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Neste episódio de A Nossa Cultura, mantemo-nos pela Feira de São Mateus, em Viseu, uma feira com mais de 600 anos de história. Há uma coisa que provavelmente já reparou que está diferente. Ao contrário dos últimos episódios, hoje não ouvimos a música, as diversões, as planadas, nem o movimento de milhares de pessoas que passam aqui pela Feira de São Mateus. E há uma razão para isso. Estamos num espaço praticamente 100% silencioso, em pleno recinto da feira, um espaço de regulação sensorial, uma das respostas criadas para tornar esta Feira de São Mateus mais inclusiva. E para percebermos para que serve este espaço, tenho comigo Sandrina Sousa, mentora do projeto Círculos. Muito obrigado pela sua disponibilidade para falar à Rádio Observador. Começamos precisamente por este silêncio. O que é este espaço de regulação sensorial e para que pessoas foi pensado?

Eu começo por agradecer a oportunidade de poder participar nesta iniciativa. A Círculos já existe há 20 anos e portanto, com base na proximidade que temos tido junto da comunidade, temos percebido que é um espaço que faz todo sentido, a partir do momento em que o mesmo existe na Feira de São Mateus.

Estamos a falar de um espaço silencioso, nomeadamente a pensar em pessoas neurodivergentes, que podem ter uma maior sensibilidade a alguns estímulos numa feira com algumas características que podem proporcionar exatamente isso. Que dificuldades é que as pessoas podem sentir numa feira como esta?

Essencialmente, o contacto com as luzes, com a vibração, os sons, o contacto também com as pessoas, são essencialmente esses os estímulos mais fortes que podem condicionar a visita na Feira de São Mateus para algumas crianças com neurodivergência, eventualmente crianças com alterações no processamento sensorial.

Vocês têm inclusive identificado um mapa, que já mostraram, dos espaços que podem ter mais estímulos que possam provocar algum desconforto, não sei se é a palavra indicada, a pessoas neurodivergentes. Como por exemplo, imagino, ao pé do palco, que seja um desses espaços.

Sim. Construímos um mapa que permite antecipar essa informação. Fizemos um levantamento do recinto, identificamos as zonas com diferentes níveis e tipos de estímulos, áreas com mais ruído, mais luz, maior concentração de pessoas ou até de intensidade visual. O mapa permite antecipar essa informação. Uma família pode preparar o seu percurso, escolher os locais por onde pretende passar, evitar determinadas zonas, no momento de maior cansaço, ou identificar antecipadamente onde pode fazer uma pausa. Para muitas pessoas com neurodivergência, a previsibilidade faz uma enorme diferença. Saber o que vai encontrar reduz a ansiedade e aumenta a sua autonomia no tempo de permanência da feira.

Além do silêncio, aqui na sala onde estamos, encontramos vários equipamentos, objetos diferentes, para explicarmos também a quem nos ouve. Temos, por exemplo, um baloiço, também uma piscina de bolas. De que forma é que estes elementos ajudam, Sandrina, quem precisa?

Estes elementos são pensados efetivamente para regular uma criança ou qualquer pessoa que se encontre com desconforto a nível da integração sensorial.

O movimento do baloiço ou o toque com as bolas, é isso que ajuda as pessoas a acalmarem-se.

Sem dúvida. O próprio contacto com os elementos que estão disponíveis na sala, a insonorização, a diminuição da luz e o movimento que é possível realizar aqui neste espaço.

Além destes elementos aqui presentes e que referia, há também uma espécie de kit que pode ser requisitado, um saco com vários objetos que podem ajudar estas pessoas a usufruir na totalidade da feira. O que é que leva este kit?

O kit pode acompanhar a família durante a visita, inclui diferentes recursos utilizados na regulação sensorial, como os abafadores de sons, objetos de manipulação, mordedores e outros elementos que ajudam a lidar com situações de maior intensidade. Também incluiria os óculos. A diferença é simples, mas é muito relevante. A pessoa não precisa de abandonar aquilo que está a fazer para encontrar apoio. Pode levar consigo os recursos de que necessita. Várias famílias já utilizaram estes kits durante esta edição e isso permite que uma criança consiga passar em zonas mais ruidosas, estar junto dos carroceis, acompanhar a família durante o concerto, durante uma refeição ou permanecer mais tempo na Feira de São Mateus.

E no final da visita, quando a família terminar a visita, regressa aqui ao espaço da Círculos e devolve esse kit, é assim?

Sim, sem dúvida. O kit deve ser requisitado pela família.

E aqui na sala que nos encontramos, como é que funciona o processo, na prática, de alguém que a procura? Ou seja, se uma pessoa estiver na feira e sentir que precisa de vir para aqui, basta chegar e entrar? Há sempre alguém disponível da vossa parte para acompanhar ou dar alguma indicação?

Sim. A família, a partir do momento em que se desloca a este espaço, será acompanhada. Está sempre um técnico especializado para acompanhar a família dentro das necessidades que a mesma sentir, e pode usufruir do espaço o tempo que necessitar. Até conseguir voltar à feira.

Falamos agora de outro espaço também assegurado pela Círculos aqui na feira, que é o espaço sensoriomotor. O que é que os pais encontram neste espaço e que tipo de necessidades permite responder? Tem mais a ver também com questões relacionadas com o exercício físico?

Sim, sem dúvida. Foi-nos disponibilizada uma estrutura vertical, construímos um percurso de escalada com vários elementos. Fizemos questão de não colocar apenas presas de escalada tradicionais, criamos um percurso diversificado, com diferentes desafios e diferentes níveis de dificuldade. A intenção é levar as crianças a explorar o corpo, o movimento, o equilíbrio, a coordenação e a capacidade de resolver pequenos desafios. Brincar também é desenvolver. E portanto, quando uma criança sobe, escolhe onde colocar o pé, testa uma solução, recua, volta a tentar, está a trabalhar todas as suas competências motoras, mas também a confiança, a persistência e a autonomia.

Para terminar, a caminho do fim deste episódio, tem tido muita procura por este espaço? Também não é um espaço para toda a gente e ainda bem que não há essa necessidade, mas dava-me conta que a procura aumentou. Também por já conhecerem o vosso espaço, não é a primeira edição que cá estão.

Sim, essa é a realidade este ano e que muito nos agrada. Perceber que as famílias nos procuram, que já sabem onde nos encontramos desde a edição anterior. E sim, sentimos que há um aumento significativo em termos de número de casos que procuram, de facto, este espaço.

Explicações de Sandrina Sousa, mentora do projeto Círculos, a quem agradeço muito a disponibilidade por ter falado com a Rádio Observador. Círculos que é parceiro de inclusão da Feira de São Mateus, uma feira que quer ser inclusiva para todos. E terminamos este episódio como começámos, relaxados e tranquilos, num espaço de silêncio que proporciona isso mesmo, este estado de espírito, no meio de uma feira onde quase tudo é movimento e som. Chegamos também ao final desta epopeia da nossa cultura pela Feira de São Mateus, em Viseu. A feira vai regressar em agosto do próximo ano para a edição 635 e quem sabe a Rádio Observador Viseu também.