzido na Casa da Ínsua com esta marca.

Temos aqui uma cronologia com várias garrafas de vinho.

É a genealogia do vinho da Ínsua. 1852 e depois várias referências ao longo do tempo. Repare-se que aqui entre a edição de 1990 e 1916, surge o Vinho do Dão. O Vinho do Dão, factualmente, foi a segunda região vinícola do país a ser criada, em 1908. Depois já vários decretos até 1913, 1914, para consolidar esse processo. Anteriormente, já tinha havido uma, no tempo do Marquês do Pombal, a região do Vinho do Douro, 1756, mas de facto, o Dão é a seguinte. E aqui a Casa da Ínsua aparece com o Vinho do Dão, que tem castas francesas. E os legisladores da época foram muito pragmáticos. Se tem, é assim o vinho da Casa da Ínsua e assim continuou até hoje. E, portanto, o decreto da altura permite que a Casa da Ínsua mantenha estas castas, desde que não aumente, mantenha a sua cota. Pode, quando morrem, replantá-las, mas não obviamente aumentar essa cota. Geralmente, o vinho Casa da Ínsua, todos dizem, tem esse toque que mais nenhum tem. Depois, foi ao longo do tempo, até aos anos 2000, produzindo-se só o vinho Casa da Ínsua, quando tomamos conta da gestão. A partir daí, além do vinho Casa da Ínsua, que já era um vinho de referência, tentámos melhorar ainda mais esse nível de qualidade, até criando submarcas e criando monovarietais, criando espumante. Recordo-me, por exemplo, quando tivemos aqui uma visita profissional dos engenheiros franceses, fizemos uma prova cega do espumante Casa da Ínsua. O primeiro comentário: "Este champanhe é fabuloso". Deixei de dizer essas classificações todas. No final da refeição mostrei-lhe a garrafa e eles começaram: "Afinal, o espumante não era tão bom como a gente pensava". Afinal, não era francês. O vinho, ainda hoje, é uma das enormes referências da casa e podemos aqui ver, dos milhares e milhares de medalhas de ouro, de prêmios com que tem sido agraciado. Estão aqui algumas dezenas, mas são mesmo milhares ao longo dos séculos, mas principalmente nos últimos anos, com esta nova forma de ter mais visibilidade, mais prêmios tem conseguido. Na questão do Queijo da Serra. O Queijo da Serra da Ínsua também tem uma personalidade própria, porque um dos fatores essenciais para o fabrico do queijo é o cardo, e a Casa da Ínsua tem cardo, produz cardo, e tem sido inclusivamente feito estudos universitários sobre o cardo da Ínsua, e tem mostrado que de facto é um cardo de grande qualidade e especial, o que, segundo os especialistas, de facto dá um toque especial ao Queijo da Serra. Nós, na área do queijo, por exemplo, a Casa da Ínsua tem feito uns eventos em que chama queijo à chef e que no fundo convida vários chefs de cozinha, seis, sete por evento, em que cada um faz um prato para essa refeição degustativa. A entrada, a sopa, o peixe, a carne, a sobremesa, e todos eles têm que entrar com queijo.

É um pequeno detalhe.

É um pequeno detalhe que faz toda a diferença, de facto. E aí temos um salão a que chamamos Salão Príncipe da Beira, invocando o Real Forte Príncipe da Beira, um enorme salão que fica ali no meio do jardim, onde este tipo de eventos se realizam. E a grande novidade, menos conhecida pelo menos, é que a terceira região é a Maçã Bravo de Esmof, e que também é usada para os doces e para as compotas aqui da casa, para a personalização dos seus produtos, e que digamos que é, dentro das novidades tecnológicas, é da mais recente, tem cerca de 200 anos. A Maçã Bravo de Esmof apareceu aqui no lugar de Esmof, aqui mesmo ao lado da Ínsua, e conquistou o mundo, acho eu. Toda a gente hoje se delicia com este fabuloso cheiro da maçã A boa notícia é que estas experiências podem-se não só provar e saborear, como também experienciar. Você pode passar aqui uma madrugada com o pastor e as suas ovelhas e pode ter o privilégio, como já aconteceu comigo e com as minhas netas, de ver nascer uns cordeirinhos no meio do campo, a caírem cambaleantes, a lambê-los, a resolver o problema do cordão umbilical, ver os documentários da natureza da televisão ao vivo. Ou pode entrar na queijaria e fazer o seu queijo ou o seu requeijão com as suas próprias mãos, ou então produzir os seus doces e compotas, ou indo ao jardim de aromas buscar as plantas, ou fazer com a própria maçã o seu doce ou a sua compota, de preferência maçã brava de Esmolfe, aqui neste sítio. Ou ainda, por exemplo, nas vindimas. Pode vir aqui e fazer a pisa da vindima como os avós faziam, pé descalço, a cantar. Portanto, são tudo experiências que pode aqui viver, para além do simples gozar esta paz social que aqui se vive, esta natureza genuína que aqui se encontra. Portanto, é este magnífico usufruto da casa, um autêntico museu vivo, quer na parte museológica, quer na própria casa e quer nos outros quartos. Cada quarto tem a sua história, cada quarto é diferente, cada quarto permite uma vivência completamente diferente. Os jardins, a quinta.

E é esta a experiência imersiva que se pode ter aqui na Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo. A Rádio Observador esteve ao longo dos últimos episódios a conhecer as histórias por detrás desta propriedade histórica, não só para o distrito de Viseu, mas também para todo o país. Eu sou o João Costa Campos, estive ao longo dos últimos episódios com José Luís Nogueira. Muito obrigado, José Luís, que é o responsável, que estuda a história da Casa da Ínsua. Muito obrigado, José Luís.

E apareçam sempre.

E fica aqui o convite. Até à próxima.