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Estou no Sátão, no Museu de Pintura Naïf, acompanhada pela responsável deste museu, que estreou este ano, em janeiro de 2026, a Paula Cardoso. Este museu nasceu de uma doação de alguém que era muito ligado a este território.

Exatamente. Este museu surge da vontade de Hermínio Ferreira, o doador. O doutor Hermínio Ferreira era professor de Economia na Universidade Católica em Lisboa, sempre ligado à área da economia e desde sempre com enorme gosto pela pintura naïf. Foi um homem que ao longo da sua vida foi colecionando obras de arte. E ele também era um frequentador assíduo daquilo que é o Salão de Pintura Naïf no Casino do Estoril, que acontece todos os anos. E era aí que ele ia contactando com os diversos autores e adquirindo também as obras que depois fizeram parte deste conjunto vasto de pinturas que ele decidiu doar ao município do Sátão em 2018, com o objetivo que se construísse um museu para que elas pudessem nele ser expostas e usufruídas pelos munícipes do Conselho do Sátão e também do distrito de Viseu e a nível nacional. Ou seja, o objetivo era mostrar ao mundo aquela que foi a coleção que ele foi constituindo ao longo da sua vida. Juntamente com a coleção de pintura, ele também doou a antiga casa de família, e nela também se construiu uma parte dedicada a este museu. Ou seja, tudo isto nasce fruto de uma doação e também, de certo modo, um cumprimento daquilo que era um desejo deste homem que, no fundo, teve aqui um ato altruísta, doando aquilo que ele foi colecionando ao longo da sua vida, para que também, de certo modo, se mantivesse aqui. E nós vamos fazendo isto, que é homenagear o homem que deixa um legado a um município e que é para que todas as pessoas possam dele usufruir.

A seguir à pergunta de quem foi que doou, surge naturalmente a pergunta: o que é a pintura naïf? Porque não é das mais conhecidas cá em Portugal, muita gente não sabe. Aqui no museu temos uma parte que é dedicada a explicar quem é Hermínio Ferreira, mas também o que é a pintura naïf, está aqui escrito. Pergunto-lhe, Paula, qual é que é a resposta.

Naïf é um adjetivo que tem dois gêneros. E naïf, no fundo, quer dizer simples, ou seja, a arte naïf é uma arte de forma simples, que se compreende de forma fácil, e é o que nós vamos ver também nestas obras. Naïf é também ingênuo e é o que caracteriza esta pintura, é a ingenuidade dos artistas, é a simplicidade da pintura, é a cor, é a mensagem que está representada, que é de fácil compreensão. E é uma pintura que, é verdade, é uma arte muito recente, se quisermos, não comparando com a arte antiga, mas é uma arte que começa a ganhar, a ser consagrada. Podemos dizer assim, porque ela até aos finais do século XIX era uma arte rejeitada. Nos salões de arte, os artistas normalmente eram postos de lado, os naïfs. E é com Henri Rousseau, um alfandegário francês, que se dedicava também à pintura, que numa determinada altura, no famoso Salão dos Independentes, nos finais do século XIX, candidata-se a esse salão com uma pintura intitulada "Uma Noite de Carnaval" e artistas como Picasso ou Matisse vão reconhecer naquela pintura a arte naïf. É a partir daí, que se passaram a abrir as portas a todos estes artistas naïfs, que a sua grande maioria são artistas que não tiveram uma formação acadêmica especializada na arte. São artistas que começam a criar, muitos deles, as suas pinturas já numa fase adulta. E se calhar alguns deles preenchendo alguns dos seus tempos livres, depositam nas suas obras aquilo que são, o seu sentir, de uma forma simples, ingênua e de fácil compreensão.

Da rejeição à consagração. É precisamente a mensagem que está aqui escrita nesta parede, onde tem estas explicações, como dissemos, de quem foi Hermínio Ferreira e o que é a pintura naïf, acompanhada precisamente de desenhos que retratam o que é a pintura naïf, são coloridos e são de fácil interpretação.

Exatamente.Vamos chamar-lhe pormenores, que são pormenores de algumas das pinturas que também, de certo modo, deixam um desafio ao visitante. Vê aqui estes pormenores e tenta identificá-los nas próprias pinturas. Acaba por ser um jogo, também, de identificação.

São flores, um elétrico.

Um elétrico, exatamente, que nós vamos encontrar em algumas das obras expostas. Sendo que nós temos apenas uma parte da coleção doada exposta. São cerca de 70 as pinturas que se encontram expostas no museu, de um conjunto vasto de 162 obras doadas. Gostava também de acrescentar aqui o facto de Hermínio Ferreira, o seu gosto pela arte naïf, em concreto, fez com que a sua sensibilidade também, de certo modo, para este tipo de arte. Ele sentia-se tocado pelas obras e tanto adquiria obras de conceituados artistas, que entretanto já iam expondo nos salões de arte e também em vários museus. Tanto comprava obras a esses autores, como também comprava obras a autores anónimos, que, por exemplo, ele poderia encontrar na rua e bastava que essa pintura, que essa obra lhe tocasse, de certo modo, e ele a adquirisse.

E a maioria estão agora aqui expostas no Museu Naïf, no Sato. Paula Cardoso, muito obrigada.

Obrigada nós. E convidamos todos a virem visitar-nos. Estamos abertos ao público às quintas e sexta-feira, das 9 às 17 e aos sábados e domingos temos um horário das 14 às 17. Serão todos bem-vindos. Visitem-nos.